{"id":38382,"date":"2012-07-31T13:36:45","date_gmt":"2012-07-31T13:36:45","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/artigo\/60-anos-sem-eva-peron-a-mulher-permanente\/"},"modified":"2017-10-26T09:08:10","modified_gmt":"2017-10-26T11:08:10","slug":"60-anos-sem-eva-peron-a-mulher-permanente-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/60-anos-sem-eva-peron-a-mulher-permanente-2\/","title":{"rendered":"60 anos sem Eva Per\u00f3n, a mulher permanente"},"content":{"rendered":"<p>Por Eric Nepomuceno<\/p>\n<p>(Do site Carta Maior) Evita Per&oacute;n foi a protagonista central de um processo pol&iacute;tico, encabe&ccedil;ado por Juan Domingo Per&oacute;n, que resultou em profundas mudan&ccedil;as sociais na Argentina. Evita foi fundamental para construir o maior Estado de bem estar social da Am&eacute;rica Latina de seu tempo. A hist&oacute;ria da injusti&ccedil;a na Am&eacute;rica Latina, apesar de tudo, permanece. E por isso, Evita Per&oacute;n continua sendo, no imagin&aacute;rio de um pa&iacute;s, uma mulher permanente. O artigo &eacute; de Eric Nepomuceno.Eric Nepomuceno, de Buenos AiresEm 1952, o 26 de julho caiu num s&aacute;bado. Ela tinha 33 anos e pesava minguados 38 quilos. J&aacute; n&atilde;o sentia as dores que a&ccedil;oitaram seu corpo nos meses anteriores.&nbsp;<br \/>Era um s&aacute;bado chuvoso e frio, como costumam ser os s&aacute;bados de julho em Buenos Aires. &Agrave;s oito e vinte e cinco da noite da noite, o c&acirc;ncer no &uacute;tero, voraz, consumiu de vez o que restou daquele fiapo de vida. E levou embora Eva Maria Duarte de Per&oacute;n.&nbsp;<br \/>Ent&atilde;o, surgiu o &iacute;cone. Se at&eacute; ali ela havia sido uma mulher de apar&ecirc;ncia fr&aacute;gil, g&ecirc;nio firme e decidido, poderosa e popular como ningu&eacute;m, ao partir se tornou a Evita dos argentinos, passou a ser uma imagem permanente.&nbsp;<br \/>N&atilde;o sofreu o desgaste que teria sofrido se continuasse viva. Esse, talvez, o maior paralelo entre ela e outro argentino permanente, Ernesto Che Guevara: morreram jovens, queimados em seu pr&oacute;prio fogo, no auge de suas lutas. E ficaram para sempre.<br \/>Evita morreu do mesmo jeito que continua: odiada por uma minoria iracunda, amada por uma maioria que tem a mais s&oacute;lida e profunda convic&ccedil;&atilde;o de que existe uma hist&oacute;ria antes de sua apari&ccedil;&atilde;o e outra depois. Seu exemplo e sua luta continuam no imagin&aacute;rio coletivo. Ou seja: a cren&ccedil;a de que este pa&iacute;s &eacute; melhor do que era antes dela e do que seria sem ela, porque ela viveu e agiu. E que se sua luta for retomada, este pa&iacute;s ser&aacute; mais justo, mais solid&aacute;rio, mais livre. Mais igualit&aacute;rio.&nbsp;<br \/>Nos anos 70, a Juventude Peronista, ala esquerda do sempre t&atilde;o flex&iacute;vel peronismo de mil vertentes, gritava nas ruas: &lsquo;Se Evita viviera\/seria Montonera&rsquo;. Evita n&atilde;o viveu at&eacute; l&aacute;. N&atilde;o h&aacute; como saber se efetivamente seria da guerrilha dos Montoneros, se enfrentaria Per&oacute;n. Mas n&atilde;o &eacute; nenhum absurdo calcular, a partir de sua trajet&oacute;ria pessoal, de sua a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, que ela jamais se alinharia com a direita nefasta desse am&aacute;lgama chamado peronismo, um movimento de mil faces que continua dominando a pol&iacute;tica argentina at&eacute; hoje.&nbsp;<br \/>Ela foi uma figura de determinada &eacute;poca da hist&oacute;ria latino-americana &ndash; a que vai do fim da II Guerra at&eacute; o final dos anos 70. Partiu antes, mas integra, como pouqu&iacute;ssima gente, o mosaico que define aquela etapa da hist&oacute;ria contempor&acirc;nea de todos n&oacute;s. Poucas, pouqu&iacute;ssimas daquelas figuras sobreviveram como ela.&nbsp;<br \/>E, afinal, qual foi sua obra, qual o seu legado? A obsess&atilde;o por transformar. Por mudar a realidade. Tornar poss&iacute;vel o imposs&iacute;vel.<br \/>Evita Per&oacute;n foi a protagonista central de um processo pol&iacute;tico, encabe&ccedil;ado por seu marido, Juan Domingo Per&oacute;n, que resultou em profundas mudan&ccedil;as sociais na Argentina. Mas participou com digital pr&oacute;pria, singular, de a&ccedil;&atilde;o.&nbsp;Em 1974, quando Per&oacute;n, enredado em suas pr&oacute;prias contradi&ccedil;&otilde;es e sufocado pela ala direitista de seu movimento, rompeu com a Juventude Peronista, ouvimos todos, na Plaza de Mayo, um s&oacute; grito: &lsquo;Evita, Evita\/ Per&oacute;n te necesita&rsquo;. Porque foi atrav&eacute;s de sua atua&ccedil;&atilde;o, mais de duas d&eacute;cadas antes, que o peronismo passou a ter uma elevada e consistente dose de processo revolucion&aacute;rio.&nbsp;<br \/>Per&oacute;n seria Per&oacute;n sem Evita, &eacute; verdade. Mas, com ela, abriu portas e janelas para que os argentinos humilhados e silenciados vissem um outro horizonte.O legado de Eva Per&oacute;n foi entender que, para resgatar os humilhados da pobreza, &eacute; preciso n&atilde;o perder tempo em min&uacute;cias. Deve haver, claro, um projeto nacional. Mas isso n&atilde;o impede uma atua&ccedil;&atilde;o direta, urgente. E simples.&nbsp;<br \/>Evita distribuiu milhares de m&aacute;quinas de costura &agrave;s mulheres pobres, que passaram a contribuir para o or&ccedil;amento dom&eacute;stico. Abriu em grande escala linhas de financiamento para a moradia popular. Implantou escolas p&uacute;blicas em turno completo, assegurando alimenta&ccedil;&atilde;o e assist&ecirc;ncia m&eacute;dica a centenas de milhares de crian&ccedil;as de fam&iacute;lias pobres. Nos hospitais p&uacute;blicos, ocupou o espa&ccedil;o antes controlado pela Igreja Cat&oacute;lica: em vez de freiras catequistas, entregou os cuidados dos internados a enfermeiras. Mandou erguer novos hospitais, equipados com tecnologia de ponta. Fez construir col&ocirc;nias de f&eacute;rias para oper&aacute;rios em cidades que eram redutos exclusivos das elites.&nbsp;<br \/>Estabeleceu pens&otilde;es para hospedar estudantes, expropriou casar&otilde;es&nbsp;elegantes para transform&aacute;-los em abrigos para m&atilde;es solteiras, onde aprendiam algum of&iacute;cio. Prestou aten&ccedil;&atilde;o especial &agrave;s crian&ccedil;as. Fortaleceu o di&aacute;logo entre governo, sindicatos e obras sociais, criando benef&iacute;cios trabalhistas impens&aacute;veis na &eacute;poca. Sua a&ccedil;&atilde;o foi fundamental no estabelecimento do direito de voto &agrave;s mulheres. Fez tudo isso sem afetar a economia. Ao contr&aacute;rio: suas a&ccedil;&otilde;es contribu&iacute;ram para fortalec&ecirc;-la, e para consolidar o Estado.&nbsp;<br \/>Sabia de seu poder, e o exercia em escala m&aacute;xima. N&atilde;o admitia que chamassem seu trabalho de assistencialismo beneficente: dizia que eram direitos de todos, e n&atilde;o dos privilegiados, o que oferecia a todos, para f&uacute;ria dos privilegiados.&nbsp;<br \/>Passado o tempo, tudo isso pode parecer panaceias que n&atilde;o tocaram o fundo do problema social argentino. Mas, na &eacute;poca em que Evita fez o que fez, eram conquistas sequer sonhadas pelos humilhados e marginalizados condenados &agrave; mis&eacute;ria eterna. Criou e implantou pol&iacute;ticas revolucion&aacute;rias.&nbsp;<br \/>Por isso foi e ainda &eacute; t&atilde;o odiada, t&atilde;o desprezada pelas elites e pelos bem-pensantes, que n&atilde;o conseguem ver em sua trajet&oacute;ria nada al&eacute;m de um populismo deslavado. Pelos que n&atilde;o admitem que os trabalhadores usufruam parte de benef&iacute;cios que consideram privil&eacute;gios de classe, determinados por alguma ordem divina. Seu empenho em distribuir riqueza era e &eacute; algo inadmiss&iacute;vel.<br \/>Quis um pa&iacute;s justo, solid&aacute;rio, livre. Que n&atilde;o exclu&iacute;sse ningu&eacute;m. Que abrisse espa&ccedil;o para todos. Hoje, &eacute; o s&iacute;mbolo da luta por oferecer prote&ccedil;&atilde;o aos desprotegidos.<br \/>Quando os militares derrubaram Per&oacute;n, em 1955, fazia tr&ecirc;s anos que ela tinha morrido. A sanha contra sua obra foi gritante: os tanques arrasaram a Cidade da Crian&ccedil;a (que, ironicamente, e como comprovam documentos, serviu de inspira&ccedil;&atilde;o para que Walt Disney criasse a Disneyland), destru&iacute;ram o que havia naquele que seria o maior hospital infantil da Am&eacute;rica Latina (equipamentos m&eacute;dicos, camas, salas de cirurgia), e como mostra final de seu &oacute;dio, de seu temor, sumiram com seu cad&aacute;ver.&nbsp;<br \/>N&atilde;o adiantou nada. Da mulher que teve atua&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica durante oito escassos anos, sobrevive a imagem de uma revolucion&aacute;ria. Sobrevive uma presen&ccedil;a permanente na mem&oacute;ria dos argentinos, e que o tempo n&atilde;o fez mais do que consolidar.&nbsp;<br \/>Evita foi fundamental para construir o maior Estado de bem estar social da Am&eacute;rica Latina de seu tempo. Um projeto que morreu com ela, e que s&oacute; d&eacute;cadas depois foi retomado.<br \/>A hist&oacute;ria da injusti&ccedil;a na Am&eacute;rica Latina, apesar de tudo, permanece. E por isso, Evita Per&oacute;n continua sendo, no imagin&aacute;rio de um pa&iacute;s, uma mulher permanente.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eric Nepomuceno (Do site Carta Maior) Evita Per&oacute;n foi a protagonista central de um processo pol&iacute;tico, encabe&ccedil;ado por Juan Domingo Per&oacute;n, que resultou em profundas mudan&ccedil;as sociais na Argentina. Evita foi fundamental para construir o maior Estado de bem estar social da Am&eacute;rica Latina de seu tempo. A hist&oacute;ria da injusti&ccedil;a na Am&eacute;rica Latina,&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on wp_trim_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on wp_trim_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[976],"tags":[],"class_list":["post-38382","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-em-destaque"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38382"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38382\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56401,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38382\/revisions\/56401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}