{"id":71325,"date":"2020-05-20T02:09:12","date_gmt":"2020-05-20T05:09:12","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=71325"},"modified":"2020-10-15T12:51:37","modified_gmt":"2020-10-15T15:51:37","slug":"raizes-tortas-do-brasil-estado-familiar-cordialidade-e-escravidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/raizes-tortas-do-brasil-estado-familiar-cordialidade-e-escravidao\/","title":{"rendered":"Ra\u00edzes tortas do Brasil: estado familiar, cordialidade e escravid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Continuando na guarda da quarentena, reassisti o filme &#8220;Get\u00falio&#8221;. Me impressionou uma de suas \u00faltimas frases, dita \u00e0 sua filha Alzira, antes de dar o tiro derradeiro em seu peito que o fez sair da vida e entrar para a hist\u00f3ria: &#8220;Estou a tanto tempo no poder e nunca me pediram nada para o Pa\u00eds. Sempre pediram para algu\u00e9m. As coisas acabam como elas come\u00e7am.&#8221;<\/p>\n<p>E continuo, relacionando fatos conjunturais de hoje com a estrutura enraizada na forma\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nesse momento de quarentena, a raz\u00e3o pol\u00edtica parece tamb\u00e9m se recolher em quarentena. E entra em cena o velho carcomido, por\u00e9m v\u00edvido, intimismo do poder. A parantela se revigora. Aos amigos tudo, aos inimigos a lei. Como nas an\u00e1lises dos anos 30 com &#8220;Ra\u00edzes do Brasil&#8221; (1936), escrito e reescrito diversas vezes at\u00e9 a morte de seu autor, S\u00e9rgio Buarque de Holanda.<\/p>\n<p>Mas, antes, tivemos o cl\u00e1ssico &#8220;Casa Grande &amp; Senzala&#8221; (1933), de Gilberto Freyre que Darcy, com y disse que o Brasil ficou mais brasileiro depois dessa obra.<\/p>\n<p>O governo atual que venceu as elei\u00e7\u00f5es de 2018, derrotando for\u00e7as tradicionais do patrimonialismo estatal, despertou esperan\u00e7as de boa parte da popula\u00e7\u00e3o com mudan\u00e7as da velha pol\u00edtica.\u00a0Com pouco mais de um ano de governo, acabou se enroscando na velha vis\u00e3o afetiva dos que convivem pr\u00f3ximos do c\u00edrculo familiar, de amigos, parceiros e apaniguados que leva geralmente a viol\u00eancia e ao arb\u00edtrio ao ignorar as quest\u00f5es que s\u00e3o da esfera p\u00fablica v\u00ea privada.<\/p>\n<p>O desafio de governos democr\u00e1ticos \u00e9 desmanchar esse modelo familiar e intimista na coisa do Estado e substituir essa anomia do personalismo que fundamenta as oligarquias pela racionalidade da vida p\u00fablica que pode fundamentar melhor o jogo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito dessas reiteradas crises anunciadas em sucessivos governos, cabe arriscar uma explica\u00e7\u00e3o mais ampla invocando pensadores que passaram pela ang\u00fastia de entender esse pa\u00eds cheio de permanentes mal entendidos.<br \/>\nComo est\u00e1 em Ra\u00edzes do Brasil, o Brasil parece mesmo como um grande mal entendido.<\/p>\n<p>E continua at\u00e9 hoje. Entra governo, sai governo, vem impeachment, Lava Jato, mensal\u00e3o, roda o sal\u00e3o e as crises reiteram e refor\u00e7am nosso abismo da injusti\u00e7a e do subdesenvolvimento. Como se fosse uma maldi\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Diga-se que Ra\u00edzes do Brasil buscou ajuda te\u00f3rica para entender esse imbr\u00f3glio brasileiro no cl\u00e1ssico soci\u00f3logo alem\u00e3o Max Weber que elaborou alguns conceitos que ganharam sentido nas m\u00e3os de Ra\u00edzes do Brasil para tentar explicar o Brasil que j\u00e1 chamaram de um grande mal estendido, sem sair do seu destino de futuro.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 acontecendo com o que sempre aconteceu com o nosso pa\u00eds? Com uma bruta crise pol\u00edtica, junto com uma crise de sa\u00fade p\u00fablica que coloca a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de isolamento para evitar o colapso da prec\u00e1ria rede p\u00fablica hospitalar.<\/p>\n<p>Hospitais foram abandonados com o seu suporte estrat\u00e9gico do SUS. Em seu lugar, foram erguidos obras superfaturadas de est\u00e1dios de futebol que, hoje, por ironia da maldi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, s\u00e3o transformados em hospitais de campanha.<\/p>\n<p>Olhar para o que acontece em Manaus, minha cidade natal, \u00e9 constatar uma trag\u00e9dia que vem sendo anunciada, sempre.<\/p>\n<p>O livro Ra\u00edzes do Brasil, que foi escrito e reescrito pelo autor at\u00e9 o seu dia derradeiro, fazia mudan\u00e7as de seu conte\u00fado para ir se ajustando \u00e0 realidade pol\u00edtica do Brasil, que muda ao gosto dos interesses pessoais das pessoas que deveriam representar as institui\u00e7\u00f5es da democracia de maneira racional e impessoal.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o. Os que se elegem, escolhidos a dedo pelas oligarquias partid\u00e1rias, tratam a coisa p\u00fablica com a intimidade de seus interesses particulares, fazendo com que as leis n\u00e3o sejam nada para os amigos e tudo para os inimigos.<\/p>\n<p>Existe no Brasil uma frouxid\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es por causa dessa moleza de car\u00e1ter dos homens que assumem o poder pol\u00edtico. Tudo \u00e9 levado na malemol\u00eancia dos amigos e parceiros \u00edntimos. A Rep\u00fablica, essa coitada, continua fora de lugar.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Buarque de Holanda chamou esse perfil de &#8216;homem cordial&#8217;. A gente age com essa moleza da raz\u00e3o. A cordialidade do brasileiro que abriga e acolhe, que abra\u00e7a e beija.\u00a0Uma caracter\u00edstica que o autor da raiz passou at\u00e9 o fim da vida tentando explicar em trocas de opini\u00e3o com o poeta Cassiano Ricardo, um confesso admirador do Estado Novo de Get\u00falio. Dizia que at\u00e9 o livro de S\u00e9rgio Buarque reconhecia a presen\u00e7a da cordialidade do brasileiro, um homem pac\u00edfico, sem viol\u00eancia. Um homem cordial.<\/p>\n<p>O prefixo da palavra, contestava S\u00e9rgio Buarque, &#8216;cor&#8217; significa cora\u00e7\u00e3o e o brasileiro age com o cora\u00e7\u00e3o. Mas um cora\u00e7\u00e3o que tem dois lados: o intimismo das rela\u00e7\u00f5es mas tamb\u00e9m a viol\u00eancia que vivenciamos diariamente na sociedade desde a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Basta ver o tratamento que policiais orientados pelas leis criadas por quem exerce o poder nacional, estadual ou municipal, usam para prender, constranger e violentar senhoras, idosos ou jovens que querem apenas estar num parque ou numa cal\u00e7ada para caminhar. S\u00e3o tratadas com a viol\u00eancia brutal, com fome e desigualdade brutal de renda, longe da cordialidade unilateral e pac\u00edfica.<\/p>\n<p>Mas como ironizava Cassiano Ricardo, respondendo a S\u00e9rgio Buarque, somos de uma cultura violenta, mas temos o costume de acabar nossas cartas cheias de diverg\u00eancias com as nossas &#8220;cordiais sauda\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*<strong>Carlos Michiles \u00e9 professor e escritor, com Ph.D em Ci\u00eancias Pol\u00edticas pela Universidade de Manchester (Inglaterra), mestre em Ci\u00eancias Pol\u00edticas pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB), com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es no M\u00e9xico e no Jap\u00e3o, e autor do livro &#8220;\u00c9tica e a Mis\u00e9ria da Pol\u00edtica&#8221; e fundador do PDT.<\/strong><\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continuando na guarda da quarentena, reassisti o filme &#8220;Get\u00falio&#8221;. 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