{"id":63056,"date":"2019-03-02T14:00:13","date_gmt":"2019-03-02T17:00:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=63056"},"modified":"2019-03-19T11:25:12","modified_gmt":"2019-03-19T14:25:12","slug":"cem-anos-de-jango-por-christopher-goulart","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/cem-anos-de-jango-por-christopher-goulart\/","title":{"rendered":"Cem anos de Jango, por Christopher Goulart"},"content":{"rendered":"<p>A \u00faltima frase da obra prima de Gabriel Garcia Marques, \u201cCem anos de Solid\u00e3o\u201d, diz assim: \u201c\u2026porque as estirpes, condenadas a cem anos de solid\u00e3o, n\u00e3o tinham uma segunda chance sobre a terra\u201d. Confesso que imediatamente ao final desta leitura, refleti sobre o centen\u00e1rio de meu av\u00f4. Associei imediatamente a solid\u00e3o, daquele que, por raz\u00f5es idealistas de elevado amor \u00e0 P\u00e1tria, pagou o pre\u00e7o da injusti\u00e7a com a sua pr\u00f3pria vida, no desterro do ex\u00edlio. <\/p>\n<p>Sei bem que esta \u00e9 uma homenagem a um anivers\u00e1rio de um her\u00f3i da P\u00e1tria. Dia primeiro de mar\u00e7o completaria cem anos meu av\u00f4, Jo\u00e3o Marques Belchior Goulart. Impens\u00e1vel a tentativa de falar em Jango, sem ingressar nas profundezas de uma hist\u00f3ria tr\u00e1gica, de injusti\u00e7as absurdas, que, por\u00e9m, tornam clara a compreens\u00e3o de que as tiranias podem fortalecer aos que descendem de homens ou mulheres que um dia sonharam. \u00c9 o meu caso. Desculpem, mas hoje n\u00e3o acredito em facilidades, mas sim na luta. Foi meu av\u00f4 quem me ensinou. <\/p>\n<p>Logo, penso em gratid\u00e3o, penso em perd\u00e3o. Dif\u00edcil a miss\u00e3o de seguir a hist\u00f3ria de uma estirpe, ap\u00f3s cem anos de solid\u00e3o, recebendo como heran\u00e7a um legado de valores imateriais, de gente que acredita em um sonho de utopia, num mundo onde poucos querem pensar al\u00e9m das suas pr\u00f3prias necessidades individuais. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil sonhar, em ambientes hostis aos sonhos. S\u00f3 que o sonho e a f\u00e9, acredito eu, nos mant\u00eam de p\u00e9. Nesse sentido, muito me ajuda uma frase de um pensador chamado TS Eliot, que falou um dia: \u201cNuma terra de fugitivos, aquele que anda na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria parece estar fugindo\u201d. <\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que meu av\u00f4 \u201cfugiu\u201c para o ex\u00edlio. Eu sou daqueles que andam na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, dos que percebem que o Presidente Jo\u00e3o Goulart evitou n\u00e3o apenas uma (64), mas duas guerras civis no Brasil (61). Para ser preciso, faz algum tempo consigo enxergar o que efetivamente refletiu nas a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas deste homem muito \u00e0 frente de seu tempo, foi exatamente a consci\u00eancia cr\u00edtica de um humanista com personalidade subversiva. Subverter qualquer forma de ordem injusta, independente de classes sociais, \u00e9 a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o permanente de quem n\u00e3o se conforma com as iniquidades. <\/p>\n<p>Me orgulha ser descendente de um rico estancieiro que lutava contra as oligarquias rurais, para efetivar de fato a reforma agr\u00e1ria no Brasil. Diferente do que muitos insistem em afirmar, a reforma agr\u00e1ria j\u00e1 estava em andamento, com a assinatura do decreto da SUPRA, em pra\u00e7a p\u00fablica no com\u00edcio do dia 13 de mar\u00e7o de 64. Entre muitas outras medidas propostas pelas reformas de base, reformas inclusivas que atingiriam a base (e n\u00e3o apenas a superf\u00edcie) dos problemas sociais, pol\u00edticos e econ\u00f4micos da nossa na\u00e7\u00e3o, restava evidenciado o valor de um homem comprometido com as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores mais humildes. <\/p>\n<p>Sobre \u201chumildade\u201d, ressalto desde j\u00e1 que, mesmo n\u00e3o havendo conhecido meu av\u00f4, foi ele quem me ensinou que n\u00e3o existe \u201cidentidade financeira\u201d, t\u00e3o reverenciada por alguns abastados. Nosso respeito deve ser aos que tem car\u00e1ter, dignidade, postura, e n\u00e3o uma recheada conta banc\u00e1ria. Nosso respeito, \u00e9 para quem abre m\u00e3o de seus pr\u00f3prios interesses, pensando no bem de uma fam\u00edlia coletiva. Aos que fogem da mesquinharia de um mundinho pautado pelo consumo, aos que especulam a felicidade com dinheiro. Nosso respeito \u00e9 pelos trabalhadores do Brasil. <\/p>\n<p>Se nossa alma pode ser gigante, se nosso povo pode ser magn\u00edfico, se temos as condi\u00e7\u00f5es de sonhar e acreditar, porque nos conformamos com t\u00e3o pouco? Jango mostrou que um sorriso franco, um abra\u00e7o sincero e um ideal solid\u00e1rio para todos e n\u00e3o para poucos, tem muito mais for\u00e7a do que \u201carminhas\u201d de plant\u00e3o. N\u00e3o se constr\u00f3i o destino de um povo com viol\u00eancia, mas sim com di\u00e1logo e compreens\u00e3o. \u00c9 o que eu penso. E sei que \u00e9 o que meu av\u00f4 ensinaria hoje. <\/p>\n<p>Nesta data t\u00e3o especial, vale lembrar do menino que nasceu em 1919, na regi\u00e3o do Iguaria\u00e7\u00e1, hoje Itacurub\u00ed, ontem S\u00e3o Borja. Guri este que, mesmo oriundo de um ber\u00e7o privilegiado financeiramente, sempre fez quest\u00e3o de se misturar com o povo; jamais como um rei, por\u00e9m apenas como um irm\u00e3o mais velho, que ali estava para ajudar. Atitude espont\u00e2nea, talvez hoje vista com perplexidade por alguns. Num mundo de hipocrisia, diretamente influenciado pelos \u201cvalores l\u00edquidos\u201d (Bauman), a sensibilidade social \u00e9 \u201ccoisa de comunista\u201d. <\/p>\n<p>Precisamos de mais Jangos, insubstitu\u00edveis no transcurso de nossa hist\u00f3ria. Precisamos de gente com coragem para enxergar al\u00e9m do horizonte ego\u00edsta, dos que passam pela vida e n\u00e3o deixam muitas saudades. Precisamos de quem saiba que o tempo se encarrega de assuntar as circunst\u00e2ncias. Precisamos de quem perceba que o julgamento imediato, normalmente \u00e9 precipitado. O tempo, para Jango, sempre lhe foi favor\u00e1vel. Pensando exatamente no tempo, certo dia me aventurei a escrever um verso. Neste centen\u00e1rio, permitam-me. \u00c9 assim: <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o preciso de ti para ser, o que talvez tu n\u00e3o imagines que eu seja; <br \/>E n\u00e3o importa o que eu agora n\u00e3o veja, pois pobre do inocente \u00fatil que fraqueja, ignorando valores que no fundo almeja;<br \/>Saiba que nem tanta import\u00e2ncia te dou nesta vida, ressalvada a gratid\u00e3o por tua injusti\u00e7a oferecida;<br \/>Apenas percebo no meu norte, pela minha singela experi\u00eancia de sorte, <br \/>Uma orienta\u00e7\u00e3o para ser, <br \/>Um homem errante, por\u00e9m a cada dia mais forte\u201d. <\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tive a oportunidade de conviver com meu av\u00f4. Tinha dois meses de vida quando ele partiu. Certamente, em raz\u00e3o da dureza do ex\u00edlio. Quem sabe, pela persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel dos covardes, que ceifaram a vida de Jango aos 57 anos de idade. \u00danico Presidente brasileiro a morrer no ex\u00edlio. Tudo isso me torna apenas consciente, de ter cautela com o ch\u00e3o onde piso, pisando com for\u00e7a a cada passo dado. De conhecer \u201cas manhas e as manh\u00e3s\u201d, ou \u201cas massas e as ma\u00e7\u00e3s\u201d, sem nunca esquecer que a vida \u00e9 um aprendizado di\u00e1rio. Que, apesar de tantas injusti\u00e7as, nossa felicidade depende da capacidade de contempla\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Por obvio n\u00e3o estarei jamais a altura da grandeza um homem p\u00fablico de tamanha consagra\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. O que me resta \u00e9 manter a brasa acessa, do legado do trabalhismo de Vargas, com todos meus esfor\u00e7os para que, talvez um dia, a chama de amor, de liberdade, reacenda com a energia necess\u00e1ria para este nosso Pa\u00eds-continental. Tenho certeza de que meu av\u00f4 n\u00e3o morreu em v\u00e3o. Os cem anos de solid\u00e3o, da nossa estirpe, serviram para que, justamente, tenhamos sim uma segunda chance sobre a terra\u201d.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima frase da obra prima de Gabriel Garcia Marques, \u201cCem anos de Solid\u00e3o\u201d, diz assim: \u201c\u2026porque as estirpes, condenadas a cem anos de solid\u00e3o, n\u00e3o tinham uma segunda chance sobre a terra\u201d. Confesso que imediatamente ao final desta leitura, refleti sobre o centen\u00e1rio de meu av\u00f4. Associei imediatamente a solid\u00e3o, daquele que, por raz\u00f5es&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on wp_trim_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on wp_trim_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":63058,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1584,3230,976],"tags":[],"class_list":["post-63056","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-centenario-de-jango","category-noticias-em-destaque"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63056","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63056"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63056\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":63101,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63056\/revisions\/63101"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63058"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63056"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63056"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63056"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}