{"id":58320,"date":"2018-01-21T00:00:53","date_gmt":"2018-01-21T02:00:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=58320"},"modified":"2018-01-31T22:18:48","modified_gmt":"2018-02-01T00:18:48","slug":"brizola-1989-eleicoes-livres-ou-golpe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/brizola-1989-eleicoes-livres-ou-golpe\/","title":{"rendered":"Brizola 1989: elei\u00e7\u00f5es livres ou golpe?"},"content":{"rendered":"<p>Recorrendo a Marx, ele diz que a hist\u00f3ria da ordem burguesa \u00e9 a hist\u00f3ria da luta de classes. Mas diz tamb\u00e9m sobre golpes de Estado, quando uma dada ordem n\u00e3o atende mais aos interesses das classes dominantes. Assim foi com Napole\u00e3o Bonaparte em 1799 e em 1851 com Luiz Bonaparte repetindo como uma com\u00e9dia os respectivos 18 de Brum\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por uma quest\u00e3o de \u00e9tica hist\u00f3rica, \u00e9 preciso voltar a pensar sobre 1989 e indagar sobre o que aconteceu no Brasil, em sua primeira elei\u00e7\u00e3o direta para Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, depois de 21 anos de regime civil militar, sem elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Este artigo tem uma tese. E por esta tese come\u00e7arei, ou seja, 1989 foi um golpe institucional e n\u00e3o o resultado l\u00edmpido de elei\u00e7\u00f5es livres. A meu ju\u00edzo, os arquivos secretos dessa elei\u00e7\u00e3o ainda est\u00e3o por vir \u00e0 tona.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que todos os candidatos de esquerda a \u00e9poca como Roberto Freire, M\u00e1rio Covas, Lula, Leonel Brizola e, este, ciente de que n\u00e3o poderia ganhar as elei\u00e7\u00f5es, tentou se antecipar ao golpe do status quo vigente e sugeriu lan\u00e7ar um \u00fanico nome para representar as esquerdas. O nome sugerido foi de M\u00e1rio Covas que falava da necessidade de um \u201cchoque de capitalismo\u201d para viabilizar internamente o desenvolvimento econ\u00f4mico ainda nos moldes formulado pela Cepal. Como todos sabem, essa proposta foi inviabilizada e o resultado manipulado para configurar um segundo turno conveniente e aceito pela ordem vigente.<\/p>\n<p>O tremendo entusiasmo que empolgou e emocionou a sociedade brasileira pelas elei\u00e7\u00f5es diretas ap\u00f3s 21 anos de regime militar ofuscou a percep\u00e7\u00e3o do que aconteceu nos bastidores entre os que n\u00e3o aceitavam a vit\u00f3ria de Brizola em 1989. Este fato era conhecido e ouvido por todos que estavam envolvidos naquele processo de transi\u00e7\u00e3o. Mas a coragem e a disposi\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a estava a frente da qualquer dificuldade ou especula\u00e7\u00e3o naquele contexto.<\/p>\n<p>Depois de 15 anos de ex\u00edlio, poucos conheciam a trajet\u00f3ria de Brizola. O exilio o colocou fora do pa\u00eds e do conv\u00edvio com os brasileiros. Por isso plantaram o estere\u00f3tipo do Brizola \u201dpopulista\u201d, \u201ccaudilho\u201d, \u201cincendi\u00e1rio\u201d. Interessava ao sistema de poder da \u00e9poca definido pelas classes dominantes, enfraquecer a imagem de Brizola. Mesmo setores de esquerda, inclusive o PT de Lula, assimilou este estere\u00f3tipo e partilhavam desse esquema ideol\u00f3gico de apequenar a hist\u00f3ria do trabalhismo na figura de Brizola.<\/p>\n<p>Por isso, naquele esfor\u00e7o para se construir um nome consensual, Lula foi o \u00fanico que em seu encontro com Brizola, para tratar do assunto, o recebeu arrogante, como se fosse um imperador, esnobando um l\u00edder trabalhista, nas palavras de Brizola.<\/p>\n<p>O l\u00edder sindical emergente dissimulou ou n\u00e3o sabia que se tratava de uma lideran\u00e7a trabalhista que vinha de longe. De uma longa caminhada hist\u00f3rica de constru\u00e7\u00e3o de um estado brasileiro com suas caracter\u00edsticas de conflito permanente entre a burguesia industrial emergente e os trabalhadores no contexto de uma sociedade capitalista perif\u00e9rica.<\/p>\n<p>O trabalhismo que \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o de defesa dos trabalhadores iniciado em 1930 com Get\u00falio Vargas tinha em Brizola, em 1989, seu \u00fanico e leg\u00edtimo herdeiro desta hist\u00f3ria. Cassado em 1964, seria novamente cassado em 1980 com a perda da legenda do PTB e, de novo, em 1989 sob o manto da legitimidade de elei\u00e7\u00f5es diretas. O esbulho vinha sendo consumado, nas palavras de Brizola.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o pode ser ignorado. Mas foi ignorado naquele encontro de Brizola e Lula que levou o l\u00edder trabalhista dizer, conclusivamente, que \u201cteremos que engolir este sapo barbudo\u201d no segundo turno na impossibilidade de votar em Collor. Lembro Brizola discursando defendendo que n\u00e3o poder\u00edamos ficar alheio da disputa no segundo turno porque seria o mesmo que um time de futebol n\u00e3o participar do campeonato do ano.<\/p>\n<p>Nesta \u00e9poca, das elei\u00e7\u00f5es em 1989 era a vez e a hora de Brizola. O esp\u00edrito da \u00e9poca se encaixava na figura hist\u00f3rica de Brizola. O l\u00edder maragato com seu len\u00e7o vermelho, foi o \u00fanico candidato que, desesperadamente, denunciava o que chamava as \u201cperdas internacionais\u201d como a raz\u00e3o para a pobreza e o subdesenvolvimento do Brasil.<\/p>\n<p>Com esta consigna das \u201cperdas internacionais\u201d, o l\u00edder trabalhista queria denunciar o modelo de explora\u00e7\u00e3o dos interesses de uma burguesia nacional, aliada ao capital internacional que leva todos os anos bilh\u00f5es de recursos financeiros do trabalhador brasileiro para pagar uma d\u00edvida externa infind\u00e1vel. Uma d\u00edvida que em vez de diminuir, s\u00f3 aumenta a cada ano e empobrece a popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Para ilustrar esta sangria internacional, em pleno governo petista, o Brasil na execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria de 2014 gastou com pessoal e encargos sociais 237 bilh\u00f5es de reais. Entretanto, pagou 170 bilh\u00f5es em juros e encargos da d\u00edvida e mais 807 bilh\u00f5es de amortiza\u00e7\u00f5es e refinanciamento da d\u00edvida somando 977 bilh\u00f5es de reais que sa\u00edram do valor do trabalho dos brasileiros direto para o monop\u00f3lio internacional. Diga-se que se trata de uma d\u00edvida impag\u00e1vel que s\u00f3 aumenta a cada ano.<\/p>\n<p>Mas desde 1989 os candidatos silenciam sobre esta calamidade. Apenas Brizola fala. E aqui reside o bus\u00edlis da quest\u00e3o: Brizola n\u00e3o poderia ganhar as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o, \u00e9 preciso contar uma estorinha que ilustra o cadeado armado contra Brizola em 1989.<\/p>\n<p>Na fase de apura\u00e7\u00e3o dos votos um estranho epis\u00f3dio ocorreu sem que a hist\u00f3ria oficial desta elei\u00e7\u00e3o tenha registrado. Durante a contagem dos votos na sede do Prodasen, em Bras\u00edlia, muitas pessoas, militantes ligadas aos seus respectivos candidatos estavam presentes para acompanhar a apura\u00e7\u00e3o dos votos. No caso do PDT, estava acompanhando a vota\u00e7\u00e3o o militante Michel Sobrinho, um trabalhista hist\u00f3rico que acompanhava a apura\u00e7\u00e3o com os demais militantes que, por um acaso desses eventos pol\u00edticos, se tornou uma inesperada testemunha. Segundo seu relato, Brizola estava com uma vantagem de 200 mil votos a frente de Luis Inacio Lula, segundo a contagem oficial do TSE.<\/p>\n<p>De repente, estranhamente de repente, chega uma ordem do TSE &#8211; a mesma que participou da conspirata do general Golbery e Ivete Vargas para negar a sigla do PTB a Brizola &#8211; para interromper a apura\u00e7\u00e3o por algum motivo que n\u00e3o foi revelado no momento. O que deixou os representantes partid\u00e1rios espantados. Depois de horas de interrup\u00e7\u00e3o a apura\u00e7\u00e3o recome\u00e7ou apontando uma surpreendente vantagem do candidato Lula em torno de 400 mil votos a frente de Brizola.\u00a0 Isso causou muita perplexidade e muitos coment\u00e1rios suspeitando dessa abrupta mudan\u00e7a na contagem dos votos. Mas a for\u00e7a organizada dos interesses dominantes no poder n\u00e3o aceitavam a passagem de Brizola para o segundo turno. Da\u00ed aconteceu o que a hist\u00f3ria oficial registrou com a vexat\u00f3ria disputa no segundo turno conveniente com Fernando Collor versus Lula.<\/p>\n<p>O objetivo consumou-se: Brizola estava fora do segundo turno. O sistema eleitoral, como previa Brizola, com sua manipula\u00e7\u00e3o venceu.<\/p>\n<p>Outro fato com \u00edntima liga\u00e7\u00e3o com o fato anterior. Neste processo eleitoral, o presidente do TSE era o ministro Francisco Rezek que, logo depois da vit\u00f3ria de Fernando Collor, exonerou-se do cargo celestial de ministro do STF para assumir o cargo de ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores no governo de Fernando Collor e, em seguida, juiz da Corte Internacional de Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Este epis\u00f3dio \u00e9 apenas um desdobramento inevit\u00e1vel de uma estrat\u00e9gia montada para aniquilar o fio da hist\u00f3ria trabalhista e seus l\u00edderes de massa como Get\u00falio Vargas que sacrificou sua vida para evitar um golpe, Jango e Brizola.<\/p>\n<p>Desde 1964, at\u00e9 o momento de abertura democr\u00e1tica em 1985, criou-se uma ideologia para difundir a ideia de que o Brasil tinha se livrado dos populistas trabalhistas. Para isso montou-se um plano de desmoraliza\u00e7\u00e3o dessas lideran\u00e7as especialmente de Brizola que continuava viva sua lideran\u00e7a de massa que assumia claramente seu posicionamento de desafiar a presen\u00e7a moderna dos interesses de uma burguesia nacional tacanha aliada as perdas internacionais que perpetuam o pa\u00eds a continuar sendo um pa\u00eds portentoso, por\u00e9m subdesenvolvido.<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o, o sistema tolerava qualquer pol\u00edtico para vencer as elei\u00e7\u00f5es de 1989. Menos Leonel Brizola.<\/p>\n<p>Estes fatos n\u00e3o s\u00e3o ila\u00e7\u00f5es intelectuais ou mero brizolismo. O relato aqui \u00e9 apenas uma leitura descritiva dos fatos ocorridos no Brasil real e do que \u00e9 capaz de ser feito pelas elites nacionais\u00a0 dominantes para n\u00e3o abrir m\u00e3o de seus \u00edmpetos selvagens de sonegar impostos para a educa\u00e7\u00e3o e acumular dinheiro.<\/p>\n<p>A manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dizia que Brizola era um caudilho, enganador da classe oper\u00e1ria e de fazer um pacto populista da esquerda atrasada. Mas a hist\u00f3ria mostrou depois que esse esp\u00fario pacto de classe em que foram abduzidos pelos interesses dos grandes grupos econ\u00f4micos, aconteceram exatamente nos\u00a0 governos de Lula e Dilma. Juntos, estes governos tiveram mais de uma d\u00e9cada para fazerem as reformas estruturais que o Brasil almeja desde o governo de Jo\u00e3o Goulart. N\u00e3o fizeram porque colaram e assimilaram de maneira subalterna, protegendo os superlucros dos banqueiros enquanto liberavam bolsas de ajuda cal\u00f3rica para as camadas pobres da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o merece cr\u00edticas e autocr\u00edticas por parte deste per\u00edodo de governos. Como n\u00e3o h\u00e1 sinal dessa autocr\u00edtica, n\u00f3s, trabalhistas temos que encarar essa cr\u00edtica sincera para sair desse imbr\u00f3glio e impasse que enfiaram o pa\u00eds. Com o agravante que essa situa\u00e7\u00e3o pode se repetir caso n\u00e3o aconte\u00e7a uma mudan\u00e7a radical no panorama pol\u00edticos atual.<\/p>\n<p>Do contr\u00e1rio, 2018 ser\u00e1 uma repeti\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia desses \u00faltimos anos. Brizola, desde 1989, era o \u00fanico que falava da necessidade de interromper este fluxo das perdas internacionais que torturam a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o de pa\u00edses subdesenvolvidos como o Brasil atual.<\/p>\n<p>Com todas as oportunidades que se abriram para o Brasil interromper esta rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia associada e caudat\u00e1ria aos interesses do grande capital internacional, o pa\u00eds apenas modernizou-se ao pre\u00e7o do decl\u00ednio social e aumento da barb\u00e1rie. O consumismo absorveu os setores da burguesia urbana e camadas da classe m\u00e9dia que faz reviver o primeiro cap\u00edtulo de O Capital: o fetichismo das mercadorias.<\/p>\n<p>Sem hospitais e seguran\u00e7a p\u00fablica, sem infraestrutura e escola p\u00fablica de qualidade com professores igualmente qualificados para formar e desenvolver capacidades humanas, os brasileiros continuar\u00e3o votando e legitimando o funcionamento institucional de um sistema pol\u00edtico falido e uma economia dominada pelos juros e n\u00e3o pela produ\u00e7\u00e3o de uma ind\u00fastria nacional que demanda forma\u00e7\u00e3o da capacidade intelectual dos brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>*Carlos Michiles \u00e9 Ph.D em Ci\u00eancias Pol\u00edticas,\u00a0fundador do PDT e vice-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Leonel Brizola &#8211; Alberto Pasqulini (FLB-AP\/DF).<\/strong><\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recorrendo a Marx, ele diz que a hist\u00f3ria da ordem burguesa \u00e9 a hist\u00f3ria da luta de classes. 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