{"id":77455,"date":"2021-04-19T07:12:59","date_gmt":"2021-04-19T10:12:59","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=77455"},"modified":"2021-04-22T14:52:13","modified_gmt":"2021-04-22T17:52:13","slug":"getulio-de-volta-redonda-a-petrobras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/getulio-de-volta-redonda-a-petrobras\/","title":{"rendered":"Get\u00falio, de Volta Redonda \u00e0 Petrobr\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p>Cada ano, no dia de seu anivers\u00e1rio, 19 de abril, o presidente Get\u00falio Vargas dava um jeito de sair de circula\u00e7\u00e3o, deixava o Rio, ent\u00e3o Capital da Rep\u00fablica, escondia-se na casa de algum amigo para escapar das filas de abra\u00e7os e cumprimentos que de qualquer modo n\u00e3o o deixariam trabalhar.<\/p>\n<p>Get\u00falio preferiria, em vez de comemorar o seu anivers\u00e1rio, que os amigos e admiradores comemorassem com ele outros anivers\u00e1rios, n\u00e3o relacionados a ele pessoalmente, mas ao Brasil. E de todas essas outras datas, suas preferidas eram 1\u00ba de maio e 3 de outubro, que marcaram toda a sua vida e seu destino.<\/p>\n<p>Foi no 1\u00ba de maio de 1940 que Get\u00falio decretou o primeiro sal\u00e1rio m\u00ednimo. E foi no 1\u00ba de maio de 1954 que o aumentou em 100%, num momento em que a economia brasileira era a que mais crescia no mundo e aguentou perfeitamente bem esse tranco que lhe aumentava exponencialmente o mercado interno.<\/p>\n<p>Foi a 3 de outubro que eclodiu a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, a segunda proclama\u00e7\u00e3o, agora para valer, da Independ\u00eancia e da Rep\u00fablica. Foi a 3 de outubro de 1950 que o Brasil teve a oportunidade de levar Get\u00falio de volta \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, agora pelo voto direto. E foi a 3 de outubro de 1953 que Get\u00falio sancionou a lei de cria\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s*, dando ainda mais realidade ao compromisso de emancipar o pa\u00eds dos la\u00e7os coloniais que o prendiam a um passado de atraso, pobreza e exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>Se ainda hoje nos lembramos de Get\u00falio no 19 de abril, \u00e9 porque nos lembramos de todos esses 1\u00ba de maio e 3 de outubro e de seu significado. Hoje, mergulhados na trag\u00e9dia da pandemia e de um governo antinacional que tenta novamente acabar com a Petrobr\u00e1s, a lembran\u00e7a de Get\u00falio, em qualquer momento, \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o para n\u00f3s mesmos de que o Brasil pode de novo soltar-se dos la\u00e7os coloniais com que tentam prend\u00ea-lo outra vez.<\/p>\n<p>Como de outras vezes, o Brasil est\u00e1 bem retardat\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao que acontece no mundo. Poder\u00edamos estar aproveitando o que acontece nos Estados Unidos (EUA) com o despejo do Trump e o novo New Deal do Biden. Foi o que Get\u00falio fez com o New Deal do Roosevelt e assim nos deu Volta Redonda.<\/p>\n<p>Volta Redonda foi s\u00f3 o come\u00e7o e transformou o Brasil em uma das dez maiores economias do mundo. De certo modo Volta Redonda nos deu a Petrobr\u00e1s, e a Petrobr\u00e1s, de certo modo, nos colocou em sexto lugar entre as economias mundiais. Lugar do qual recuamos muito, porque o revide veio violento e aproveitou a onda reacion\u00e1ria que levara Trump ao poder. Mas a onda agora reflui.<\/p>\n<p>Nos EUA, a luta contra a Covid leva o presidente Biden a avan\u00e7ar muito mais do que se supunha, e at\u00e9 no Brasil alguns economistas antes adeptos da teoria do Estado m\u00ednimo reconsideram suas posi\u00e7\u00f5es. Isso pode chegar a alguns setores do governo, mas n\u00e3o chega a seu n\u00facleo duro e n\u00e3o atravessa a blindagem que isola Bolsonaro em sua paranoia e em suas certezas inabal\u00e1veis e esquizofr\u00eanicas.<\/p>\n<p>Certezas das quais se aproveitam alguns senhores espertos, como o ex-presidente da Petrobr\u00e1s, o tal Castello Branco, para consumar a venda da Refinaria Landulpho Alves, a primeira de nossas refinarias, antes do fim de um mandato para o qual n\u00e3o ser\u00e1 reconduzido.<\/p>\n<p>A Petrobr\u00e1s j\u00e1 mostrou que tem sete vidas. Sobreviveu a Roberto Campos no primeiro governo militar, fortaleceu-se nos seguintes, sobreviveu ao Governo Collor, a FHC, a Temer e agora luta pela vida, querendo sobreviver a Bolsonaro.<\/p>\n<p>A sofreguid\u00e3o com que tentam acabar com a Petrobr\u00e1s vem mostrando, ao longo de mais de 60 anos, que Get\u00falio fincou muito firmes as funda\u00e7\u00f5es do Brasil que nasceu de suas m\u00e3os. Ele sabia que a Petrobr\u00e1s podia ser o s\u00edmbolo mais vivo de sua heran\u00e7a e deu a vida por ela, depois de ainda na juventude ter adquirido uma l\u00facida compreens\u00e3o dos desafios que o Brasil tinha pela frente.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1906, com apenas 24 anos de idade, Get\u00falio identificava e denunciou as verdadeiras raz\u00f5es do atraso econ\u00f4mico do Brasil. Foi no discurso de sauda\u00e7\u00e3o ao presidente eleito Afonso Pena, que visitava Porto Alegre, em nome de seus colegas da Faculdade de Direito, e Get\u00falio n\u00e3o se limitou a um pronunciamento protocolar e an\u00f3dino.<\/p>\n<p>Nesse discurso Get\u00falio levantou um tema que surpreendia, suscitado por um jovem estudante de Direito, n\u00e3o de economia, num pa\u00eds e numa cidade situados na periferia dos grandes centros financeiros do mundo, um tema ao qual estava alheia a maioria dos protagonistas da vida pol\u00edtica do pa\u00eds, ainda embalada pela ilus\u00e3o de que o Brasil era e deveria continuar a ser um pa\u00eds \u201cessencialmente agr\u00edcola\u201d.<\/p>\n<p>Get\u00falio recusa esse diagn\u00f3stico. Para ele, que crescera vivendo fatos e experi\u00eancias que muitos outros desconheciam e que j\u00e1 tinha antes da faculdade um consider\u00e1vel acervo de leitura hist\u00f3rica, o Brasil n\u00e3o tinha de ser definitivamente um pa\u00eds agr\u00edcola. \u00c9 essa ilus\u00e3o que causa o atraso econ\u00f4mico do pa\u00eds e a mis\u00e9ria de seu povo.<\/p>\n<p>\u2013 Por enquanto\u2026 \u2013 diz ele (esse \u201cpor entanto\u201d \u00e9 a ressalva que encerra uma expectativa, quem sabe um compromisso\u2026)<\/p>\n<p>\u2013 Por enquanto, a P\u00e1tria futura \u00e9 v\u00edtima de uma coa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria: quantas causas de estagna\u00e7\u00e3o pesam sobre um pa\u00eds novo\u2026 Amarga resultante para quem se v\u00ea coacto a comprar manufaturados no estrangeiro, os g\u00eaneros da pr\u00f3pria mat\u00e9ria prima que exporta.<\/p>\n<p>O Brasil j\u00e1 exportava, em grande quantidade e a baixo pre\u00e7o, min\u00e9rio de ferro de \u00f3tima qualidade e importava, a pre\u00e7o alto, praticamente todos os produtos sider\u00fargicos elaborados com ele \u2013 navios, locomotivas, trilhos, a novidade que era o autom\u00f3vel e as m\u00e1quinas que produziriam outros bens.<\/p>\n<p>Tinham sido importadas da B\u00e9lgica at\u00e9 as grades que protegiam as \u00e1rvores rec\u00e9m-plantadas da rec\u00e9m-aberta Avenida Central (futura Avenida Rio Branco), no centro do Rio, inaugurada em 1904, dois anos antes do discurso do jovem Get\u00falio. Era de proced\u00eancia brit\u00e2nica (e talvez continue a mesma) a lou\u00e7a sanit\u00e1ria dos mict\u00f3rios, privadas e pias comprados para as obras do Teatro Municipal, nessa Avenida do Rio, iniciadas em 1903 e inauguradas em 1909.<\/p>\n<p>O Brasil tinha vivido algumas experi\u00eancias de industrializa\u00e7\u00e3o, mas sem enfrentar a coa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria denunciada por Get\u00falio. No Imp\u00e9rio, o futuro Bar\u00e3o de Mau\u00e1 constru\u00edra navios com a\u00e7o importado, e na Guerra do Paraguai nada menos de um ter\u00e7o da frota de guerra brasileira compunha-se de navios constru\u00eddos no pr\u00f3prio Brasil, mas com a\u00e7o que chegava de fora, a pre\u00e7os cada vez mais altos, importado em troca de min\u00e9rio de ferro brasileiro exportado a pre\u00e7os cada vez menores.<\/p>\n<p>S\u00f3 60 anos depois, em 1964, \u00e9 que esse tema entrou na agenda do debate econ\u00f4mico internacional, quando a ONU criou a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Com\u00e9rcio e o Desenvolvimento (Unctad), para estudar e procurar corrigir o que se chamou a deteriora\u00e7\u00e3o dos termos de com\u00e9rcio internacional, ou seja, os pa\u00edses pobres, em geral do Hemisf\u00e9rio Sul, pagarem sempre mais caro pelos produtos sider\u00fargicos que importavam em troca de seu min\u00e9rio de ferro sempre mais barato.<\/p>\n<p>Isso que Get\u00falio v\u00ea em 1906, pelos sintomas ou pelos efeitos, \u00e9 o quadro econ\u00f4mico contra o qual ele vai lutar pelo pr\u00f3ximo meio s\u00e9culo, pelos 48 anos que ainda viver\u00e1. Como tantos outros pa\u00edses perif\u00e9ricos, o Brasil era exportador de mat\u00e9rias-primas e importador de produtos manufaturados. Nesse momento, o min\u00e9rio de ferro do Brasil impressiona os t\u00e9cnicos das ind\u00fastrias sider\u00fargicas da Europa e dos EUA, mas o Brasil importa at\u00e9 enxadas e machados, porque o regime tarif\u00e1rio e cambial fechara pequenas fundi\u00e7\u00f5es que produziam essas ferramentas.<\/p>\n<p>Essas poucas palavras, sobre a coa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria a estrangular o futuro de pa\u00edses como o Brasil, concentrar\u00e3o toda a pol\u00edtica econ\u00f4mica da Revolu\u00e7\u00e3o de 30, liderada por Get\u00falio: fazer do Brasil um pa\u00eds que transforme em a\u00e7o o ferro de seu subsolo, que explore seu petr\u00f3leo e suas fontes de energia el\u00e9trica, que produza tratores, caminh\u00f5es, autom\u00f3veis e at\u00e9 avi\u00f5es, um pa\u00eds n\u00e3o mais v\u00edtima dessa coa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, mas protagonista e criador de seu futuro.<\/p>\n<p>Dessa vis\u00e3o do Brasil, coagido por uma economia aprisionada ao modelo colonial da exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios, \u00e9 que nasceu, j\u00e1 em 1931, o projeto sider\u00fargico que marcou o primeiro governo Vargas e resultou em Volta Redonda. Nesse momento, Get\u00falio n\u00e3o tinha como conduzir simultaneamente um projeto para o petr\u00f3leo, o que veio a ser a grande marca de seu segundo governo, com a cria\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s.<\/p>\n<p>Ela nasceu marcada para morrer, e a crise de agosto de 1954 s\u00f3 aconteceu por causa dela. No seu auge, um de seus auxiliares, o General Mozart Dornelles, foi, \u00e0 revelia dele, conversar com Assis Chateaubriand, o Rei da M\u00eddia de ent\u00e3o, que conhecia desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 30, ele combatente e Chateaubriand rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>Chateaubriand era dono de verdadeiro monop\u00f3lio privado da comunica\u00e7\u00e3o no Brasil. Esse poder de fogo estava voltado o tempo todo contra Get\u00falio, cobrando sua ren\u00fancia ou sua derrubada por um golpe. Carlos Lacerda, o mais implac\u00e1vel e cruel inimigo de Get\u00falio, fala toda noite nas TVs de Chateaubriand, pedindo a deposi\u00e7\u00e3o do governo.<\/p>\n<p>O general foi a Chateaubriand para perguntar quais as raz\u00f5es daquela campanha do \u00f3dio. Chateaubriand respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 s\u00f3 o Presidente desistir da Petrobr\u00e1s que eu tiro o Lacerda da TV e entrego a quem ele quiser para fazer a defesa do governo.<\/p>\n<p>Espantado com o pre\u00e7o da chantagem, o general voltou para o Pal\u00e1cio do Catete, sede do governo, e se aconselhou com Tancredo Neves, seu cunhado e ministro da Justi\u00e7a. Devia contar a Get\u00falio do encontro com Chateaubriand e seu resultado?<\/p>\n<p>\u2013 Deve sim, respondeu Tancredo. Mas n\u00f3s dois sabemos que o presidente morre, mas n\u00e3o desiste da Petrobr\u00e1s.<\/p>\n<p>Dias depois, Get\u00falio sacrificou a pr\u00f3pria vida e com isso salvou a Petrobr\u00e1s e toda a heran\u00e7a de seus dois governos. \u00c9 por isso que comemoramos, al\u00e9m de outras datas, a do seu nascimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>*<\/em><em>Jos\u00e9 Augusto Ribeiro \u00e9 jornalista, autor de A Era Vargas.<\/em><\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cada ano, no dia de seu anivers\u00e1rio, 19 de abril, o presidente Get\u00falio Vargas dava um jeito de sair de circula\u00e7\u00e3o, deixava o Rio, ent\u00e3o Capital da Rep\u00fablica, escondia-se na casa de algum amigo para escapar das filas de abra\u00e7os e cumprimentos que de qualquer modo n\u00e3o o deixariam trabalhar. 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