{"id":38350,"date":"2010-12-01T19:19:54","date_gmt":"2010-12-01T19:19:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/artigo\/memoria-em-disputa\/"},"modified":"2017-10-26T09:08:14","modified_gmt":"2017-10-26T11:08:14","slug":"memoria-em-disputa-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/memoria-em-disputa-2\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria em disputa"},"content":{"rendered":"<p>Construir arquivos &eacute; uma pr&aacute;tica que sociedades, grupos ou indiv&iacute;duos utilizam para codificar seu passado, inventar tradi&ccedil;&otilde;es, refor&ccedil;ar suas identidades. Entretanto, os arquivos, ou melhor, os documentos que est&atilde;o neles contidos, n&atilde;o s&atilde;o mat&eacute;ria-prima objetiva, inocente. Por isso, antes de fazer uso de um arquivo, cabe sempre a pergunta: de que modo, por que e por quem ele foi produzido?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A import&acirc;ncia hist&oacute;ria dos chamados &ldquo;arquivos da repress&atilde;o&rdquo; &eacute; indiscut&iacute;vel. Ainda hoje, no Brasil, a luta pela abertura desses arquivos, iniciada no final dos anos 1970, continua despertando muitas tens&otilde;es. Mas, afinal, o que s&atilde;o os arquivos da repress&atilde;o? Eles se comp&otilde;em de anota&ccedil;&otilde;es produzidas pela pr&oacute;pria pol&iacute;cia, de documentos pessoais apreendidos arbitrariamente pelos &oacute;rg&atilde;os de repress&atilde;o e de depoimentos extra&iacute;dos dos prisioneiros pol&iacute;ticos em uma situa&ccedil;&atilde;o de extrema viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos. Na maioria das vezes, esses depoimentos foram obtidos com brutais torturas e, al&eacute;m disso, muitos desses documentos foram totalmente forjados pelos agentes da repress&atilde;o. Um caso bastante emblem&aacute;tico foi o de Vladimir Herzog, diretor da TV Cultura de S&atilde;o Paulo, preso em 25 de outubro de 1974 e que morreu em fun&ccedil;&atilde;o de torturas sofridas nas depend&ecirc;ncias militares. A vers&atilde;o oficial, registrada inclusive atrav&eacute;s de fotos, e divulgada nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, era de que o jornalista havia se suicidado na cela, dez horas ap&oacute;s a sua pris&atilde;o. Algum tempo depois a farsa foi desmontada, mas a documenta&ccedil;&atilde;o sobre a vers&atilde;o oficial permanece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso quer dizer que devemos descartar essa documenta&ccedil;&atilde;o como fonte de pesquisa? Ou us&aacute;-la de forma cr&iacute;tica tanto para melhor entender o funcionamento da ditadura quanto para desvendar as diferentes estrat&eacute;gias presentes na estrutura&ccedil;&atilde;o dos pr&oacute;prios arquivos da repress&atilde;o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Certamente a constru&ccedil;&atilde;o desses arquivos est&aacute; relacionada diretamente &agrave; maneira como a ditadura brasileira se constituiu.&nbsp; Como alguns estudos hist&oacute;ricos t&ecirc;m demonstrado, naquele per&iacute;odo, ao mesmo tempo em que viv&iacute;amos em um estado de exce&ccedil;&atilde;o, de total desrespeito aos direitos humanos, de forma amb&iacute;gua, havia uma preserva&ccedil;&atilde;o de alguns instrumentos da liberal democracia, o que implicava a manuten&ccedil;&atilde;o de determinadas formalidades jur&iacute;dicas. Para atender a essas formalidades, a ditadura necessitava documentar provas para o julgamento e posterior condena&ccedil;&atilde;o dos seus prisioneiros. Se num primeiro momento as pessoas eram submetidas &agrave;s torturas e ficavam presas na mais absoluta ilegalidade, num segundo momento, as que sobreviviam iam responder a processos nos Tribunais Militares, onde a documenta&ccedil;&atilde;o extra&iacute;da na primeira fase era utilizada como prova de acusa&ccedil;&atilde;o. Ali se produzia outro tipo de documento: ao responder &agrave;s perguntas do Tribunal, muitos prisioneiros, mesmo correndo risco de repres&aacute;lia, denunciavam as torturas. Dessa maneira, ficaram documentadas e arquivadas, em papel timbrado da Justi&ccedil;a Militar, den&uacute;ncias das torturas, torturas essas que eram, sistematicamente, negadas pelo regime. Ou seja, ainda que &ldquo;a ferro e a fogo&rdquo;, esses arquivos &ldquo;da repress&atilde;o&rdquo; foram se constituindo e se transformaram em arquivos &ldquo;sobre a repress&atilde;o&rdquo;. Assim, para al&eacute;m das diferentes situa&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o de seus documentos, a abertura desses arquivos produziu novas informa&ccedil;&otilde;es sobre a repress&atilde;o, sobre as torturas, sobre os desaparecidos pol&iacute;ticos. A partir do seu uso foi poss&iacute;vel realizar tr&acirc;mites legais, formalizar separa&ccedil;&otilde;es, estabelecer estados de viuvez, conseguir atestados de &oacute;bito sobre alguns dos assassinados pela ditadura etc., etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Territ&oacute;rios da mem&oacute;ria em disputa, esses documentos certamente ajudam a desvendar parte da nossa hist&oacute;ria. No entanto, us&aacute;-los sem explicitar os diferentes contextos em que foram produzidos pode ser ingenuidade ou m&aacute;-f&eacute;, mas, sem d&uacute;vida, &eacute; violentar a nossa hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DULCE PANDOLFI &eacute; diretora da Organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o governamental Ibase e professora da FGV.<\/p>\n<p>Fonte: Jornal&nbsp; O Globo, 30\/11\/2010<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Construir arquivos &eacute; uma pr&aacute;tica que sociedades, grupos ou indiv&iacute;duos utilizam para codificar seu passado, inventar tradi&ccedil;&otilde;es, refor&ccedil;ar suas identidades. Entretanto, os arquivos, ou melhor, os documentos que est&atilde;o neles contidos, n&atilde;o s&atilde;o mat&eacute;ria-prima objetiva, inocente. 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