{"id":72009,"date":"2020-06-20T23:55:59","date_gmt":"2020-06-21T02:55:59","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=72009"},"modified":"2021-02-25T14:09:32","modified_gmt":"2021-02-25T17:09:32","slug":"o-ensurdecedor-barulho-do-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/o-ensurdecedor-barulho-do-silencio\/","title":{"rendered":"O ensurdecedor barulho do sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;O que me preocupa n\u00e3o \u00e9 o grito dos maus, mas o sil\u00eancio dos bons\u201d <\/em><br \/>\n<em>Martin Luther King<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em 20 de junho comemora-se o Dia Nacional do Advogado Trabalhista. A reflex\u00e3o \u00e9: o que comemoramos?<br \/>\nComemoramos a capacidade de resistir, de lutar incansavelmente, de ser resiliente, de n\u00e3o desistir, de reinventar.<br \/>\nA advocacia trabalhista \u00e9 um exerc\u00edcio de advocacia social por excel\u00eancia, dado que a mat\u00e9ria de que trata, a rela\u00e7\u00e3o de trabalho e emprego, \u00e9 exerc\u00edcio de cidadania, faz parte de um sistema social.<\/p>\n<p>Afinal, neste orbe terreno, o embate se d\u00e1 entre as teorias liberais, empreendedorismo, industrializa\u00e7\u00e3o, rentismo, economia, mercado, labor, consumo, sociedade, bem estar social, e &#8230;. as vis\u00f5es mais socialistas desta mesma sociedade. Ent\u00e3o, do que falamos?<\/p>\n<p>A exist\u00eancia humana vive em ciclos. Como uma roda, h\u00e1 um tempo no alto, h\u00e1 um tempo no ch\u00e3o. O que importa em como se sobe ou como se desce \u00e9 a discuss\u00e3o que se trava neste movimento, s\u00e3o as garantias de evolu\u00e7\u00e3o social, s\u00e3o as garantias de estabilidade, de solidez, ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o quando olhamos a hist\u00f3ria, vemos claramente esse movimento: trabalho escravo, artes\u00e3os independentes, prestadores de servi\u00e7os independentes que buscam prote\u00e7\u00e3o de senhorio, novamente o trabalho escravo, lutas por direitos e liberdade, revolu\u00e7\u00e3o francesa, liberdades, revolu\u00e7\u00e3o industrial, explora\u00e7\u00e3o do trabalho, forma\u00e7\u00e3o de sindicatos e a luta por melhoria de condi\u00e7\u00f5es de trabalho e salario, classe trabalhadora conquista maior estabilidade e condi\u00e7\u00e3o de vida, surge a automa\u00e7\u00e3o, novamente o lucro contra o trabalho, os estudos de Marx sobre esta rela\u00e7\u00e3o e a venda da for\u00e7a de trabalho e sua rela\u00e7\u00e3o com o ganho e o lucro, a industrializa\u00e7\u00e3o, o capital na industrializa\u00e7\u00e3o, a automa\u00e7\u00e3o, a perda do valor do trabalho, a perda do posto de trabalho, o capital pelo capital, a financeiriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os jornais d\u00e3o conta de um movimento mais conservador \u2018no mundo\u2019, e, com a globaliza\u00e7\u00e3o tais movimentos s\u00e3o mais r\u00e1pidos, independentemente da evolu\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds, ou da situa\u00e7\u00e3o social que ele apresente. Assim que, os efeitos do avan\u00e7o do capital financeiro s\u00e3o mais danosos em algumas sociedades, que em outras.<br \/>\nO que diferencia? A estabilidade das conquistas anteriores.<\/p>\n<p>Falando do nosso pa\u00eds, estamos experimentando a descida vertiginosa, muito mais r\u00e1pida do que muitos dos trabalhadores conseguem perceber (s\u00f3 identificam ap\u00f3s) quando definitivamente atingidos pelas perdas.<br \/>\nPor que?<br \/>\nPor que uma parcela da sociedade percebe estarrecida o que est\u00e1 acontecendo dia ap\u00f3s dia, em um movimento social que surge em 2013, que avan\u00e7a mas \u00e9 fortemente refreado pelos for\u00e7as de quem domina o mercado, e de 2016 em diante, as vozes que deviam bradar em defesa de si pr\u00f3prios, s\u00e3o silentes?<\/p>\n<p>Por que ap\u00f3s suprimidos os direitos que propiciavam uma m\u00ednima estabilidade ao trabalhador, sem ru\u00eddos, estes seguem como que anestesiados de si mesmos, perdidos, sofrendo com a incapacidade de o fruto de seu trabalho dar o sustento m\u00ednimo de alimenta\u00e7\u00e3o e moradia, rumo \u00e0 miserabilidade, silentes?<\/p>\n<p>Lembro da m\u00fasica de Chico Buarque, Constru\u00e7\u00e3o &#8230;<br \/>\n&#8220;E trope\u00e7ou no c\u00e9u como se fosse um b\u00eabado \/ como se ouvisse m\u00fasica<br \/>\nE flutuou no ar como se fosse um p\u00e1ssaro \/ s\u00e1bado \/ um pr\u00edncipe<br \/>\nE se acabou no ch\u00e3o feito um pacote fl\u00e1cido \/ t\u00edmido \/ b\u00eabado<br \/>\nAgonizou no meio do passeio p\u00fablico \/ n\u00e1ufrago<br \/>\nMorreu na contram\u00e3o atrapalhando o tr\u00e1fego \/ p\u00fablico \/ s\u00e1bado&#8221;<\/p>\n<p>Chico Buarque diz que a emo\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o estava nas palavras, que ele vive em sociedade e sente as pessoas, e que, ao colocar um homem no meio das palavras, a emo\u00e7\u00e3o muda de lugar. A letra \u00e9 de 1970.<br \/>\nEm 1969 o Brasil vivia a Ditadura Militar, absolutamente repressora e pouco afeta aos direitos sociais. A economia caminhava rumo firme ao liberalismo e, atendendo ao mercado, foi alterado o contrato de trabalho permitindo-se que o trabalhador deixasse de conquistar a estabilidade do emprego e fosse indenizado atrav\u00e9s do Fundo de garantia. Assim, qualquer trabalhador da iniciativa privada passou a ser demitido a qualquer tempo. Bastava indenizar. Observo que o FGTS funciona como uma poupan\u00e7a, cujo valor recolhido fomenta a constru\u00e7\u00e3o civil e os rendimentos desta aplica\u00e7\u00e3o s\u00e3o 50% do que se paga \u00e0 caderneta de poupan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que houve avan\u00e7os, mormente ap\u00f3s a Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, conquista da sociedade que se libertava das amarras de uma feroz ditadura, e almejava construir um pa\u00eds bom para se viver, transformar-se em uma sociedade de bem estar social, mais humana, mais liberta, com educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade para todos, com trabalho digno, sal\u00e1rios compat\u00edveis, com menos diferen\u00e7as entre as pessoas e classes sociais.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para os dias atuais, sem sequer regulamentar todos os direitos ali postos como conquistas, iniciou o caminho da perda. O trabalhador foi identificado como colaborador, como tal, perde a identidade; ilus\u00e3o de uma igualdade inexistente; trabalha, compete com a m\u00e1quina, a empresa precisa de lucros; os trabalhadores descaracterizados de si n\u00e3o atingem a conquista de est\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es de moradia, educa\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o; a ind\u00fastria, por sua vez, tem capacidade ociosa, demite; trabalhador sai da estat\u00edstica para ser um invis\u00edvel, \u2018empres\u00e1rio de si mesmo\u2019, dizem alguns; o trabalhador \u00e9 responsabilizado pelos custos da economia, n\u00e3o \u00e9 mais uma categoria, a agremia\u00e7\u00e3o sindical \u00e9 relativizada, desnecess\u00e1ria, convencidos de que n\u00e3o atende mais o momento social; o \u2018trabalhador\u2019 recebe o direito de ser dono de si e \u00e9 levado a negociar sozinho com o empregador; n\u00e3o h\u00e1 mais fragilidade, inexiste hipossufici\u00eancia &#8230; dizem &#8230;<\/p>\n<p>Agora a pandemia. Para al\u00e9m da sa\u00fade e vida, que est\u00e3o em primeir\u00edssimo lugar, sim, e sem entrar no falso dilema, desde h\u00e1 muito n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o claro que o trabalhador \u00e9 primordial para a economia e n\u00e3o o respons\u00e1vel pelo seu infort\u00fanio, vide a insist\u00eancia do empresariado e da cl\u00e1ssica classe m\u00e9dia em requerer insistentemente que o trabalhador volte ao seu posto, se n\u00e3o, a economia n\u00e3o anda. Porque ele \u00e9, a salva\u00e7\u00e3o da lavoura &#8230;.<br \/>\nN\u00e3o importa que morra: atrapalhando o tr\u00e1fego, o p\u00fablico, o s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Estamos t\u00e3o contaminados que n\u00e3o percebemos que h\u00e1 desn\u00edvel? que estamos caindo? que o po\u00e7o est\u00e1 logo ali?<br \/>\nO sil\u00eancio grita ensurdecedoramente em meus ouvidos e mente: Hei! Vamos \u00e0 luta!!! Somos trabalhistas, pleiteamos por equidade de for\u00e7as, pela oportunidade de trabalho digno, pelo funcionamento da ind\u00fastria, do com\u00e9rcio, dos servi\u00e7os, pela rela\u00e7\u00e3o de emprego e trabalho.<\/p>\n<p>Eu tenho um sonho, parafraseando algu\u00e9m que um dia foi calado, cuja voz silenciada ecoa, ainda hoje, em todas as mentes e cora\u00e7\u00f5es, dos que ousam sonhar e s\u00e3o esperan\u00e7osos em conquistar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>*Renata Gabert de Souza \u00e9 advogada, integrante da Comiss\u00e3o Especial da Advocacia Trabalhista OAB\/RS, membro dos Diret\u00f3rios Estadual e Nacional do PDT, integra o Movimento dos Advogados, vice-Presidente do Movimento Comunit\u00e1rio Trabalhista (MCT-RS), e membro da Comiss\u00e3o de \u00c9tica da A\u00e7\u00e3o da Mulher Trabalhista (AMT-RS).<\/strong><\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O que me preocupa n\u00e3o \u00e9 o grito dos maus, mas o sil\u00eancio dos bons\u201d Martin Luther King Em 20 de junho comemora-se o Dia Nacional do Advogado Trabalhista. 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