{"id":62448,"date":"2019-02-05T16:47:09","date_gmt":"2019-02-05T18:47:09","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=62448"},"modified":"2019-02-12T18:46:20","modified_gmt":"2019-02-12T20:46:20","slug":"a-opcao-da-vale","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/a-opcao-da-vale\/","title":{"rendered":"A op\u00e7\u00e3o da Vale"},"content":{"rendered":"<p>A estrada para chegar a Brumadinho, para quem vem de Belo Horizonte, vai costeando o  Paraopeba. Ao avistar o rio, \u00e0s margens da rodovia, a parada \u00e9 autom\u00e1tica. O que antes era um  ponto de contempla\u00e7\u00e3o do rio e de bate-papo com os amigos, virou um ponto de lamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEsse rio n\u00e3o era dessa cor n\u00e3o, esse rio era clarinho. Acabou tudo os peixe, morreram tudo\u201d, comentou, com os olhos marejados, seu Elias, que ainda n\u00e3o teve coragem de ver de perto o estrago causado pelo rompimento da barragem do C\u00f3rrego do Feij\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem de longe \u00e9 poss\u00edvel imaginar a dor de quem perdeu familiares, amigos, colegas ou mesmo conhecidos na trag\u00e9dia de Brumadinho. Mas ao visitar a regi\u00e3o, nove dias ap\u00f3s o rompimento da barragem que casou a morte, at\u00e9 o momento, de 134 pessoas \u2013 199 ainda est\u00e3o desaparecidos \u2013 e de um incont\u00e1vel n\u00famero de outras vidas, o que se v\u00ea \u00e9 a desola\u00e7\u00e3o total. A<br \/>cidade, at\u00f4nita, aos poucos se d\u00e1 conta que, como bem resumiu o seu Elias, \u201cA Vale \u00e9 tudo para Brumadinho, mas as pessoas n\u00e3o s\u00e3o nada para a Vale\u201d.<\/p>\n<p>Ao conversar com moradores, ao andar pela cidade, observar as placas e propagandas, a primeira coisa que se percebe \u00e9 a import\u00e2ncia da Vale para a regi\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"http:\/\/pdt-rj.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/WhatsApp-Image-2019-02-02-at-15.31.16-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-62478\" srcset=\"https:\/\/pdt-rj.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/WhatsApp-Image-2019-02-02-at-15.31.16.jpeg 1024w, https:\/\/pdt-rj.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/WhatsApp-Image-2019-02-02-at-15.31.16-100x75.jpeg 100w, https:\/\/pdt-rj.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/WhatsApp-Image-2019-02-02-at-15.31.16-300x225.jpeg 300w, https:\/\/pdt-rj.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/WhatsApp-Image-2019-02-02-at-15.31.16-768x576.jpeg 768w, https:\/\/pdt-rj.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/WhatsApp-Image-2019-02-02-at-15.31.16-120x90.jpeg 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Assis do Couto conversa com moradores de Brumadinho:  <br \/>\u201cA Vale \u00e9 tudo para Brumadinho, mas as pessoas n\u00e3o s\u00e3o nada para a Vale\u201d, lamenta seu Elias<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cBrumadinho s\u00f3 existe por causa da Vale, os quatro times de futebol daqui \u00e9 ela que financia, d\u00e1 camisa, transporte, a Vale \u00e9 tudo aqui. Foi uma trag\u00e9dia, mas \u00e9 a Vale que sustenta tudo aqui\u201d, comentou um morador ao mostrar o estrago causado pela avalanche de lama que invadiu parte da propriedade da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cQuase todo mundo que morreu era daqui, ou veio de Belo Horizonte para trabalhar na Vale e morava aqui, ent\u00e3o tinha muitos conhecidos\u201d, disse o funcion\u00e1rio de um posto de combust\u00edvel que serve como base e ponto de encontro para volunt\u00e1rios. A quest\u00e3o que se levanta \u00e9 clara: como \u00e9 que uma empresa que \u201csustenta\u201d um munic\u00edpio, n\u00e3o se preocupa com a seguran\u00e7a dos moradores e, mais ainda, dos funcion\u00e1rios? <\/p>\n<p>Depois de tudo o que j\u00e1 foi divulgado sobre os riscos e danos que seriam causados com o poss\u00edvel rompimento da barragem, nada justifica o que aconteceu. Principalmente se levarmos em considera\u00e7\u00e3o que o custo para o descomissionamento das 10 barragens a montante que a Vale ainda possui \u00e9 o equivalente ao lucro de um trimestre da companhia. A Vale, sabendo de tudo isso, fez uma op\u00e7\u00e3o. A op\u00e7\u00e3o pelo lucro em detrimento da vida. <\/p>\n<p>Esta \u00e9 a op\u00e7\u00e3o do capital privado. E o governo, quando privatizou a Vale do Rio Doce em 1997, sabia exatamente qual era a prioridade da Companhia a partir daquele momento. Mas a quest\u00e3o n\u00e3o se resume \u00e0 op\u00e7\u00e3o pelo lucro em detrimento de vidas. O encolhimento do Estado, t\u00e3o propagado no debate atual, como a solu\u00e7\u00e3o de todos os problemas, implica em uma<br \/>redu\u00e7\u00e3o ainda maior na fiscaliza\u00e7\u00e3o dos atos da iniciativa privada. Hoje, a Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o (ANM), respons\u00e1vel pela fiscaliza\u00e7\u00e3o das barragens de minera\u00e7\u00e3o, possui apenas 35 funcion\u00e1rios capacitados para inspecionar 205 barragens (50 da Vale).<\/p>\n<p>E o mais dolorido \u00e9 que n\u00e3o d\u00e1 nem para dizer que o rompimento da barragem I da Mina do C\u00f3rrego do Feij\u00e3o foi inesperado. Foi uma trag\u00e9dia anunciada h\u00e1 tr\u00eas anos, com o rompimento da barragem do Fund\u00e3o &#8211; controlada pela Samarco Minera\u00e7\u00e3o S.A., um empreendimento<br \/> conjunto das maiores empresas de minera\u00e7\u00e3o do mundo, a Vale S.A. e a anglo-australiana BHP Billiton, que matou 19 pessoas e causou o maior desastre ambiental da hist\u00f3ria do Brasil e o maior do mundo envolvendo barragens de rejeito de min\u00e9rio. <\/p>\n<p>Mas h\u00e1 quem ainda tente amenizar o crime da Vale. \u201cSe voc\u00ea compra uma casa, voc\u00ea reforma e melhora nela o que tem que melhorar n\u00e9, voc\u00ea n\u00e3o tira ela do lugar\u201d, argumentou um outro morador ao se referir ao setor administrativo que foi engolido pela lama. Diante de tal argumento, s\u00f3 h\u00e1 uma resposta: se colocar em risco uma vida, \u00e9 preciso mudar de lugar sim.<\/p>\n<p>Pessoas chegando de todos os lados do Brasil e tamb\u00e9m do exterior, d\u00e3o a dimens\u00e3o do tamanho da rede de solidariedade que uma trag\u00e9dia dessa magnitude \u00e9 capaz de formar. <\/p>\n<p>\u201cDo que voc\u00eas est\u00e3o precisando, porque a gente precisa ajudar de alguma forma\u201d, disse uma volunt\u00e1ria ao rapaz que mostrava onde ficava a horta que seu pai cultivava, agora soterrada pela lama.<\/p>\n<p>O letreiro da cidade \u00e9 local de homenagem, mas tamb\u00e9m de protestos. Flores, camisas, fotos, velas e centenas de folhas de papel com os nomes as v\u00edtimas foram espalhadas no local. J\u00e1 as bandeiras do Brasil, do estado de Minas Gerais e do munic\u00edpio de Brumadinho escondem o desabafo: \u201cVale assassina\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>*Assis do Couto \u00e9 ex-deputado federal pelo PDT.&nbsp;<\/em><\/strong><em><strong>Com ra\u00edzes no campo, o pedetista tem como bandeira o fortalecimento da agricultura familiar no Pa\u00eds. Foi titular da Comiss\u00e3o de Agricultura, Pecu\u00e1ria, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, e da Comiss\u00e3o de Seguran\u00e7a P\u00fablica e Combate ao Crime Organizado.<\/strong><\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A estrada para chegar a Brumadinho, para quem vem de Belo Horizonte, vai costeando o Paraopeba. Ao avistar o rio, \u00e0s margens da rodovia, a parada \u00e9 autom\u00e1tica. 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