{"id":66998,"date":"2019-07-23T12:12:13","date_gmt":"2019-07-23T15:12:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=66998"},"modified":"2019-07-23T12:15:05","modified_gmt":"2019-07-23T15:15:05","slug":"jango-era-bom-demais-para-ser-presidente-da-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/jango-era-bom-demais-para-ser-presidente-da-republica\/","title":{"rendered":"\u201cA reforma agr\u00e1ria, defendida por Jo\u00e3o Goulart, \u00e9 uma necessidade no Brasil\u201d"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista \u00cdndio Vargas \u2013 que conheceu Jango na casa da m\u00e3e dele, dona Vicentina Marques Goulart, na Rua 24 de outubro em Porto Alegre \u2013 guarda dele a imagem de uma pessoa muito afetiva, acolhedora, generosa. Entre outras lembran\u00e7as, recorda que no final de uma coletiva com cinco ou seis jornalistas, em Porto Alegre, entre eles Abdias Silva, do Correio do Povo; j\u00e1 no final, com os assuntos esgotados, Jango disse que precisava sair para acertar a venda de um carro que comprara e n\u00e3o gostara. <\/p>\n<p>Abdias perguntou: \u201cVai vender? Pois me proponho a comprar\u201d. Sabia que Jango n\u00e3o cobraria caro; venderia a pre\u00e7o justo. Explicou que tinha carro, mas estava velho e precisava de um mais novo. Jango respondeu: \u201cPodemos conversar\u201d. Dias depois encontrei Abdias e perguntei: \u201cCompraste o carro do Jango?\u201d Ele respondeu: \u201cQuando ele me deu o pre\u00e7o, disse que pagaria 50% \u00e0 vista e, em 30 dias, os outros 50%. Ele me disse: Pois n\u00e3o vais dar nada; vou te dar o carro de presente. E deu\u201d. <\/p>\n<p>\u00cdndio Vargas lembra tamb\u00e9m que quando entrevistou Jango no ex\u00edlio, pela primeira vez, ele morava em um hotel de Montevid\u00e9u. Depois, soube que Jango comprou o hotel e abrigou nele todos os brasileiros pobres e acossados, como ele, pela ditadura. O hotel ficou cheio at\u00e9 ele ser obrigado a se mudar, como outros exilados, para a Argentina \u2013 por conta da ditadura tamb\u00e9m instalada no Uruguai. <\/p>\n<p>Antes de o ex\u00edlio, sem alarde, Jango ajudava com alimentos o sustento de muitas fam\u00edlias pobres da periferia de S\u00e3o Borja, acrescentou. <br \/> No Minist\u00e9rio do Trabalho de Get\u00falio Vargas, Jango se dedicou intensamente \u00e0s suas tarefas, porque se identificava com a pol\u00edtica de Vargas de prote\u00e7\u00e3o ao trabalhador. \u201cAfinal fomos o \u00faltimo pa\u00eds do mundo a libertar os escravos\u201d, dizia ao defender a import\u00e2ncia da cria\u00e7\u00e3o da CLT e das regras para o mundo do trabalho.<\/p>\n<p>\u00cdndio Vargas, na \u00e9poca da Legalidade, trabalhava no Di\u00e1rio de Not\u00edcias. E lembra que um dia ao descer do bonde na Rua da Praia, no Centro de Porto Alegre, para ir ao Pal\u00e1cio do Piratini, soube da ren\u00fancia do presidente J\u00e2nio Quadros. Primeiro falaram em deposi\u00e7\u00e3o pelos militares, depois soube que era ren\u00fancia. Quando chegou em pal\u00e1cio, lembra bem, o Piratini estava fervendo porque Brizola n\u00e3o acreditava em ren\u00fancia; e n\u00e3o parava de ligar, ligar, para saber o que realmente acontecera. At\u00e9 que conseguiu falar com o secret\u00e1rio de imprensa de J\u00e2nio, o jornalista Carlos Castello Branco, e se convencer de que era mesmo ren\u00fancia. <\/p>\n<p>\u201cMinha participa\u00e7\u00e3o na Legalidade foi de jornalista: a de divulgar os fatos\u201d, define \u00cdndio. <\/p>\n<p>Mas logo em seguida veio o veto militar \u00e0 posse de Jango, que estava na China \u2013 e a rea\u00e7\u00e3o de Brizola ao veto, fatos que desencadearam a Legalidade. \u201cOs militares quiseram atribuir \u00e0 presen\u00e7a de Jango na China um cambalacho de arruma\u00e7\u00e3o: um acerto entre Brasil e China para comunizar o Brasil. Como se fosse poss\u00edvel o Brasil, hoje um pa\u00eds com mais de 200 milh\u00f5es de habitantes, se tornar comunista unicamente por conta de uma conversa de beltrano com fulano. O Brasil, que n\u00e3o entende o que \u00e9 comunismo; se compreendesse a\u00ed mesmo \u00e9 que n\u00e3o aceitaria, reagiu contra o golpe\u201d, frisou \u00cdndio Vargas. <\/p>\n<p>Em 1964 foi diferente. Lembrou que Dom Evaristo Arns conta, em um dos seus livros, que quando era um simples capel\u00e3o do Ex\u00e9rcito, fez quest\u00e3o de se juntar \u00e0s tropas que marcharam de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro, para derrubar Jango. Ele temia o enfrentamento, as mortes, o conflito. Quando chegou na divisa de Minas com o Rio de Janeiro, ele assistiu a tudo, viu os militares dos dois lados conversando, rindo, constatou que n\u00e3o haveria hostilidade, nenhum tiro foi disparado. Ele voltou para S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o parlamentarista que garantiu a posse de Jango, em sua opini\u00e3o, foi s\u00f3 um arranjo pol\u00edtico, \u201cum parlamentarismo de araque\u201d. Se Tancredo Neves tivesse pousado em Porto Alegre quando saiu do Rio para conversar com Jango em Montevid\u00e9u, antes da posse, acredita, teria sido preso por Brizola. Segundo \u00cdndio da Costa, no Rio Grande do Sul ningu\u00e9m gostou da solu\u00e7\u00e3o parlamentarista: havia disposi\u00e7\u00e3o de lutar e resistir ao golpe dos militares. \u201cSe Brizola teria for\u00e7as para enfrentar os reacion\u00e1rios que estavam h\u00e1 tempos trabalhando pelo golpe, sinceramente, n\u00e3o sei\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Jango no governo, lembra, montou um minist\u00e9rio altamente preparado \u2013 \u201cum esquema muito bom\u201d \u2013, preocupado em fazer o Brasil avan\u00e7ar. \u201cLembro que nesta \u00e9poca, em um churrasco em S\u00e3o Borja, na casa do Jango, j\u00e1 presidente, conversando com o prefeito de Dom Pedrito: um homem muito rico, um homem bom. Resolvi ouvir um pouco da conversa e vi que Jango estava empenhado em convencer o prefeito, grande propriet\u00e1rio de terras como ele, a ceder parte de sua propriedade para os camponeses pobres. E o convenceu\u201d.<\/p>\n<p>A reforma agr\u00e1ria, defendida por Jango, \u00e9 uma necessidade no Brasil \u2013 na opini\u00e3o de \u00cdndio Vargas. \u201cVi o Banhado do Col\u00e9gio antes e depois da reforma agr\u00e1ria [feita por Brizola, em seu governo]. Como se desenvolveu aquela regi\u00e3o! Infelizmente, ela est\u00e1 trancada at\u00e9 hoje e vai ficar mil anos sem acontecer. O Brasil, sem a reforma agr\u00e1ria, n\u00e3o deslancha\u201d, opinou. <\/p>\n<p>No governo de Jango, \u00cdndio Vargas foi para Bras\u00edlia, a pedido do amigo Jo\u00e3o Caruso, para trabalhar no n\u00facleo que desenvolvia a quest\u00e3o da reforma agr\u00e1ria. Por isto tem certeza de que \u201ca reforma agr\u00e1ria n\u00e3o sai porque o povo n\u00e3o sabe a import\u00e2ncia dela. No dia em que souber a verdade, as coisas v\u00e3o mudar totalmente\u201d e a reforma agr\u00e1ria vai acontecer. <\/p>\n<p>Ele ouviu Jango dizer que se ele, Presidente, n\u00e3o fizesse a reforma agr\u00e1ria, ela n\u00e3o sairia nunca. Por isto acredita que o medo da reforma agr\u00e1ria foi o principal gancho dos inimigos de Jango, para derrub\u00e1-lo do poder. <br \/> Veio o golpe de 1964. \u00cdndio Vargas participou da reuni\u00e3o na casa do comandante do III Ex\u00e9rcito, Lad\u00e1rio Telles, em Porto Alegre, puxada por Brizola, para reagir ao golpe dos militares.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cOuvi Brizola falando, falando, falando, naquela reuni\u00e3o. N\u00e3o o via (tinha muita gente l\u00e1), mas ouvia sua voz. Ele quis que Jango enfrentasse os militares golpistas. Lad\u00e1rio Telles, por sua vez, informara que o esquema b\u00e9lico de resist\u00eancia estava pronto. A\u00ed Jango perguntou se haveria derramamento de sangue. Lad\u00e1rio disse que, seguramente, haveria confronto e derramamento de sangue. Me emociona dizer isto. Jango ent\u00e3o disse: Prefiro me retirar, sair; fa\u00e7am o que quiserem. Esta \u00e9 a verdade\u201d.<\/p>\n<p>Ao definir Jango em poucas palavras, \u00cdndio Vargas disse: \u201cJango era bom demais para ser Presidente da Rep\u00fablica. Ele era um homem muito inteligente; profundamente bom\u201d.<\/p>\n<p>Confira a entrevista completa abaixo:<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\">\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"\u00cdNDIO VARGAS: \u201cJANGO ERA BOM DEMAIS PARA SER PRESIDENTE DA REP\u00daBLICA\u201d\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/239BOADAfF8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div>\n<\/figure>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista \u00cdndio Vargas \u2013 que conheceu Jango na casa da m\u00e3e dele, dona Vicentina Marques Goulart, na Rua 24 de outubro em Porto Alegre \u2013 guarda dele a imagem de uma pessoa muito afetiva, acolhedora, generosa. 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