{"id":58153,"date":"2017-12-15T17:06:11","date_gmt":"2017-12-15T19:06:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=58153"},"modified":"2017-12-29T01:04:24","modified_gmt":"2017-12-29T03:04:24","slug":"58153","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/58153\/","title":{"rendered":"G\u00eanero: teoria ou ideologia"},"content":{"rendered":"<p>Em recente passagem tumultuada pelo Brasil, a fil\u00f3sofa Judith Butler, refer\u00eancia nos estudos de g\u00eanero e Teoria Queer, incitou o debate sobre temas que est\u00e3o ainda em processo, rodeados de pol\u00eamica e controv\u00e9rsia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 para se surpreender, tratando-se de um assunto ainda n\u00e3o amadurecido e assimilado adequadamente pela vis\u00e3o geral da sociedade. Especialmente porque este tema encara e tenta quebrar o padr\u00e3o de pensamento hegem\u00f4nico da na\u00e7\u00e3o dos homens como dominadores nas rela\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4mico e cultural. Ainda pairam, naturalmente, muitos preconceitos nas mentes e cora\u00e7\u00f5es das pessoas.<\/p>\n<p>Recordo que, em 1980, pouco mais de tr\u00eas d\u00e9cadas atr\u00e1s, logo ap\u00f3s o retorno de Leonel Brizola do ex\u00edlio, aconteceu um debate na televis\u00e3o onde lhe indagaram sobre a quest\u00e3o dos homossexuais. Nessa altura, Brizola retornando de um per\u00edodo aguerrido de ex\u00edlio, respondeu que n\u00e3o tinha ainda uma posi\u00e7\u00e3o clara a respeito.<\/p>\n<p>Menciono esse exemplo da resposta de Brizola para mostrar que a sociedade tem o seu tempo para formular respostas aos problemas que ela mesma cria. Esta \u00e9 uma caracter\u00edstica das sociedades humanas que coloca sua intelig\u00eancia a servi\u00e7o da melhoria da conviv\u00eancia social.<\/p>\n<p>Este aperfei\u00e7oamento dos valores de conv\u00edvio social que, levou o PDT a ter hoje uma compreens\u00e3o amadurecida sobre este tema, que continua controvertido, por\u00e9m, colocado para amplo e aberto debate junto \u00e0 sociedade. Atualmente o PDT conta com movimento de LGBT organizado em muitas cidades, realizando encontros para discutir esses temas relacionados a g\u00eaneros. Esse \u00e9 um tema que ganhou maior visibilidade devido \u00e0 velocidade das informa\u00e7\u00f5es no contexto mundial da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De 1980 at\u00e9 hoje, o partido se abriu para discutir esses temas da mesma forma que se antecipou nos anos 80, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es da luta das mulheres, dos negros e do \u00edndio, que culminou com a elei\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Juruna como o primeiro \u00edndio eleito deputado federal.\u00a0Colocado nessa perspectiva, vejamos o que pensa essa fil\u00f3sofa sobre a teoria de g\u00eanero e a polariza\u00e7\u00e3o entre simpatia e \u00f3dio.<\/p>\n<p>Judith Butler veio ao Brasil participar de um semin\u00e1rio sobre Populismo, autoritarismo e democracia. Espa\u00e7o adequado para discutir valores como a dignidade e os direitos sexuais, num ambiente no qual acontecem, todos os dias, viol\u00eancia contra as mulheres e pessoas trans.<\/p>\n<p>Em 1989, ela publicou o livro intitulado \u201cGender Trouble\u201d, lan\u00e7ado em portugu\u00eas, em 2003, com o t\u00edtulo \u201cProblemas de G\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade\u201d. Sua premissa te\u00f3rica parte da no\u00e7\u00e3o fundamental sobre a diferen\u00e7a entre teoria e ideologia de g\u00eanero. Segundo ela, a teoria da performatividade de g\u00eanero busca entender a forma\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e subsidiar a ideia de que a express\u00e3o de g\u00eanero \u00e9 um direito e uma liberdade fundamentais. N\u00e3o \u00e9 uma ideologia. Porque para a autora, a ideologia \u00e9 entendida como um ponto de vista que \u00e9 tanto ilus\u00f3ria quanto dogm\u00e1tica e acr\u00edtica.<\/p>\n<p>Ao dizer que formula uma teoria e n\u00e3o uma ideologia de g\u00eanero, ela formula a premissa de que a liberdade n\u00e3o \u00e9 \u2013 nunca \u00e9 \u2013 a liberdade de fazer o mal. Se uma a\u00e7\u00e3o faz mal a outra pessoa ou n\u00e3o poder ser qualificada como livre \u2013 ela se torna uma a\u00e7\u00e3o lesiva. A liberdade de buscar uma express\u00e3o de g\u00eanero ou de viver como l\u00e9sbica, gay, bissexual, trans ou queer s\u00f3 pode ser garantida em uma sociedade que se recusa a aceitar a viol\u00eancia contra mulheres e pessoas trans; que se recusa a aceitar a discrimina\u00e7\u00e3o com base no g\u00eanero e que se recusa a transformar em doentes as pessoas que abra\u00e7aram essas categorias no intuito de viverem uma vida mais viv\u00edvel, com mais dignidade, alegria e liberdade.<\/p>\n<p>O que acontece de fato, hoje, \u00e9 que pessoas trans e travestis, que desejam apenas a liberdade de movimentar-se no mundo p\u00fablico como s\u00e3o e desejam ser, sofrem frequentemente ataques f\u00edsicos ou s\u00e3o mortas. O sofrimento social e psicol\u00f3gico decorrente do ostracismo e condena\u00e7\u00e3o social \u00e9 enorme.<\/p>\n<p>Neste ponto, lembro que estamos diante de um assunto que vem desde Rousseau, quando escreveu sua grande obra o Discurso, sobre a origem e o fundamento da desigualdade entre os homens. A tese principal de Rousseau \u00e9 que o homem \u00e9 livre para fazer suas escolhas e buscar o que chama de perfectibilidade. Enfrentar e amadurecer, aperfei\u00e7oar e melhorar o nosso conv\u00edvio com o esfor\u00e7o permanente pela reinven\u00e7\u00e3o humana, com base em valores democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque, n\u00f3s, os seres humanos, homem ou mulher, gay ou l\u00e9sbica, trans ou queer, somos livres e n\u00e3o somos programados pelas determina\u00e7\u00f5es ligadas a ra\u00e7a ou sexo. Porque n\u00e3o somos prisioneiros de nenhum c\u00f3digo natural ou hist\u00f3rico determinante, que somos um ser \u00e9tico e moral que podemos construir valores e fazer as respectivas escolhas.<\/p>\n<p>A humanidade tem a capacidade de transcender a sua animalidade da natureza e assumir suas escolhas livre de constrangimentos. \u00c9 um caminho tortuoso e perigoso por envolver valores e escolhas, cren\u00e7as, tradi\u00e7\u00f5es e religiosidade. O Brasil vem apresentando auspiciosos avan\u00e7os nesse assunto. Atualmente, mesco com as decis\u00f5es favor\u00e1veis aprovadas em 2011 pelo Supremo Tribunal Federal \u00e0s uni\u00f5es homoafetivas, como a uni\u00e3o est\u00e1vel entre pessoas do mesmo sexo, a situa\u00e7\u00e3o ainda continua inst\u00e1vel e perigosa.<\/p>\n<p>Este perigo vem de longe. Desde quando se queimavam as bruxas, que eram mulheres que n\u00e3o se enquadravam nos dogmas da igreja cat\u00f3lica. Hoje, a rotina \u00e9 a brutalidade do feminic\u00eddio e dos transexuais, cuja expectativa de vida \u00e9 de 35 anos porque o Brasil ainda \u00e9 considerado o pa\u00eds que mais mata transexuais no mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>*Carlos Michiles \u00e9 Ph.D em Ci\u00eancias Pol\u00edticas pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, e fundador do PDT.<\/strong><\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em recente passagem tumultuada pelo Brasil, a fil\u00f3sofa Judith Butler, refer\u00eancia nos estudos de g\u00eanero e Teoria Queer, incitou o debate sobre temas que est\u00e3o ainda em processo, rodeados de pol\u00eamica e controv\u00e9rsia. N\u00e3o \u00e9 para se surpreender, tratando-se de um assunto ainda n\u00e3o amadurecido e assimilado adequadamente pela vis\u00e3o geral da sociedade. 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