{"id":38390,"date":"2012-10-10T09:34:42","date_gmt":"2012-10-10T09:34:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/artigo\/um-julgamento-que-criminaliza\/"},"modified":"2017-10-26T09:08:09","modified_gmt":"2017-10-26T11:08:09","slug":"um-julgamento-que-criminaliza-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/um-julgamento-que-criminaliza-2\/","title":{"rendered":"Um julgamento que criminaliza"},"content":{"rendered":"<p>Fui um dos &uacute;ltimos, talvez o &uacute;ltimo jornalista a ser processado por crime de opini&atilde;o nos termos da infame Lei de Seguran&ccedil;a Nacional da ditadura, em 1983. Havia feito uma s&eacute;rie de reportagens na &ldquo;Folha de S. Paulo&rdquo; vinculando uma trama financeira fraudulenta na c&uacute;pula da Capemi a personagens proeminentes do antigo SNI, Servi&ccedil;o Nacional de Informa&ccedil;&otilde;es. A acusa&ccedil;&atilde;o contra mim n&atilde;o era que houvesse mentido mas sim que, ao divulgar informa&ccedil;&otilde;es que podiam at&eacute; mesmo ser verdadeiras, tinha, em hip&oacute;tese, a inten&ccedil;&atilde;o de desestabilizar o regime.<\/p>\n<p>Assim era a Justi&ccedil;a da ditadura: julgava pela inten&ccedil;&atilde;o imputada subjetivamente, n&atilde;o pelo fato. Contudo, meu processo caiu em m&atilde;os de um&nbsp; destemido juiz militar, Helmo Sussekind, que me deu o direito da &ldquo;exce&ccedil;&atilde;o da verdade&rdquo;. A exce&ccedil;&atilde;o da verdade &eacute; a figura jur&iacute;dica que possibilita ao processado fazer a prova de que o que escreveu ou disse era a verdade, independentemente de inten&ccedil;&atilde;o. Esse, ali&aacute;s, &eacute; o fundamento que torna a liberdade de imprensa efetivamente justa. Do contr&aacute;rio, seria uma cobertura para a cal&uacute;nia, a inj&uacute;ria e a difama&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Recordo-me dessa experi&ecirc;ncia pessoal porque vejo o Supremo Tribunal Federal caminhar para um tipo de jurisprud&ecirc;ncia, no caso do chamado mensal&atilde;o, em que se substitui a criteriosa apura&ccedil;&atilde;o do fato por uma odiosa e subjetiva suposi&ccedil;&atilde;o sobre as inten&ccedil;&otilde;es. Sup&otilde;e-se, sem prova convincente, que recursos financeiros mobilizados pelo PT foram usados para comprar votos. Sup&otilde;e-se, sem prova convincente, que esse esquema de compra de votos foi comandado pelo ex-chefe da Casa de Civil Jos&eacute; Dirceu.<\/p>\n<p>At&eacute; as pedras sabem que o sistema de coliga&ccedil;&otilde;es partid&aacute;rias no Brasil, dada a exist&ecirc;ncia de mais de 30 partidos, implica transa&ccedil;&otilde;es financeiras atrav&eacute;s de caixas um ou de caixas dois, sobretudo no que diz respeito a compra de tempo de televis&atilde;o nas campanhas eleitorais. N&atilde;o h&aacute; nenhuma ideologia nesse processo, e os que gostariam que houvesse n&atilde;o conhecem a democracia real nem aqui nem em nenhuma parte do mundo. Portanto, no rescaldo das elei&ccedil;&otilde;es, sempre h&aacute; acertos financeiros a fazer&nbsp; por conta dos acordos anteriores independentemente do comportamento corrente das bancadas no Congresso.<\/p>\n<p>O contorcionismo feito pelos procuradores e pelo relator do mensal&atilde;o para demonstrar uma vincula&ccedil;&atilde;o entre pagamentos pelo esquema de Val&eacute;rio e vota&ccedil;&otilde;es no Congresso &eacute; simplesmente rid&iacute;culo. N&atilde;o tiveram o cuidado sequer de convocar um estat&iacute;stico para examinar as correla&ccedil;&otilde;es. Se chamassem, veriam que n&atilde;o existem correla&ccedil;&otilde;es significativas do ponto de vista cient&iacute;fico. Num processo que tem mais de 60 mil p&aacute;ginas, era de se esperar um pouco mais de escr&uacute;pulo para quem cuida de julgar destinos humanos e de suas liberdades.<\/p>\n<p>No caso de Dirceu &eacute; ainda mais fant&aacute;stico. Ouvi estarrecido de uma ministra do Supremo que n&atilde;o achava razo&aacute;vel supor que o ex-ministro n&atilde;o soubesse do esquema de pagamentos, presumindo-se, desde logo, que os pagamentos teriam sido feitos para comprar votos (crime de corrup&ccedil;&atilde;o ativa e passiva) e n&atilde;o para pagar d&iacute;vidas de campanha (irregularidade eleitoral). Ela n&atilde;o disse que os autos demonstram inequivocamente que Dirceu soubesse do esquema. Ela disse o que teria dito um magistrado da ditadura: que Dirceu teve a inten&ccedil;&atilde;o de montar o esquema!<\/p>\n<p>Ainda h&aacute; seis votos antes da decis&atilde;o final. S&atilde;o seis votos que separam o Supremo da vergonha de ter sacrificado inocentes sob press&atilde;o da uma campanha de m&iacute;dia infamante, cujo argumento mais s&oacute;lido, em toda essa tragicom&eacute;dia, &eacute; de que &eacute; preciso pegar os peixes grandes para saciar a sede de vingan&ccedil;a da opini&atilde;o p&uacute;blica em rela&ccedil;&atilde;o aos pol&iacute;ticos. Sim, os dirigentes do PT denunciados pelo chamado mensal&atilde;o s&atilde;o aparentemente peixes grandes. Contudo, chegaram aonde chegaram pelo voto popular no exerc&iacute;cio da democracia. O n&uacute;mero de votos que os p&ocirc;s l&aacute; &eacute; grande demais para ter sido comprado.<\/p>\n<p>Naturalmente que a manipula&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica pela m&iacute;dia influi em ministros de car&aacute;ter fraco. Da&iacute; o risco para a Justi&ccedil;a e para a democracia. Mas sempre existe uma sa&iacute;da. O ministro Levendowsky provou a todos n&oacute;s, que acreditam na independ&ecirc;ncia do Judici&aacute;rio, que nem tudo est&aacute; perdido. A pr&oacute;pria transpar&ecirc;ncia dos debates no STF ajudam aos mais atentos a formar essa opini&atilde;o: se por um lado ela favorece o estrelismo do relator, por outro deixa clara a insufici&ecirc;ncia da den&uacute;ncia. Por exemplo, ficou mais do que demonstrado que um mensal&atilde;o, tal como inicialmente &ldquo;denunciado&rdquo; na forma de pagamentos mensais regulares, jamais existiu, tendo-se apenas conservado o nome por v&iacute;cio m&iacute;diatico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Economista e professor de Economia Internacional na UEPB, autor, entre outros livros de Economia Pol&iacute;tica, do rec&eacute;m-lan&ccedil;ado &ldquo;A Raz&atilde;o de Deus&rdquo;, pela editora Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira. Esta coluna sai tamb&eacute;m nos sites Rumos do Brasil e Brasilianas, e, &aacute;s ter&ccedil;as, no jornal carioca Monitor Mercantil.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui um dos &uacute;ltimos, talvez o &uacute;ltimo jornalista a ser processado por crime de opini&atilde;o nos termos da infame Lei de Seguran&ccedil;a Nacional da ditadura, em 1983. Havia feito uma s&eacute;rie de reportagens na &ldquo;Folha de S. 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