{"id":67672,"date":"2019-08-29T17:01:45","date_gmt":"2019-08-29T20:01:45","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=67672"},"modified":"2019-08-29T17:05:32","modified_gmt":"2019-08-29T20:05:32","slug":"o-ministerio-do-trabalho-e-a-soberania-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/o-ministerio-do-trabalho-e-a-soberania-nacional\/","title":{"rendered":"O Minist\u00e9rio do Trabalho e a Soberania Nacional"},"content":{"rendered":"<p>Quando indagado por um jornalista a respeito da \u201cquest\u00e3o oper\u00e1ria\u201d, o \u00faltimo presidente da Rep\u00fablica Velha \u2013 Washington Lu\u00eds \u2013 respondeu que ela era mais uma quest\u00e3o de ordem p\u00fablica do que uma quest\u00e3o social. Trocando em mi\u00fados, sua opini\u00e3o era bastante clara: a quest\u00e3o social era caso de pol\u00edcia. O cora\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 foi o Minist\u00e9rio do Trabalho, chamado por Get\u00falio Vargas de \u201cMinist\u00e9rio Revolucion\u00e1rio\u201d e sua fun\u00e7\u00e3o foi justamente corporificar na estrutura do Estado a quest\u00e3o social. Um olhar detido na Hist\u00f3ria Brasileira mostra que \u00e9 imposs\u00edvel separar a quest\u00e3o social da quest\u00e3o nacional. Por isso, a extin\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho n\u00e3o pode ser apartada do projeto de recoloniza\u00e7\u00e3o do Brasil perpetuado pelo governo de Bolsonaro.<\/p>\n<p>Nascemos enquanto Na\u00e7\u00e3o como uma plataforma de produ\u00e7\u00e3o de produtos tropicais para os grandes imp\u00e9rios mar\u00edtimos da Europa. Nossos conquistadores portugueses eram oriundos de um pequeno reino despovoado, cuja independ\u00eancia era constantemente amea\u00e7ada pela ambi\u00e7\u00e3o espanhola de dominar toda a pen\u00ednsula ib\u00e9rica. Foi o a\u00e7\u00facar e mais tarde o ouro produzido pelo Brasil que asseguraram a renda necess\u00e1ria para a manuten\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia de Portugal, pagando as despesas de seu Estado moderno e de sua Marinha extremamente bem equipada. Como foi poss\u00edvel para esse pequena monarquia produzir o impressionante volume de produtos tropicais em um pa\u00eds continental do porte do Brasil? A resposta foi a escravid\u00e3o negra e ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Fachada do Minist\u00e9rio do Trabalho em Bras\u00edlia (DF)<br \/>\nDurante a col\u00f4nia, no ciclo a\u00e7ucareiro, o n\u00facleo mais din\u00e2mico da economia brasileira estava na zona da mata no nordeste. Como pouco era produzido no Brasil al\u00e9m dos produtos tropicais requeridos por nossa metr\u00f3pole, o senhor de engenho, o capit\u00e3o da ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar, dependia da importa\u00e7\u00e3o de maquinarias para o engenho, armas, escravos africanos e at\u00e9 mesmo o cal para a constru\u00e7\u00e3o civil. Tudo era fornecido pelo mercador lusitano na forma de empr\u00e9stimos, pagos posteriormente com mela\u00e7o de cano. Assim eram os grilh\u00f5es que mantinham o Brasil como Col\u00f4nia do imp\u00e9rio lusitano. A escravid\u00e3o ind\u00edgena foi relativamente marginal no Brasil, florescendo nos rinc\u00f5es mais distantes do capital comercial dos mercadores portugueses. Contudo, desempenhou um papel central no desbravamento do territ\u00f3rio do Brasil Profundo e na descoberta do ouro em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na col\u00f4nia e no Imp\u00e9rio, a quest\u00e3o social do Brasil esteve nas m\u00e3os da Igreja. Foram os Jesu\u00edtas que educaram os \u00edndios e os protegeram parcialmente da escravid\u00e3o. A Igreja tamb\u00e9m procurava colocar limites na crueldade desenfreada da escravid\u00e3o negra, como testemunham os Serm\u00f5es do Padre Ant\u00f4nio Vieira. Do outro lado, a for\u00e7a dos quilombos como de Zumbi dos Palmares e da resist\u00eancia ind\u00edgena como os manauaras liderados por Ajuricaba impunham severas derrotas a sanha descontrolada dos colonizadores.<\/p>\n<p>O capitalismo mundial atravessava profundas contradi\u00e7\u00f5es no final do s\u00e9culo XIX. Na Europa, a moderna maquinaria trouxe um n\u00edvel civilizat\u00f3rio nunca antes visto na humanidade. Contudo, a tend\u00eancia da maquinaria industrial cada vez mais sofisticada em poupar m\u00e3o-de-obra fez com que o fantasma do desemprego assombrasse as grandes pot\u00eancias europeias. Sem conseguir escoar seus produtos no mercado interno cuja renda do trabalho estava sempre declinante, os grandes capitalistas se viram obrigados a usar seus Estados para criar vastos imp\u00e9rios globais para absorver essa oferta insaci\u00e1vel. Desse modo, a Fran\u00e7a abocanhou peda\u00e7os enormes do norte da \u00c1frica e do Sudeste Asi\u00e1tico, al\u00e9m de outras regi\u00f5es, e o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico tornou-se t\u00e3o colossal que o sol nunca se punha em seu imenso territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>O Brasil do final do Imp\u00e9rio n\u00e3o passou inc\u00f3lume por essas transforma\u00e7\u00f5es. Era o auge do ciclo do caf\u00e9 e m\u00e3o-de-obra escrava j\u00e1 n\u00e3o era mais t\u00e3o din\u00e2mica. Aos poucos, foram substitu\u00eddos pelos imigrantes expelidos da Europa pela industrializa\u00e7\u00e3o. Os descendentes dos escravos se viram expulsos das terras que haviam enriquecido, sem indeniza\u00e7\u00e3o ou qualquer tipo de aux\u00edlio. A gritante quest\u00e3o social apareceu nos enfurecidos escritos dos abolicionistas que enxergaram a injusti\u00e7a daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Impedir a industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil sempre foi um imperativo das pot\u00eancias imperialistas. Na col\u00f4nia, Marqu\u00eas de Pombal chegou a proibir a manufatura. Especializando-se em consumir manufaturados estrangeiros e exportar bens prim\u00e1rios, o Brasil se viu preso em um ciclo vicioso, em que n\u00e3o conseguia criar mercado interno, pois nosso povo praticamente n\u00e3o tinha renda dado a escassez de trabalho industrial, ao mesmo tempo em que dependia crescentemente dos bens industrializados oriundos da Europa.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto de crise mundial e de crise no Brasil. que surge a Alian\u00e7a Liberal capitaneada por Get\u00falio Vargas. Em seu famoso discurso na Esplanada do Castelo no Rio de Janeiro, Get\u00falio responde a Washington Lu\u00eds dizendo que a quest\u00e3o social n\u00e3o era caso de pol\u00edcia. Ao assumir a chefia do Governo Provis\u00f3rio ap\u00f3s a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de outubro de 1930, um de seus primeiros atos foi a cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho, apelidado de \u201cMinist\u00e9rio Revolucion\u00e1rio\u201d. Get\u00falio aprofunda e estende os direitos trabalhistas de algumas categorias duramente conquistados pelo movimento sindical na Rep\u00fablica Velha para a universalidade dos trabalhadores urbanos. Sua inten\u00e7\u00e3o era estend\u00ea-las tamb\u00e9m aos trabalhadores rurais em conjunto com a reforma agr\u00e1ria, mas a complexa conjuntura brasileira da \u00e9poca impediu que seu sonho se concretizasse.<\/p>\n<p>Os sindicatos, severamente reprimidos na Rep\u00fablica Velha, passaram a contar com prote\u00e7\u00e3o do Estado para seu funcionamento. Lindolfo Collor, o primeiro Ministro do Trabalho, e o socialista Joaquim Pimenta, que havia sido militante sindical nos anos 20 em Pernambuco, lan\u00e7aram as bases normativas do que viria a ser a estrutura sindical brasileira por quase 100 anos. L\u00e1 estavam a contribui\u00e7\u00e3o e a unicidade sindical, pedras angulares da coes\u00e3o dos trabalhadores em suas lutas contra os patr\u00f5es. A Justi\u00e7a do Trabalho, na \u00e9poca com ju\u00edzes classistas eleitos em parte pelos sindicatos, tornou-se o canal para efetivar as demandas da quest\u00e3o social no Brasil. Corporificava-se, assim, nas entranhas do Estado, o poder da classe trabalhadora organizada.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o trabalhista foi o grande feito desse per\u00edodo. Se antes a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do Brasil era praticamente desenfreada, o povo brasileiro contava com limites em sua jornada de trabalho e f\u00e9rias remuneradas, universalmente garantidas a todos os trabalhadores urbanos. Nesse mesmo sentido, foram regulamentados o trabalho noturno e o trabalho feminino e proibido o trabalho infantil.<\/p>\n<p>A Lei do Sal\u00e1rio M\u00ednimo, talvez a maior conquista isoladamente considerada, garantia uma exist\u00eancia digna acima do patamar da mis\u00e9ria para o trabalhador brasileiro, ao mesmo tempo em que rompia com mais um grilh\u00e3o da coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil: criou-se um din\u00e2mico mercado interno no pa\u00eds. O trabalhador com renda podia consumir os bens produzidos no pa\u00eds e o empres\u00e1rio interessado no desenvolvimento nacional encontrava demanda interna no Brasil, n\u00e3o mais contando somente com a via da exporta\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios para obter lucros. Quebrava-se um ciclo vicioso secular.<\/p>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia Social a partir da gest\u00e3o de Agamenon Magalh\u00e3es no Minist\u00e9rio Revolucion\u00e1rio nos anos 30 universalizou para todos os trabalhadores urbanos o direito \u00e0 aposentadoria, at\u00e9 ent\u00e3o restrito a determinadas categorias. Tamb\u00e9m foram estabelecidas as indeniza\u00e7\u00f5es pelos acidentes de trabalho. Mitigava-se, assim, a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalhador brasileiro, marca indel\u00e9vel de nossa condi\u00e7\u00e3o colonial, que tinha que fornecer excedentes extraordin\u00e1rios para as pot\u00eancias imperialistas desde os tempos da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem o desenvolvimento da ind\u00fastria nacional, a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e as conquistas do Minist\u00e9rio Revolucion\u00e1rio jamais teriam prosperado. Aproveitando-se da tempestuosa conjuntura internacional dos anos 30, Get\u00falio Vargas, por meio de uma genial pol\u00edtica diplom\u00e1tica pendular, for\u00e7a os Estados Unidos a ceder tecnologia para o Brasil e os pa\u00edses europeus \u2013 sobretudo o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico \u2013 a abrir m\u00e3o da posse sobre nossas mineradoras e ferrovias. Surgem assim a Companhia Vale do Rio Doce e Companhia Sider\u00fargica Nacional, as bases sobre as quais se edificar\u00e1 a cadeia industrial do Brasil.<\/p>\n<p>Com a reorienta\u00e7\u00e3o mundial da Guerra Fria, a independ\u00eancia do Brasil come\u00e7ou a amea\u00e7ar os interesses dos Estados Unidos para a Am\u00e9rica Latina. \u00c9 assim que o imp\u00e9rio estadunidense, utilizando-se do aparato militar internacional montado na Segunda Guerra Mundial, patrocinou um golpe de Estado contra Get\u00falio Vargas em 1945 que contou com o apoio da elite agroexportadora conservadora. A estrutura sindical entendeu perfeitamente o que se passava naquele momento e apoiou o movimento \u201cqueremista\u201d. At\u00e9 mesmo proeminentes figuras que haviam sido oposi\u00e7\u00e3o ao governo de Vargas como Lu\u00eds Carlos Prestes passaram a apoi\u00e1-lo frente a restaura\u00e7\u00e3o conservadora que se formava com o brigadeiro Eduardo Gomes. O v\u00ednculo que unia a quest\u00e3o nacional \u00e0 quest\u00e3o social mostrava-se cristalino na luta sindical.<\/p>\n<p>Em 1951, Get\u00falio Vargas volta ao poder nos bra\u00e7os do povo. \u00c9 um per\u00edodo de forte industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds com a cria\u00e7\u00e3o de importantes alicerces da cadeia industrial brasileira como a Petrobras e a Eletrobras. No entanto, a contradi\u00e7\u00e3o mais importante do Brasil, a depend\u00eancia da importa\u00e7\u00e3o de manufaturados, ainda estava l\u00e1. Em conjunto com a remessa de lucros pelas empresas transnacionais, essas v\u00e1lvulas de suc\u00e7\u00e3o das riquezas do povo brasileiro comprometiam nossa balan\u00e7a de pagamentos, o que levou \u00e0 infla\u00e7\u00e3o. O movimento sindical constr\u00f3i a greve dos 300 mil, alterando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e permitindo que o ministro do Trabalho \u00e0 \u00e9poca \u2013 Jo\u00e3o Goulart \u2013 aumentasse o sal\u00e1rio-m\u00ednimo em 100%. Durante todo o governo Dutra, o sal\u00e1rio-m\u00ednimo n\u00e3o havia sido reajustado sequer uma vez. A medida foi vista como um desafio imediato ao FMI e outros organismos imperialistas que se sentiram ultrajados. Mais uma vez o Minist\u00e9rio do Trabalho protagonizou a luta pela soberania do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O governo radical, popular e nacionalista de Get\u00falio Vargas foi um desafio maior do que os interesses imperialistas podiam tolerar. Em conluio com os setores mais conservadores da elite brasileira, arma-se mais um golpe de Estado visando aniquilar os esteios da luta anti-imperialista. Por amor \u00e0 na\u00e7\u00e3o, Get\u00falio tira sua vida e entra na hist\u00f3ria. O cerne da carta-testamento que Get\u00falio legou ao povo brasileiro \u00e9 o v\u00ednculo que une a espolia\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e0 espolia\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n<p>Sobre os alicerces industriais deixados por Vargas, o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek expande a produ\u00e7\u00e3o manufatureira do Brasil pela substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A estrutura sindicalista brasileira cresce junto do sistema industrial brasileiro. No governo de Jo\u00e3o Goulart, o Minist\u00e9rio do Trabalho adquire uma import\u00e2ncia ainda maior em raz\u00e3o da press\u00e3o inflacion\u00e1ria causada pela Remessa de Lucros cuja regulamenta\u00e7\u00e3o havia custado a vida de Get\u00falio. Os ajustes do sal\u00e1rio-m\u00ednimo eram parte integral das Reformas de Base, que contemplavam a extens\u00e3o dos direitos trabalhistas ao campo por meio do Estatuto do Trabalhador Rural. As Reformas atacavam o cora\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o colonial brasileira, defendendo a que o excedente econ\u00f4mico brasileiro permanecesse no pa\u00eds para a forma\u00e7\u00e3o de meios de produ\u00e7\u00e3o nacionais e combatendo a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalhador agr\u00edcola, fundamental para nossa manuten\u00e7\u00e3o como meros exportadores de commodities.<\/p>\n<p>Mais uma vez a independ\u00eancia do Brasil incomodou os Estados Unidos que baixou sua pesada m\u00e3o na forma de um golpe de Estado. Setores dos militares tra\u00edram o Brasil e se apossaram do poder por d\u00e9cadas. Entretanto, a estrutura combativa da classe trabalhadora deixada por Get\u00falio Vargas mostrou-se fundamental na dupla luta pela soberania nacional e pela quest\u00e3o social. As greves de Contagem e Osasco foram a express\u00e3o da batalha contra o arrocho salarial que visava engordar os lucros das transnacionais.<\/p>\n<p>Na redemocratiza\u00e7\u00e3o, a estrutura do Minist\u00e9rio do Trabalho revelou-se fundam<\/p>\n<p>ental na luta contra o moribundo regime militar. Com o retorno do fantasma da infla\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds em raz\u00e3o da crise mundial do d\u00f3lar nos anos 70, o Novo Sindicalismo foi o protagonista na mobiliza\u00e7\u00e3o pela recomposi\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, desidratados pela escalada de pre\u00e7os. Embora criticada, a unicidade e a contribui\u00e7\u00e3o sindical foram importantes instrumentos para a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em um momento crucial de nossa hist\u00f3ria. Foram em parte gra\u00e7as a esses institutos que os trabalhadores puderam protagonizar a luta pelas Diretas J\u00e1.<\/p>\n<p>Os anos 90 foram marcados pelo neoliberalismo e o consequente ataque ao Minist\u00e9rio do Trabalho. O fim dos ju\u00edzes classistas foi um duro golpe desferido contra a Justi\u00e7a do Trabalho. As greves foram fundamentais na luta contra as privatiza\u00e7\u00f5es, com destaque para a mobiliza\u00e7\u00e3o dos petroleiros em 1994. No entanto, a desindustrializa\u00e7\u00e3o a partir da abertura desenfreada da economia brasileira no governo Collor come\u00e7ou a minar o alicerce industrial do sindicalismo brasileiro.<\/p>\n<p>Nos governos Lula e Dilma, a estrutura varguista do Minist\u00e9rio do Trabalho foi a coluna vertebral da mais importante conquista dos trabalhadores nesse per\u00edodo: a valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio-m\u00ednimo acima da infla\u00e7\u00e3o. O aumento no poder de compra da classe trabalhadora foi central para a prosperidade econ\u00f4mica percebida nesses anos por causa do aquecimento do mercado interno. Contudo, como \u00e9 uma constante em nossa hist\u00f3ria, a soberania econ\u00f4mica do Brasil \u2013 mesmo hesitante \u2013 foi suficiente para despertar a ira do imp\u00e9rio estadunidense, que patrocinou mais um golpe de Estado no Brasil.<\/p>\n<p>O capitalismo mundial mais uma vez aproxima-se de uma grande encruzilhada. O modelo financista de acumula\u00e7\u00e3o esgotou-se e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma solu\u00e7\u00e3o a vista para os pa\u00edses de primeiro mundo. Por isso, h\u00e1 um recrudescimento do imperialismo na forma de guerras h\u00edbridas que objetivam destruir os alicerces da soberania econ\u00f4mica nos pa\u00edses de terceiro mundo. A tomada do petr\u00f3leo nacional, a entrega da Embraer, o ataque judicial \u00e0 tecnologia da constru\u00e7\u00e3o civil brasileira, o ataque a nosso setor nuclear e a privatiza\u00e7\u00e3o criminosa de nossas riquezas nacionais s\u00e3o parte integrante do desespero dos pa\u00edses centrais. Sem o excedente econ\u00f4mico extra\u00eddo dos Trabalhadores do Brasil, sua hegemonia periga perecer.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a Reforma Trabalhista, a Terceiriza\u00e7\u00e3o Irrestrita e a Destrui\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia surgem como expedientes para garantir que as riquezas geradas pelos Trabalhadores do Brasil sejam sugadas pelas perdas internacionais. O fim do Minist\u00e9rio do Trabalho \u2013 o Minist\u00e9rio Revolucion\u00e1rio \u2013 tem por objetivo desorganizar a classe trabalhadora, como ficou patente na extin\u00e7\u00e3o da contribui\u00e7\u00e3o sindical. Not\u00edcias veiculadas pela m\u00eddia apontam que o governo lesa-p\u00e1tria de Bolsonaro tem agora a unicidade sindical na sua mira. Trata-se de um claro projeto de desmantelamento do \u00f3rg\u00e3o que corporifica a quest\u00e3o social no Estado brasileiro \u2013 mais uma vez revelando, tal como na Carta Testamento de Vargas, a indissociabilidade da quest\u00e3o social da quest\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>O modelo financista de valoriza\u00e7\u00e3o do capital imposto ao Brasil deixa um legado de destrui\u00e7\u00e3o no tecido social brasileiro. A superexplora\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a explora\u00e7\u00e3o do trabalho a um grau que n\u00e3o permite a reprodu\u00e7\u00e3o social do trabalhador e sua fam\u00edlia a um n\u00edvel normal, voltou a crescer na forma de novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho irregulares. Os subocupados, trabalhadores que for\u00e7osamente desempenham atividade remunerada por menos do que 40 horas semanais, tiveram um salto de pouco mais de 4 milh\u00f5es de brasileiros no final de 2015 para mais de 7 milh\u00f5es no segundo trimestre de 2019[1]. Embora a taxa de desemprego apresente uma leve redu\u00e7\u00e3o desde o pico de 13,1% no final de 2016 para 12% no segundo trimestre desse ano, os dados do Caged apontam que a maioria dos postos de trabalho foram criados na informalidade. No trimestre m\u00f3vel encerrado em janeiro deste ano[2], a expans\u00e3o da quantidade de trabalhadores ocupados por conta pr\u00f3pria foi de 3,1% e os assalariados sem carteira assinada no setor privado aumentaram em 2,9%, enquanto os trabalhadores com carteira assinada no setor privado tiveram recuo de 1,1%. Al\u00e9m disso, dos postos de trabalho formal gerados entre abril de 2018 a janeiro de 2019, 23% foram em regime parcial ou intermitente. O desalento, a desist\u00eancia do trabalhador em buscar emprego, explodiu de cerca de 1% da popula\u00e7\u00e3o em idade ativa para quase 3%, revelando o grau de desgaste do mercado de trabalho nacional.<\/p>\n<p>A uberiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do Brasil \u00e9 a faceta mais moderna desse processo de desmantelamento de nossas institui\u00e7\u00f5es trabalhistas. Transnacionais conseguiram monopolizar at\u00e9 mesmo segmentos do mercado informal brasileiro por meio de aplicativos de celular, extraindo mais-valor de sujeitos travestidos de empres\u00e1rios que procuram valorizar a si mesmos como se fossem um capital aut\u00f4nomo, aumentando os acidentes de trabalho e de tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p>Esse retrocesso na estrutura do mercado de trabalho brasileiro n\u00e3o pode ser dissociado de um projeto de recoloniza\u00e7\u00e3o corporificado na desindustrializa\u00e7\u00e3o do Brasil. Entre 1984 e 2018, a participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria brasileira no PIB recuou de 27,3% para 11,3%[3]. Restaura-se o ciclo vicioso de depend\u00eancia por manufaturados e diminuto mercado interno que havia mantido o Brasil em uma posi\u00e7\u00e3o subordinada no mercado mundial antes da Era Vargas.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio do Trabalho \u2013 o Minist\u00e9rio Revolucion\u00e1rio de Vargas \u2013 \u00e9 o vinculo que une a prosperidade do povo brasileiro com nossa emancipa\u00e7\u00e3o enquanto Na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar o esgar\u00e7amento do tecido social do Brasil e a correlata piora na qualidade de vida do nosso povo da recoloniza\u00e7\u00e3o de nosso pa\u00eds expressa na desindustrializa\u00e7\u00e3o imposta pelo modelo financista de acumula\u00e7\u00e3o capitalista. \u00c9 nesse sentido que o Projeto Nacional de Desenvolvimento proposto por Ciro Gomes \u00e9 muito mais do que um programa de governo. Ele \u00e9 o instrumento de autoconhecimento de um povo, diagnosticando os problemas da financeiriza\u00e7\u00e3o no Brasil e o grito rebelde dos Trabalhadores do Brasil clamando pela industrializa\u00e7\u00e3o de nosso pa\u00eds. Precisamos voltar a pensar o Brasil estrategicamente.<\/p>\n<p>*Presidente da Central dos Sindicatos Brasileiro (CSB) e do Diret\u00f3rio Municipal do PDT de S\u00e3o Paulo;<\/p>\n<p>**Coordenador do Tutor Trabalhista do PDT de S\u00e3o Paulo e graduado em Ci\u00eancia Sociais pela FFLCH\/USP;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando indagado por um jornalista a respeito da \u201cquest\u00e3o oper\u00e1ria\u201d, o \u00faltimo presidente da Rep\u00fablica Velha \u2013 Washington Lu\u00eds \u2013 respondeu que ela era mais uma quest\u00e3o de ordem p\u00fablica do que uma quest\u00e3o social. Trocando em mi\u00fados, sua opini\u00e3o era bastante clara: a quest\u00e3o social era caso de pol\u00edcia. O cora\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on wp_trim_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on wp_trim_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":67673,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1584,1390],"tags":[],"class_list":["post-67672","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-editorias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67672","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=67672"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67672\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":67676,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67672\/revisions\/67676"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/67673"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=67672"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=67672"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=67672"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}