{"id":51804,"date":"2009-12-12T20:20:51","date_gmt":"2009-12-12T20:20:51","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/artigo\/o-presidente-e-o-palavrao-que-incomoda\/"},"modified":"2017-01-16T09:52:05","modified_gmt":"2017-01-16T11:52:05","slug":"o-presidente-e-o-palavrao-que-incomoda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/o-presidente-e-o-palavrao-que-incomoda\/","title":{"rendered":"O presidente e o palavr\u00e3o que incomoda"},"content":{"rendered":"<p><span>Se tratar da l&iacute;ngua &eacute; tratar de um tema pol&iacute;tico, a fala sem rodeios do presidente Lula, durante cerim&ocirc;nia de assinatura dos contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, no Maranh&atilde;o, vai encher a se&ccedil;&atilde;o de cartas de jornais e revistas, al&eacute;m de dar o tom do moralismo seletivo dos grandes articulistas.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>Fingir&atilde;o n&atilde;o saber que palavras tidas como chulas s&atilde;o formas ling&uuml;&iacute;sticas &iacute;mpares para expressar emo&ccedil;&otilde;es que permeiam o corpo e os amplos campos das rela&ccedil;&otilde;es sociais. N&atilde;o est&aacute; em quest&atilde;o se o emprego se deu em contexto adequado, mas o que move o coro dos &ldquo;indignados&rdquo;.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>Ao afirmar que &#8220;eu n&atilde;o quero saber se o Jo&atilde;o Castelo &eacute; do PSDB. Se o outro &eacute; do PFL. Eu n&atilde;o quero saber se &eacute; do PT. Eu quero &eacute; saber se o povo est&aacute; na merda e eu quero tirar o povo da merda em que ele se encontra; esse &eacute; o dado concreto&#8221;, Lula tem consci&ecirc;ncia de que os opositores dir&atilde;o que desrespeitou a postura p&uacute;blica que deveria manter em face de majestade do cargo que ocupa. Tanto que se antecipa &agrave; cr&iacute;tica anunciada: &ldquo;Amanh&atilde; os comentaristas dos grandes jornais v&atilde;o dizer que o Lula falou um palavr&atilde;o, mas eu tenho consci&ecirc;ncia que eles falam mais palavr&atilde;o do que eu todo dia e tenho consci&ecirc;ncia de como vive o povo pobre desse pa&iacute;s&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>Como tem sido colonizada para ter vergonha de ser o que &eacute;, uma boa parcela da classe m&eacute;dia urbana se apresenta como defensora intransigente da propriedade, da fam&iacute;lia e do Estado Patrimonial. Confunde governo e salva&ccedil;&atilde;o, ignora a representa&ccedil;&atilde;o, desconhece direitos sociais e pol&iacute;ticos, menosprezando a explora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, embora seja &ldquo;mobiliz&aacute;vel&rdquo; por campanhas de caridades que reforcem a sua imagem de privilegiadas. Em busca de ilus&otilde;es perdidas, est&aacute; dispon&iacute;vel para aventuras que real&ccedil;am a ferocidade dos seus recalques. E qualquer enunciado que apresente um padr&atilde;o variante &eacute; o suficiente para a&ccedil;ular o seu &oacute;dio de classe.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>Pouco lhe importa se campeia a viol&ecirc;ncia, a trucul&ecirc;ncia e a mis&eacute;ria. Em seu ilus&oacute;rio casulo, o que merece relevo &eacute; o destempero verbal de um presidente que n&atilde;o segue os padr&otilde;es dos antigos donos do poder. &Eacute; de pouca import&acirc;ncia se o governo anterior reduziu a zero os empr&eacute;stimos da Caixa Econ&ocirc;mica Federal &agrave;s autarquias e estatais da &aacute;rea de saneamento b&aacute;sico. Tamb&eacute;m n&atilde;o lhe tira o sono se a decis&atilde;o pol&iacute;tica do tucanato provocou, al&eacute;m da dengue, surtos de c&oacute;lera, leishmaniose visceral, tifo e disenterias. Ora, doen&ccedil;as resultantes da falta de saneamento n&atilde;o lhe incomodam, pois fezes liquefeitas s&atilde;o desprez&iacute;veis. A merda que lhe aflige &eacute; aquela que aparece no improviso presidencial como dado concreto.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>Para Lula, o descalabro no saneamento &eacute; uma trag&eacute;dia, e, de fato, o &eacute;. Por sua hist&oacute;ria, o presidente faz parte de uma legi&atilde;o de sobreviventes. De um ex&eacute;rcito que resistiu a s&eacute;culos de dificuldades imensas, naturais e humanas. Tem orgulho saud&aacute;vel de sua for&ccedil;a. Da for&ccedil;a desse povo que come mandacaru e capulho verde de algod&atilde;o e ainda tem a esperan&ccedil;a desesperada de querer viver. Isso &eacute; coragem, &eacute; grandeza. Essa &eacute; a merda que a causa engulhos na grande imprensa e nos seus leitores indignados. Mas indignados com o qu&ecirc;, afinal?<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>Indignados pela exist&ecirc;ncia de erros que se repetem h&aacute; tempos? Indignados pela impot&ecirc;ncia de um saber divorciado da dimens&atilde;o hist&oacute;rica e da responsabilidade social que deveria caber aos centros de ensino que freq&uuml;entaram? Indignados pela amea&ccedil;a, concreta e imediata, da morte, pela fome end&ecirc;mica e, at&eacute; bem pouco tempo epid&ecirc;mica, dos mais miser&aacute;veis? N&atilde;o. O que os ruborizados pelo emprego da palavra &#8220;merda&#8221; n&atilde;o suportam &eacute; a aus&ecirc;ncia do promotor da &#8220;paz social&#8221;, do garantidor de uma ordem pol&iacute;tica que lhes oferecia, atrav&eacute;s do conservadorismo autorit&aacute;rio, uma institucionalidade que muito apreciavam &eacute;tica e esteticamente. Um simulacro de rep&uacute;blica feito sob medida. <\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>O problema &eacute; que a vestimenta institucional brasileira parece cal&ccedil;a curta, fazendo o pa&iacute;s caminhar desajeitado, com medo do rid&iacute;culo. A reforma mais urgente requer produ&ccedil;&atilde;o crescente de cidadania, a cria&ccedil;&atilde;o incessante de sujeitos portadores de direitos e deveres. Em uma sociedade fracionada, essa &eacute; a &#8220;merda&#8221; que amea&ccedil;a e choca os estamentos mais reacion&aacute;rios: a realidade que n&atilde;o deveria ter emergido com modelagem t&atilde;o n&iacute;tida.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span>* Gilson Caroni Filho &eacute; professor de Sociologia das Faculdades Integradas H&eacute;lio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil<\/span><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se tratar da l&iacute;ngua &eacute; tratar de um tema pol&iacute;tico, a fala sem rodeios do presidente Lula, durante cerim&ocirc;nia de assinatura dos contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, no Maranh&atilde;o, vai encher a se&ccedil;&atilde;o de cartas de jornais e revistas, al&eacute;m de dar o tom do moralismo seletivo dos grandes articulistas. &nbsp; Fingir&atilde;o n&atilde;o&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on wp_trim_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on wp_trim_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1584],"tags":[],"class_list":["post-51804","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51804","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51804"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51804\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":52037,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51804\/revisions\/52037"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}