{"id":51621,"date":"2016-12-05T20:40:52","date_gmt":"2016-12-05T22:40:52","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/?p=50956"},"modified":"2017-01-18T17:02:36","modified_gmt":"2017-01-18T19:02:36","slug":"40-anos-sem-joao-goulart-e-o-pais-na-mesma-roda-vida-de-1964","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/40-anos-sem-joao-goulart-e-o-pais-na-mesma-roda-vida-de-1964\/","title":{"rendered":"40 anos sem Jo\u00e3o Goulart e o pa\u00eds na mesma roda-vida de 1964"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil deu adeus ao seu \u00faltimo presidente trabalhista no dia 6 de dezembro de 1976. H\u00e1 quatro d\u00e9cadas, Jo\u00e3o Goulart \u2013 ou Jango, como era carinhosamente conhecido \u2013 morreu no ex\u00edlio, doze anos ap\u00f3s ser deposto pelo golpe militar de 1964. A vontade de tornar o pa\u00eds socialmente mais justo lhe custou o governo, mas as conquistas do trabalhismo janguista, ainda hoje, s\u00e3o usufru\u00eddas pela Na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Goulart enfrentou uma crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica semelhante a que se instalou no pa\u00eds nos \u00faltimos anos. As institui\u00e7\u00f5es da Rep\u00fablica estavam enfraquecidas, a extrema direita ganhava for\u00e7a em todo o mundo e a pseudo moraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica era pretexto para revogar a vontade popular. Certamente a gravidade da situa\u00e7\u00e3o era maior \u00e0 \u00e9poca, mas a trilha que levou o Brasil a quase 30 anos de ditadura parece estar sendo percorrida outra vez.<\/p>\n<p>Quando tenta-se criminalizar o ensino cr\u00edtico da ditadura militar sob a \u00e9gide canhestra da \u201cEscola sem Partido\u201d, nada mais pode surgir se n\u00e3o mais uma volta na roda do ciclo vicioso da hist\u00f3ria brasileira, em que per\u00edodos democr\u00e1ticos sucumbem a golpes a cada gera\u00e7\u00e3o. A ades\u00e3o de jovens a movimentos pr\u00f3-interven\u00e7\u00e3o militar, o irracional e anacr\u00f4nico \u00f3dio ao comunismo e a idolatria ao autoritarismo dos Bolsonaro s\u00e3o subprodutos de jovens que muito pouco sabem sobre o que lutou e o que viveu Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>Sem conhecer a hist\u00f3ria, o Brasil sucumbiu mais uma vez \u00e0 vontade da elite econ\u00f4mica, que na atual crise n\u00e3o topou pagar a conta do excesso de voluntarismo do Estado para com esta mesma elite. Se o governo da presidenta Dilma n\u00e3o estava disposto a cortar direitos trabalhistas conquistados h\u00e1 mais de quarenta anos por Get\u00falio Vargas e por Jango; nem tampouco reduzir o or\u00e7amento social, um golpe parlamentar empossou algu\u00e9m que o fizesse.<\/p>\n<p>Pelo script da hist\u00f3ria, era esperado que, assim como revogaram a nacionaliza\u00e7\u00e3o das refinarias de petr\u00f3leo em 1964, agora entregassem o pr\u00e9-sal \u00e0s petroleiras estrangeiras. Assim como os coron\u00e9is demitiram 40 mil funcion\u00e1rios p\u00fablicos, agora outros milhares perdem suas posi\u00e7\u00f5es no fechamento de ag\u00eancias do Banco do Brasil em todo o pa\u00eds, al\u00e9m da venda de ativos da Petrobr\u00e1s, que gera muito desemprego direta e indiretamente.<\/p>\n<p>Mais uma vez, a elite brasileira p\u00f5e a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica na conta do pobre, do trabalhador, do assalariado. Lembrar os 40 anos de morte do presidente Jango \u00e9 rogar uma reflex\u00e3o ao povo que carrega o Brasil nos bra\u00e7os: at\u00e9 quando aceitar\u00e1 ser massacrado em nome um projeto de na\u00e7\u00e3o que n\u00e3o o contempla?<\/p>\n<p><strong>Trajet\u00f3ria pol\u00edtica de Jo\u00e3o Goulart<\/strong><\/p>\n<p>Nascido em S\u00e3o Borja, conterr\u00e2neo da fam\u00edlia Vargas, Jango deixou a cidade natal para dar seguimento aos estudos. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ingressou na pol\u00edtica a convite do presidente da Rep\u00fablica, o amigo Get\u00falio, em 1945.<\/p>\n<p>J\u00e1 tomado pelo ide\u00e1rio trabalhista e convencido do sucesso do Governo Vargas que transformou um pa\u00eds agr\u00edcola em industrial, Jango se torna uma grande lideran\u00e7a do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em 1947 \u00e9 eleito deputado estadual pelo Rio Grande do Sul e, em 1950, alcan\u00e7a o posto de Deputado Federal.<\/p>\n<p>No ano de 1953, em meio \u00e0 crise que culminou no suic\u00eddio do presidente Vargas, Jango \u00e9 convidado pelo chefe da na\u00e7\u00e3o para assumir o Minist\u00e9rio do Trabalho. Da\u00ed em diante, torna-se alvo da oposi\u00e7\u00e3o golpista que tentava chegar ao poder. Irredut\u00edvel em sua luta, o trabalhista aumentou em 100% o sal\u00e1rio m\u00ednimo e atuou incisivamente na defesa do trabalhador e do povo pobre do Brasil.<\/p>\n<p>Jango \u00e9 eleito vice-presid\u00eancia da Rep\u00fablica nas elei\u00e7\u00f5es 1955 \u2013 \u00e9poca em que se votava distintamente para presidente e para vice \u2013 obtendo meio milh\u00e3o de votos a mais do que o presidente Juscelino Kubitschek. Em 1960 foi reeleito, dessa vez ao lado de J\u00e2nio Quadros que renunciou no primeiro ano de mandato.<\/p>\n<p>A <em>via crucis<\/em> de Jo\u00e3o Goulart come\u00e7ou em 1961. No dia em que J\u00e2nio deixou o poder, Jango estava em miss\u00e3o na China. Quanto tentou retornar ao pa\u00eds, foi impedido pelos ministros militares e pela oposi\u00e7\u00e3o, que inconstitucionalmente n\u00e3o o admitiam como presidente. Seguiu, ent\u00e3o, para o Uruguai onde esperou uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola empunhou a bandeira da legalidade e ofereceu resist\u00eancia ao golpe. Estavam prontos e armados para defender a posse do presidente constitucional, mas uma decis\u00e3o conciliat\u00f3ria garantiria a chegada de Jango ao Planalto, recha\u00e7ando a possibilidade de guerra civil. Sob a condi\u00e7\u00e3o de um parlamentarismo instant\u00e2neo instaurado no Brasil, Jo\u00e3o Goulart assume a presid\u00eancia.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio era de crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica e o presidente prop\u00f4s a Reforma de Base para reconduzir o pa\u00eds ao crescimento. A proposta contemplava, principalmente, a classe pobre. Para o presidente, a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade social faria do Brasil uma grande pot\u00eancia. O Congresso foi contra e o projeto n\u00e3o foi adiante.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o governo de Jo\u00e3o Goulart foi marcado pela valoriza\u00e7\u00e3o do trabalhador e pela defesa da soberania nacional. Regulamenta\u00e7\u00e3o do Estatuto do Trabalhador Rural, 13\u00b0 sal\u00e1rio, fortalecimento da ind\u00fastria brasileira e cria\u00e7\u00e3o da Eletrobr\u00e1s s\u00e3o algumas das marcas do seu governo interrompido. O nacionalismo janguista incomodava a caserna e a elite do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em meio a guerra-fria, qualquer atitude social era tomada por comunismo. O extremismo impedia o bom senso e os oportunistas se valiam dessa realidade. Jango foi rotulado comunista pela extrema direita do pa\u00eds que, em parceria com os EUA, passou a articular o golpe de estado. Seu destino estava selado.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Goulart tentou. Procurou apoio popular \u2013 e obteve \u2013 no Com\u00edcio da Central, onde reuniu mais de 200 mil pessoas. No evento, ficou claro que o povo estava com Jango para a implanta\u00e7\u00e3o das Reformas de Base. O governo contava com mais de 70% de aprova\u00e7\u00e3o naquele momento e a \u201cluz vermelha\u201d ascendeu para os conspiradores.<\/p>\n<p>Pouco mais de duas semanas ap\u00f3s o com\u00edcio, na madrugada do dia 1\u00b0 de abril de 1964, os militares tomaram as ruas. Jo\u00e3o Goulart foi impedido de ir ao Planalto, como em 1961. Dessa vez, o Congresso n\u00e3o tomaria atitude conciliat\u00f3ria. Em lugar disso, avalizou o golpe militar declarando a vac\u00e2ncia da presid\u00eancia, com o presidente em territ\u00f3rio nacional, a revelia da constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Brizola ofereceu apoio a Jango para uma rea\u00e7\u00e3o, mas o presidente preferiu poupar a na\u00e7\u00e3o brasileira do iminente \u201cbanho de sangue\u201d e buscou asilo pol\u00edtico do Uruguai. No dia 4 de abril de 1964, Jo\u00e3o Goulart deixa o Brasil para nunca mais voltar, tornando-se o \u00fanico presidente brasileiro a morrer no ex\u00edlio.<\/p>\n<p>A deposi\u00e7\u00e3o e o ex\u00edlio n\u00e3o foram o bastante para os perseguidores da esquerda sul-americana. Jo\u00e3o Goulart foi vigiado e perseguido durante todo o tempo em que esteve fora do pa\u00eds. Deixou o Uruguai e rumou para a Argentina com medo de ser executado pelos regimes ditatoriais.<\/p>\n<p>O \u00faltimo presidente trabalhista morreu no dia 6 de dezembro de 1976, de ataque card\u00edaco, na prov\u00edncia de Corrientes, na Argentina, de acordo com a vers\u00e3o oficial. Entretanto, a falta de clareza nas circunst\u00e2ncias da sua morte levanta a hip\u00f3tese de homic\u00eddio, j\u00e1 que o presidente constava na lista de \u201cinvestigados\u201d da esp\u00faria Opera\u00e7\u00e3o Condor \u2013 opera\u00e7\u00e3o secreta que executava l\u00edderes de esquerda no cone sul da Am\u00e9rica. At\u00e9 hoje, nada foi conclu\u00eddo.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil deu adeus ao seu \u00faltimo presidente trabalhista no dia 6 de dezembro de 1976. H\u00e1 quatro d\u00e9cadas, Jo\u00e3o Goulart \u2013 ou Jango, como era carinhosamente conhecido \u2013 morreu no ex\u00edlio, doze anos ap\u00f3s ser deposto pelo golpe militar de 1964. 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