{"id":56094,"date":"2017-10-26T01:36:55","date_gmt":"2017-10-26T03:36:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=56094"},"modified":"2017-10-26T10:22:16","modified_gmt":"2017-10-26T12:22:16","slug":"no-senado-ultimo-discurso-de-darcy-ribeiro-e-um-tributo-ao-trabalhismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/no-senado-ultimo-discurso-de-darcy-ribeiro-e-um-tributo-ao-trabalhismo\/","title":{"rendered":"No Senado, \u00faltimo discurso de Darcy Ribeiro \u00e9 um tributo ao Trabalhismo"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 um homem que, como Get\u00falio, tem sua carreira pol\u00edtica marcada por essas duas dimens\u00f5es: o amor do povo e o \u00f3dio das classes dirigentes\u201d, disse o senador pedetista, Darcy Ribeiro, que hoje completaria 95 anos, no seu \u00faltimo discurso no plen\u00e1rio do Congresso Nacional. O ato, promovido no dia 5 de dezembro de 1996, ocorreu na sess\u00e3o especial requerida pelo deputado Matheus Schmidt, l\u00edder do PDT na C\u00e2mara, em homenagem aos 20 anos da morte do presidente Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>Ao falar de Leonel Brizola, que estava presente, o pedetista, que na foto aparece ao lado de M\u00e1rio Juruna, \u00fanico \u00edndio a conquistar uma vaga de deputado federal na hist\u00f3ria, mostrou o valor do l\u00edder ga\u00facho. \u201cMeu querido amigo Leonel Brizola, que eu quisera ver como presidente da Rep\u00fablica \u2014 tenho certeza de que ele, mais do que ningu\u00e9m que conhe\u00e7a, seria capaz de passar o Brasil a limpo, a favor da felicidade do povo e da dignidade da Na\u00e7\u00e3o\u201d, exaltava.<\/p>\n<p>Sobre os jovens, projetava uma complicada realidade diante do panorama j\u00e1 existente no pa\u00eds. \u201cQuem vai ganhar essa juventude que a ditadura castrou e que a\u00ed est\u00e1 desbundada? Isso me preocupa profundamente. Havia formas de concatenar a a\u00e7\u00e3o dos jovens para que eles fossem orgulhosos de ser brasileiros. E fossem quadros da nossa luta\u201d, disse.<\/p>\n<p>Confira o discurso na \u00edntegra:<\/p>\n<p>O SR. DARCY RIBEIRO (PDT-RJ) \u2013 <em>\u201cO Hino Nacional me d\u00e1 \u00e2nsia de choro. N\u00e3o sentia isso antes. Por qu\u00ea? Os anos de ex\u00edlio sem ouvi-lo? N\u00e3o sei. Doen\u00e7a? O certo \u00e9 que me comove mais do que devia. D\u00e1 vontade de pegar uma espada e sair pronto para brigar, mas me ponho a chorar\u201d. (Palmas.)<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cExmo. Sr. Presidente do Senado da Rep\u00fablica, Senador Jos\u00e9 Sarney; meu querido amigo Leonel Brizola (Palmas), que eu quisera ver como Presidente da Rep\u00fablica \u2014 tenho certeza de que ele, mais do que ningu\u00e9m que conhe\u00e7a, seria capaz de passar o Brasil a limpo, a favor da felicidade do povo e da dignidade da Na\u00e7\u00e3o; meu companheiro Almino Affonso (Palmas), queridos companheiros, queridas companheiras: vamos falar do Jango, do Presidente Jo\u00e3o Goulart, com quem tive um longo e intenso conv\u00edvio, um conv\u00edvio muito grato. O Jango era bom de conviver.<\/em><\/p>\n<p><em>Lembro a V.Ex\u00aas. o que me vem agora \u00e0 mem\u00f3ria. H\u00e1 20 anos, eu corri muito para chegar a S\u00e3o Borja \u2014 e cheguei \u2014 para ver o Jango morto. Ele tinha sido proibido de entrar na sua p\u00e1tria querida. Era o esquife dele que vinha. Tentei ficar perto, mas havia muitas pessoas do Brasil inteiro, sobretudo do Rio Grande, querendo colocar a m\u00e3o no caix\u00e3o ou tocar naquele homem extraordin\u00e1rio que se ia. Tive de me afastar para deixar que essas pessoas saudassem Jango e dele se despedissem. Sentei-me, ent\u00e3o, num t\u00famulo de m\u00e1rmore branco, de estilo comum, que parecia o sepulcro de uma fam\u00edlia italiana. Fiquei sentado sobre o t\u00famulo e assustei-me quando vi que era o de Get\u00falio. O retrato e o nome dele estavam l\u00e1. Fiquei muito emocionado: esse \u00e9 o t\u00famulo de Get\u00falio?<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, emocionou-me mais o fato de estarem aqueles dois homens plantados ali a 50 metros um do outro. Homens dali, de S\u00e3o Borja. Homens da tradi\u00e7\u00e3o ga\u00facha mais profunda, homens da regi\u00e3o missioneira t\u00e3o sofrida, em que 300 mil \u00edndios foram assassinados ou vendidos para o Nordeste como escravos, o que criou naquela popula\u00e7\u00e3o missioneira algumas caracter\u00edsticas que se difundiram no ga\u00facho.<\/em><\/p>\n<p><em>Caracter\u00edsticas que tinha Jango e Get\u00falio: a capacidade de conv\u00edvio, ainda que assim\u00e9trico, com as classes subordinadas; de tomar o chimarr\u00e3o juntos, de viver conversando, de amanhecer e passar a manh\u00e3 juntos, conversando. Vejo em Get\u00falio e, sobretudo, em Jango uma capacidade extraordin\u00e1ria de falar com oper\u00e1rio, com o lavrador. Creio que essa heran\u00e7a vem de l\u00e1. Mineiros e paulistas, que eu conhe\u00e7o t\u00e3o bem, n\u00e3o t\u00eam essa caracter\u00edstica, essa capacidade de intimidade assim\u00e9trica.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas intimidade com povo, capacidade de estar ao lado dele, n\u00e3o querendo se confundir com o povo, mas como um companheiro maior, o irm\u00e3o mais velho que ali estava. Creio que essa \u00e9 uma das heran\u00e7as ga\u00fachas bonitas, heran\u00e7a que era caracter\u00edstica desses dois homens.<\/em><\/p>\n<p><em>Jango se fez sucessor de Get\u00falio por m\u00e9ritos pr\u00f3prios. Era um jovem estancieiro muito rico; engordava 20 mil cabe\u00e7as de gado por ano; podia continuar na sua vida venturosa e bem-sucedida, mas o conv\u00edvio com Get\u00falio o foi chamando para outras tarefas, uma tarefa que era o Brasil, que era o trabalhismo, que era os trabalhadores. O conv\u00edvio quase di\u00e1rio com seu vizinho, que era o velho Get\u00falio, o acompanhamento de Get\u00falio na campanha eleitoral, levou Get\u00falio, eleito Presidente, a faz\u00ea-lo seu Ministro do Trabalho. Ou seja, Get\u00falio dava a Jango a sua bandeira maior, o trabalhismo, que ele agarrou e levantou com dignidade, com honestidade a vida inteira.<\/em><\/p>\n<p><em>A rea\u00e7\u00e3o foi muito grande contra Jango. Ele combinou com Get\u00falio dobrar o sal\u00e1rio m\u00ednimo, que desde o Governo Dutra n\u00e3o tinha se alterado. Isso provocou raiva muito grande, que n\u00e3o devia ter provocado. Alguns coron\u00e9is se irritavam, como se ofendesse a eles o fato de um oper\u00e1rio ganhar mais. Jango nessa \u00e9poca ganhou uma grande bandeira de luta, mas ganhou tamb\u00e9m uma odiosidade feroz, terr\u00edvel, das velhas classes dominantes.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 um homem que, como Get\u00falio, tem sua carreira pol\u00edtica marcada por essas duas dimens\u00f5es: o amor do povo e o \u00f3dio das classes dirigentes. Continuou convivendo com Get\u00falio, mas foi retirado do Minist\u00e9rio. \u00c9 curioso verificar que nesse momento nascem dois homens: Golbery, autor do manifesto contra Jango com rela\u00e7\u00e3o ao sal\u00e1rio m\u00ednimo, e Jango, na posi\u00e7\u00e3o oposta. Homens que teriam um papel muito profundo na hist\u00f3ria brasileira posterior. Jango herdava de Get\u00falio; tinha aprendido com Get\u00falio e tinha um extraordin\u00e1rio apre\u00e7o pelas grandes tarefas do Get\u00falio. A tarefa de disciplinar as For\u00e7as Armadas, coloc\u00e1-las nos quart\u00e9is, faz\u00ea-las obedecer ao poder civil e acabar com a anarquia do per\u00edodo tenentista.<\/em><\/p>\n<p><em>Outra tarefa, pol\u00eamica, mas de import\u00e2ncia inexced\u00edvel, que tem de ser compreendida para se compreender o Brasil, foi dar ordem, ajudar a estruturar o movimento oper\u00e1rio, o movimento trabalhista brasileiro. Foi uma batalha, porque a lideran\u00e7a do movimento trabalhista estava sendo disputado por comunistas e por anarquistas, muito generosos de cora\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o tinham o que dar, e por Get\u00falio, que d\u00e1 ao operariado um projeto pr\u00f3prio para lutar por suas pr\u00f3prias causas. Pressionado pelo pr\u00f3prio movimento oper\u00e1rio, ele \u00e9 levado a dar grandes saltos, saltos extraordin\u00e1rios na hist\u00f3ria brasileira.<\/em><\/p>\n<p><em>Um dos saltos, que atualmente est\u00e1 sendo contestado criminosamente, pois \u00e9 a maior inven\u00e7\u00e3o social brasileira, \u00e9 o Imposto Sindical, que agora se chama contribui\u00e7\u00e3o sindical. V\u00e1rios partidos desta Casa n\u00e3o se op\u00f5em a que os patr\u00f5es recebam contribui\u00e7\u00e3o sindical para manter o SESI, o SENAC e as pol\u00edticas deles, mas se op\u00f5em a que o povo oper\u00e1rio tenha a sua contribui\u00e7\u00e3o sindical (Palmas). A contribui\u00e7\u00e3o sindical \u00e9 a maior inven\u00e7\u00e3o social brasileira. Ela est\u00e1 na base de um sindicalismo frondoso que floresceu aqui, um dos maiores do mundo, porque cada sindicato que se organizava encontrava um modo de ter uma ajuda, uma verba tirada de todos os oper\u00e1rios, correspondente a um dia de sal\u00e1rio, dividido em doze presta\u00e7\u00f5es. Nem o pr\u00f3prio oper\u00e1rio sentia, porque era descontado pelo patr\u00e3o na folha de sal\u00e1rio e entregue ao Governo \u2014 uma parte ficava com o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Essa inven\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem similar, mas alguns doidos alucinados que querem acabar com ela, querem a contribui\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria. Pode ser que os sindicatos dos metal\u00fargicos \u2014 o que eu duvido \u2014 consigam se organizar com a contribui\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, mas 99% dos sindicatos n\u00e3o se organizar\u00e3o, desaparecer\u00e3o. Ou seja, um dos maiores movimentos sindicais do mundo, que envolve milh\u00f5es de trabalhadores, que s\u00e3o defendidos sejam ou n\u00e3o membros do sindicato, isso tudo pode ruir pelo sectarismo, tipo de pendor udenista antioper\u00e1rio, antitrabalhador.<\/em><\/p>\n<p><em>Outro feito fundamental de Get\u00falio, de que Jango e n\u00f3s somos herdeiros, \u00e9 a unicidade sindical. A unicidade sindical d\u00e1 possibilidade de a classe oper\u00e1ria ter atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de estar presente no quadro nacional. O que pretendem hoje alguns partidos, inclusive alguns partidos chamados de esquerda, como o PT, que acaba de fazer essa proposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 extinguir a unicidade sindical para adotar o sistema norte-americano, de um sindicato para cada empresa, o que acaba com o sindicalismo, o que acaba com o movimento oper\u00e1rio. \u00c9 uma coisa criminosa, que se deve \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o estrangeira, o pluralismo sindical dos financiadores do movimento sindical no mundo, os alem\u00e3es, os franceses, os norte-americanos. E adotar isso no Pa\u00eds \u00e9 como se jogar fora o nosso passado e adotar o passado norte-americano, o passado ingl\u00eas. Outra grande conquista foi a estabilidade no emprego, que nesses dias acaba de ser amea\u00e7ada \u2014 a C\u00e2mara liberou o patr\u00e3o de obriga\u00e7\u00f5es para com os seus trabalhadores.<\/em><\/p>\n<p><em>Aquilo que n\u00f3s conseguimos est\u00e1 dentro da linha do pensamento japon\u00eas, por um paralelismo, por uma coincid\u00eancia. A nossa concep\u00e7\u00e3o e a concep\u00e7\u00e3o de Get\u00falio \u00e9 que uma empresa se fa\u00e7a com o capital, que tem de ser respeitado e lucrativo, e com os trabalhadores que a constroem. Eles t\u00eam parte daquela empresa; quando o trabalhador \u00e9 despedido, ele n\u00e3o pode ser simplesmente descartado; ele tem de ser remunerado por isso. Permitir o absurdo de que o patr\u00e3o assine a carteira sem obriga\u00e7\u00f5es \u00e9 um ato criminoso.<\/em><\/p>\n<p><em>Falam de Jango, mas Jango nasce herdeiro dessa posi\u00e7\u00e3o e de outras posi\u00e7\u00f5es de Get\u00falio e tenta lev\u00e1-las adiante. Leva adiante, sobretudo, aquilo que constitui o documento mais importante, que \u00e9 a Carta-Testamento de Get\u00falio, que deu a sua vida no momento em que a direita ganhar o poder; mas Get\u00falio o evitou, estourando seu cora\u00e7\u00e3o com uma bala, aos 72 anos. Se n\u00e3o o fizesse \u2014 era a \u00fanica sa\u00edda \u2014, ele seria enxotado do Catete, para dar o poder aos golpistas, aos udenistas, aos lacerdistas e a outros.<\/em><\/p>\n<p><em>O suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas foi um ato de extrema sabedoria. \u00c9 o que vai permitir que JK \u2014 esse belo Presidente que n\u00f3s tivemos, otimista, trabalhador, ousado \u2014 chegasse ao poder. Ele foi ao poder devido \u00e0quele tiro que Get\u00falio deu no cora\u00e7\u00e3o. H\u00e1 mil coisas mais a lembrar aqui. O Jango, com a Carta-Testamento, herda sobretudo a percep\u00e7\u00e3o de que a causa principal do atraso brasileiro era cruzeiro dar rendimento em d\u00f3lares. Quando uma empresa p\u00f5e aqui 10 mil d\u00f3lares e cresce, foi porque teve \u00eaxito econ\u00f4mico? \u00c9 porque apelou para o sistema banc\u00e1rio brasileiro. Todo o capital que ela passou a ter passa tamb\u00e9m a gerar d\u00f3lares. Isso cria um desequil\u00edbrio na economia nacional, coloca em posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas o capital nacional e o capital estrangeiro, obriga os empres\u00e1rios nacionais a ser coniventes com o capital estrangeiro. Isso \u00e9 algo que se fixou em Jango.<\/em><\/p>\n<p><em>Outra coisa que tamb\u00e9m se fixou em Jango \u2014 eu passei muitos dias conversando com ele sobre isso \u2014 era a no\u00e7\u00e3o de que a f\u00f3rmula da revolu\u00e7\u00e3o brasileira, de que o caminho brasileiro da revolu\u00e7\u00e3o social era levar adiante a Revolu\u00e7\u00e3o de 30. \u00c0quelas conquistas acrescentar outras, sobretudo a reforma agr\u00e1ria. Era a convic\u00e7\u00e3o de que, fazendo a reforma agr\u00e1ria, o Pa\u00eds seria reordenado, passaria a pertencer \u00e0s multid\u00f5es de brasileiros. O que eu classifico hoje como o mais importante momento social da hist\u00f3ria brasileira \u00e9 o movimento dos sem-terra, que agora enfrenta o poder, exigindo um pedacinho de terra para plantar mandioca, milho, para criar galinha e cabra. Isso seria feito como? Tomando as terras de metade do Brasil que est\u00e3o mal possu\u00eddas e n\u00e3o usadas, o que \u00e9 um supremo despaut\u00e9rio.<\/em><\/p>\n<p><em>O Presidente da Rep\u00fablica acaba de dar um passo positivo impondo o que deveria ter ocorrido h\u00e1 20 anos: um imposto para propriedades com mais de 80 hectares e improdutivas. Mas \u00e9 preciso mais, porque esse decreto do Presidente, para ser colocado em execu\u00e7\u00e3o e ser aceito pela Justi\u00e7a levar\u00e1 anos e anos. E aqui vem uma quest\u00e3o s\u00e9ria: o movimento dos sem-terra vem por um lado e, por outro, o sistema econ\u00f4mico, destruindo os empregos. Vivemos uma quadra tremenda de desemprego, em que o pr\u00f3prio Governo privatiza empresas, estimulando a demiss\u00e3o ou colocando para fora 30%, pelo menos, dos seus trabalhadores.<\/em><\/p>\n<p><em>Se amanh\u00e3 privatizarem a Vale \u2014 os funcion\u00e1rios precisam saber disso \u2014, 30% dos seus funcion\u00e1rios ir\u00e3o embora no outro dia. Essa situa\u00e7\u00e3o de hostilidade com a for\u00e7a de trabalho, essas medidas coercitivas s\u00f3 podem apontar para uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. Um povo n\u00e3o vai \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, \u00e0 luta e \u00e0 liberdade porque \u00e9 mais miser\u00e1vel e pode morrer de fome. E \u00e9 o que est\u00e1 ocorrendo. Por que a popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o cresceu como deveria? Tinha de crescer para 160 milh\u00f5es de brasileiros no \u00faltimo censo, mas faltaram 15 milh\u00f5es. Esses 15 milh\u00f5es n\u00e3o vieram por qu\u00ea? Por fome, desemprego. Nunca tivemos uma fase de tanta viol\u00eancia, de tanta menina de 9, 10 anos prostitu\u00edda. Essas meninas n\u00e3o se prostituem por voli\u00e7\u00e3o, por voca\u00e7\u00e3o, por um pendor \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 casa sem comida, \u00e9 casa abandonada e destru\u00edda.<\/em><\/p>\n<p><em>Neste momento a \u00fanica oferta que h\u00e1 de emprego para milh\u00f5es de brasileiros \u00e9 a do movimento dos sem-terra. Precisamos come\u00e7ar a distribuir a terra em grandes quantidades. Parcelas de 20, 30 hectares para quem queira nelas viver e trabalhar. Qual a alternativa que o Governo oferece para empregar essa multid\u00e3o de milh\u00f5es de desempregados e lan\u00e7ados \u00e0 marginalidade e \u00e0 viol\u00eancia? A \u00fanica oferta que se faz, hoje, \u00e9 a do movimento dos sem-terra.<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 falei muito. Poderia falar horas, tanto estou ligado \u00e0 hist\u00f3ria de Jango. Deixem-me, apenas, recordar o que sucedeu em l964. A id\u00e9ia que eu e Jango t\u00ednhamos era de que seria perfeitamente poss\u00edvel enfrentar o latif\u00fandio e a direita latifundi\u00e1ria. O projeto de lei para isso eu tinha entregue ao Congresso Nacional, acompanhado de mensagem presidencial, propondo as medidas da reforma agr\u00e1ria, o que era fact\u00edvel de ser aprovado. Mas o que n\u00e3o era fact\u00edvel, o que nos tombou, foi a alian\u00e7a da direita com os norte-americanos obcecados com a Guerra Fria.<\/em><\/p>\n<p><em>Havia dois inimigos para os norte-americanos na Guerra Fria: a R\u00fassia, claro; mas os inimigos locais eram Cuba, que ainda hoje os leva ao desespero, e o Brasil, pois temiam que a fome no Nordeste, a fome no Brasil, levasse o Pa\u00eds a tomar um caminho desses. Jango n\u00e3o estava empurrando o Pa\u00eds para esse caminho, para dar solu\u00e7\u00f5es, para equacionar o problema das terras.<\/em><\/p>\n<p><em>O Brasil seria outro hoje se o projeto de reforma agr\u00e1ria que apresentamos ao Congresso a 15 de mar\u00e7o tivesse sido aprovado. O golpe, ent\u00e3o, se articulou como um golpe estrangeiro, financiado pelos norte-americanos e por outras pot\u00eancias, subornando generais, subornando pol\u00edticos, todos sabendo dos esc\u00e2ndalos, nesta Casa, do IBAD, da quantidade de dinheiro que foi posta na m\u00e3o de Deputados e Senadores que aceitavam ser coniventes com a pol\u00edtica deles, que era manter o Brasil tal qual \u00e9, porque era lucrativo para eles, era bom para eles, indiferentes \u00e0 sorte do povo<\/em><\/p>\n<p><em>Jango realizou grandes feitos. Vi crescerem projetos ao seu lado. Vi-o empurrar os Parlamentares que estavam lutando pelo Estatuto do Trabalhador Rural; vi-o levar adiante e criar a ELETROBRAS, que agora querem destruir. Na ELETROBRAS, conseguimos um mecanismo leg\u00edtimo para aumentar as tarifas de eletricidade, para que o excedente fosse aplicado em constru\u00e7\u00e3o de novas hidrel\u00e9tricas. E constru\u00edmos. E duplicamos, e triplicamos e decuplicamos nossa capacidade. E agora vai-se dar esse instrumento \u00e0s empresas que comprarem, o direito de aumentar as taxas para fazerem hidrel\u00e9tricas? Elas nem querem fazer hidrel\u00e9tricas. Ser\u00e3o encargos do Governo, que tirar\u00e1 os recursos de onde, se a fonte secou?<\/em><\/p>\n<p><em>Outros feitos foram o d\u00e9cimo terceiro sal\u00e1rio, cuja tramita\u00e7\u00e3o teve todo o seu apoio; o controle do capital estrangeiro, cujo projeto chegou a ser aprovado na C\u00e2mara e no Senado; e a lei de remessa e lucros que o Jango regulamentou com a assessoria de Carvalho Pinto.<\/em><\/p>\n<p><em>Quero terminar essa minha fala dizendo que a Jango devemos uma outra coisa muito bonita, que a meu cora\u00e7\u00e3o fala especialmente: aquele senso de liberdade, de democracia e de criatividade cultural. \u00c9 naquele per\u00edodo de Jango que surge um movimento poderoso que se estende a 1968: o movimento da bossa nova, o movimento do cinema novo, o movimento das can\u00e7\u00f5es de protesto, o movimento do teatro de opini\u00e3o, movimentos que empolgavam toda a juventude, ganhando-a para si mesmo e para o Pa\u00eds. Isso \u00e9 o que falta hoje.<\/em><\/p>\n<p><em>Quem vai ganhar essa juventude que a ditadura castrou e que a\u00ed est\u00e1 desbundada? (Palmas.) Isso me preocupa profundamente. Havia formas de concatenar a a\u00e7\u00e3o dos jovens para que eles fossem orgulhosos de ser brasileiros. E fossem quadros da nossa luta. Em 1968, na luta por manter aquele esp\u00edrito, eles ofereceram os cora\u00e7\u00f5es e os f\u00edgados \u00e0s balas. \u00c0s dezenas foram mortos e torturados.<\/em><\/p>\n<p><em>A beleza do movimento cultural \u00e9 alguma coisa que devemos ao Governo de Jango, conciliador, persuas\u00f3rio, incapaz de viol\u00eancia. Acho mesmo, \u00e0s vezes, que ele deveria ter tido um tom de viol\u00eancia um pouco maior, porque n\u00e3o h\u00e1 crime maior do que perder o poder. Mas n\u00e3o era da natureza de Jango. A forma\u00e7\u00e3o dele n\u00e3o contribu\u00eda, de forma nenhuma, para uma guerra fratricida em que poderiam morrer milh\u00f5es de brasileiros. Estamos aqui para recordar e saudar a mem\u00f3ria desse homem por todos os t\u00edtulos honrado e para que as pessoas se lembrem de que h\u00e1 outra vers\u00e3o, para a qual cada um de n\u00f3s tem de contribuir.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 a vers\u00e3o de vencedor, que descreve aquele per\u00edodo como o per\u00edodo do Jango, que eles quiseram enfrentar da forma que fosse, sem nada a ver, de um governo que tinha conseguido constituir um partido revolucion\u00e1rio. Ora, a cren\u00e7a de Jango era a de que ele iria fazer o Partido Trabalhista Brasileiro igual ao ingl\u00eas; que ele iria concorrer nas elei\u00e7\u00f5es e ganhar.<\/em><\/p>\n<p><em>De fato, ele triplicou o n\u00famero de Deputados trabalhistas. E mais, muito mais do que isso: Jango chamou ao Partido Trabalhista gente como Almino Affonso, que vinha de outras fontes: S\u00e3o Thiago Dantas, Hermes Lima e tanta gente mais. Introduziu na esquerda brasileira inclusive o eminente Presidente do Senado Federal, Jos\u00e9 Sarney, que naquele momento estava tamb\u00e9m na nossa luta. O que se quebrou foi aquela postura aberta, persuas\u00f3ria, de transformar o Brasil pelo consentimento das classes dominantes, em vista de que n\u00e3o dava preju\u00edzo a ningu\u00e9m, sen\u00e3o a quem n\u00e3o merecia aten\u00e7\u00e3o, que eram os latifundi\u00e1rios absente\u00edstas.<\/em><\/p>\n<p><em>Meus senhores, um dos meus orgulhos \u00e9 o de ter sido o Chefe da Casa Civil do Presidente Jo\u00e3o Goulart\u201d<\/em>. (Palmas.)<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 um homem que, como Get\u00falio, tem sua carreira pol\u00edtica marcada por essas duas dimens\u00f5es: o amor do povo e o \u00f3dio das classes dirigentes\u201d, disse o senador pedetista, Darcy Ribeiro, que hoje completaria 95 anos, no seu \u00faltimo discurso no plen\u00e1rio do Congresso Nacional. 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