{"id":69959,"date":"2020-03-13T17:14:54","date_gmt":"2020-03-13T20:14:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=69959"},"modified":"2020-03-13T17:14:54","modified_gmt":"2020-03-13T20:14:54","slug":"por-uma-revisao-no-modelo-de-luta-dos-sindicatos-de-professores-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/por-uma-revisao-no-modelo-de-luta-dos-sindicatos-de-professores-no-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"Por uma revis\u00e3o no modelo de luta dos sindicatos de professores no s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<p>Diversas vezes tive a oportunidade de manifestar minha opini\u00e3o sobre o tema &#8220;greve de professores&#8221;, e em quase todas elas pare\u00e7o causar espanto ao sentenciar: sou contra este tipo de greve que estamos acostumados, em que professores paralisam suas atividades por tempo indeterminado. Embora possa existir circunst\u00e2ncias espec\u00edficas em que tal pr\u00e1tica seja justa, de maneira geral essa forma de resist\u00eancia e press\u00e3o no \u00e2mbito da Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica n\u00e3o est\u00e1 mais sincronizada com o nosso s\u00e9culo, com efeitos bem diverso daqueles pretendidos por esse movimento.<\/p>\n<p>As greves s\u00e3o instrumentos antigos de resist\u00eancias dos trabalhadores, sendo respons\u00e1veis por in\u00fameras conquistas hist\u00f3ricas, tanto trabalhistas como pol\u00edticas de forma mais ampla. Mudan\u00e7as de rela\u00e7\u00f5es legais, pol\u00edticas, econ\u00f4micas e culturais foram desencadeadas, ou consolidadas, a partir de movimentos grevistas simb\u00f3licos. A hist\u00f3ria est\u00e1 recheada desses momentos, como as greves que dera origem ao 1\u00ba de Maio ou ao Dia Internacional da Mulher, al\u00e9m daquelas nacionais, como as greves do ABC paulista no final da d\u00e9cada de 1970, t\u00e3o importantes no processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dizer sobre a import\u00e2ncia das greves na hist\u00f3ria parece criar um contrassenso com o posicionamento de rejei\u00e7\u00e3o desse instrumento para reivindica\u00e7\u00f5es nas escolas p\u00fablicas, embora esteja justamente nessa caracter\u00edstica (ser escola p\u00fablica) a grande diferen\u00e7a entre greves nos setores p\u00fablicos e greve nos setores privados. Talvez seja importante refor\u00e7ar que meu posicionamento de cr\u00edtica quanto \u00e0 greve n\u00e3o est\u00e1 no instrumento em si, mas nas diferen\u00e7as dos significados e efeitos entre o mundo produtivo privado e a oferta de servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>As greves s\u00e3o instrumentos importantes nas lutas de trabalhadores nos setores produtivos, principalmente privados, porque elas criam a urg\u00eancia da negocia\u00e7\u00e3o, basicamente porque a suspens\u00e3o do trabalho gera imediatamente preju\u00edzos economicamente quantific\u00e1veis. Por certo que outros preju\u00edzos podem ocorrer, mas ao suspender a produ\u00e7\u00e3o objetiva do valor de uma empresa (sua raz\u00e3o de ser), isso cria uma urg\u00eancia para a empresa finalizar as negocia\u00e7\u00f5es, portanto o tempo da greve atinge diretamente o empregador e o for\u00e7a a negociar sob a navalha da pressa ao retorno do trabalho.<\/p>\n<p>Esta rela\u00e7\u00e3o, contudo, \u00e9 completamente diferente no setor p\u00fablico, principalmente em rela\u00e7\u00e3o a escolas. Nessa circunst\u00e2ncia a rela\u00e7\u00e3o de preju\u00edzo do governo \u00e9 totalmente subjetiva, al\u00e9m do tempo de greve n\u00e3o o atingir diretamente enquanto &#8220;empregador&#8221;, mas apenas por via indireta. A falta de aulas n\u00e3o cria preju\u00edzo econ\u00f4mico algum ao governo (e no caso de descontos de dias paralisados, cria at\u00e9 economia), talvez apenas um m\u00ednimo preju\u00edzo simb\u00f3lico. O preju\u00edzo objetivo da paralisa\u00e7\u00e3o de professores \u00e9 sobre os alunos e respons\u00e1veis, os quais, em tese, ir\u00e3o repassar sua insatisfa\u00e7\u00e3o ao governo, fazendo-o ter uma urg\u00eancia na negocia\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de press\u00e3o por parte da &#8220;opini\u00e3o p\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<p>Acontece que essa &#8220;transfer\u00eancia&#8221; de press\u00e3o, via &#8220;opini\u00e3o p\u00fablica&#8221;, ao governo n\u00e3o ocorre, principalmente pela desarticula\u00e7\u00e3o e enfraquecimento dos coletivos organizados. A greve na escola p\u00fablica parece ser um evento rotineiro e esperado pelas comunidades e os governos, sendo sua causa atribu\u00edda cada vez mais aos professores. Soma-se a isso a dificuldade cada vez maior em conseguir ades\u00f5es dos professores ao movimento de greve, por raz\u00f5es das mais variadas, fazendo com que as paralisa\u00e7\u00f5es tendam sempre ao esvaziamento. Assim, ao contr\u00e1rio da greve no setor produtivo privado, na greve de professores p\u00fablicos o tempo de paralisa\u00e7\u00e3o est\u00e1 contra o trabalhador.<\/p>\n<p>Uma met\u00e1fora para ilustrar a rela\u00e7\u00e3o entre os governos e as greves na Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica poderia ser a de uma gripe, a qual se considera normal sua ocorr\u00eancia ao longo do ano, e que o governo j\u00e1 possui imunidades, restando, portanto, apenas o inconveniente de uma convalescen\u00e7a tempor\u00e1ria, mas sem grandes riscos. Desta forma, os verdadeiros custos da paralisa\u00e7\u00e3o recaem t\u00e3o somente sobre a comunidade, que sem a capacidade de o repassar para o governo e carecendo de consci\u00eancia pol\u00edtica, retornam sua insatisfa\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios professores. Essa rela\u00e7\u00e3o explica, em parte, um certo afastamento e desprest\u00edgio da profiss\u00e3o docente p\u00fablica frente \u00e0 comunidade, servindo de entrada para outros tipos de movimentos regulat\u00f3rios externos e de desvaloriza\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a greve da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica &#8220;sequestra&#8221; a comunidade escolar e espera do governo o resgate em forma de urg\u00eancia nas negocia\u00e7\u00f5es. Mas o governo est\u00e1 pouco se importando com o ref\u00e9m, eis que essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas \u00e9 in\u00f3cua em termos pr\u00e1ticos como eticamente duvidosa, j\u00e1 que usa uma sociedade j\u00e1 vitimada pelo governo como sacrif\u00edcio para reivindica\u00e7\u00f5es de uma classe de servidores p\u00fablicos. Isso pode soar estranho porque no ufanismo docente nossa profiss\u00e3o parece coberta de uma \u00e1urea imaculada e de puro reconhecimento do seu valor social. Mas talvez seja o momento de um choque de realidade, afinal, nos momentos de ang\u00fastia dos familiares que n\u00e3o t\u00eam onde deixar seus filhos, a escola \u00e9, t\u00e3o somente, uma institui\u00e7\u00e3o constitu\u00edda por funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Leia-se nesta \u00faltima express\u00e3o toda a carga sem\u00e2ntica dada culturalmente ao servidores do Estado, o que nos leva a perceber que talvez haja cada vez menos espa\u00e7o para o reconhecimento da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 verdade que as paralisa\u00e7\u00f5es possuem tamb\u00e9m um sentido simb\u00f3lico que n\u00e3o visam o &#8220;sequestro&#8221; para a negocia\u00e7\u00e3o, mas utilizam apenas o evento para mostrar o poder da mobiliza\u00e7\u00e3o de uma categoria, casos onde h\u00e1 a paralisa\u00e7\u00e3o de um dia e a concentra\u00e7\u00e3o dos profissionais para a manifesta\u00e7\u00e3o e a unifica\u00e7\u00e3o em torno de pautas. Estes epis\u00f3dios, diferente das greves indeterminadas, parecem mais promissores, desde que realmente ilustrem uma coes\u00e3o de grupo ou categoria. Quando um sindicato chama seus associados e estes respondem de forma massiva, isso representa um ganho fundamental no poder de negocia\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o destes trabalhadores. Ao contr\u00e1rio, uma greve com pouca ader\u00eancia \u00e9 o reconhecimento da falta de poder e relev\u00e2ncia do sindicato nas negocia\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es sobre pol\u00edticas que afetam a categoria, significando de fato sua desvaloriza\u00e7\u00e3o frente ao poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>Quando mencionei que as greves na Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica parecem anacr\u00f4nicas estava referindo a outros meios de mobiliza\u00e7\u00e3o e press\u00e3o, que podem efetivamente significar movimentos de lutas mais eficientes, f\u00e1ceis e adequados para amplia\u00e7\u00e3o do poder de barganha da classe docente. Em primeiro lugar, salienta-se que o poder de negocia\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 na sua capacidade de aglutinar e mobilizar for\u00e7as pela concentra\u00e7\u00e3o de pautas e discursos. Portanto, quanto maior a capacidade de um sindicato associar os membros de sua categoria, mant\u00ea-los identificados com sua lideran\u00e7a e replicar a &#8220;fala representativa institucional&#8221; a todos os seus membros, e dali para os demais setores da sociedade, maior a express\u00e3o de for\u00e7a e consequentemente o reconhecimento dos poderes que negociam as regras entre categoria e governo.<\/p>\n<p>Enquadram-se nestes mecanismos a unifica\u00e7\u00e3o de canais de comunica\u00e7\u00e3o direta entre organiza\u00e7\u00e3o sindical e associados. Busca ativa pela participa\u00e7\u00e3o de 100% dos membros da categoria, mesmo parecendo ut\u00f3pico. Mobiliza\u00e7\u00e3o da categoria para replica\u00e7\u00e3o de discursos e defesas de bandeiras que representem as demandas pautadas pelas delibera\u00e7\u00f5es do sindicato, dentro das comunidades ou em redes sociais virtuais. Inser\u00e7\u00e3o e reverbera\u00e7\u00e3o de pautas da categoria e consolida\u00e7\u00e3o de discursos nas v\u00e1rias outras representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sejam nos v\u00e1rios partidos pol\u00edticos, sejam em associa\u00e7\u00f5es culturais e outras formas de agremia\u00e7\u00f5es. Execu\u00e7\u00e3o de atos coordenados que manifestem centraliza\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es e amplitude nos efeitos das a\u00e7\u00f5es, mostrando a potencia da estrutura corporativa.<\/p>\n<p>Estas a\u00e7\u00f5es podem parecer, em um primeiro momento, pr\u00e1ticas insuficientes para produzir efeitos nas rela\u00e7\u00f5es de poder entre categoria e governo. Entretanto, devemos lembrar que as elei\u00e7\u00f5es de 2018, mais que qualquer outra no Brasil at\u00e9 o momento, mostrou como as redes sociais e a coordena\u00e7\u00e3o de discursos (seja pelo uso de fake news seja com o uso de rob\u00f4s) tiveram efeitos determinantes nos resultados das urnas. As novas ferramentas digitais e sua utiliza\u00e7\u00e3o na engenharia social \u00e9 fato consumado neste novo s\u00e9culo, motivo pelo qual urge uma mudan\u00e7a de mentalidade nas estrat\u00e9gias de combate pol\u00edtico, principalmente para os professores p\u00fablicos. Aqueles que, em 2020, acreditam que v\u00e3o mobilizar a categoria somente com panfletos de papel e com megafone na frente da escola, ainda n\u00e3o sa\u00edram do s\u00e9culo XX e n\u00e3o conseguem dimensionar a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em que vivemos e as mudan\u00e7as sutis nos par\u00e2metros de valores das lutas sociais.<\/p>\n<p>As ferramentas digitais nos combates pol\u00edticos significam uma ruptura de paradigma, uma tecnologia determinante para o resultado dos embates comparado \u00e0 inser\u00e7\u00e3o da p\u00f3lvora nas guerras. Nos \u00faltimos anos assistimos inertes ao efeito devastador que algumas dezenas de youtubers promoveram na organiza\u00e7\u00e3o de movimentos conservadores, conseguindo medir for\u00e7as com entidades como a pr\u00f3pria UNE, que congregam milh\u00f5es de estudantes, refor\u00e7ando a l\u00f3gica hist\u00f3rica de que poucos bem instrumentalizados podem enfrentar muitos desarticulados. Dominar a tecnologia digital e retomar a gest\u00e3o das redes (virtuais ou pessoais) que formam a for\u00e7a de um sindicato \u00e9 essencial para o fortalecimento da categoria e para reconquistar o poder de luta em nossa sociedade, garantir direitos e avan\u00e7ar em reivindica\u00e7\u00f5es mais justas para a Educa\u00e7\u00e3o e seus profissionais.<\/p>\n<p><em>*Renato Avellar de Albuquerque \u00e9 mestre em educa\u00e7\u00e3o, professor da rede municipal de Canoas-RS, t\u00e9cnico em Assuntos Educacionais no IFRS-PoA e Secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o do MCDR-RS.<\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diversas vezes tive a oportunidade de manifestar minha opini\u00e3o sobre o tema &#8220;greve de professores&#8221;, e em quase todas elas pare\u00e7o causar espanto ao sentenciar: sou contra este tipo de greve que estamos acostumados, em que professores paralisam suas atividades por tempo indeterminado. 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