{"id":43635,"date":"2016-06-13T10:49:32","date_gmt":"2016-06-13T13:49:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.malungo2.com.br\/pdt\/desenv\/?p=43635"},"modified":"2016-06-13T10:49:32","modified_gmt":"2016-06-13T13:49:32","slug":"bresser-pereira-defender-dilma-sera-um-dever-civico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/bresser-pereira-defender-dilma-sera-um-dever-civico\/","title":{"rendered":"Bresser Pereira: \u2018Defender Dilma ser\u00e1 um dever c\u00edvico\u2019"},"content":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Bresser Pereira deu uma palestra no Grupo de Reflex\u00e3o sobre o Brasil Contempor\u00e2neo, da Escola de Altos Estudos em Ci\u00eancias Sociais (EHESS), em Paris. Entre os intelectuais brasileiros, ele \u00e9 uma das vozes mais cr\u00edticas ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. \u00a0A R\u00e1dio Fran\u00e7a Internacional (RFI) entrevistou Bresser e nela ele comenta o fato de ter sido um dos escolhidos pela presidente para defend\u00ea-la no Senado, no julgamento do impeachment. \u201cTerei n\u00e3o s\u00f3 o prazer, como o dever c\u00edvico de defend\u00ea-la\u201d, afirma o ex-ministro de Jos\u00e9 Sarney e de Fernando Henrique Cardoso, para quem o impeachment de Dilma gera \u201cum forte arranh\u00e3o na democracia brasileira&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cTemer n\u00e3o ter\u00e1 apoio para nada\u201d, aposta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Confira abaixo os principais trechos da conversa.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00c9 o fim de um ciclo de democracia e justi\u00e7a social no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>&#8212; \u00a0Sim, \u00e9 o fim. \u00c9 uma an\u00e1lise que fa\u00e7o no meu \u00faltimo livro, A Constru\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do Brasil, em que eu divido a hist\u00f3ria do Brasil independente em tr\u00eas grandes ciclos. O primeiro, do Imp\u00e9rio, eu chamo de Estado e integra\u00e7\u00e3o Territorial. Depois, tem um per\u00edodo intermedi\u00e1rio, a Velha Rep\u00fablica, at\u00e9 chegarmos a um novo ciclo, de 1930 e 1980, que chamo de na\u00e7\u00e3o e desenvolvimento. \u00c9 o momento da revolu\u00e7\u00e3o capitalista brasileira, com a figura marcante de Get\u00falio Vargas. Depois, de 1980 at\u00e9 2014, temos o ciclo democracia e justi\u00e7a social. Tivemos a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, que foi alcan\u00e7ada, e a justi\u00e7a social, que foi modestamente melhorada. Ainda estamos longe dela, mas caminhamos na sua dire\u00e7\u00e3o. A origem do problema \u00e9 que, a partir de 1930, a economia do Brasil para, cresce a uma taxa muito menor do que nos 50 anos anteriores. A ideia de se ter redistribui\u00e7\u00e3o da renda e diminui\u00e7\u00e3o das desigualdades sem crescimento econ\u00f4mico \u00e9 praticamente imposs\u00edvel, de forma que agora se chega ao fim deste ciclo. E ainda surge uma direita algo violenta neste final.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O ano de 2014 foi o da reelei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff. Para o senhor, o in\u00edcio do segundo mandato dela foi marcado pelo fim deste ciclo?<\/strong><\/p>\n<p>&#8212; Sim. Para mim, antes mesmo da grande recess\u00e3o e da grande crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e moral que teremos se desencadeando em 2015, j\u00e1 estava claro que esse ciclo de democracia e justi\u00e7a social estava se esgotando. A grande tentativa pol\u00edtica dos governos Lula-Dilma tinha sido de fazer um pacto pol\u00edtico e de classes desenvolvimentista. Um pacto que juntasse os trabalhadores e a burocracia p\u00fablica aos empres\u00e1rios industriais, aos empres\u00e1rios produtivos. Foi o que ocorreu na era de Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O capitalismo em qualquer pa\u00eds do mundo \u00e9 ou desenvolvimentista, ou liberal. Se for liberal, \u00e9 um capitalismo dos rentistas e dos financistas, como vimos nos Estados Unidos e na Fran\u00e7a, a partir de 1980. N\u00f3s, com a chega do Collor \u00e0 presid\u00eancia, teremos um ciclo que chamo de liberal-dependente. O governo Fernando Henrique foi neoliberal no plano econ\u00f4mico, mas n\u00e3o no plano social. E agora, neste novo governo que surgiu ap\u00f3s este impeachment absolutamente inaceit\u00e1vel, vemos uma tentativa de desmontar o nosso Estado de bem estar social no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como um dos fundadores do PSDB, como o senhor v\u00ea a postura de l\u00edderes da sigla nesta crise, especialmente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso?<\/strong><\/p>\n<p>&#8212; Durante o primeiro ano do governo de Fernando Henrique, eu vi que a pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo era muito equivocada, porque era uma pol\u00edtica de c\u00e2mbio muito apreciado e juros muito altos. Eu insistentemente falei com o Fernando Henrique, insistia nisso uma vez por m\u00eas. Ele era muito simp\u00e1tico e ainda \u00e9 simpatic\u00edssimo, uma pessoa da melhor qualidade. Mas ele estava assessorado por economistas que haviam se tornado totalmente conservadores, de forma que eu n\u00e3o consegui nada.<\/p>\n<p>O que eu vi, depois que sa\u00ed do governo, \u00e9 que a guinada do PSDB para a direita era muito forte. Acontecera n\u00e3o s\u00f3 na pol\u00edtica econ\u00f4mica, de privatiza\u00e7\u00f5es e liberaliza\u00e7\u00e3o, como na pol\u00edtica externa, dependente dos Estados Unidos e de pol\u00edticas ortodoxas. Eu demorei 10 anos para sair do PSDB. Pensei muito, meus amigos estavam todos l\u00e1, mas eu vi que, realmente, a virada para a direita tinha sido muito grande.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O senhor est\u00e1 entre os indicados como testemunhas pela presidente Dilma Rousseff, na sua defesa contra o impeachment. O que o senhor pretende argumentar em favor da presidente?<\/strong><\/p>\n<p>&#8212; Terei todo o prazer, e n\u00e3o s\u00f3 o prazer, como o dever c\u00edvico de defend\u00ea-la. No meu entendimento, esse impeachment, sob o ponto de vista jur\u00eddico, \u00e9 uma farsa. N\u00f3s todos sabemos \u2013 inclusive os relatores, os impetrantes em geral do processo \u2013 que o motivo real do impeachment n\u00e3o foram as famosas pedaladas. Essas foram irregularidades que todo o presidente, em todo o pa\u00eds, faz. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Brasil, e nunca foi origem de impeachment antes. Foram outras as raz\u00f5es \u2013 e outras raz\u00f5es s\u00e3o inaceit\u00e1veis. Ponto.<\/p>\n<p>As outras raz\u00f5es foram essencialmente que a direita, a classe capitalista rentista e financista brasileira, resolveu que n\u00e3o queria mais ser governada pelo PT. Eles nunca quiseram \u2013 o Brasil entrou em uma crise em 2002, por causa da elei\u00e7\u00e3o do Lula. Mas, depois, o Lula tentou de todas as maneiras fazer compromissos e acordos, que eram necess\u00e1rios, e a coisa foi indo. Mas depois a economia come\u00e7ou a derrapar fortemente, em 2012, e a taxa de lucro dos empres\u00e1rios industriais caiu de maneira dram\u00e1tica, para 5% e depois para 4% ao ano, muito abaixo da taxa de juros, nesse momento essa direita se uniu. Os economistas passaram a fazer uma gritaria a respeito do \u201cpibinho\u201d e a respeito dos erros de pol\u00edtica econ\u00f4mica que ela de fato cometeu, v\u00e1rios. Mas, para a surpresa dessa direita, a presidente foi reeleita, e num quadro muito curioso: nunca vi um presidente ser reeleito no Brasil sem nenhum apoio das classes dirigentes. At\u00e9 no caso do Lula, havia algum apoio. Dessa vez, n\u00e3o havia nada, de forma que, em seguida, os derrotados imediatamente come\u00e7aram a pedir o impeachment.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mas Dilma tamb\u00e9m desfrutou de cada vez menos apoio da sociedade, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>&#8212; A popularidade de Dilma despencou, em parte por uma grande inabilidade pol\u00edtica dela. O resultado foi que deu certo a demanda da oposi\u00e7\u00e3o e de uma direita nova que surgia, cheia de \u00f3dio. Fiquei muito impressionado com isso. O \u00f3dio apareceu em 2013, mas ficou claro para mim em 2014. Foi a primeira vez que eu vi \u00f3dio na pol\u00edtica brasileira \u2013 e \u00f3dio \u00e9 incompat\u00edvel com pol\u00edtica. Na pol\u00edtica, h\u00e1 advers\u00e1rios, n\u00e3o inimigos. Inimigos se confrontam em guerras, e o Brasil entrou nessa guerra. Juntou-se essa direita violenta, com o A\u00e9cio Neves e o PSDB, que queriam ganhar o que n\u00e3o tinham ganho. E, no final, veio essa maravilha chamada PMDB, com os senhores Eduardo Cunha e Temer, \u201cpaladinos da moralidade p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Na sua avalia\u00e7\u00e3o, quais as chances de a presidente conseguir reverter essa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 dif\u00edcil prever como vai ser. As suas chances s\u00e3o pequenas, mas \u00e9 poss\u00edvel. Esse impeachment \u00e9 uma farsa jur\u00eddica, que causa um forte arranh\u00e3o na democracia brasileira. Esse governo entendeu a baixa popularidade da presidente como o apoio para pol\u00edticas econ\u00f4micas violentamente contra os trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O governo Temer teria apoio para fazer cortes dr\u00e1sticos nas pol\u00edticas sociais? <\/strong><\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o creio que ele ter\u00e1 apoio para nada. Esse governo come\u00e7ou mal e est\u00e1 caminhando mal. Existe o conceito sociol\u00f3gico de legitimidade, de apoio na sociedade civil, apoio em quem tem poder. A Dilma sofreu esse impeachment porque perdeu o apoio da sociedade civil, principalmente dos ricos, mas tamb\u00e9m dos iletrados. Esse novo governo que est\u00e1 come\u00e7ando n\u00e3o pode ter ilegitimidade maior. \u00c9 s\u00f3 olhar. As pessoas que lutaram pelo impeachment devem estar olhando para si mesmas e pensando: ser\u00e1 que era isso mesmo que eu queria?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Bresser Pereira deu uma palestra no Grupo de Reflex\u00e3o sobre o Brasil Contempor\u00e2neo, da Escola de Altos Estudos em Ci\u00eancias Sociais (EHESS), em Paris. 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