{"id":82000,"date":"2022-05-20T10:55:58","date_gmt":"2022-05-20T13:55:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=82000"},"modified":"2022-05-20T11:06:33","modified_gmt":"2022-05-20T14:06:33","slug":"anisio-teixeira-por-darcy-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/anisio-teixeira-por-darcy-ribeiro\/","title":{"rendered":"An\u00edsio Teixeira, por Darcy Ribeiro"},"content":{"rendered":"<p>An\u00edsio Teixeira\u00a0considerado o principal idealizador das grandes mudan\u00e7as que marcaram a Educa\u00e7\u00e3o brasileira no s\u00e9culo 20, An\u00edsio Sp\u00ednola Teixeira d\u00e1 nome ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), que fundou. Em Bras\u00edlia, encarou a dupla miss\u00e3o de estabelecer o sistema de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica do Distrito Federal e, ao lado de\u00a0<em>Darcy Ribeiro<\/em>, imaginar, desenhar e implantar a Universidade de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de qualidade foi o que moveu An\u00edsio Teixeira, que ajudou a criar escolas com propostas inovadoras em diferentes estados brasileiros. Disc\u00edpulo de An\u00edsio, Darcy Ribeiro fez da Educa\u00e7\u00e3o a principal utopia, ressignificando o olhar de antrop\u00f3logo para o de educador obstinado, que assumiu cargos p\u00fablicos e ainda encontrou tempo para implantar projetos e escrever livros.<\/p>\n<p><strong>DEPOIMENTO DE DARCY RIBEIRO<\/strong><\/p>\n<p>An\u00edsio Teixeira\u00a0foi o educador mais brilhante do Brasil. Foi tamb\u00e9m o homem mais inteligente e mais cintilante que eu conheci. Conheci muita gente inteligente e cintilante, mas An\u00edsio foi o mais. Conhecia educa\u00e7\u00e3o com muita profundidade e foi um homem que refez o seu pr\u00f3prio pensamento v\u00e1rias vezes na vida.<\/p>\n<p>Havia uma diferen\u00e7a b\u00e1sica entre mim e o An\u00edsio: Ele confiava muito na educa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria; eu dizia: An\u00edsio, isso \u00e9 loucura, a educa\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos \u00e9 comunit\u00e1ria porque \u00e9 educa\u00e7\u00e3o luterana. O luterano decidiu que a melhor forma de rezar era ler a B\u00edblia. Ent\u00e3o a educa\u00e7\u00e3o era comunit\u00e1ria por haver uma comunidade religiosa que queria manter a sua escola e aqui n\u00e3o h\u00e1 isso. Essa canalha n\u00e3o quer educar ningu\u00e9m. Eu era federalista e o An\u00edsio era municipalista e comunitarista como educador.<\/p>\n<p>Discut\u00edamos muito isso e ele tinha muitas raz\u00f5es. \u00c9 claro que \u00e9 preciso aproximar o munic\u00edpio, mas antes, precisamos despertar o munic\u00edpio. O munic\u00edpio, principalmente o de ontem, era dominado por fazendeiros, uma gente mais atrasada, uma gente que gostava do caboclo ignorante, quanto mais ignorante melhor.<\/p>\n<p><strong>EDUCA\u00c7\u00c3O PELA DEMOCRACIA<\/strong><\/p>\n<p>O An\u00edsio era um homem que lutava pela interven\u00e7\u00e3o do Estado na educa\u00e7\u00e3o, pelo fortalecimento da escola p\u00fablica estatal. Ent\u00e3o n\u00e3o significa nada de privatismo, o privatismo \u00e9 uma atitude desonesta. O Brasil tem algumas escolas particulares \u00f3timas. Uma escola particular \u00f3tima custa tanto hoje, que a classe m\u00e9dia n\u00e3o mais pode pagar; a classe m\u00e9dia deve come\u00e7ar a brigar por uma escola p\u00fablica boa, para ela poder ter uma escola p\u00fablica boa, porque a boa escola particular \u00e9 inating\u00edvel, mesmo para a classe m\u00e9dia, pelos pre\u00e7os que ela passou a alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nesse sentido, o An\u00edsio era um homem que estava muito fixado no paralelismo entre educa\u00e7\u00e3o e democracia nos Estados Unidos. Os Estados Unidos se constituem numa grande democracia atrav\u00e9s do sistema educacional. Esse \u00e9 o pensamento b\u00e1sico de Dewey, contr\u00e1rio ao dos pol\u00edticos nossos, que nunca deram import\u00e2ncia \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. O An\u00edsio tamb\u00e9m tinha a percep\u00e7\u00e3o de que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 que permitiria ao Brasil dar um grande salto e de que enquanto o Brasil n\u00e3o conseguisse dar uma boa escola de 1\u00ba grau a toda a sua popula\u00e7\u00e3o, estaria com uma bola de chumbo amarrada no p\u00e9.<\/p>\n<p>As teses que o An\u00edsio defendia h\u00e1 30, 40, 50 anos atr\u00e1s, de que a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio, educa\u00e7\u00e3o pela democracia, s\u00e3o teses ainda atuais. Retomando os textos de An\u00edsio \u00e9 que podemos nos inspirar para saber&#8230; \u00c9 uma coisa que sempre cogito, que sempre estou me perguntando, como \u00e9 que o Brasil conseguiu ser t\u00e3o ruim em educa\u00e7\u00e3o e continua sendo t\u00e3o ruim em educa\u00e7\u00e3o? A \u00fanica explica\u00e7\u00e3o que tenho \u00e9 que \u00e9 um defeito da nossa classe dominante. A nossa sociedade \u00e9 uma sociedade enferma de desigualdades, suponho que a causa b\u00e1sica est\u00e1 em que somos descendentes dos senhores de escravos, fomos o \u00faltimo pa\u00eds do mundo, n\u00f3s e Cuba, a acabar com a escravid\u00e3o e a escravid\u00e3o cria um tipo de senhorialidade que se autodignifica, que se acha branca, bonita, civilizada, come bem, \u00e9 requintada, mas que tem \u00f3dio do povo, trata o povo como carv\u00e3o para queimar. Ent\u00e3o, na realidade, \u00e9 uma classe dominante de filhos de senhores de escravos que v\u00ea o povo como a coisa mais reles, n\u00e3o tem interesse em educar o povo e tamb\u00e9m n\u00e3o tem interesse em que o povo coma.<\/p>\n<p><strong>A ESCOLA-PARQUE DE SALVADOR E OS CIEPs<\/strong><\/p>\n<p>O An\u00edsio pensava que a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que a democracia capitalista \u00e9 capaz de dar a todo o povo \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o, e que a escola \u00e9 a cara da p\u00e1tria. Em todos os pa\u00edses adiantados, os pr\u00e9dios mais importantes s\u00e3o constru\u00eddos para a escola p\u00fablica, que \u00e9 a coisa mais importante. H\u00e1 duas vertentes na educa\u00e7\u00e3o: a vertente luterana, em que se ia \u00e0 igrejinha para rezar e ela tamb\u00e9m podia ser uma escola; e a corrente napole\u00f4nica, a escola do Estado para criar o cidad\u00e3o, uma escola que deve ter a cara da p\u00e1tria, uma dignidade.<\/p>\n<p>O An\u00edsio sempre fez escolas assim. A s\u00e9rie de escolas que ele fez no Rio, de 1931 a 1935, quando foi Secret\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o de Pedro Ernesto, tinha edif\u00edcios mais caros que os CIEPs, que foram pr\u00e9dios muito caros; cada CIEP custou um milh\u00e3o de d\u00f3lares. Na realidade, o que o An\u00edsio achava e o que acho tamb\u00e9m, \u00e9 o seguinte: ningu\u00e9m consultou o povo sobre se \u00e9 mais justo abrir mais avenidas, viadutos para os 7% que t\u00eam carro, ou abrir escolas para todas as crian\u00e7as. O povo acharia, primeiro dar escola a todas as crian\u00e7as e depois, fazer tanto viaduto. Ningu\u00e9m nunca questionou essa rodoviariza\u00e7\u00e3o das cidades brasileiras, com investimentos tremendos e infra-estrutura para isso, sem tratar da infra-estrutura cultural, moral, espiritual e psicol\u00f3gica, que \u00e9 a escola. Ent\u00e3o An\u00edsio nunca teve d\u00favidas de que nossa obriga\u00e7\u00e3o \u00e9 dar ao povo escolas as melhores poss\u00edveis e n\u00e3o teve d\u00favida de que a escola \u00e9 cara. Escola barata \u00e9 escola de quem n\u00e3o quer educar.<\/p>\n<p>A Escola-Parque de Salvador, inaugurada em 1950 pelo An\u00edsio, parte integrante do conjunto denominado Centro de Educa\u00e7\u00e3o Carneiro Ribeiro, \u00e9, realmente, uma escola de tempo integral, porque o menino passa de 4 a 5 horas na escola, antes ou depois das aulas. No Rio, recentemente, no momento de fazer a escola-parque, verifiquei que n\u00e3o dava porque as escolas-classe eram muito ruins. Porque havia tal desprezo pela popula\u00e7\u00e3o pobre na Baixada Fluminense e em S\u00e3o Gon\u00e7alo, Nova lgua\u00e7u, que elas n\u00e3o caberiam neste sistema. Ent\u00e3o os CIEPs correspondem a uma esp\u00e9cie de jun\u00e7\u00e3o, num mesmo pr\u00e9dio, da escola-parque com as escolas-classe, utilizando-se as mesmas ideias de An\u00edsio.<\/p>\n<p><strong>O INEP E O INCENTIVO \u00c0\u00a0PESQUISA EM CI\u00caNCIAS SOCIAIS<\/strong><\/p>\n<p>Minha aproxima\u00e7\u00e3o com An\u00edsio se deu atrav\u00e9s do antrop\u00f3logo norte-americano Charles Wagley, que realizou um bom n\u00famero de pesquisas aqui no Brasil desde o final da d\u00e9cada de 40. A partir da\u00ed An\u00edsio me convidou para ajudar a organizar o setor de pesquisas antropol\u00f3gicas e sociol\u00f3gicas no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. Depois trabalhamos, fazendo uma das coisas mais importantes do Brasil que foi a cria\u00e7\u00e3o dos Centros Regionais de Pesquisas Educacionais, vinculados ao Instituto Nacional de Estudos Pedag\u00f3gicos (INEP), \u00f3rg\u00e3o que An\u00edsio dirigiu de 1952 a 1962.<\/p>\n<p>Esses Centros, quase todos, tiveram sedes e edif\u00edcios feitos pelo An\u00edsio e a id\u00e9ia era chamar a intelig\u00eancia brasileira para incorporar a problem\u00e1tica da educa\u00e7\u00e3o. Nunca a intelig\u00eancia brasileira se voltou para a educa\u00e7\u00e3o e An\u00edsio queria inverter isso. Ent\u00e3o An\u00edsio, por isso, usou de todos os meios para criar n\u00facleos de estudos da realidade brasileira: estudos sociol\u00f3gicos, antropol\u00f3gicos, estat\u00edsticos e hist\u00f3ricos. Uma das brutalidades da ditadura foi acabar com esses Centros. Todos eles foram apagados, inclusive o do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>No Rio n\u00f3s tivemos o cuidado, o zelo, com An\u00edsio, de fazer uma Biblioteca de Educa\u00e7\u00e3o que chegou a ter cento e vinte mil volumes, uma biblioteca brasiliana admir\u00e1vel! Uma das coisas bonitas que o An\u00edsio quis organizar era uma cole\u00e7\u00e3o de livros did\u00e1ticos de todos os tempos, para se conhecer a evolu\u00e7\u00e3o do livro did\u00e1tico brasileiro.<\/p>\n<p>O Centro Brasileiro em si era muito importante e eu l\u00e1 dirigi um programa que foi o mais amplo programa de pesquisas sociais j\u00e1 feito no Brasil. Envolvia uns quinze estudos de reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica sobre v\u00e1rios aspectos da realidade brasileira. A face realista disso est\u00e1 publicada na Revista de Ci\u00eancias Sociais do CBPE, que foi por muito tempo publicada pelo lNEP.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, fizemos uma s\u00e9rie de pesquisas sociol\u00f3gicas de observa\u00e7\u00e3o direta: sobre urbaniza\u00e7\u00e3o \u2013 a urbaniza\u00e7\u00e3o do Brasil como faveliza\u00e7\u00e3o, a expans\u00e3o ca\u00f3tica da cidade; sobre a industrializa\u00e7\u00e3o e seu efeito sobre educa\u00e7\u00e3o, os reclamos que a industrializa\u00e7\u00e3o fazia sobre a educa\u00e7\u00e3o; e estudos sobre a forma\u00e7\u00e3o de professores do 1\u00ba e do 2\u00ba graus e de como o Estado estava presente no ensino do 1\u00ba e do 2\u00ba graus.<\/p>\n<p>Fizemos ainda uma s\u00e9rie de estudos de comunidades. Escolhemos vinte e quatro, que depois se reduziram para quatorze comunidades representativas de \u00e1reas diferentes do Brasil. Em cada uma dessas comunidades estudamos a cidade e o campo, para definir o que \u00e9 cultura brasileira. Esse foi um trabalho muito profundo sobre o qual a Revista de Ci\u00eancias Sociais do CBPE d\u00e1 uma not\u00edcia circunstanciada.<\/p>\n<p><strong>A RENOVA\u00c7\u00c3O DA UNIVERSIDADE:\u00a0DA UDF \u00c0 UNIVERSIDADE DE\u00a0BRAS\u00cdLIA<\/strong><\/p>\n<p>O An\u00edsio estruturou a primeira universidade do Brasil, que \u00e9 a Universidade do Distrito Federal, instalada em 1935, no Rio de Janeiro, a primeira universidade digna desse nome. Nominalmente, a primeira foi a de 1930, pelo regimento de Francisco Campos. Essa era uma federa\u00e7\u00e3o que reunia as grandes Escolas, de Direito, Medicina e Engenharia, que passam a ter um reitor capaz de presidir uma cerim\u00f4nia de formatura para entregar diplomas. N\u00e3o havia subst\u00e2ncia, na verdade a subst\u00e2ncia era as Escolas. A primeira universidade, digna desse nome, com professores de tempo integral voltados para obter o saber e n\u00e3o para as rotinas profissionais, que n\u00e3o queriam fazer somente m\u00e9dicos, engenheiros, mas s\u00e1bios, artistas&#8230; a primeira foi a imaginada e constru\u00edda no Distrito Federal por An\u00edsio Teixeira, em 1935.<\/p>\n<p>Quando surgiu Bras\u00edlia, surgiu a oportunidade de fazer uma outra universidade, a universidade que ia fazer o transplante cultural da cultura brasileira para o sert\u00e3o goiano. Essa era uma luta nossa, havia muita gente que se opunha a isso e, afinal, levou muito tempo, o Juscelino s\u00f3 enviando a mensagem no fim do governo dele. A \u00faltima mensagem do Juscelino foi a que criou a universidade. Esse e v\u00e1rios epis\u00f3dios foram contados em um artigo meu, longo, sobre o An\u00edsio, que publiquei no livro chamado Sobre o \u00d3bvio.<\/p>\n<p>An\u00edsio estava muito maduro para pensar na Universidade de Bras\u00edlia, mas a\u00ed havia alguma coisa que n\u00e3o havia em 1935, \u00e9poca da cria\u00e7\u00e3o da UDF. Havia a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia, porque era grande a comunidade cient\u00edfica brasileira, j\u00e1 mais ou menos forte, e foi com base em uma centena de pessoas, entre fil\u00f3sofos, historiadores e outros membros da SBPC, que organizei a Universidade de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Houve, a prop\u00f3sito, na ocasi\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia, um debate em torno de um depoimento de An\u00edsio feito no Senado, em que ele valorizava muito o quarto n\u00edvel: mestrado e doutorado. An\u00edsio chegou a ter a id\u00e9ia, insistentemente, de que a Universidade de Bras\u00edlia deveria ser s\u00f3 de quarto n\u00edvel, deveria ser s\u00f3 mestrado e doutorado. A\u00ed eu lhe dizia: &#8220;\u00c9 loucura An\u00edsio, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que o pessoal aceite n\u00e3o ter o curso para seus filhos. Os deputados, os militares, os ministros v\u00e3o querer ter, \u00e9 uma quest\u00e3o b\u00e1sica, v\u00e3o querer educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica al\u00e9m da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o&#8221;. Terminamos por construir a Universidade de Bras\u00edlia com cursos de gradua\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m mas, gra\u00e7as a An\u00edsio, isso \u00e9 uma id\u00e9ia de An\u00edsio, ela nasceu fazendo gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o simultaneamente; ela teve curso de mestrado no primeiro dia em que funcionou. Mestrado no alto padr\u00e3o, porque levamos para Bras\u00edlia duzentos e tantos professores dos mais iluminados que pudemos obter em v\u00e1rias partes do mundo, gente toda que saiu na \u00e9poca em que houve a crise da Universidade, em 1965.<\/p>\n<p>A Universidade de Bras\u00edlia nasceu como uma funda\u00e7\u00e3o. Assim nasceu riqu\u00edssima, latifundi\u00e1ria, com seis mil hectares de terras em Bras\u00edlia, dona de superquadras inteiras e propriet\u00e1ria de todos os lucros das a\u00e7\u00f5es da Companhia Sider\u00fargica Nacional. Mas, o melhor mesmo \u00e9 que era, de fato, uma universidade aut\u00f4noma, livre do Conselho Federal de Educa\u00e7\u00e3o e dos burocratas do Minist\u00e9rio. Ent\u00e3o era uma funda\u00e7\u00e3o de verdade; se o governo n\u00e3o quisesse dar dinheiro ela teria dinheiro pr\u00f3prio para se manter. Assim \u00e9 que foi feita a Universidade de Bras\u00edlia, cuja miss\u00e3o era dominar o saber humano para que o Brasil alcan\u00e7asse o n\u00edvel de civiliza\u00e7\u00e3o que s\u00f3 se consegue atrav\u00e9s do dom\u00ednio do saber, que \u00e9 a verdadeira linguagem, no n\u00edvel mais alto, em todos os campos.<\/p>\n<p>N\u00f3s esper\u00e1vamos que isso tivesse tr\u00eas efeitos: o efeito interfecundante \u2013 se temos qu\u00edmica junto com f\u00edsica e biologia junto de antropologia, h\u00e1 um efeito interfecundante de criar uma comunidade de s\u00e1bios; a preocupa\u00e7\u00e3o de criar, al\u00e9m do grupo de s\u00e1bios, pessoas altamente competentes, independentes do governo e capazes de diagnosticar as causas do atraso do Brasil; e a capacidade de abrir linhas e de esclarecer as linhas de ruptura com o subdesenvolvimento. Essa \u00e9 a id\u00e9ia da Universidade, como um ente aut\u00f4nomo onde um dos princ\u00edpios basilares \u00e9 que nela ningu\u00e9m poderia ser punido nem premiado por suas id\u00e9ias pol\u00edticas ou religiosas. Cada um valeria por sua compet\u00eancia acad\u00eamica, pelos graus e pelas diretrizes estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o estreita entre os graus acad\u00eamicos, de mestre e de doutor, e os cargos de carreira acad\u00eamica.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas ideias sobre a Universidade de Bras\u00edlia, que est\u00e3o todas publicadas, tudo isso feito a quatro m\u00e3os com o An\u00edsio. Muito herdamos das ideias da Universidade do Distrito Federal, de 1935.<\/p>\n<p><strong>AN\u00cdSIO:\u00a0CAPACIDADE E OUSADIA ADMINISTRATIVA<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 coisa pior no Brasil do que um liberal, esses liber\u00f5es que voc\u00eas gostam tanto, como o Ot\u00e1vio Mangabeira, Rui Barbosa&#8230; S\u00e3o uns monstros. Quando a gente fala em fazer uma reforma agr\u00e1ria \u00e9 contra a estrutura agr\u00e1ria que eles criaram. Toda a configura\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro \u00e9 uma configura\u00e7\u00e3o para que uns poucos vivam muito bem, indiferentes \u00e0 vida do povo, ent\u00e3o \u00e9 realmente uma classe de faz-de-conta.<\/p>\n<p>O An\u00edsio nunca foi disso. Ele tinha muita no\u00e7\u00e3o de que o investimento, com a educa\u00e7\u00e3o de dia completo e com uma professora bem formada, \u00e9 o nervo da educa\u00e7\u00e3o, que tem que ser ajudada, estimulada&#8230; Isso An\u00edsio sempre fez com todo vigor.<\/p>\n<p>Por que as escolas p\u00fablicas belas, que at\u00e9 hoje s\u00e3o as melhores do Rio de Janeiro, aquelas escolas com nomes dos pa\u00edses americanos, Argentina, Estados Unidos, Guatemala, dentre as dezenas que ele fez no tempo de Pedro Ernesto, na d\u00e9cada de 30, causaram tanta raiva? \u2013 \u00c9 porque a classe dominante n\u00e3o gosta do povo brasileiro.<\/p>\n<p>Temos que fazer escolas boas, com boas professoras, para criar na pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o a exig\u00eancia disso. O povo brasileiro n\u00e3o sabe pedir uma escola honesta \u2013 uma escola como a do Jap\u00e3o, como a do Uruguai, uma escola de dia completo \u2013 porque nunca viu, nem sabe o que \u00e9 isso. \u00c9 um povo que \u00e9 ignorante, que vem de uma sociedade que tinha uma cultura pr\u00f3pria, mas que era transmitida oralmente. Quando ele vem para cidade, onde a cultura se transmite pela escola, ela fecha a porta para ele, fechando, portanto, o acesso \u00e0 pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o o An\u00edsio nunca teve d\u00favidas, e nem disse que a educa\u00e7\u00e3o era barata. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 cara, mas \u00e9 aquele investimento essencial que tem de ser feito.<\/p>\n<p>An\u00edsio tinha duas caracter\u00edsticas muito peculiares: uma grande capacidade administrativa e uma grande ousadia administrativa. O An\u00edsio n\u00e3o tinha qualquer dificuldade em empregar dinheiro que era para uma finalidade em outra, porque ele administrava as coisas p\u00fablicas com coragem de fazer o melhor poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Sobre a ousadia administrativa de An\u00edsio h\u00e1 um fato muito curioso: Quando eu estava na Universidade de Bras\u00edlia o An\u00edsio me disse: &#8220;Olha, contrata a Price Waterhouse&#8221;. A Price \u00e9 uma grande empresa de auditoria mundial, que impede que os gerentes das multinacionais roubem. Eu contratei a Price quando n\u00f3s est\u00e1vamos fazendo Bras\u00edlia; n\u00f3s usamos a verba com grande liberdade e a Price estava vigiando cada balancete mensal. Quando quiseram nos acusar de roubo na Universidade de Bras\u00edlia, em 1964, foi o pr\u00f3prio homem da Price que apareceu, procurando depor a respeito!<\/p>\n<p>Eu fiz a mesma coisa no Rio, agora no governo passado de Brizola, quando eu estava fazendo os CIEPs, quando gastei mais de quinhentos milh\u00f5es de d\u00f3lares. Quando me quiseram acusar de roubo, ap\u00f3s minha gest\u00e3o, eu disse aos jornais que tinha a Price. Muito curioso que houve uma reuni\u00e3o com os diretores da Price, dos gerentes das multinacionais com eles, quando um diretor foi apertado porque estava dando cobertura a mim. Ele se defendeu dizendo que estava autorizado pela Inglaterra a nos dar auditoria; segundo, que eu pagava como eles pagavam; terceiro, que sobre mim a Price tinha mil pontos de controle e sobre eles s\u00f3 tinha quinhentos pontos. Portanto, a Price tinha a obriga\u00e7\u00e3o de dizer que n\u00e3o havia roubo. Isso eu n\u00e3o aprendi por acaso, isso \u00e9 An\u00edsio, \u00e9 a clareza de An\u00edsio!\u00a0O homem p\u00fablico n\u00e3o tem s\u00f3 que ser honesto, tem que provar que \u00e9 honesto em qualquer momento, li\u00e7\u00e3o do Mestre!<\/p>\n<p><strong>* Depoimento extra\u00eddo do site\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bvanisioteixeira.ufba.br\/livro6\/depoimento_dr.html\">bvanisioteixeira.ufba<\/a>.<\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>An\u00edsio Teixeira\u00a0considerado o principal idealizador das grandes mudan\u00e7as que marcaram a Educa\u00e7\u00e3o brasileira no s\u00e9culo 20, An\u00edsio Sp\u00ednola Teixeira d\u00e1 nome ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), que fundou. Em Bras\u00edlia, encarou a dupla miss\u00e3o de estabelecer o sistema de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica do Distrito Federal e, ao lado de\u00a0Darcy Ribeiro, imaginar, desenhar&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on wp_trim_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on wp_trim_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":82001,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1584,1390],"tags":[],"class_list":["post-82000","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-editorias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82000","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82000"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82000\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82010,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82000\/revisions\/82010"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82001"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82000"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82000"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82000"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}