{"id":41892,"date":"2016-05-04T12:37:13","date_gmt":"2016-05-04T15:37:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.malungo2.com.br\/pdt\/?p=41892"},"modified":"2016-11-01T10:50:32","modified_gmt":"2016-11-01T12:50:32","slug":"jesse-souza-golpe-e-espelho-do-que-nos-tornamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/jesse-souza-golpe-e-espelho-do-que-nos-tornamos\/","title":{"rendered":"Jess\u00e9 Souza:  Golpe contra Dilma \u00e9 o espelho do que nos tornamos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O golpe foi contra a democracia como princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o da vida social. Esse foi um golpe comandado pela \u00ednfima elite do dinheiro que nos domina sem ruptura importante desde nosso passado escravocrata.<\/p>\n<p>O ponto de inflex\u00e3o da hist\u00f3ria recente do Brasil contra a heran\u00e7a escravocrata foi a revolu\u00e7\u00e3o comandada por contraelites subordinadas que se uniram em 1930.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o pessoal de Get\u00falio Vargas transformou o que poderia ter sido um mero conflito interno de elites em disputa em uma possibilidade de reinven\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>A classe trabalhadora protegida, com capacidade de consumo. Nossa elite do dinheiro jamais sequer &#8220;compreendeu&#8221; esse sonho, posto que &#8220;afetivamente&#8221; nunca sentiu compromisso com os destinos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o o Brasil \u00e9 palco de uma disputa entre esses dois projetos: o sonho de um pa\u00eds grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do pa\u00eds para o bolso de meia d\u00fazia.<\/p>\n<p>A elite do dinheiro manda pelo simples fato de poder &#8220;comprar&#8221; todas as outras elites.<\/p>\n<p>\u00c9 essa elite, cujo s\u00edmbolo maior \u00e9 a bela avenida Paulista, que compra a elite intelectual de modo a construir, com o prest\u00edgio da ci\u00eancia, a lorota da corrup\u00e7\u00e3o apenas do Estado, tornando invis\u00edvel a corrup\u00e7\u00e3o legal e ilegal do mercado que ela domina; que compra a pol\u00edtica via financiamento privado de elei\u00e7\u00f5es; e que compra a imprensa e as redes de TV, cujos pr\u00f3prios donos fazem parte da mesma elite da rapina.<\/p>\n<p>De acordo com a conjuntura hist\u00f3rica, sempre que o Executivo est\u00e1 nas m\u00e3os do inimigo, imprensa e Congresso, comprados pelo dinheiro, se aliam a um quarto elemento que \u00e9 o que suja as m\u00e3os de fato no golpe: as For\u00e7as Armadas antes, e o complexo jur\u00eddico-policial do Estado hoje em dia.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do Brasil desde 1930 \u00e9 um movimento pendular entre esses dois polos. Get\u00falio caiu, como o desafeto hist\u00f3rico maior desta elite, por um conluio entre Congresso comprado, imprensa manipuladora e For\u00e7as Armadas que se imaginavam pairar acima dos conflitos sociais.<\/p>\n<p>O suic\u00eddio do presidente adia em dez anos o golpe formal, que acontece em 1964 pela mesma articula\u00e7\u00e3o de interesses. O curioso, no entanto, \u00e9 que dentro das For\u00e7as Armadas existia a mesma polariza\u00e7\u00e3o que existia na sociedade.<\/p>\n<p>INFRAESTRUTURA<\/p>\n<p>O nacionalismo autorit\u00e1rio das For\u00e7as Armadas articula, por meio do 2\u00ba PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) do presidente Geisel, uma vers\u00e3o ambiciosa do sonho getulista: investimento maci\u00e7o em infraestrutura e setores-chave da vanguarda tecnol\u00f3gica com a dissemina\u00e7\u00e3o de universidades e centros de pesquisa em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ainda que o capital privado fosse muito bem-vindo, a condu\u00e7\u00e3o do projeto de longo prazo era do Estado. Foi o bastante para que os jornais se lan\u00e7assem em uma batalha ideol\u00f3gica contra a &#8220;rep\u00fablica socialista do Brasil&#8221; e os empres\u00e1rios descobrissem, de uma hora para outra, sua inabal\u00e1vel &#8220;voca\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica&#8221;.<\/p>\n<p>O processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o comandado pela elite do dinheiro tem tal pano de fundo. As Diretas-J\u00e1, na verdade, espelham a volta da rapina de curto prazo e uma nova derrota do sonho de um &#8220;Brasil grande&#8221;.<\/p>\n<p>Aqui j\u00e1 poderia ter ocorrido a conscientiza\u00e7\u00e3o de que a rapina selvagem \u00e9 o fio condutor, e que a forma autorit\u00e1ria ou democr\u00e1tica que ela assume \u00e9 mera conveni\u00eancia. Mas o processo de aprendizado foi abortado. O p\u00fablico ficou sem saber por que o golpe tinha ocorrido e, depois, por que ele havia sido criticado. Criou-se uma anistia do &#8220;esquecimento&#8221; no mesmo sentido da queima dos pap\u00e9is da escravid\u00e3o por Rui Barbosa: para que jamais saibamos quem somos e a quem obedecemos.<\/p>\n<p>Com o governo FHC, essa elite da rapina de curto prazo se insere, enfim, n\u00e3o apenas no mercado mas tamb\u00e9m, com todas as m\u00e3os, no Estado e no Executivo.<\/p>\n<p>A festa da privatiza\u00e7\u00e3o para o bolso da meia d\u00fazia de sempre, da riqueza acumulada pela sociedade durante gera\u00e7\u00f5es, se deu a c\u00e9u aberto. A maior efici\u00eancia dos servi\u00e7os, prometida \u00e0 sociedade e alardeada pela imprensa, sempre sol\u00edcita e s\u00f3cia de todo saque, se deixa esperar at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Como uma imprensa a servi\u00e7o do saque e do dinheiro n\u00e3o pode fazer todo mundo de tolo durante todo o tempo, e como ainda existem sonhos que o dinheiro n\u00e3o pode comprar, o Executivo mudou de m\u00e3os em 2002.<\/p>\n<p>O novo governo tentou o mesmo projeto desenvolvimentista anterior, de apoio \u00e0 ind\u00fastria e \u00e0 intelig\u00eancia nacional. Mas seu crime maior foi a ascens\u00e3o dos setores populares via, antes de tudo, a valoriza\u00e7\u00e3o real do sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Os mais pobres passaram a ocupar espa\u00e7os antes exclusivos \u00e0s classes do privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>Parte da classe m\u00e9dia sofria profundo inc\u00f4modo diante dessa nova proximidade em shopping centers e aeroportos, mas &#8220;pegava mal&#8221; expressar o descontentamento em p\u00fablico. Pior, a classe m\u00e9dia temia que essa classe ascendente pudesse vir a disputar os seus privil\u00e9gios e os seus empregos.<\/p>\n<p>O discurso da &#8220;corrup\u00e7\u00e3o seletiva&#8221; manipulado pela m\u00eddia permite que se enfrente agora o medo mais mesquinho com um discurso moralizador e uma atitude de pretenso &#8220;campe\u00e3o da moralidade&#8221;. O que antes se dizia a boca pequena entre amigos agora pode ser dito com a camisa do Brasil e empunhando a bandeira nacional. Est\u00e1 criada a &#8220;base popular&#8221;, produto da m\u00eddia servil \u00e0 elite da rapina.<\/p>\n<p>A luta contra os juros desencadeada pela presidente Dilma em 2012 reedita a eterna cren\u00e7a da esquerda nacionalista brasileira na exist\u00eancia de uma &#8220;boa burguesia&#8221;, ou seja, a fra\u00e7\u00e3o industrial supostamente interessada em um projeto de longo prazo de fortalecimento do mercado interno.<\/p>\n<p>Mas todas as fra\u00e7\u00f5es da elite j\u00e1 mamam na mesma teta dos juros altos que permite transferir recursos de todas as classes para o bolso dos endinheirados de modo invis\u00edvel, funcionando como uma &#8220;taxa&#8221; que encarece todos os pre\u00e7os e transfere parte de tudo o que \u00e9 produzido para os rentistas \u2013inclusive da classe m\u00e9dia feita de tola pela imprensa comprada.<\/p>\n<p>Quando em abril de 2013 as taxas de juros voltam a subir, a elite est\u00e1 armada e unida contra a presidente. As &#8220;jornadas de junho&#8221; daquele ano v\u00eam bem a calhar e, por for\u00e7a de bem urdida campanha midi\u00e1tica, transformam protestos localizados em uma rec\u00e9m-formada coaliz\u00e3o entre a elite endinheirada e a classe m\u00e9dia &#8220;campe\u00e3 da moralidade e da dec\u00eancia&#8221; contra o projeto inclusivo e desenvolvimentista da esquerda.<\/p>\n<p>Como os votos dos pobres rec\u00e9m-inclu\u00eddos s\u00e3o mais numerosos, no entanto, perde-se a campanha de 2014. Mas a alian\u00e7a entre endinheirados e moralistas de ocasi\u00e3o se mant\u00e9m e se fortalece com um novo um novo aliado: o aparato jur\u00eddico-policial do Estado.<\/p>\n<p>Constru\u00eddo pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 para funcionar como controle rec\u00edproco das atividades investigativas e jurisdicionais, todo esse aparato passa por mudan\u00e7as expressivas desde ent\u00e3o. Altos sal\u00e1rios e demanda crescente por privil\u00e9gios de todo tipo associados ao &#8220;sentimento de casta&#8221; que os concursos dirigidos aos filhos das classes do privil\u00e9gio ensejam transformam esses aparelhos que tudo controlam, mas n\u00e3o s\u00e3o controlados por ningu\u00e9m, em verdadeiros &#8220;partidos corporativos&#8221; lutando por interesses pr\u00f3prios dentro do aparelho de Estado.<\/p>\n<p>A manipula\u00e7\u00e3o da &#8220;corrup\u00e7\u00e3o seletiva&#8221; pela imprensa \u00e9 o discurso ideal para travestir, tamb\u00e9m aqui, os mais mesquinhos interesses corporativos em suposto &#8220;bem comum&#8221;. O trof\u00e9u de &#8220;campe\u00e3o da moralidade p\u00fablica&#8221; passa a ser disputado por todas as corpora\u00e7\u00f5es e se estabelece um conluio entre elas e a imprensa, que os vazamentos seletivos cuidadosamente orquestrados comprovam t\u00e3o bem.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o elemento novo do velho golpe surrado de sempre. Ainda que o golpe tenha se dado no circo do Congresso em uma palha\u00e7ada denunciada por toda a imprensa internacional, sem o trabalho pr\u00e9vio dos justiceiros da &#8220;justi\u00e7a seletiva&#8221; ele n\u00e3o teria acontecido.<\/p>\n<p>O Estado policial a cargo da &#8220;casta jur\u00eddica&#8221; j\u00e1 est\u00e1 sendo testado h\u00e1 meses e deve assumir o papel de perseguir, com base na mesma &#8220;seletividade midi\u00e1tica&#8221;, o princ\u00edpio: para os inimigos a lei, e para os amigos a &#8220;grande pizza&#8221;.<\/p>\n<p>A &#8220;pizza&#8221; para os amigos j\u00e1 est\u00e1 em todos os jornais e acontece \u00e0 luz do dia. O acirramento da criminaliza\u00e7\u00e3o da esquerda \u00e9 o pr\u00f3ximo passo. Esse \u00e9 o maior perigo. Muita injusti\u00e7a ser\u00e1 cometida em nome da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas existe tamb\u00e9m a oportunidade. Nem toda classe m\u00e9dia \u00e9 o aprendiz de fascista que transforma seu medo irracional em \u00f3dio contra os mais fracos, travestindo-o de &#8220;coragem c\u00edvica&#8221;.<\/p>\n<p>Ainda que nossa classe m\u00e9dia esteja longe de ser refletida e inteligente como ela se imagina, quem quer que tenha escapado do bombardeio di\u00e1rio de veneno midi\u00e1tico com dois neur\u00f4nios intactos n\u00e3o deixar\u00e1 de estranhar o mundo que ajudou a criar: um mundo comandado por um sindicato de ladr\u00f5es na pol\u00edtica, uma justi\u00e7a de &#8220;justiceiros&#8221; que os protege, uma elite de vampiros e uma sociedade condenada \u00e0 mis\u00e9ria material e \u00e0 pobreza espiritual. Esse golpe precisa ser compreendido por todos. Ele \u00e9 o espelho do que nos tornamos.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>(*)\u00a0 JESS\u00c9 SOUZA, 56, presidente do Ipea, \u00e9 professor titular de ci\u00eancia pol\u00edtica da UFF.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O golpe foi contra a democracia como princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o da vida social. Esse foi um golpe comandado pela \u00ednfima elite do dinheiro que nos domina sem ruptura importante desde nosso passado escravocrata. 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