{"id":76740,"date":"2021-03-14T00:47:41","date_gmt":"2021-03-14T03:47:41","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=76740"},"modified":"2021-04-06T16:12:33","modified_gmt":"2021-04-06T19:12:33","slug":"abdias-do-nascimento-sinonimo-de-resgate-da-cultura-negro-africana-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/abdias-do-nascimento-sinonimo-de-resgate-da-cultura-negro-africana-no-brasil\/","title":{"rendered":"Abdias do Nascimento: sin\u00f4nimo de resgate da cultura afrodescendente no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>\u201cPara o negro, pouco mudou com o fim da escravatura\u201d. Essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 de Abdias do Nascimento, em entrevista concedida \u00e0 Revista Acervo, em 2009, na qual ele conta um pouco das suas dificuldades enfrentadas e a luta di\u00e1ria por mais justi\u00e7a e resgate da cultura negro africana por meio da pol\u00edtica e da arte. Se estivesse vivo, Abdias completaria hoje, 14 de mar\u00e7o, 107 anos de vida.<\/p>\n<p>De fam\u00edlia pobre, Abdias era filho e neto de escravas. Nascido 26 anos ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, ele se deparou com in\u00fameras barreiras enfrentadas por sua fam\u00edlia. Como ele sempre frisava, naquela \u00e9poca, o negro n\u00e3o era mais propriedade do senhor do engenho, mas a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas capazes de integrar e emancipar a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente brasileira era um problema que ainda se reflete no dias de hoje.<\/p>\n<p>De acordo com a quarta edi\u00e7\u00e3o da plataforma Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, lan\u00e7ado pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA), em 2020, a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 maioria entre as pessoas pobres e extremamente pobres do Pa\u00eds, bem como a que tem as maiores taxas de homic\u00eddio e a que ganha menos, se comparada com a popula\u00e7\u00e3o branca.<\/p>\n<p>Em uma de suas \u00faltimas entrevistas, para a Revista Acervo, Abdias conta uma situa\u00e7\u00e3o na qual ele, ainda menino, pela primeira vez compreendeu o que era injusti\u00e7a e preconceito racial. O caso envolveu sua m\u00e3e<strong>,<\/strong> que arrancou dos bra\u00e7os de uma mulher branca um menino de rua que, na ocasi\u00e3o, estava apanhando dela.<\/p>\n<p>\u201cAs palavras de minha m\u00e3e, a atitude dela, foram as minhas primeiras li\u00e7\u00f5es de solidariedade racial, a primeira li\u00e7\u00e3o de panafricanismo que recebi ainda menino\u201d, contou o ativista.<\/p>\n<p>Abdias tamb\u00e9m relembra, nessa mesma entrevista, um de seus primeiros contatos com o racismo na juventude e como superou o acontecido. O ativista foi preso na Penitenci\u00e1ria do Carandiru, em S\u00e3o Paulo, e expulso do Ex\u00e9rcito brasileiro por reagir ao preconceito sofrido por ele. Por\u00e9m, o fato n\u00e3o foi motivo para parar seu trabalho, muito pelo contr\u00e1rio. Foi na pris\u00e3o que ele p\u00f4de criar sua primeira pe\u00e7a teatral e, ap\u00f3s sair, contribuiu para uma cultura brasileira inclusiva, criando o Teatro Experimental do Negro (TEN), no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u201cAntes do TEN, os negros n\u00e3o pisavam no teatro Municipal a n\u00e3o ser para fazer faxina! L\u00e1, resgat\u00e1vamos, no Brasil, os valores da cultura negro africana, degradados e negados pela viol\u00eancia da cultura branco europeia, valorizando o negro atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, cultura e arte\u201d, conta o pedetista.<\/p>\n<p><strong>Inicio da carreira pol\u00edtica e representa\u00e7\u00e3o no PDT<\/strong><\/p>\n<p>Sobre o in\u00edcio de sua atua\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica, Abdias conta na Revista Acervo que sempre teve uma dupla conota\u00e7\u00e3o, cultural e pol\u00edtica. Para ele, as duas \u00e1reas s\u00e3o dimens\u00f5es da mesma iniciativa, que \u00e9 a defesa e promo\u00e7\u00e3o dos direitos e da cultura da popula\u00e7\u00e3o de origem africana.<\/p>\n<p>\u201cEu escrevia no jornal \u201cQuilombo\u201d do TEN, editoriais sobre a necessidade de o negro atuar na pol\u00edtica como candidato, e n\u00e3o mais apenas como cabo eleitoral dos outros\u201d, afirma Abdias.<\/p>\n<p>O ativista tamb\u00e9m conta como enfrentou o cen\u00e1rio pol\u00edtico ao se aliar ao antigo PTB de Brizola e Jo\u00e3o Goulart. Com sua ativa participa\u00e7\u00e3o, o compromisso com a popula\u00e7\u00e3o negra foi inserido na hist\u00f3rica Carta de Lisboa.<\/p>\n<p>\u201cPela primeira vez me senti realmente identificado com a proposta de um partido pol\u00edtico. O PTB de Jo\u00e3o Goulart e de Brizola tinha tudo a ver com minha orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, embora a quest\u00e3o racial ainda n\u00e3o ganhasse resson\u00e2ncia\u201d, afirmou Nascimento.<\/p>\n<p>\u201cAo reorganizar o antigo PTB, a Carta de Lisboa afirmava o compromisso do partido com a causa da popula\u00e7\u00e3o negra. Isto foi resultado de conversas com Brizola em Nova Iorque. No Brasil, j\u00e1 no per\u00edodo da anistia e da redemocratiza\u00e7\u00e3o, o PDT consolidaria esse compromisso como prioridade ao compreender e agir de acordo com a necessidade de incluir negros em seu secretariado de governo\u201d, destacou Abdias.<\/p>\n<p><strong>Barreias no parlamento brasileiro<\/strong><\/p>\n<p>Ainda em sua entrevista para a Revista Acervo, Abdias relembra que, quando exerceu o mandato de deputado federal, em 1983, ele era o \u00fanico negro assumido no Congresso Nacional e que dedicava o mandato \u00e0 defesa dos Direitos Humanos e civis da popula\u00e7\u00e3o negra, o que constantemente causava ira e tentativas de barrarem sua palavra na C\u00e2mara Federal.<\/p>\n<p>\u201cQuando cheguei \u00e0 C\u00e2mara como deputado pelo PDT, n\u00e3o me deixaram falar, queriam cortar a minha palavra, achavam que eu falava inverdades absurdas. Depois de anos passados, fazendo a minha prega\u00e7\u00e3o, juntavam-se outras vozes a minha e at\u00e9 recebia o aval dos senadores aos meus projetos de lei. A sociedade vem mudando, \u00e0 medida que a gente bate, bate, bate na mesma tecla. \u00c9 verdade que \u00e9 assim aos pouquinhos, mas \u00e9 um processo irrevers\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Ao final dessa entrevista, o pedetista deixou um recado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o brasileira, onde reafirmou a import\u00e2ncia e a necessidade de se dar ouvidos \u00e0s quest\u00f5es raciais no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cO negro neste pa\u00eds est\u00e1 acordado, alerta, e vai continuar sua luta sempre. Isto \u00e9 um processo irrevers\u00edvel! Espero que o Brasil tenha a sensatez de ouvir-lhe os gritos em vez de se fazer de surdo. O negro no Brasil \u00e9 maioria, e democraticamente no futuro deve assumir a dire\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds. \u00c9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo e de aprimoramento das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas\u201d, finalizou o pedetista.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPara o negro, pouco mudou com o fim da escravatura\u201d. 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