{"id":82138,"date":"2022-05-30T12:09:27","date_gmt":"2022-05-30T15:09:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=82138"},"modified":"2022-05-30T12:12:19","modified_gmt":"2022-05-30T15:12:19","slug":"a-barbarie-nao-e-excecao-mas-lugar-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/a-barbarie-nao-e-excecao-mas-lugar-comum\/","title":{"rendered":"A barb\u00e1rie n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, mas lugar comum"},"content":{"rendered":"<p class=\"xmsonormal\" style=\"margin: 0cm; line-height: 12.65pt;\"><strong><span style=\"font-size: 11.0pt; font-family: 'Calibri',sans-serif; color: #333333;\">Enxergar a barb\u00e1rie como parte integrante do modelo civilizat\u00f3rio parece ser \u00fanica forma de superarmos a trag\u00e9dia\u00a0<\/span><\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Por todas as circunst\u00e2ncias, diante dos delitos de desobedi\u00eancia e resist\u00eancia, ap\u00f3s ter sido empregado legitimamente o uso diferenciado da for\u00e7a, tem-se por ocorrida uma fatalidade, desvinculada da a\u00e7\u00e3o policial leg\u00edtima&#8221;. &#8220;&#8230; possivelmente devido a um mal s\u00fabito, a equipe foi informada que o indiv\u00edduo veio a \u00f3bito.&#8221; (Boletim da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal publicado pela Folha de S\u00e3o Paulo em 27\/5\/2022, relativo \u00e0 morte de Genivaldo de Jesus Santos em Umba\u00faba, Sergipe, assistida em v\u00eddeo por todo o Brasil).<\/p>\n<p>Os termos &#8220;circunst\u00e2ncias&#8221;, &#8220;delito de desobedi\u00eancia&#8221; &#8220;legitimidade no uso da for\u00e7a&#8221;, &#8220;fatalidade&#8221;, &#8220;a\u00e7\u00e3o policial leg\u00edtima&#8221;, &#8220;mal s\u00fabito&#8221; utilizados no boletim dos policiais que assassinaram Genivaldo, numa viatura policial transformada em c\u00e2mara de g\u00e1s, n\u00e3o retrata apenas o n\u00edvel de degrada\u00e7\u00e3o profissional, humana, moral e \u00e9tica que autoridades de nosso Pa\u00eds exp\u00f5em \u00e0 luz do dia em epis\u00f3dio determinado. H\u00e1 algo al\u00e9m disso a ser constatado.<\/p>\n<p>Qualquer pessoa minimamente informada n\u00e3o precisa de mais do que alguns minutos para listar \u2013 de mem\u00f3ria e sem o aux\u00edlio do google \u2013 de dez a vinte casos de barb\u00e1rie expl\u00edcita ocorridos nos \u00faltimos tempos. Todos, invariavelmente, tratados como exce\u00e7\u00e3o do que seria um conv\u00edvio social aceit\u00e1vel, mas que justamente por sua repeti\u00e7\u00e3o escancaram o que na verdade significam: um elemento constituinte de um projeto de civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O assassinato do m\u00fasico negro Evaldo dos Santos \u2013 que sai de casa com a fam\u00edlia e \u00e9 fuzilado com 80 tiros por soldados do Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro, e junto com ele morre o catador de material recicl\u00e1vel Luciano Macedo, que tenta socorr\u00ea-lo \u2013 n\u00e3o \u00e9 um acidente ou mesmo exce\u00e7\u00e3o a ser lamentada e punida. \u00c9 parte de um modelo civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Assim como o assassinato de Jo\u00e3o Alberto Silveira Freitas, tamb\u00e9m um homem negro, que ap\u00f3s um desentendimento com uma funcion\u00e1ria \u00e9 barbaramente espancado e morto por dois seguran\u00e7as brancos (um deles PM) no supermercado Carrefour, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, na v\u00e9spera do Dia da Consci\u00eancia Negra.<\/p>\n<p>A barb\u00e1rie constituinte deste projeto tamb\u00e9m mata Alu\u00edsio Sampaio, presidente regional do Sindicato dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Sintraf), assassinado em Altamira, no Par\u00e1, com v\u00e1rios tiros na cabe\u00e7a, pr\u00f3ximo \u00e0 BR-163. Ele j\u00e1 havia denunciado \u00e0 Pol\u00edcia as amea\u00e7as de morte que vinha recebendo devido \u00e0 sua luta em defesa dos agricultores familiares com os grileiros armados at\u00e9 os dentes da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O mesmo elemento constitutivo desta civiliza\u00e7\u00e3o produz uma s\u00e9rie de ataques, que se transforma na maior chacina j\u00e1 registrada no estado de S\u00e3o Paulo, que resulta em 17 execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias e sete pessoas feridas em Osasco e Barueri, ao lado da maior e mais rica capital brasileira. Den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo afirma que PMs e outros agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica integram o grupo de exterm\u00ednio criado para vingar o assassinato de um PM e um guarda municipal mortos dias antes na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00edtima deste mesmo projeto de civiliza\u00e7\u00e3o, Zezico Rodrigues Guajajara, lideran\u00e7a ind\u00edgena da Na\u00e7\u00e3o Guajajara, \u00e9 assassinado a tiros no Maranh\u00e3o. A den\u00fancia \u00e9 do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio. Zezico era um dos l\u00edderes da Terra Ind\u00edgena Ararib\u00f3ia, diretor do Centro de Educa\u00e7\u00e3o Escolar Ind\u00edgena Azuru, professor h\u00e1 23 anos e h\u00e1 anos denunciava a a\u00e7\u00e3o dos grileiros de terra. Seu corpo foi encontrado crivado de balas na estrada da Matinha, pr\u00f3ximo \u00e0 sua aldeia, Zutiwa, no munic\u00edpio de Arame (MA).<\/p>\n<p>Uma &#8220;opera\u00e7\u00e3o policial&#8221; no Jacarezinho, no Rio de Janeiro, que segue a cartilha deste mesmo projeto de civiliza\u00e7\u00e3o, comandada pela Pol\u00edcia Civil, mata 28 pessoas e se torna a chacina com maior n\u00famero de mortos na hist\u00f3ria da cidade. Meses depois, policiais civis derrubam a marretadas um memorial em homenagem aos mortos naquela opera\u00e7\u00e3o, sob o argumento de que o monumento n\u00e3o teria sido aprovado pela Prefeitura.<\/p>\n<p>Em seu levantamento anual, &#8220;Conflitos no Campo Brasil 2021&#8221;, a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra demonstra que a mesma barb\u00e1rie constituinte do modelo de ocupa\u00e7\u00e3o do campo no Brasil contabiliza 1.768 ocorr\u00eancias, uma m\u00e9dia de 34 por semana. S\u00e3o 35 os assassinatos no ano, sendo dez de lideran\u00e7as ind\u00edgenas e tr\u00eas de quilombolas. As ocorr\u00eancias s\u00e3o caracterizadas por conflitos relativos ao uso da terra, acesso \u00e0 \u00e1gua e ao trabalho escravo.<\/p>\n<p>A mesma barb\u00e1rie constitutiva deste modelo faz com que moradores retirem os corpos de oito pessoas de um manguezal no bairro do Salgueiro, em S\u00e3o Gon\u00e7alo, regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro. A Pol\u00edcia Militar anuncia ter entrado em &#8220;confronto com suspeitos&#8221;, um dia depois de um policial militar ter sido morto durante um patrulhamento. Dos oito mortos, dois n\u00e3o tinham passagem pela pol\u00edcia. A vice-presidente da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da OAB-Rio, Nadine Borges, diz que os corpos apresentavam sinais de tortura e que a a\u00e7\u00e3o foi uma chacina.<\/p>\n<p>Mais uma &#8220;opera\u00e7\u00e3o policial&#8221; constitutiva deste modelo, desta vez na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro \u2013 realizada pela Pol\u00edcia Militar e pela Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal com a justificativa de prender traficantes \u2013 resulta na morte de 23 pessoas, incluindo a cabeleireira Gabrielle Ferreira da Cunha, que estava dentro de sua casa, na comunidade vizinha da Chatuba, quando foi atingida por um tiro.<\/p>\n<p>A lista \u00e9 imensa, \u00e9 nacional e \u00e9 cotidiana. Seu tamanho, dimens\u00e3o territorial e perman\u00eancia demonstram que j\u00e1 passou da hora de pararmos de trat\u00e1-la como um defeito, uma exce\u00e7\u00e3o, um problema que pode e deve ser corrigido com novas pol\u00edticas p\u00fablicas, protocolos, medidas regulat\u00f3rias ou mesmo atrav\u00e9s de puni\u00e7\u00f5es, sejam brandas ou aquelas que nunca chegam.<\/p>\n<p>Longe de ser exce\u00e7\u00e3o, a barb\u00e1rie est\u00e1 paulatina e cotidianamente demonstrando ter se transformado em regra social que busca permanente legitimidade. Tal qual os \u00f3culos que usamos, isso est\u00e1 t\u00e3o perto de nossos olhos que n\u00e3o a enxergamos como parte constituinte desta civiliza\u00e7\u00e3o. Enxergar a barb\u00e1rie como parte integrante do modelo civilizat\u00f3rio em que estamos metidos parece ser o primeiro passo e \u00fanica forma de superarmos a verdadeira trag\u00e9dia em que estamos mergulhados, principalmente os mais pobres, os negros, os \u00edndios, as mulheres.<\/p>\n<p>\u00c9 urgente substituirmos o olhar de espanto e indigna\u00e7\u00e3o frente \u00e0 inaceit\u00e1vel viol\u00eancia que mata Genivaldo, Evaldo, Jo\u00e3o Alberto, Alu\u00edsio, Zezico, Gabrielle, assim como os 17 mortos em Osasco e Barueri, os 28 no Jacarezinho, os 8 de S\u00e3o Gon\u00e7alo, os 23 na Vila Cruzeiro e os demais que a sua mem\u00f3ria consiga resgatar. Seguir estranhando a ocorr\u00eancia destes fatos, mesmo que seja uma estranheza indignada, como se fossem pontos fora da curva, \u00e9 como construir uma cortina de fuma\u00e7a que tenta esconder a tr\u00e1gica constata\u00e7\u00e3o de que a barb\u00e1rie \u00e9 alicerce, combust\u00edvel e oxig\u00eanio deste modelo de sociedade. Superar a barb\u00e1rie exige enxerg\u00e1-la como verdadeiramente \u00e9. E ter claro o papel imprescind\u00edvel que ela cumpre na perpetua\u00e7\u00e3o do modelo.<\/p>\n<p><strong>(*) \u00c1lvaro Nascimento \u00e9 jornalista e mestre e doutor em Medicina Social.<\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enxergar a barb\u00e1rie como parte integrante do modelo civilizat\u00f3rio parece ser \u00fanica forma de superarmos a trag\u00e9dia\u00a0 &#8220;Por todas as circunst\u00e2ncias, diante dos delitos de desobedi\u00eancia e resist\u00eancia, ap\u00f3s ter sido empregado legitimamente o uso diferenciado da for\u00e7a, tem-se por ocorrida uma fatalidade, desvinculada da a\u00e7\u00e3o policial leg\u00edtima&#8221;. &#8220;&#8230; possivelmente devido a um mal s\u00fabito,&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on wp_trim_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on wp_trim_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":82141,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1584,1390],"tags":[],"class_list":["post-82138","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-editorias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82138","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82138"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82138\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82142,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82138\/revisions\/82142"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82141"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82138"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82138"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82138"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}