{"id":70246,"date":"2020-03-28T12:24:35","date_gmt":"2020-03-28T15:24:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=70246"},"modified":"2020-03-31T13:53:45","modified_gmt":"2020-03-31T16:53:45","slug":"brizola-levou-agua-para-o-povao-se-tivessem-continuado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/brizola-levou-agua-para-o-povao-se-tivessem-continuado\/","title":{"rendered":"Brizola levou \u00e1gua para o pov\u00e3o: se tivessem continuado&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Ainda bem que o Brizola tamb\u00e9m era engenheiro. Como governador do Estado do Rio, foi visitar o Guandu (a grande esta\u00e7\u00e3o de tratamento de \u00e1gua constru\u00edda para a abastecer de \u00e1gua a cidade do Rio e seu entorno), propagandeado desde sua constru\u00e7\u00e3o como a obra do s\u00e9culo; de iniciativa de um governador do ent\u00e3o Estado da Guanabara (hoje, Cidade do Rio de Janeiro), Carlos Lacerda \u2013 que antes se dedicava a fazer oposi\u00e7\u00e3o a governos progressistas e reformistas, com papel decisivo em duas crises: a de agosto de 1954, cujo desfecho foi o suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas, para preservara obra de seus dois governos e evitar uma guerra civil na qual morreriam muitos jovens brasileiros; e a de 1964, o golpe que derrubou o Presidente Jo\u00e3o Goulart e submeteu o Brasil a vinte anos de governo militar.<\/p>\n<p>Na condi\u00e7\u00e3o de engenheiro, Brizola verificou com facilidade que o Guandu \u2013 localizado junto \u00e0s divisas de duas cidades do antigo Estado do Rio: Itagua\u00ed e Nova Igua\u00e7u \u2013 fora projetado e constru\u00eddo para somente abastecer os bairros mais pobres e a periferia do Rio e a Baixada Fluminense depois de abastecidos os bairros influentes como, por exemplo, os da Zona Sul e a Tijuca.<\/p>\n<p>O que o engenheiro Brizola viu foi que as sa\u00eddas para as regi\u00f5es mais pobres ficavam em plano mais alto e s\u00f3 recebiam \u00e1gua depois das sa\u00eddas para as regi\u00f5es mais ricas e com o reservat\u00f3rio bem cheio. Quando o reservat\u00f3rio baixava de n\u00edvel, os bairros populares ficavam sem \u00e1gua.<\/p>\n<p>Esta verifica\u00e7\u00e3o de um planejamento discriminat\u00f3rio e criminoso pelo governo Carlos Lacerda levou Brizola a um grande esfor\u00e7o para levar \u00e1gua corrente \u00e0s regi\u00f5es prejudicadas do Grande Rio. Pouco antes de deixar seu segundo governo, em 1994, para iniciar sua segunda campanha de candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Brizola escreveu num de seus famosos tijola\u00e7os:<\/p>\n<p>\u2013 Quando, no in\u00edcio de meu Governo, buscava juntamente com o ent\u00e3o Secret\u00e1rio de Obras, o saudoso companheiro Bocayuva Cunha, solu\u00e7\u00f5es para levar \u00e1gua tratada para a Baixada e Zona Oeste, deparei-me com uma situa\u00e7\u00e3o discriminat\u00f3ria na estrutura do sistema Guandu, que hoje relato pela primeira vez. A \u00e1gua s\u00f3 chegava aos n\u00edveis da adutora que se dirige \u00e0 Baixada nos momentos de cheia do reservat\u00f3rio do sistema, que suporta um volume d\u2019\u00e1gua de 75 milh\u00f5es de litros. Assim mesmo, nos bairros daquelas regi\u00f5es que j\u00e1 t\u00eam redes de distribui\u00e7\u00e3o, a \u00e1gua s\u00f3 chegava raramente e em pequenas quantidades.<\/p>\n<p>\u2013 Buscamos, a partir da\u00ed, uma solu\u00e7\u00e3o justa socialmente e vi\u00e1vel do ponto de vista t\u00e9cnico. A alternativa era aumentar a quantidade de \u00e1gua tratada, ao mesmo tempo em que se deveria elevar a press\u00e3o na adutora da Baixada. Com o in\u00edcio das negocia\u00e7\u00f5es para despolui\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda de Guanabara, obtivemos, junto ao governo japon\u00eas, o financiamento da constru\u00e7\u00e3o da esta\u00e7\u00e3o de tratamento de esgotos de Alegria, no Caju, obra na qual a Caixa Econ\u00f4mica Federal dispunha-se a alocar recursos. Com isto, a CEF concordou em reverter estas verbas para o projeto Guandu, que absorveu um total de US$ 110 milh\u00f5es, divididos entre aquela institui\u00e7\u00e3o financeira e o Estado, atrav\u00e9s da Cedae.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1994 Brizola podia anunciar:<\/p>\n<p>\u2013 Inaugurei, na \u00faltima sexta-feira, a amplia\u00e7\u00e3o do sistema de capta\u00e7\u00e3o e da esta\u00e7\u00e3o de tratamento de \u00e1gua do Guandu: uma obra de vital import\u00e2ncia para o Rio de Janeiro, que vai permitir o envio de mais de 600 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua tratada para dezenas e dezenas de bairros populares da Baixada Fluminense e das zonas Oeste e Leopoldina, do Rio de Janeiro. Trata-se de um acr\u00e9scimo que, sozinho, equivale a toda a \u00e1gua processada pelos sistemas de cidades como Recife ou Porto Alegre. Agora, com a amplia\u00e7\u00e3o, o Guandu \u00e9 a segunda maior esta\u00e7\u00e3o de capta\u00e7\u00e3o e tratamento de \u00e1gua do mundo, s\u00f3 superada pela de Chicago, nos Estados Unidos. E, sobretudo, significa um ato de justi\u00e7a para com as popula\u00e7\u00f5es daquelas regi\u00f5es, onde \u00e9 captada a \u00e1gua que abastece o Rio de Janeiro e que n\u00e3o t\u00eam \u2013 ou t\u00eam precariamente \u2013 elas pr\u00f3prias garantido o fornecimento de \u00e1gua limpa.<\/p>\n<p>Foi uma luta longa e dura, como diria Brizola neste tijola\u00e7o:<\/p>\n<p>\u2013 Mesmo com todas as dificuldades e incertezas quanto \u00e0 disponibilidade de recursos, a tempo e a hora, determinei ao Secret\u00e1rio Bocayuva que iniciasse o projeto, garantindo que, na impossibilidade de aloca\u00e7\u00e3o de recursos diretos da Cedae, o pr\u00f3prio Tesouro Estadual cobriria as necessidades, tamanha era a significa\u00e7\u00e3o das obras. E que significa\u00e7\u00e3o! J\u00e1 no dia de hoje, estamos refor\u00e7ando o fornecimento de \u00e1gua para Nova Igua\u00e7u, S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, Caxias, Belford Roxo, Nil\u00f3polis, Queimados, Japeri, Engenheiro Pedreira e Austin, todos na Baixada Fluminense, beneficiando 1,2 milh\u00e3o de pessoas. Na Zona Oeste, 400 mil moradores dos bairros de Bangu, Realengo, Padre Miguel, Campo Grande, Sepetiba, Santa Cruz, Pedra e Barra de Guaratiba, Inhoa\u00edba e outras localidades v\u00e3o sentir, na medida em que o sistema for progressivamente colocado em opera\u00e7\u00e3o, a melhoria no abastecimento. Os bairros da Leopoldina \u2013 como Iraj\u00e1, Penha, Ramos, Bonsucesso, Olaria, Vila Kosmos etc. \u2013 v\u00e3o receber \u00e1gua para outras 400 mil pessoas. No total, s\u00e3o 2,2 milh\u00f5es de habitantes do Grande Rio que ter\u00e3o assegurado o acesso ao mais importante fator de sa\u00fade e higiene: \u00e1gua limpa.<\/p>\n<p>O resultado foi fant\u00e1stico e registrado por Brizola:<\/p>\n<p>\u2013 Para que isto fosse poss\u00edvel, estamos agregando uma quantidade de \u00e1gua tratada que, num \u00fanico dia, seria capaz de inundar at\u00e9 a altura do 7\u00ba andar dos pr\u00e9dios da Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, em toda a sua extens\u00e3o. E mais: com este acr\u00e9scimo, teremos \u00e1gua para abastecer os 1.240 quil\u00f4metros de rede de distribui\u00e7\u00e3o domiciliares que ser\u00e3o implantados com o programa de despolui\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda de Guanabara. As obras foram dimensionadas para permitir, com investimentos complementares, nos pr\u00f3ximos anos, a duplica\u00e7\u00e3o total do Guandu: isto \u00e9, a adu\u00e7\u00e3o de mais quase 3 milh\u00f5es de litro de \u00e1gua por dia para o Grande Rio. Ao mesmo tempo, estamos concluindo a concorr\u00eancia p\u00fablica para a amplia\u00e7\u00e3o, em 40%, do sistema Imunana\u2013Laranjal, permitindo o fornecimento di\u00e1rio de quase 200 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua para os munic\u00edpios do outro lado da Ba\u00eda \u2013 Niter\u00f3i, S\u00e3o Gon\u00e7alo e Itabora\u00ed \u2013, al\u00e9m da Ilha de Paquet\u00e1.<\/p>\n<p>Brizola temia que acontecesse com as obras do Guandu o mesmo que acontecia com outras duas prioridades de seu governo (e paix\u00f5es dele):<\/p>\n<p>\u2013 Durante quase tr\u00eas anos, conduzimos esta obra gigantesca quase em sil\u00eancio, sem grande divulga\u00e7\u00e3o. Tem\u00edamos que contra ela, como aconteceu com os Cieps e a Linha Vermelha, se levantassem as for\u00e7as poderosas que discriminam o Rio de Janeiro e, sobretudo, no af\u00e3 de atacar a mim, a meu governo e ao PDT, n\u00e3o vacilam em atingir e prejudicar os interesses e direitos essenciais do povo carioca e fluminense. Tenho a certeza de que agora, com sua entrada em opera\u00e7\u00e3o, grande parte da opini\u00e3o p\u00fablica deve ter se surpreendido com a magnitude do projeto.<br \/>\nContada a hist\u00f3ria, Brizola conclu\u00eda o tijola\u00e7o olhando para o futuro:<\/p>\n<p>\u2013 Este grande programa de abastecimento de \u00e1gua inspira-nos uma reflex\u00e3o sobre nosso Pa\u00eds. Est\u00e1 a\u00ed, no fornecimento de \u00e1gua limpa a toda a popula\u00e7\u00e3o, notadamente nos aglomerados urbanos, uma das chaves para os nossos graves problemas de sa\u00fade p\u00fablica. \u00c1gua limpa, alimenta\u00e7\u00e3o condigna e programas de vacina\u00e7\u00e3o s\u00e3o as pedras de toque da melhoria das condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade de nosso povo. Se todos os brasileiros tivessem acesso a estes direitos, estou convencido de que extirpar\u00edamos em 80% o quadro de doen\u00e7as e endemias que nos assola por toda parte. O que ocorre, por\u00e9m, \u00e9 o contr\u00e1rio. Educa\u00e7\u00e3o, saneamento p\u00fablico e os programas de natureza social s\u00e3o os primeiros a serem atingidos a cada surto de planos e pacotes econ\u00f4micos. As elites brasileiras vivem com suas mentes mergulhadas em cortes, ajustes, taxas, e mil artimanhas para manter o sistema econ\u00f4mico de espolia\u00e7\u00e3o. Desenvolvimento sustentado \u2013 investimento social; enfim, progresso voltado para o interesse e a vida da popula\u00e7\u00e3o \u2013 s\u00f3 poder\u00e1 ser obra de um governo independente, que rompa as cumplicidades e que coloque acima de tudo os reais interesses do povo brasileiro.<\/p>\n<p>Um quarto de s\u00e9culo depois, todas as televis\u00f5es no Brasil mostram o dia inteiro a impossibilidade, em favelas e bairros pobres, n\u00e3o s\u00f3 do Rio como tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo (e certamente em muitas outras cidades brasileiras), a impossibilidade para milhares de pessoas de lavar as m\u00e3os com frequ\u00eancia com \u00e1gua e sab\u00e3o, para se proteger do coronav\u00edrus e, obliquamente, proteger tamb\u00e9m de cont\u00e1gio os moradores dos bairros privilegiados, nos quais n\u00e3o falta \u00e1gua \u2013 nem sab\u00e3o.<\/p>\n<p>Se tivessem continuado o que Brizola come\u00e7ou, hoje estar\u00edamos enfrentando o coronav\u00edrus com melhores expectativas, tanto para o pov\u00e3o das favelas como para os moradores dos bairros privilegiados pelo projeto original do Guandu.<\/p>\n<p><strong><em>*Jos\u00e9 Augusto Ribeiro \u00e9 jornalista e escritor. Autor da trilogia \u201cA Era Vargas\u201d, o mais completo livro sobre a vida e obra do presidente Get\u00falio Vargas.<\/em><\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda bem que o Brizola tamb\u00e9m era engenheiro. Como governador do Estado do Rio, foi visitar o Guandu (a grande esta\u00e7\u00e3o de tratamento de \u00e1gua constru\u00edda para a abastecer de \u00e1gua a cidade do Rio e seu entorno), propagandeado desde sua constru\u00e7\u00e3o como a obra do s\u00e9culo; de iniciativa de um governador do ent\u00e3o Estado&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on wp_trim_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on wp_trim_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":70252,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1584,1390],"tags":[],"class_list":["post-70246","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-editorias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70246","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70246"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70246\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":70289,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70246\/revisions\/70289"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70252"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70246"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70246"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70246"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}