{"id":40784,"date":"2016-04-18T10:14:23","date_gmt":"2016-04-18T13:14:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.malungo2.com.br\/pdt\/desenv\/?p=40784"},"modified":"2016-04-18T10:14:23","modified_gmt":"2016-04-18T13:14:23","slug":"leonardo-boff-golpe-parlamentar-em-nome-em-vao-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/leonardo-boff-golpe-parlamentar-em-nome-em-vao-de-deus\/","title":{"rendered":"Leonardo Boff:  Golpe parlamentar em nome (em v\u00e3o) de Deus"},"content":{"rendered":"<p>Observando o comportamento dos parlamentares nos tr\u00eas dias em que discutiram a admissibilidade do impedimento da presidenta Dilma Rousseff parecia-nos ver crian\u00e7olas se divertindo num jardim da inf\u00e2ncia. Gritarias por todo canto. Coros recitando seus mantras contra ou a favor do impedimento.<\/p>\n<p>Alguns vinham fantasiados com os s\u00edmbolos de suas causas. Pessoas vestidas com a bandeira nacional como se estivessem num dia de carnaval. Placas com seus slogans repetitivos. Enfim, um espet\u00e1culo indigno de pessoas decentes de quem se esperaria um\u00a0 m\u00ednimo de seriedade. Chegou-se a fazer at\u00e9 um bol\u00e3o de apostas como se fora um jogo do bicho ou de futebol.<\/p>\n<p>Mas o que mais causou estranheza foi a figura do presidente da C\u00e2mara que presidiu a sess\u00e3o, o deputado Eduardo Cunha. Ele vem acusado de muitos crimes e \u00e9 r\u00e9u pelo Supremo Tribunal Federal: um gangster julgando uma mulher decente contra a qual ningu\u00e9m ousou\u00a0 lhe atribuir qualquer crime. Que teve repercuss\u00e3o nacional e internacionalmente a ponto de o \u2018New York Times\u2019 de 15 de abril escrever: &#8220;Ela n\u00e3o roubou nada, mas est\u00e1 sendo julgada por uma quadrilha de ladr\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Que interesse secreto alimenta a Suprema corte, face t\u00e3o escandalosa omiss\u00e3o? Recusamos a ideia de que esteja participando\u00a0 de alguma conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Precisamos questionar a responsabilidade do Supremo Tribunal Federal por ter permitido esse ato que nos envergonhou.\u00a0\u00a0 O que Ocorreu na declara\u00e7\u00e3o de voto algo absolutamente desviante. Tratava-se de julgar se a presidenta havia cometido um crime de irresponsabilidade fiscal junto a outros manejos administrativos das finan\u00e7as, base jur\u00eddica para um processo pol\u00edtico de impedimento que implica destituir a presidenta de seu cargo, conseguido pelo voto popular majorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Grande parte dos deputados sequer se referiu a essa base jur\u00eddica, as famosas pedaladas fiscais etc. Ao inv\u00e9s de se ater juridicamente ao eventual crime, deram asas \u00e0 politiza\u00e7\u00e3o da insatisfa\u00e7\u00e3o generalizada que corre\u00a0 pela sociedade em raz\u00e3o da crise econ\u00f4mica, do desemprego e da corrup\u00e7\u00e3o na Petrobr\u00e1s. Essa insatisfa\u00e7\u00e3o pode representar um erro pol\u00edtico da presidenta, mas n\u00e3o configura um crime.<\/p>\n<p>Como num <em>ritornello<\/em>, a grande maioria se concentrou na corrup\u00e7\u00e3o e nos efeitos negativos da crise. Apostrofaram hipocritamente o governo de corrupto quando sabemos que um grande n\u00famero de deputados est\u00e1 indiciado em crimes de corrup\u00e7\u00e3o. Boa parte deles se elegeu com dinheiro da corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, sustentada pelas empresas. Generalizando, com honrosas exce\u00e7\u00f5es, os deputados n\u00e3o representam os interesses coletivos, mas aqueles das empresas que lhes financiaram as campanhas.<\/p>\n<p>Importa notar um fato preocupante: emergiu novamente como um espantalho a velha campanha que refor\u00e7ou o golpe militar de 1964: as marchas da religi\u00e3o, da fam\u00edlia, de Deus e contra a corrup\u00e7\u00e3o. Dezenas de parlamentares da bancada evang\u00e9lica claramente fizeram discursos de tom religioso e invocando o nome de Deus. E todos, sem exce\u00e7\u00e3o, votaram pelo impedimento.<\/p>\n<p>Poucas vezes se ofendeu tanto o segundo mandamento da lei de Deus que pro\u00edbe usar o santo nome de Deus em v\u00e3o. Grande parte dos parlamentares de forma pueril dedicavam \u00a0voto \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 esposa, \u00e0 av\u00f3, aos filhos e aos netos, citando seus nomes, numa espetaculariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de reles banalidade. Ao contrario, aqueles contra o impedimento argumentavam e mostravam um comportamento decente.<\/p>\n<p>Fez-se um julgamento apenas politico sem embasamento jur\u00eddico convincente, o que fere o preceito constitucional. O que ocorreu foi um golpe parlamentar inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os votos contra o impedimento n\u00e3o foram suficientes. Todos sa\u00edmos \u00a0diminu\u00eddos como\u00a0 Na\u00e7\u00e3o e envergonhados dos representantes do povo que, na verdade, n\u00e3o o representam nem pretendem mudar as regras do jogo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Agora nos resta esperar a racionalidade do Senado que ir\u00e1 analisar a validade ou n\u00e3o dos argumentos jur\u00eddicos, base para um julgamento pol\u00edtico acerca de um eventual crime de responsabilidade, negado por not\u00e1veis juristas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o tenhamos ainda amadurecido como povo para poder realizar uma democracia digna deste nome: a tradu\u00e7\u00e3o para o campo da politica da soberania popular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(*) Leonardo Boff \u00a0\u00e9 te\u00f3logo e escritor.<\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Observando o comportamento dos parlamentares nos tr\u00eas dias em que discutiram a admissibilidade do impedimento da presidenta Dilma Rousseff parecia-nos ver crian\u00e7olas se divertindo num jardim da inf\u00e2ncia. 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