{"id":66144,"date":"2019-06-14T19:36:44","date_gmt":"2019-06-14T22:36:44","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=66144"},"modified":"2019-06-14T19:37:22","modified_gmt":"2019-06-14T22:37:22","slug":"a-escola-publica-e-cemiterio-de-sonhos-no-brasil-por-tabata-amaral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/a-escola-publica-e-cemiterio-de-sonhos-no-brasil-por-tabata-amaral\/","title":{"rendered":"A escola p\u00fablica \u00e9 cemit\u00e9rio de sonhos no Brasil, por Tabata Amaral"},"content":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia dos sonhos e da motiva\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o de pessoas capazes de prevalecer sobre circunst\u00e2ncias adversas \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o neurocient\u00edfica. Steven Pinker, doutor em psicologia e professor de Harvard, explica que, ao desejarmos algo \u2013 projetando em nossa mente a ideia com imagens coloridas \u2013, criamos novas conex\u00f5es neuronais e aumentamos, assim, a nossa capacidade cerebral. Quando elaboramos proje\u00e7\u00f5es no pensamento, a mente acredita que estamos vivendo aquela situa\u00e7\u00e3o e organiza o corpo para aproveit\u00e1-la. O poder \u00e9 tamanho que o c\u00e9rebro estimula a produ\u00e7\u00e3o de neurotransmissores e fortalece o sistema imunol\u00f3gico. Grandes feitos nascem primeiro na mente e depois ganham vida fora dela. Podemos sonhar agora com um amanh\u00e3 que ainda n\u00e3o chegou. <\/p>\n<p>Da teoria \u00e0 pr\u00e1tica, o caminho \u00e9 in\u00f3spito. Basta olhar algumas escolas p\u00fablicas, que logo se percebe a dist\u00e2ncia entre a ci\u00eancia e a dura realidade das salas de aula. Enquanto crian\u00e7as pequenas sonham com at\u00e9 mesmo duas  ou tr\u00eas profiss\u00f5es, os alunos chegam ao ensino m\u00e9dio sem um sonho sequer. Diversas vezes, ao question\u00e1-los se tinham algum sonho, qualquer que fosse, apenas um de cada dez alunos levantava a sua m\u00e3o. Ao conversar com os alunos que n\u00e3o conseguiam expressar um sonho, logo vinham as raz\u00f5es. Familiares, vizinhos e, at\u00e9 mesmo, professores tinham lhes dito que pessoas de sua cor, g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual ou origem n\u00e3o faziam faculdade. Muitas das hist\u00f3rias que ouvi tinham afirma\u00e7\u00f5es na linha de: &#8220;coloque-se no seu lugar&#8221;, &#8220;olhe de onde voc\u00ea \u00e9&#8221;, &#8220;pessoas como voc\u00ea n\u00e3o fazem medicina&#8221;, &#8220;ser cientista \u00e9 coisa de rico\u201d. Diante de tantos \u201cn\u00e3os\u201d \u2013 afinal de contas, ningu\u00e9m de suas fam\u00edlias ou comunidades havia conquistado algo pelos estudos \u2013, esses jovens foram deixando de sonhar e perdendo a motiva\u00e7\u00e3o pelos estudos. <\/p>\n<p>Em seu livro &#8220;Breves respostas para grandes quest\u00f5es&#8221;, o astrof\u00edsico Stephen Hawking conta que, desde crian\u00e7a, era apaixonado por entender como as coisas funcionavam e, por essa raz\u00e3o, sonhava e permanecia fascinado por descobrir os mist\u00e9rios do mundo. A \u201cmente humana \u00e9 uma coisa incr\u00edvel (\u2026). Por\u00e9m, toda mente necessita de uma fagulha para atingir seu pleno potencial (\u2026). Muitas vezes, essa centelha vem do professor\u201d. O que acontece \u00e9 que, com a desvaloriza\u00e7\u00e3o da carreira docente e a falta de exemplos pr\u00f3ximos de pessoas que transformaram suas vidas pelos estudos, a escola acaba se tornando um cemit\u00e9rio e n\u00e3o a incubadora de sonhos que deveria ser.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds t\u00e3o desigual como o nosso, onde a grande maioria dos adultos \u00e9 analfabeta funcional, n\u00e3o podemos esperar que as fam\u00edlias sejam respons\u00e1veis por ampliar o horizonte das nossas crian\u00e7as. Se a escola n\u00e3o apresentar os mundos que existem para al\u00e9m dos muros das periferias, se n\u00e3o apresentar as diferentes profiss\u00f5es que existem, se n\u00e3o motivar o aluno, com exemplos e encorajamento, a acreditar no poder do estudo e a sonhar, \u00e9 muito pouco prov\u00e1vel que isso aconte\u00e7a. <\/p>\n<p>O papel da motiva\u00e7\u00e3o no desempenho escolar dos estudantes, ali\u00e1s, foi tema de levantamento realizado pela Consultoria Mckinsey com base nos dados da prova do Pisa (Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o Escolar, na sigla em ingl\u00eas) de 2015. Os pesquisadores identificaram uma rela\u00e7\u00e3o entre as habilidades socioemocionais e o desempenho dos estudantes no exame, que teve foco na \u00e1rea de ci\u00eancias. Motiva\u00e7\u00e3o, pertencimento e mentalidade de crescimento impactaram diretamente as notas. A conclus\u00e3o mais expressiva da pesquisa refor\u00e7a a import\u00e2ncia dos professores que incentivam seus alunos a sonharem alto. Alunos pobres com motiva\u00e7\u00e3o bem calibrada conseguiram aumentar 50 pontos na prova e, assim, alcan\u00e7aram melhor desempenho do que estudantes ricos sem motiva\u00e7\u00e3o.   <\/p>\n<p>S\u00e3o nossas trajet\u00f3rias pessoais, assim como a grande literatura sobre o poder dos sonhos que nos fazem lutar por uma escola que de fato ensine e instigue nossos jovens a sonhar. Uma escola que prepare seus alunos para o mercado de trabalho, para o exerc\u00edcio da cidadania e para a vida. Uma educa\u00e7\u00e3o integral que d\u00ea igual valor \u00e0s habilidades cognitivas e socioemocionais. Porque, se continuarmos matando os sonhos dos nossos jovens, estaremos matando junto a possibilidade de um futuro diferente.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia dos sonhos e da motiva\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o de pessoas capazes de prevalecer sobre circunst\u00e2ncias adversas \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o neurocient\u00edfica. 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