{"id":38352,"date":"2010-12-09T19:26:16","date_gmt":"2010-12-09T19:26:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/artigo\/a-barbarie-como-espetaculo\/"},"modified":"2017-10-26T09:08:14","modified_gmt":"2017-10-26T11:08:14","slug":"a-barbarie-como-espetaculo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/a-barbarie-como-espetaculo-2\/","title":{"rendered":"A barb\u00e1rie como espet\u00e1culo"},"content":{"rendered":"<p>A m&iacute;dia comercial trata como guerra a crise na Seguran&ccedil;a P&uacute;blica, lucra com a espetaculariza&ccedil;&atilde;o e cria falsas dualidades<\/p>\n<p><em><br \/> <\/em><em>Leandro Uchoas<\/em><em><br \/> <\/em><em>do Rio de Janeiro (RJ)<\/em><\/p>\n<p> Entre tantos protagonistas na crise da Seguran&ccedil;a P&uacute;blica fluminense, um se destacou: a m&iacute;dia comercial. As emissoras de TV e r&aacute;dio e os jornais de grande circula&ccedil;&atilde;o conseguiram criar uma realidade &agrave; parte. Nela, os oficiais da pol&iacute;cia que mais mata e que mais morre no mundo tornaram-se her&oacute;is. A popula&ccedil;&atilde;o acuada nas comunidades, com risco de ser atingida por balas perdidas, foi retratada como um conjunto de cidad&atilde;os grato &agrave; chegada &ldquo;das for&ccedil;as do bem&rdquo;. O p&acirc;nico ganhou contornos de lucrativo espet&aacute;culo, transmitido ao longo de tardes inteiras. A cobertura televisiva assemelhou-se &agrave; transmiss&atilde;o de conflitos como o do Iraque. E a linguagem escolhida tamb&eacute;m foi a da guerra. Poucas vezes o jornalismo brasileiro esteve t&atilde;o pr&oacute;ximo da fic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A barb&aacute;rie dos traficantes, e a rea&ccedil;&atilde;o policial, foram chamados pelos ve&iacute;culos de &ldquo;Guerra do Rio&rdquo;. Cl&aacute;udia Santiago, do N&uacute;cleo Piratininga de Comunica&ccedil;&atilde;o, critica a op&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica. &ldquo;Guerra de quem contra quem? Uma guerra na qual os inimigos s&atilde;o os traficantes das favelas, n&atilde;o por coincid&ecirc;ncia pobres, negros e candidatos a uma vida curt&iacute;ssima. N&atilde;o se l&ecirc; nenhuma linha sobre os grandes chefes do tr&aacute;fico: banqueiros, ju&iacute;zes, chef&otilde;es pol&iacute;ticos e militares, advogados&rdquo;, acusa. Todo o linguajar midi&aacute;tico emprestou express&otilde;es da guerra. Inocentes assassinados pela pol&iacute;cia viraram &ldquo;baixas civis&rdquo;. A Vila Cruzeiro se transformou no &ldquo;bunker do tr&aacute;fico&rdquo;. A data em que a pol&iacute;cia invadiu a favela tornou-se o &ldquo;Dia D&rdquo; &ndash; refer&ecirc;ncia &agrave; chegada dos aliados &agrave; Normandia, na Segunda Guerra, decisiva para a derrota da Alemanha nazista.<\/p>\n<p> A tomada do Complexo do Alem&atilde;o foi retratada como uma vit&oacute;ria in&eacute;dita, ponto de virada na hist&oacute;ria da cidade. E com cenas cinematogr&aacute;ficas. As bandeiras do Brasil e do Rio de Janeiro, levantadas no alto do conjunto de favelas, lembraram a chegada do homem &agrave; lua. &ldquo;O triste &eacute; que este espet&aacute;culo midi&aacute;tico faz com que muita gente de bem tor&ccedil;a pelo exterm&iacute;nio destes jovens, como torcem pelo Rambo nos filmes de Hollywood. O fato &eacute; transformado em um grande espet&aacute;culo para ganhar a ades&atilde;o das pessoas. E ganha&rdquo;, lamenta Cl&aacute;udia. O apoio &agrave; a&ccedil;&atilde;o policial, considerada de sucesso pelos jornalistas e por boa parte dos comentaristas ouvidos pelos grandes ve&iacute;culos, aparentemente, encontrou eco junto &agrave; popula&ccedil;&atilde;o do Rio.<br \/> <strong><br \/> <\/strong><strong>Militariza&ccedil;&atilde;o legitimada<\/strong><br \/> &ldquo;A cobertura da TV privilegia a dramatiza&ccedil;&atilde;o. E afirma-se que esse vai ser o ponto de inflex&atilde;o daqui pra frente. Um equ&iacute;voco. Lamento que esses grandes ve&iacute;culos estejam com essa posi&ccedil;&atilde;o&rdquo;, criticou Ign&aacute;cio Cano. Soci&oacute;logo vinculado ao Laborat&oacute;rio de An&aacute;lise de Viol&ecirc;ncia da Uerj, Ign&aacute;cio &eacute; um dos estudiosos de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica mais frequentemente ouvido em per&iacute;odos de crise. Para Jos&eacute; Cl&aacute;udio Alves, vice-reitor da UFRRJ, &ldquo;amplia-se muito a l&oacute;gica militar quando a execu&ccedil;&atilde;o sum&aacute;ria, elevada &agrave; categoria de pol&iacute;tica p&uacute;blica, &eacute; legitimada pela m&iacute;dia.&rdquo;<\/p>\n<p> Outra fonte hist&oacute;rica dos grandes ve&iacute;culos &eacute; Luiz Eduardo Soares, ex-secret&aacute;rio, nacional e estadual, de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica. Pela primeira vez, o intelectual desligou o celular, para n&atilde;o atender a jornalistas. &ldquo;N&atilde;o posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na m&iacute;dia: aten&ccedil;&atilde;o &agrave; seguran&ccedil;a nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso nos intervalos entre as crises&rdquo;, escreveu, em artigo. E em outro trecho: &ldquo;todo pensamento anal&iacute;tico &eacute; editado, truncado, espremido &ndash; em uma palavra, banido &ndash;, para que reinem, incontrast&aacute;veis, a exalta&ccedil;&atilde;o passional das emerg&ecirc;ncias, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a ret&oacute;rica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial&rdquo;.<\/p>\n<p> Por fim, no mesmo artigo, o soci&oacute;logo critica a falsa dualidade criada pela m&iacute;dia, entre policiais e traficantes. &ldquo;N&atilde;o existe a polaridade. Constru&iacute;-la &ndash; isto &eacute;, separar bandido e pol&iacute;cia &ndash; teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer pol&iacute;tica de Seguran&ccedil;a digna desse nome&rdquo;. Segundo Soares, n&atilde;o h&aacute; a&ccedil;&atilde;o de criminosos, no Rio de Janeiro, da qual estejam ausentes segmentos corruptos da pol&iacute;cia. Seria justamente essa interpenetra&ccedil;&atilde;o entre tr&aacute;fico &ndash; ou mil&iacute;cia &ndash; e pol&iacute;cia que faz com que a ilegalidade permane&ccedil;a vi&aacute;vel. Al&eacute;m disso, o abismo de for&ccedil;a b&eacute;lica entre as duas for&ccedil;as em conflito, pol&iacute;cia e tr&aacute;fico, tamb&eacute;m &eacute; atenuado quando se usa o termo &ldquo;guerra&rdquo;. O poder de fogo dos policiais &eacute; muito maior.<\/p>\n<p><strong>Saques e di&aacute;spora<\/strong><br \/> Um bom exemplo da cobertura ficcional do conflito foi a invas&atilde;o policial da Vila Cruzeiro. O chamado &ldquo;Dia D&rdquo; foi celebrado pelos ve&iacute;culos. A pol&iacute;cia teria obtido grande vit&oacute;ria ao ocupar uma favela onde o poder p&uacute;blico n&atilde;o entrava h&aacute; tr&ecirc;s anos. Segundo os jornalistas, a popula&ccedil;&atilde;o estaria aliviada, recebendo os soldados com louvor. E a pol&iacute;cia estaria fazendo uma varredura na comunidade, atr&aacute;s de drogas e armas. Isabel Cristina Jennerjahn esteve na comunidade e trouxe um relato bastante distinto &ndash; embora reconhe&ccedil;a que a sensa&ccedil;&atilde;o local, em grande parte, era mesmo de al&iacute;vio. Integrante da Rede de Movimentos e Comunidades contra a Viol&ecirc;ncia, ela relata que boa parte dos moradores est&aacute; indo embora da favela.<\/p>\n<p> Segundo Isabel, algumas casas teriam sido saqueadas pela Pol&iacute;cia Militar (PM) e o Bope estaria impedindo familiares de traficantes mortos de buscarem seus corpos na mata &ndash; assassinatos esses n&atilde;o veiculados pela TV. Os jornais de domingo, dia 28, preferiram divulgar um projeto do prefeito, Eduardo Paes (PMDB), anunciando o desejo de urbanizar a favela. Movimentos e ONGs desconfiam que no Complexo do Alem&atilde;o esteja havendo casos semelhantes. A di&aacute;spora foi ainda maior ali do que na Vila Cruzeiro. Teme-se que bandidos desarmados tenham sa&iacute;do normalmente, passando pela barreira policial, como os outros moradores. &ldquo;V&atilde;o haver novamente assassinatos, e n&atilde;o vai haver investiga&ccedil;&atilde;o&rdquo;, suspeita Jos&eacute; Cl&aacute;udio. Tamb&eacute;m h&aacute; cr&iacute;ticas contra a decis&atilde;o dos ve&iacute;culos de n&atilde;o citar nomes de fac&ccedil;&otilde;es do tr&aacute;fico.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.brasildefato.com.br&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m&iacute;dia comercial trata como guerra a crise na Seguran&ccedil;a P&uacute;blica, lucra com a espetaculariza&ccedil;&atilde;o e cria falsas dualidades Leandro Uchoas do Rio de Janeiro (RJ) Entre tantos protagonistas na crise da Seguran&ccedil;a P&uacute;blica fluminense, um se destacou: a m&iacute;dia comercial. 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