{"id":38356,"date":"2010-12-12T14:55:44","date_gmt":"2010-12-12T14:55:44","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/artigo\/os-eua-e-os-vazamentos-do-wikileaks\/"},"modified":"2017-10-26T09:08:14","modified_gmt":"2017-10-26T11:08:14","slug":"os-eua-e-os-vazamentos-do-wikileaks-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/os-eua-e-os-vazamentos-do-wikileaks-2\/","title":{"rendered":"Os EUA e os vazamentos do Wikileaks"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>do New York Times<\/p>\n<p>Agora sabemos que nosso governo est&aacute; mentindo para a gente sobre o envolvimento de nossas tropas em opera&ccedil;&otilde;es de combate no Paquist&atilde;o. O Pent&aacute;gono tinha dito que a miss&atilde;o de soldados americanos estava restrita a &ldquo;treinamento de for&ccedil;as paquistanesas para que elas pudessem treinar militares paquistaneses&rdquo;, mas na verdade nossas for&ccedil;as est&atilde;o engajadas em unidades militares paquistanesas, dando a elas informa&ccedil;&otilde;es eletr&ocirc;nicas e outro tipo de apoio para matar o inimigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sabemos disso por causa do WikiLeaks. &Eacute; tamb&eacute;m gra&ccedil;as ao WikiLeaks que sabemos do arranjo dos Estados Unidos com o presidente do I&ecirc;men: matamos terroristas baseados no I&ecirc;men e ele diz que &eacute; o I&ecirc;men que est&aacute; matando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nestes casos, penso, o WikiLeaks est&aacute; fazendo o trabalho de Deus. Concordo que h&aacute; raz&otilde;es t&aacute;ticas para estas duas mentiras, mas vejo que elas atropelam o direito b&aacute;sico dos cidad&atilde;os em uma democracia de saber quando o dinheiro deles est&aacute; sendo usado para matar gente &mdash; especialmente quando estas pessoas vivem em pa&iacute;ses que n&atilde;o est&atilde;o em guerra conosco. Assim, se vamos calcular o karma do Julian Assenge, eu colocaria isso na coluna do positivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E calcular &eacute; preciso. Assange vai presumivelmente ser escolhido a &ldquo;Pessoa do Ano&rdquo; da revista Time e a publica&ccedil;&atilde;o com certeza vai nos lembrar que o pr&ecirc;mio reconhece impacto, n&atilde;o virtude; Hitler e Stalin foram ganhadores no passado. Ficar&aacute; por nossa conta colocar Assange entre os bons ou os diab&oacute;licos. Vamos come&ccedil;ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assange tem raz&otilde;es elaboradas para suas a&ccedil;&otilde;es. Ele as descreveu em um grandioso manifesto online que vai do plaus&iacute;vel (&ldquo;Se o poder conspirat&oacute;rio total &eacute; zero, n&atilde;o h&aacute; conspira&ccedil;&atilde;o&rdquo;) ao metaf&oacute;rico-exc&ecirc;ntrico (&ldquo;Como computar uma conspira&ccedil;&atilde;o? Computando a pr&oacute;xima a&ccedil;&atilde;o&rdquo;) ao opaco. Mas o argumento central &eacute; claro. Ele acredita que um problema b&aacute;sico do mundo s&atilde;o os &ldquo;regimes autorit&aacute;rios&rdquo;, um termo que usa &mdash; em forte contraste com o uso nos Estados Unidos &mdash; aplicado aos Estados Unidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um regime autorit&aacute;rio, ele diz, oprime as pessoas e mant&eacute;m seus planos secretos. A transpar&ecirc;ncia arranca o v&eacute;u, expondo os planos. E transpar&ecirc;ncia radical &mdash; como a avalanche de informa&ccedil;&otilde;es do WikiLeaks &mdash; faz com que regimes autorit&aacute;rios guardem suas futuras comunica&ccedil;&otilde;es internas. Isso faz com que o regime tenha um funcionamento inadequado. Na medida em que &ldquo;mais vazamentos induzem a medo e paranoia&rdquo;, n&oacute;s veremos &ldquo;decl&iacute;nio cognitivo sistem&aacute;tico, resultando em menor capacidade para se manter no poder&rdquo;. (A esse respeito, como o jornalista Glenn Greenwald notou, Assange &eacute; como Osama bin Laden: eles quer que o inimigo reaja a suas provoca&ccedil;&otilde;es de forma autodestrutiva).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assange escreveu isso em 2006, e &eacute; dif&iacute;cil imaginar que n&atilde;o tinha em mente o governo Bush. Certamente Bush queria centralizar o poder, n&atilde;o era grande defensor das liberdades civis e algumas vezes manteve as viola&ccedil;&otilde;es que promoveu de nossas liberdades em segredo. Assange neste sentido &eacute; o anti-Bush, desafiando a autoridade secreta e centralizada com transpar&ecirc;ncia que &eacute; altamente descentralizada. (Os apoiadores dele criaram espelhos na rede que garantem acesso aos documentos do WikiLeaks e Assange diz que mais de 100 mil pessoas possuem os arquivos completos e criptografados).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda assim Assange &eacute; tamb&eacute;m o anti-anti-Bush.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bush foi criticado por suas tendencias unilaterais, por fracassar no desenvolvimento de boas rela&ccedil;&otilde;es com outras na&ccedil;&otilde;es &mdash; e, em particular, por descartar na&ccedil;&otilde;es suspeitas (veja &ldquo;eixo do mal&rdquo;) como na&ccedil;&otilde;es com as quais n&atilde;o se deveria conversar. Obama chegou ao poder prometendo &ldquo;engajamento&rdquo;. Ele procuraria outras na&ccedil;&otilde;es, enfaticamente incluindo aquelas com as quais as rela&ccedil;&otilde;es eram fr&aacute;geis, como a R&uacute;ssia e na&ccedil;&otilde;es mu&ccedil;ulmanas, incluindo at&eacute; o Ir&atilde;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se nosso governo abandonasse a manuten&ccedil;&atilde;o de segredos explosivos sobre o que estava fazendo no estrangeiro, ent&atilde;o suas a&ccedil;&otilde;es no estrangeiro mudariam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Engajamento &eacute; a busca de resultados vitoriosos em jogos de soma zero. Como qualquer te&oacute;rico de jogo pode confirmar, uma chave para chegar a esses resultados &eacute; comunica&ccedil;&atilde;o, e a comunica&ccedil;&atilde;o d&aacute; mais resultados quando existe confian&ccedil;a m&uacute;tua. Assim, gra&ccedil;as ao Assange, muitas na&ccedil;&otilde;es agora v&atilde;o hesitar em conversar abertamente conosco, com medo de que suas comunica&ccedil;&otilde;es privadas se tornem p&uacute;blicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Comunica&ccedil;&atilde;o, e confian&ccedil;a, podem esfriar pelas recentes revela&ccedil;&otilde;es de nossa avalia&ccedil;&atilde;o de l&iacute;deres estrangeiros. Presumo que os l&iacute;deres turcos n&atilde;o v&atilde;o olhar positivamente para a mensagem vinda de Ancara que diz que esperamos por um dia em que &ldquo;n&atilde;o teremos mais de lidar com o atual elenco de l&iacute;deres pol&iacute;ticos [turcos], com seu especial interesse em drama e ret&oacute;rica destrutiva&rdquo;. E Vladimir Putin n&atilde;o deve estar gostando de nossa descri&ccedil;&atilde;o dele como bandido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitas de nossas rela&ccedil;&otilde;es externas v&atilde;o se provar resistentes. Os antigos aliados europeus v&atilde;o superar os insultos e v&atilde;o eventualmente aceitar as garantias de que estamos tornando mais seguras nossas comunica&ccedil;&otilde;es. Mas esse tipo de reaproxima&ccedil;&atilde;o ser&aacute; mais dif&iacute;cil com as R&uacute;ssias e as Turquias do mundo &mdash; na&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o mais remotas culturalmente de n&oacute;s e menos seguras de nossa amizade. Em outras palavras, os relacionamentos que mais v&atilde;o sofrer s&atilde;o os mais fr&aacute;geis, aqueles que o governo Obama ao assumir o poder prometeu restaurar com engajamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estes incluem muitos relacionamentos que os neoconservadores que deram forma &agrave; pol&iacute;tica externa de Bush estavam decididos a arriscar. Os neocons geralmente encorajavam pol&iacute;ticas e declara&ccedil;&otilde;es que amea&ccedil;avam rela&ccedil;&otilde;es com a R&uacute;ssia e a Turquia, assim como a China, o Ir&atilde; e assim por diante. Na verdade, o neoconservadorismo parecia dedicado a exacerbar as linhas de tens&atilde;o geopol&iacute;ticas. E agora o WikiLeaks ajudou a exacerbar as tens&otilde;es. Talvez Assange, quando tiver tempo para uma nova onda conspirat&oacute;ria, possa considerar a possibilidade de que os neocons tenham implantando eletr&oacute;dios na cabe&ccedil;a dele [para espionagem].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De onde me encontro &mdash; uma posi&ccedil;&atilde;o enf&aacute;tica de anti-bushismo &mdash; esta &eacute; uma s&eacute;ria acusa&ccedil;&atilde;o: ajudando e auxiliando o anti-anti-bushismo. Mas, da mesma posi&ccedil;&atilde;o, h&aacute; uma defesa poss&iacute;vel de Assange.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A maior li&ccedil;&atilde;o de todas de tudo isso &eacute; um fato do qual j&aacute; se tocaram o Tiger Woods, o Michael Phelps e o Mel Gibson: privacidade n&atilde;o &eacute; mais o que era. A tecnologia tornou os segredos dif&iacute;cil de guardar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com certeza, podemos isolar melhor nossos canais de comunica&ccedil;&atilde;o &mdash; para in&iacute;cio de conversa, negando a sargentos do Ex&eacute;rcito o acesso &agrave;s j&oacute;ias da fam&iacute;lia. Mas n&atilde;o queremos cair na armadilha do Assange de transformar&nbsp; nossas comunica&ccedil;&otilde;es internas&nbsp; numa forma desfuncional &mdash; al&eacute;m do que, n&atilde;o temos como controlar as burocracias estrangeiras que partilham nossos segredos. Temos de enfrentar o fato de que os segredos s&atilde;o mais dif&iacute;ceis de guardar na idade da Internet, quando um &uacute;nico descontente de uma organiza&ccedil;&atilde;o pode dividir informa&ccedil;&otilde;es relevantes com todo o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, segredos incendi&aacute;rios deveriam ser evitados. &Eacute; melhor n&atilde;o mentir sobre o que nossas tropas no Paquist&atilde;o est&atilde;o fazendo, e n&atilde;o conspirar com o governo do I&ecirc;men para enganar os iemenitas. Por um&nbsp; motivo simples: estes segredos, quando expostos, deixam os estrangeiros com raiva dos Estados Unidos. E nos dias de hoje o &oacute;dio de base dos Estados Unidos, especialmente em pa&iacute;ses mu&ccedil;ulmanos, &eacute; talvez nosso maior inimigo&nbsp; &mdash; sendo, como &eacute;, a plataforma para o terrorismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se nosso governo seguisse este conselho e deixasse de manter segredos explosivos sobre o que est&aacute; fazendo no estrangeiro, ent&atilde;o seu comportamento mudaria. Se a presen&ccedil;a de nossas tropas no Paquist&atilde;o se tornasse vis&iacute;vel, o Paquist&atilde;o talvez n&atilde;o autorizasse a entrada delas. E o governo do I&ecirc;men talvez vetasse ataques transparentes de avi&otilde;es n&atilde;o tripulados dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso significaria matar menos terroristas no curto prazo, mas provavelmente significaria criar menos deles no longo prazo. Certamente (como o jornalista John Judis sugeriu) isso significaria fazer menos do que causou o &oacute;dio antiamericano de bin Laden para come&ccedil;o de conversa: ter uma presen&ccedil;a militar em pa&iacute;ses mu&ccedil;ulmanos, uma presen&ccedil;a que algumas vezes significa cooperar com regimes repressivos e absorver o &oacute;dio que eles inspiram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N&atilde;o sei se esta mudan&ccedil;a de rumo compensaria pelos danos de curto prazo causados pelo WikiLeaks &mdash; o dano causado a rela&ccedil;&otilde;es fr&aacute;geis e cruciais com outros estados, a rea&ccedil;&atilde;o que est&aacute; come&ccedil;ando agora no I&ecirc;men, no Paquist&atilde;o e em outros lugares. Mas, se acontecer, ent&atilde;o o impacto inicialmente pro-neocon de Assange poderia ser compensando por sua influ&ecirc;ncia mais benigna no longo prazo. E o karma dele, calculado por mim, estaria no campo do territ&oacute;rio positivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para que isso aconte&ccedil;a &mdash; para que os Estados Unidos respondam de forma inteligente ao fiasco do WikiLeaks &mdash; os pol&iacute;ticos dos Estados Unidos devem considerar que Assange n&atilde;o &eacute; assim t&atilde;o importante. Se ele nunca tivesse nascido, eles ainda assim teriam de se adaptar &agrave; idade da transpar&ecirc;ncia, para um mundo em que mentiras &ldquo;boas&rdquo; para mascarar nossa colabora&ccedil;&atilde;o com regimes d&uacute;bios s&atilde;o uma amea&ccedil;a de longo prazo &agrave; nossa seguran&ccedil;a nacional. Mais cedo ou mais tarde, os Estados Unidos for&ccedil;osamente acordariam para as implica&ccedil;&otilde;es da tecnologia moderna. Julian Assange simplesmente tornou este despertar mais doloroso.<\/p>\n<p>Fonte:&nbsp;www.viomundo.com.br<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; do New York Times Agora sabemos que nosso governo est&aacute; mentindo para a gente sobre o envolvimento de nossas tropas em opera&ccedil;&otilde;es de combate no Paquist&atilde;o. 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