{"id":51857,"date":"2012-10-24T18:02:43","date_gmt":"2012-10-24T18:02:43","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/artigo\/os-tres-pratos-da-balanca\/"},"modified":"2017-01-16T09:51:02","modified_gmt":"2017-01-16T11:51:02","slug":"os-tres-pratos-da-balanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/os-tres-pratos-da-balanca\/","title":{"rendered":"Os tr\u00eas pratos da balan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Os pensadores da v&eacute;spera do Renascimento preferiam duas imagens para definir o Estado: a do rel&oacute;gio e a da balan&ccedil;a. O Estado pode ser como a maquinaria de um rel&oacute;gio, com suas engrenagens bem lubrificadas, o p&ecirc;ndulo oscilando corretamente para marcar o tempo, e algu&eacute;m, &eacute; claro, para suprir a corda com a energia necess&aacute;ria. Esse &eacute; o estado da ordem.&nbsp;<\/p>\n<p>A ordem pode ser imposta pelo despotismo manhoso, por um estado teocr&aacute;tico, pelo terror policial ou pela legitimidade das leis &ndash; como deveria ser o estado democr&aacute;tico. Ainda que a etimologia seja a mesma, as leis nunca s&atilde;o absolutamente leg&iacute;timas ou se fundam no esp&iacute;rito da justi&ccedil;a. Elas jamais s&atilde;o&nbsp; iguais para todos: conforme a den&uacute;ncia do Abade Seiy&egrave;s, elas s&atilde;o c&uacute;mplices dos privil&eacute;gios.<\/p>\n<p>Contrapondo-se &agrave; id&eacute;ia do rel&oacute;gio, h&aacute; a id&eacute;ia de que o Estado deve ser como a balan&ccedil;a, sempre em busca do equil&iacute;brio. Melhor seria imagin&aacute;-lo como uma balan&ccedil;a de tr&ecirc;s pratos, cada um deles significando um dos poderes republicanos. O equil&iacute;brio entre os tr&ecirc;s &eacute; o que assegura &ldquo;a verdadeira justi&ccedil;a&rdquo;, na qual se assenta a ordem real do estado republicano, conforme o conservador C&iacute;cero em seu estudo sobre o tema. De acordo com seu texto, a verdadeira justi&ccedil;a se expressa na lei que assegura o bem estar comum &#8211;&nbsp; objetivo final do Estado.<\/p>\n<p>&nbsp;Entre os tr&ecirc;s poderes do Estado, qual deve prevalecer? Ao restabelecer a id&eacute;ia romana da Rep&uacute;blica, os intelectuais que pensaram os Estados Unidos, alguns deles homens pr&aacute;ticos que viviam da agricultura e do com&eacute;rcio, e outros leg&iacute;timos representantes do povo comum, como Thomas Payne, decidiram que o poder legislativo prevaleceria sobre os outros dois poderes. Acompanhavam Locke: o parlamento n&atilde;o &eacute; um ramo do governo, mas a na&ccedil;&atilde;o, em seu povo, que &ndash; mediante seus delegados &ndash; para garantir o Estado, legisla, fiscaliza e julga o poder executivo.<\/p>\n<p>Com um pleito comum &ndash; o do&nbsp; cidad&atilde;o Marbury, nomeado nas &uacute;ltimas horas da presid&ecirc;ncia Adams para juiz de paz, e cuja posse foi vetada pelo Secret&aacute;rio Madison, por ordem do novo presidente, Jefferson &ndash; levado &agrave;&nbsp; Suprema Corte (Marbury contra Madison) pelo prejudicado, seu presidente, John Marshall, ao negar o pedido, estabeleceu o direito do alto tribunal de decidir o que &eacute; e o que n&atilde;o &eacute; constitucional. Esse sistema foi seguido em quase todos os estados modernos, em alguns deles exercido por tribunais que s&oacute; cuidam da constitucionalidade das leis.<\/p>\n<p>N&atilde;o foram poucos, nem privados de autoridade,&nbsp; que contestaram esse poder assumido pela Suprema Corte. Dois deles se destacaram como chefes de Estado: Andrew Jackson, no caso da primeira roubalheira banc&aacute;ria (o famoso Banking Veto), e Franklin Roosevelt, que se confrontou com o alto tribunal, a fim de assegurar a pol&iacute;tica social do New Deal.<\/p>\n<p>Jackson argumentou que o mesmo juramento de cumprir a Constitui&ccedil;&atilde;o, de acordo com a sua consci&ecirc;ncia, que Marshall fizera, ele tamb&eacute;m fizera, e nada assegurava, na Constitui&ccedil;&atilde;o e nos princ&iacute;pios republicanos, que a consci&ecirc;ncia do juiz fosse maior, ou melhor, do que a dele. O veto presidencial de Jackson permaneceu e o monop&oacute;lio do Banco de Filad&eacute;lfia foi rompido.<\/p>\n<p>Jackson agira em nome do povo trabalhador contra o Congresso, que lhe determinara renovar a patente do banco, e usou o argumento de que o sol e a chuva caiam igualmente sobre os ricos e os pobres, e a Rep&uacute;blica n&atilde;o podia privilegiar uns cidad&atilde;os contra os outros.<\/p>\n<p>&nbsp;O confronto entre Roosevelt e a Suprema Corte &ndash; ent&atilde;o presidida pelo pol&iacute;tico republicano Charles Hughes, que havia sido nomeado em 1930, pelo presidente Hoover &ndash; tamb&eacute;m se deu na defesa do povo. Tal como ocorrera a Jackson, Roosevelt tomara medidas fortes em defesa do povo (e, assim, do capitalismo, como se veria depois) e Hughes as contestou.<\/p>\n<p>Roosevelt, que dispunha de maioria no Congresso, em 1937, anunciou que tomaria medidas fortes, entre elas a da nomea&ccedil;&atilde;o de&nbsp; juiz suplementar para cada um daqueles ju&iacute;zes que tivessem mais de 70 anos (nos EUA o cargo &eacute; vital&iacute;cio), o que elevaria o n&uacute;mero de membros do tribunal e lhe permitiria maioria. Apenas com a amea&ccedil;a, Roosevelt conseguiu salvar as medidas sociais mais importantes de seu programa de governo.<\/p>\n<p>Para que um estado republicano tenha equil&iacute;brio &eacute; necess&aacute;rio que nenhum dos tr&ecirc;s poderes avance sobre as prerrogativas dos outros. Mas, conforme as reflex&otilde;es constitucionais de Publius&nbsp; (pseud&ocirc;nimo comum a Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, em homenagem a Publius Plub&iacute;cola, criador, com Junus Brutus, da Rep&uacute;blica Romana), no sistema republicano o poder legislativo prevalece naturalmente.<\/p>\n<p>&Eacute; o poder legislativo que faz as leis e limita, constitucionalmente, as prerrogativas dos outros dois poderes. Sendo assim, &eacute;&nbsp; impens&aacute;vel que qualquer um dos outros dois poderes substitua o dever indeleg&aacute;vel de legislar do Parlamento. Quando o eleitor vota no parlamentar, &eacute; para que ele o represente, n&atilde;o para que transfira aos outros o poder recebido do povo.<\/p>\n<p>&nbsp;H&aacute; grande desencanto popular com os deputados e senadores, tendo em vista a fraca legitimidade do mandato de muitos, que ali n&atilde;o representam o povo, e sim, grandes interesses econ&ocirc;micos e corporativos. Isso sem falar na pregui&ccedil;a mental de um grande n&uacute;mero de representantes.<\/p>\n<p>Uma das medidas para corrigir essa deforma&ccedil;&atilde;o do estado democr&aacute;tico &eacute; a t&atilde;o esperada e nunca obtida reforma pol&iacute;tica, que, com o financiamento p&uacute;blico das campanhas, atrair&aacute; para a atividade pol&iacute;tica alguns dos milh&otilde;es de brasileiros honrados e intelectualmente preparados para legislar.<\/p>\n<p>Muitos parecem pensar que o ideal seria trocar de povo, j&aacute; que o nosso, em seu ju&iacute;zo, n&atilde;o sabe votar. S&atilde;o os ide&oacute;logos de uma &ldquo;democracia perfeita&rdquo;, onde a &ldquo;ordem&rdquo; seja absoluta, como a do mecanismo dos rel&oacute;gios. Foi o que pensaram algumas elites brasileiras em 1964, e ainda n&atilde;o desistiram da id&eacute;ia.<\/p>\n<p>A experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica nos mostra que &eacute; melhor equilibrar os tr&ecirc;s pratos da balan&ccedil;a: que nenhum deles tenha mais peso do que o necess&aacute;rio &agrave; Rep&uacute;blica, e nenhum deles deixe de exercer o seu pr&oacute;prio dever. &Eacute; importante que o Poder Judici&aacute;rio n&atilde;o se arrogue o direito de &aacute;rbitro pol&iacute;tico, nem de legislador soberano. Limite-se a julgar, conforme as leis e o testemunho das provas.<\/p>\n<p>Assim, tem raz&atilde;o o romano C&iacute;cero, ao estabelecer, como base real da ordem do Estado, a verdadeira justi&ccedil;a, que se expresse na lei e assegure o bem-estar a todos.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os pensadores da v&eacute;spera do Renascimento preferiam duas imagens para definir o Estado: a do rel&oacute;gio e a da balan&ccedil;a. 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