{"id":38327,"date":"2009-03-14T21:20:51","date_gmt":"2016-03-14T21:20:51","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/artigo\/neoliberalismo-e-cultura\/"},"modified":"2017-10-26T09:08:57","modified_gmt":"2017-10-26T11:08:57","slug":"neoliberalismo-e-cultura-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/neoliberalismo-e-cultura-2\/","title":{"rendered":"Neoliberalismo e Cultura"},"content":{"rendered":"<p>O neoliberalismo n&atilde;o visa a destruir apenas as inst&acirc;ncias comunit&aacute;rias criadas pela modernidade, como fam&iacute;lia, sindicato, movimentos sociais e Estado democr&aacute;tico. Seu projeto de atomiza&ccedil;&atilde;o da sociedade reduz a pessoa &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duo desconectado da conjuntura s&oacute;cio-pol&iacute;tica-econ&ocirc;mica na qual se insere, e o considera como mero consumidor. Estende-se, portanto, tamb&eacute;m &agrave; esfera cultural.&nbsp;<\/p>\n<div>&nbsp;Um dos avan&ccedil;os da modernidade foi, com o advento da democracia, reconhecer a pessoa como sujeito pol&iacute;tico. Este passou a ter, al&eacute;m de deveres, direitos. Dotado de consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica, livrou-se da condi&ccedil;&atilde;o de servo cego e d&oacute;cil &agrave;s&nbsp; ordens de seu senhor, consciente de que autoridade n&atilde;o &eacute; sin&ocirc;nimo de verdade, nem poder de raz&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;Agora, busca-se destituir a pessoa de sua condi&ccedil;&atilde;o de sujeito. O prot&oacute;tipo do cidad&atilde;o neoliberal &eacute; o que se demite de qualquer pensamento cr&iacute;tico e, sobretudo, de participar de inst&acirc;ncias comunit&aacute;rias. E para essa cultura da demiss&atilde;o volunt&aacute;ria contribui, de modo especial, a TV.&nbsp;<\/p><\/div>\n<div>&nbsp;Em si, a TV &eacute; poderoso instrumento de forma&ccedil;&atilde;o e informa&ccedil;&atilde;o. Mas pode facilmente ser convertido em mecanismo de deforma&ccedil;&atilde;o e desinforma&ccedil;&atilde;o, sobretudo se atrelada &agrave; m&aacute;quina publicit&aacute;ria que rege o mercado. Assim, a pr&oacute;pria TV torna-se um produto a ser consumido e, portanto,&nbsp; centrado no aumento dos &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia.<\/div>\n<div>&nbsp;Para isso,&nbsp; recorre-se a todo tipo de apela&ccedil;&atilde;o, desde que os telespectadores sintam-se hipnotizados pelas imagens. O problema &eacute; que a janela eletr&ocirc;nica est&aacute; aberta para dentro do n&uacute;cleo familiar. &Eacute; ali que ela despeja a profus&atilde;o de imagens e atinge indistintamente adultos e crian&ccedil;as, sem o menor escr&uacute;pulo quanto ao universo de valores da fam&iacute;lia.<\/div>\n<div>&nbsp;Se a TV transmitisse cultura &#8211; tudo aquilo que aprimora a nossa consci&ecirc;ncia e o nosso esp&iacute;rito -, ela seria o mais poderoso ve&iacute;culo de educa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; verdade, n&atilde;o deixa de faz&ecirc;-lo, mas a regra geral n&atilde;o s&atilde;o os programas de densidade cultural, e sim o mero&nbsp; entretenimento &#8211; distrai, diverte e, sobretudo, abre a caixa de Pandora de nossos desejos inconfess&aacute;veis. A imagem que &#8220;diz&#8221; o que n&atilde;o ousamos pronunciar.<\/div>\n<div>&nbsp;Ao superar o di&aacute;logo entre pais e filhos e impor-se como interlocutora hegem&ocirc;nica dentro do n&uacute;cleo familiar, a TV altera as refer&ecirc;ncias simb&oacute;licas fundamentais do psiquismo infantil. &Eacute; pelo falar que uma gera&ccedil;&atilde;o transmite a outra cren&ccedil;as, valores, nomes pr&oacute;prios, mega-relatos, genealogias, ritos, rela&ccedil;&otilde;es sociais etc.&nbsp;<\/p>\n<p>Transmite a pr&oacute;pria aptid&atilde;o humana de uso da palavra, atrav&eacute;s do qual se tece a nossa subjetividade e a nossa identidade. &Eacute; essa intera&ccedil;&atilde;o, propiciada pelo di&aacute;logo oral, cara a cara, que nos educa &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es de alteridade, faz-nos reconhecer o eu diante do Outro, bem como as m&uacute;ltiplas conex&otilde;es que ligam um ao outro,&nbsp; como emo&ccedil;&otilde;es, imagens provocadas por gestos, express&otilde;es faciais carregadas de sentimentos etc.<\/p><\/div>\n<div>&nbsp;A fala ou o di&aacute;logo demarcam refer&ecirc;ncias fundamentais ao nosso equil&iacute;brio ps&iacute;quico, como a identifica&ccedil;&atilde;o do tempo (agora) e do espa&ccedil;o (aqui), e dos limites do meu ser em rela&ccedil;&atilde;o aos demais. Se a fala reduz-se a uma enxurrada de imagens que visam a exacerbar os sentidos, as refer&ecirc;ncias simb&oacute;licas da crian&ccedil;a correm perigo. Ela tende &agrave; dificuldade de construir seu universo simb&oacute;lico, n&atilde;o adquirindo sensos de temporalidade e&nbsp; historicidade. Tudo se reduz ao &#8220;aqui e agora&#8221;, &agrave; simultaneidade. A pr&oacute;pria tecnologia que abrange dist&acirc;ncias em tempo real &#8211; Internet, telefone celular etc. &#8211; favorece uma sensa&ccedil;&atilde;o de ubiq&uuml;idade: &#8220;eu n&atilde;o estou em nenhum lugar porque estou em todos&#8221;.<\/div>\n<div>&nbsp;Muitos professores se queixam de que os alunos n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o atentos &agrave;s aulas. Claro, o sonho deles seria poder mudar o professor de canal&#8230; Muitas crian&ccedil;as e jovens demonstram dificuldade de se expressar porque n&atilde;o sabem ouvir. Possuem racioc&iacute;nio confuso, no qual a l&oacute;gica derrapa frequentemente no aluvi&atilde;o de sentimentos contradit&oacute;rios. Acreditam, sobretudo, que s&atilde;o inventores da roda e, portanto, pouco interessa o&nbsp; patrim&ocirc;nio cultural das gera&ccedil;&otilde;es anteriores (o financeiro sim, sem d&uacute;vida).<\/div>\n<div>&nbsp;Assim, a cultura perde refinamento e profundidade, confina-se aos simulacros de talk-show, onde cada um opina segundo sua rea&ccedil;&atilde;o imediata, sem reconhecimento da compet&ecirc;ncia do Outro. No caso da escola, este Outro &eacute; o professor, visto n&atilde;o s&oacute; como destitu&iacute;do de autoridade, mas sobretudo como quem abusa de seu poder e n&atilde;o admite que os alunos o tratem de igual para igual&#8230; Ora, j&aacute; que o professor n&atilde;o &#8220;escuta&#8221;, ent&atilde;o s&oacute; h&aacute; um meio de faz&ecirc;-lo ouvir: a viol&ecirc;ncia. Pois foram educados pela TV, onde n&atilde;o h&aacute; o&nbsp; exerc&iacute;cio da argumenta&ccedil;&atilde;o paciente, da constru&ccedil;&atilde;o elucidativa, do&nbsp; aprimoramento do senso cr&iacute;tico. &Eacute; o perde ou ganha incessante, e quase sempre &agrave; base da coa&ccedil;&atilde;o.<\/div>\n<div>&nbsp;Assim, cai-se numa educa&ccedil;&atilde;o qualificada por Jean-Claude Mich&eacute;a de &#8220;dissolu&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica&#8221;. Deixa-se de distinguir o priorit&aacute;rio do secund&aacute;rio, de perceber o texto em seu contexto, de abranger o particular no pano de fundo do geral, para acatar passivamente as press&otilde;es de consumo que buscam transformar valores &eacute;ticos em meros valores pecuni&aacute;rios, ou seja, tudo &eacute; mercadoria, e &eacute; o seu pre&ccedil;o que imprime, a quem a possui, determinado valor social, ainda que destitu&iacute;do de car&aacute;ter.<\/div>\n<div>&nbsp;Demite-se do ato de pensar, refletir, criticar e, sobretudo, participar do projeto de transformar a realidade. Tudo passa a uma quest&atilde;o de conveni&ecirc;ncia, gosto pessoal, simpatia. Tamb&eacute;m s&atilde;o considerados comercializ&aacute;veis a biodiversidade, a defesa do meio ambiente, a responsabilidade social das empresas, o genoma, os &oacute;rg&atilde;os arrancados de crian&ccedil;as etc.<\/div>\n<div>&nbsp;&Eacute; o apogeu do capitalismo total, capaz de mercantilizar at&eacute; mesmo o nosso imagin&aacute;rio.<\/div>\n<div><strong><em>* Frei dominicano. Escritor<\/em><\/strong><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O neoliberalismo n&atilde;o visa a destruir apenas as inst&acirc;ncias comunit&aacute;rias criadas pela modernidade, como fam&iacute;lia, sindicato, movimentos sociais e Estado democr&aacute;tico. 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