{"id":38351,"date":"2010-12-05T10:46:03","date_gmt":"2010-12-05T10:46:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/artigo\/a-crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico\/"},"modified":"2017-10-26T09:08:14","modified_gmt":"2017-10-26T11:08:14","slug":"a-crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/a-crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico-2\/","title":{"rendered":"A crise no Rio e o pastiche midi\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por Luis Eduardo Soares<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;Sempre mantive com jornalistas uma rela&ccedil;&atilde;o de respeito e coopera&ccedil;&atilde;o. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as diverg&ecirc;ncias s&atilde;o muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso m&iacute;nimo, para que o di&aacute;logo n&atilde;o se inviabilize. Fa&ccedil;o- o por &eacute;tica &ndash; supondo que ningu&eacute;m seja dono da verdade, muito menos eu-, na esperan&ccedil;a de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, me esfor&ccedil;o por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob press&atilde;o, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos &oacute;bvios. Costumo dizer que s&oacute; n&oacute;s, da seguran&ccedil;a p&uacute;blica (em meu caso, quando ocupava posi&ccedil;&otilde;es na &aacute;rea da gest&atilde;o p&uacute;blica da seguran&ccedil;a), os m&eacute;dicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto &ndash; ou sob tanta press&atilde;o &#8211; quanto os jornalistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a m&iacute;dia:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas s&atilde;o cont&iacute;nuas, a tal ponto que n&atilde;o me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declara&ccedil;&otilde;es. Nem que eu contasse com uma equipe de secret&aacute;rios, teria como responder a todos e muito menos como atend&ecirc;-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, n&atilde;o se trata de descortesia ou desapre&ccedil;o pelos rep&oacute;rteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(2) Al&eacute;m disso, n&atilde;o tenho informa&ccedil;&otilde;es de bastidor que mere&ccedil;am divulga&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, n&atilde;o faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que constru&iacute; ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no r&aacute;dio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que est&atilde;o sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especula&ccedil;&otilde;es. A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; muito grave e n&atilde;o admite leviandades. Portanto, s&oacute; faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como faz&ecirc;-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por interven&ccedil;&otilde;es de locutores e debatedores? Como faz&ecirc;-lo no contexto em que todo pensamento anal&iacute;tico &eacute; editado, truncado, espremido &ndash; em uma palavra, banido-, para que reinem, incontrast&aacute;veis, a exalta&ccedil;&atilde;o passional das emerg&ecirc;ncias, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a ret&oacute;rica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(3) Por fim, n&atilde;o posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na m&iacute;dia: aten&ccedil;&atilde;o &agrave; seguran&ccedil;a nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto &eacute;, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes s&atilde;o: (a) O que fazer, j&aacute;, imediatamente, para sustar a explos&atilde;o de viol&ecirc;ncia? (b) O que a pol&iacute;cia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tr&aacute;fico de drogas? (c) Por que o governo n&atilde;o chama o Ex&eacute;rcito? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com &ecirc;xito a Copa e as Olimp&iacute;adas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao longo dos &uacute;ltimos 25 anos, pelo menos, me tornei &#8220;as aspas&#8221; que ajudaram a legitimar in&uacute;meras reportagens. No t&oacute;pico, &#8220;especialistas&#8221;, l&aacute; estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio &agrave; afirma&ccedil;&atilde;o de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas &ndash;nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornal&iacute;sticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pois bem, acho que j&aacute; fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse c&oacute;digo jornal&iacute;stico, com as exce&ccedil;&otilde;es de praxe, n&atilde;o funciona, quando o tema tratado &eacute; complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explica&ccedil;&atilde;o corrente. Modelo que n&atilde;o nasceu na m&iacute;dia, mas que orienta as vis&otilde;es a&iacute; predominantes. Particularmente, n&atilde;o gostaria de continuar a ser c&uacute;mplice involunt&aacute;rio de sua cont&iacute;nua reprodu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eis por que as perguntas mencionadas s&atilde;o expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obst&aacute;culos ao conhecimento e r&eacute;plicas de h&aacute;bitos mentais refrat&aacute;rios &agrave;s mudan&ccedil;as inadi&aacute;veis. Respondo sem a eleg&acirc;ncia que a presen&ccedil;a de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das quest&otilde;es a desconstruir. Eis as respostas, na seq&uuml;&ecirc;ncia das perguntas, que repito para facilitar a leitura:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(a) O que fazer, j&aacute;, imediatamente, para sustar a viol&ecirc;ncia e resolver o desafio da inseguran&ccedil;a?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nada que se possa fazer j&aacute;, imediatamente, resolver&aacute; a inseguran&ccedil;a. Quando se est&aacute; na crise, usam-se os instrumentos dispon&iacute;veis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel continuar a tratar o paciente apenas quando ele j&aacute; est&aacute; na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o a&ccedil;ougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o t&oacute;rax do moribundo na maca, no corredor. N&atilde;o h&aacute; como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia.? Por isso, o primeiro passo para evitar que a situa&ccedil;&atilde;o se repita &eacute; trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade &eacute; aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfei&ccedil;oar a seguran&ccedil;a p&uacute;blica, no Rio e no Brasil, evitando a viol&ecirc;ncia de todos os dias, assim como sua intensifica&ccedil;&atilde;o, expressa nas sucessivas crises?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se o entrevistador imagin&aacute;rio interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma a&ccedil;&atilde;o emergencial e n&atilde;o aceita nenhuma abordagem que n&atilde;o produza efeitos pr&aacute;ticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avan&ccedil;os consistentes na seguran&ccedil;a p&uacute;blica. Se a sociedade, a m&iacute;dia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extens&atilde;o, como um fen&ocirc;meno multidimensional a requerer enfrentamento sist&ecirc;mico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Na&ccedil;&atilde;o, a tratar do problema na perspectiva do m&eacute;dio e do longo prazos, seremos condenados &agrave;s crises, cada vez mais dram&aacute;ticas, para as quais n&atilde;o h&aacute; solu&ccedil;&otilde;es m&aacute;gicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A melhor resposta &agrave; emerg&ecirc;ncia &eacute; come&ccedil;ar a se movimentar na dire&ccedil;&atilde;o da reconstru&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es geradoras da situa&ccedil;&atilde;o emergencial. Quanto ao imediato, n&atilde;o h&aacute; espa&ccedil;o para nada sen&atilde;o o dispon&iacute;vel, acess&iacute;vel, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pergunta &eacute; obtusa e obscurantista, c&uacute;mplice da ignor&acirc;ncia e da apatia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(b) O que as pol&iacute;cias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tr&aacute;fico de drogas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos &#8220;arregos&#8221; celebrados por suas bandas podres, &agrave; luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam tamb&eacute;m parar de reproduzir o pior do tr&aacute;fico, dominando, sob a forma de m&aacute;fias ou mil&iacute;cias, territ&oacute;rios e popula&ccedil;&otilde;es pela for&ccedil;a das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cru&eacute;is.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ou seja, a polaridade referida na pergunta (pol&iacute;cias versus tr&aacute;fico) esconde o verdadeiro problema: n&atilde;o existe a polaridade. Constru&iacute;-la &ndash; isto &eacute;, separar bandido e pol&iacute;cia; distinguir crime e pol&iacute;cia &ndash; teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer pol&iacute;tica de seguran&ccedil;a digna desse nome. N&atilde;o h&aacute; nenhuma modalidade importante de a&ccedil;&atilde;o criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E s&oacute; por isso que ainda existe tr&aacute;fico armado, assim como as mil&iacute;cias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N&atilde;o digo isso para ofender os policiais ou as institui&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o generalizo. Pelo contr&aacute;rio, sei que h&aacute; dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, est&oacute;ica e heroicamente, suas vidas por sal&aacute;rios indignos. Considero-os as primeiras v&iacute;timas da degrada&ccedil;&atilde;o institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os amea&ccedil;a e acua o conv&iacute;vio inevit&aacute;vel com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, s&oacute;cios ou mesmo empreendedores do crime.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N&atilde;o nos iludamos: o tr&aacute;fico, no modelo que se firmou no Rio, &eacute; uma realidade em franco decl&iacute;nio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econ&ocirc;mica e sua incompatibilidade com as din&acirc;micas pol&iacute;ticas e sociais predominantes, em nosso horizonte hist&oacute;rico. Incapaz, inclusive, de competir com as mil&iacute;cias, cuja compet&ecirc;ncia est&aacute; na disposi&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o se prender, exclusivamente, a um &uacute;nico nicho de mercado, comercializando apenas drogas &ndash; mas as incluindo em sua carteira de neg&oacute;cios, quando conveniente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O modelo do tr&aacute;fico armado, sustentado em dom&iacute;nio territorial, &eacute; atrasado, pesado, anti-econ&ocirc;mico: custa muito caro manter um ex&eacute;rcito, recrutar ne&oacute;fitos, arm&aacute;-los (nada disso &eacute; necess&aacute;rio &agrave;s mil&iacute;cias, posto que seus membros s&atilde;o policiais), mant&ecirc;-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se for&ccedil;ados a dividir ganhos com a banda podre da pol&iacute;cia (que atua nas mil&iacute;cias) e, eventualmente, com os l&iacute;deres e aliados da fac&ccedil;&atilde;o. &Eacute; excessivamente custoso impor-se sobre um territ&oacute;rio e uma popula&ccedil;&atilde;o, sobretudo na medida em que os jovens mais vulner&aacute;veis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N&atilde;o s&oacute; o velho modelo &eacute; caro, como pode ser substitu&iacute;do com vantagens por outro muito mais rent&aacute;vel e menos arriscado, adotado nos pa&iacute;ses democr&aacute;ticos mais avan&ccedil;ados: a venda por delivery ou em din&acirc;mica varejista n&ocirc;made, clandestina, discreta, desarmada e pac&iacute;fica. Em outras palavras, &eacute; melhor, mais f&aacute;cil e lucrativo praticar o neg&oacute;cio das drogas il&iacute;citas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, tamb&eacute;m &eacute; muito menos danoso para a sociedade, por &oacute;bvio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(c) O Ex&eacute;rcito deveria participar?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fazendo o trabalho policial, n&atilde;o, pois n&atilde;o existe para isso, n&atilde;o &eacute; treinado para isso, nem est&aacute; equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A come&ccedil;ar cumprindo sua fun&ccedil;&atilde;o de controlar os fluxos das armas no pa&iacute;s. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de m&atilde;o em m&atilde;o, com as ben&ccedil;&otilde;es, a media&ccedil;&atilde;o e o est&iacute;mulo da banda podre das pol&iacute;cias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E n&atilde;o s&oacute; o Ex&eacute;rcito. Tamb&eacute;m a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na ba&iacute;a e nos portos. Assim como a Aeron&aacute;utica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espa&ccedil;o a&eacute;reo e apoiando a PF na fiscaliza&ccedil;&atilde;o das cargas nos aeroportos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Claro. Mais uma vez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(e) Conseguiremos realizar com &ecirc;xito a Copa e as Olimp&iacute;adas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida. Somos &oacute;timos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o &#8220;esp&iacute;rito cooperativo&#8221;, a&ccedil;&otilde;es racionais e planejadas imp&otilde;em-se. Nosso calcanhar de Aquiles &eacute; a rotina. Copa e Olimp&iacute;adas ser&atilde;o um sucesso. O problema &eacute; o dia a dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Palavras Finais<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Traficantes se rebelam e a cidade vai &agrave; lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tr&aacute;fico era esperado. Haver&aacute; outros momentos an&aacute;logos, no futuro, mas a tend&ecirc;ncia declinante &eacute; inarred&aacute;vel. E n&atilde;o porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustent&aacute;vel, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, s&atilde;o um &oacute;timo programa, que reedita com mais apoio pol&iacute;tico e f&ocirc;lego administrativo o programa<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Mutir&otilde;es pela Paz&#8221;, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela pol&iacute;tica com &#8220;p&#8221; min&uacute;sculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, gra&ccedil;as &agrave; lideran&ccedil;a e &agrave; compet&ecirc;ncia raras do tenente coronel Carballo Blanco, com o t&iacute;tulo GPAE, como rea&ccedil;&atilde;o &agrave; derrocada que se seguiu &agrave; minha sa&iacute;da do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presen&ccedil;a de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assist&ecirc;ncia social &#8211;um dos melhores gestores do pa&iacute;s&#8211;, elas n&atilde;o ter&atilde;o futuro se as pol&iacute;cias n&atilde;o forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se pol&iacute;tica p&uacute;blica ter&atilde;o de incluir duas qualidades indispens&aacute;veis: escala e sustentatibilidade, ou seja, ter&atilde;o de ser assumidas, na esfera da seguran&ccedil;a, pela PM. Contudo, entregar as UPPs &agrave; condu&ccedil;&atilde;o da PM seria conden&aacute;-las &agrave; liquida&ccedil;&atilde;o, dada a degrada&ccedil;&atilde;o institucional j&aacute; referida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O tr&aacute;fico que ora perde poder e capacidade de reprodu&ccedil;&atilde;o s&oacute; se imp&ocirc;s, no Rio, no modelo territorializado e sedent&aacute;rio em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da pol&iacute;cia, vale reiterar. Quando o tr&aacute;fico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto hist&oacute;rico de inflex&atilde;o e come&ccedil;a, gradualmente, a bater em retirada, seus s&oacute;cios &ndash; as bandas podres das pol&iacute;cias &#8211; prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Discutindo a crise, a m&iacute;dia reproduz o mito da polaridade pol&iacute;cia versus tr&aacute;fico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se far&aacute; a reforma radical das pol&iacute;cias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de mil&iacute;cias, m&aacute;fias, tr&aacute;fico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrup&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como se refundar&atilde;o as institui&ccedil;&otilde;es policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como ser&atilde;o transformadas as pol&iacute;cias, para que deixem de ser reativas, ingovern&aacute;veis, ineficientes na preven&ccedil;&atilde;o e na investiga&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As pol&iacute;cias s&atilde;o institui&ccedil;&otilde;es absolutamente fundamentais para o Estado democr&aacute;tico de direito. Cumpre-lhes garantir, na pr&aacute;tica, os direitos e as liberdades estipulados na Constitui&ccedil;&atilde;o. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente &agrave; sociabilidade cooperativa e &agrave; vig&ecirc;ncia da legalidade e da justi&ccedil;a. A despeito de sua import&acirc;ncia, essas institui&ccedil;&otilde;es n&atilde;o foram alcan&ccedil;adas em profundidade pelo processo de transi&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica, nem se modernizaram, adaptando-se &agrave;s exig&ecirc;ncias da complexa sociedade brasileira contempor&acirc;nea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia &agrave; defesa do Estado autorit&aacute;rio e era funcional ao contexto marcado pelo arb&iacute;trio. N&atilde;o serve &agrave; defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as pol&iacute;cias impede a gest&atilde;o racional e a integra&ccedil;&atilde;o, tornando o controle impratic&aacute;vel e a avalia&ccedil;&atilde;o, seguida por um monitoramento corretivo, invi&aacute;vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ineptas para identificar erros, as pol&iacute;cias condenam-se a repeti-los. Elas s&atilde;o r&iacute;gidas onde teriam de ser pl&aacute;sticas, flex&iacute;veis e descentralizadas; e s&atilde;o frouxas e an&aacute;rquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Pol&iacute;cia Civil, s&atilde;o duas institui&ccedil;&otilde;es: oficiais e n&atilde;o-oficiais; delegados e n&atilde;o-delegados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E nesse quadro, a PEC-300 &eacute; varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais sal&aacute;rios insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na seguran&ccedil;a privada informal e ilegal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma das fontes da degrada&ccedil;&atilde;o institucional das pol&iacute;cias &eacute; o que denomino &#8220;gato or&ccedil;ament&aacute;rio&#8221;, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do or&ccedil;amento p&uacute;blico na &aacute;rea de seguran&ccedil;a, as autoridades toleram o bico dos policiais em seguran&ccedil;a privada. Ao faz&ecirc;-lo, deixam de fiscalizar din&acirc;micas benignas (em termos, pois sempre h&aacute; graves problemas da&iacute; decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas tamb&eacute;m din&acirc;micas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a inseguran&ccedil;a para vender seguran&ccedil;a; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de exterm&iacute;nio; e, no limite, organizam-se como m&aacute;fias ou mil&iacute;cias, dominando pelo terror popula&ccedil;&otilde;es e territ&oacute;rios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a seguran&ccedil;a privada \/banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou n&atilde;o faz sentido buscar aprimorar as pol&iacute;cias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, p&acirc;nico e desespero, como um dia hist&oacute;rico de vit&oacute;ria: o dia em que as pol&iacute;cias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um s&uacute;bito apag&atilde;o mental e me tornei um idiota contumaz e incorrig&iacute;vel ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milh&otilde;es de telespectadores como contumazes e incorrig&iacute;veis idiotas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ou se come&ccedil;a a falar s&eacute;rio e levar a s&eacute;rio a trag&eacute;dia da inseguran&ccedil;a p&uacute;blica no Brasil, ou ser&aacute; pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro &agrave; farsa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Luiz Eduardo Soares &eacute; mestre em Antropologia, doutor em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica com p&oacute;s-doutorado em Filosofia Pol&iacute;tica. Foi secret&aacute;rio nacional de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica (2003) e coordenador de seguran&ccedil;a, justi&ccedil;a e cidadania do estado do RJ (1999\/2000).<\/em><\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luis Eduardo Soares &nbsp;Sempre mantive com jornalistas uma rela&ccedil;&atilde;o de respeito e coopera&ccedil;&atilde;o. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as diverg&ecirc;ncias s&atilde;o muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso m&iacute;nimo, para que o di&aacute;logo n&atilde;o se inviabilize. 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