{"id":38275,"date":"2009-03-14T21:20:51","date_gmt":"2016-03-14T21:20:50","guid":{"rendered":"http:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/artigo\/23-anos-sem-tancredo-neves\/"},"modified":"2017-10-26T09:08:53","modified_gmt":"2017-10-26T11:08:53","slug":"23-anos-sem-tancredo-neves-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/23-anos-sem-tancredo-neves-2\/","title":{"rendered":"23 anos sem Tancredo Neves"},"content":{"rendered":"<p>A cada 21 de abril o povo brasileiro relembra Tiradentes que, l&aacute; atr&aacute;s, no s&eacute;culo18, lan&ccedil;ou o primeiro brado de Independ&ecirc;ncia do Brasil. Relembram-se as datas, aspectos hist&oacute;ricos aned&oacute;ticos, estimula-se a memoriza&ccedil;&atilde;o de nomes,&nbsp; mas,&nbsp;&nbsp; nem sempre&nbsp; &#8211;&nbsp; o que seria fundamental &#8211;&nbsp;&nbsp; a comparar e dimensionar a import&acirc;ncia do exemplo do alferes para que o Brasil alcance uma verdadeira independ&ecirc;ncia. As pr&oacute;prias id&eacute;ias de Tiradentes n&atilde;o s&atilde;o conhecidas em toda a sua profundidade, revolucion&aacute;rias que s&atilde;o, capazes de atravessar os s&eacute;culos, de inspirar seguidores, como o&nbsp; revolucion&aacute;rio pernambucano Padre Roma, pai do tamb&eacute;m revolucion&aacute;rio General Jos&eacute; In&aacute;cio Abreu e Lima, que, derrotado na insurrei&ccedil;&atilde;o republicana de Pernambuco deixou o Brasil para ser vitorioso ao lado de Simon Bol&iacute;var, na Guerra de Independ&ecirc;ncia contra o Imp&eacute;rio Espanhol, que resultou na Uni&atilde;o das Rep&uacute;blicas da Gr&atilde;-Col&ocirc;mbia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cultivamos o esquecimento. Assim como n&atilde;o cultivamos&nbsp; o essencial e vigente na saga de Tiradentes, aos poucos, vamos deixando de valorizar devidamente o precioso exemplo de outro grande mineiro, tamb&eacute;m falecido, emblematicamente, num dia 21 de abril: Tancredo Neves. Que recado a hist&oacute;ria quer nos dar ao juntar dois personagens numa mesma data?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pol&iacute;tico s&aacute;bio, Tancredo ofereceu &agrave; na&ccedil;&atilde;o brasileira gestos desprendidos, grandiosos e desinteressados. Gestos de coragem, gestos de amor &agrave; P&aacute;tria. Ser&aacute; exatamente esta a raz&atilde;o de n&atilde;o registrarmos nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o um esfor&ccedil;o sincero e adequado, com raras exce&ccedil;&otilde;es,&nbsp; para a aprecia&ccedil;&atilde;o&nbsp; do&nbsp; grandioso exemplo de Tancredo Neves?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tancredo defendia resistir ao golpe<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Repassemos a Hist&oacute;ria. Em 1954, quando o capital estrangeiro conspirava para colocar um fim no governo Get&uacute;lio Vargas&nbsp; &#8211;&nbsp;&nbsp; jamais havia engolido a cria&ccedil;&atilde;o dos direitos trabalhistas, da previd&ecirc;ncia social, do sal&aacute;rio m&iacute;nimo com valor de compra e da cria&ccedil;&atilde;o da Petrobr&aacute;s, da Cia Vale do Rio Doce, do Instituto do A&ccedil;&uacute;car e do &Aacute;lcool, bem como da limita&ccedil;&atilde;o das remessas de lucro e a nacionaliza&ccedil;&atilde;o da R&aacute;dio Nacional&nbsp; &#8211;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tancredo foi dos mais fi&eacute;is colaboradores ao presidente eleito legitimamente e levado ao suic&iacute;dio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;Na madrugada dram&aacute;tica de 24 de agosto de 1954, Tancredo propunha a Vargas a resist&ecirc;ncia ao golpe. A explos&atilde;o popular de indigna&ccedil;&atilde;o quando noticiada a morte de Vargas dava bem a id&eacute;ia das imensas condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas para resistir ao golpe e derrot&aacute;-lo, tal como Tancredo, corajosamente, havia proposto a Vargas na madrugada fat&iacute;dica da trai&ccedil;&atilde;o nacional. Tancredo, que era Ministro da Justi&ccedil;a de Vargas, tinha pedido ao presidente autoriza&ccedil;&atilde;o para prender as lideran&ccedil;as que tramavam o golpe contra o governo leg&iacute;timo, apoiados pelo poder econ&ocirc;mico do capital externo,&nbsp; t&atilde;o cristalinamente vocalizado por Carlos Lacerda naquela famosa e anti-brasiliana frase: &ldquo;Vargas n&atilde;o pode ser candidato a presidente. Se o for, n&atilde;o pode vencer o pleito. Se vencer, n&atilde;o deve ser empossado. Se tomar posse, n&atilde;o pode governar&rdquo;. A amea&ccedil;a se consumava naquela madrugada trai&ccedil;oeira terr&iacute;vel. Com a morte de Vargas, o pa&iacute;s teve uma aurora banhada em l&aacute;grimas dos humildes, e, provavelmente, um anoitecer assustado com o tilintar de&nbsp; brindes dos sal&otilde;es luxuosos a recalcular novas possibilidades de rapinas contra o patrim&ocirc;nio dos brasileiros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tancredo dera o exemplo, tinha feito a corajosa proposta, havia proposto mobilizar o povo e os militares legalistas para defender o governo eleito. Pela proposta destemida, patri&oacute;tica, acompanhada pela solidariedade de Oswaldo Aranha, Tancredo recebe de Vargas sua caneta pessoal, aquela com a qual j&aacute; havia escrito a Carta Testamento, prometendo sair da vida para entrar na Hist&oacute;ria, na esperan&ccedil;a que seu gesto dram&aacute;tico fosse capaz de preservar os direitos do povo brasileiro e os interesses nacionais amea&ccedil;ados. A ditadura foi apenas&nbsp; adiada por 10 anos. Mas Tancredo havia tra&ccedil;ado o seu compromisso com os interesses maiores da nossa P&aacute;tria, reafirmado &agrave; beira do t&uacute;mulo de Vargas, em S&atilde;o Borja, onde, d&eacute;cadas mais tarde Lula, levado pela m&atilde;o de Brizola, comovera-se &agrave;s l&aacute;grimas. Talvez repensasse sobre as&nbsp; cr&iacute;ticas injustas que teria desferido contra Vargas, respons&aacute;vel pela cria&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio sistema Sesi-Senai onde, tendo escapado da pena de morte da fome dos retirantes, conseguira sua primeira profiss&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com a caneta de Vargas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a caneta em m&atilde;os durante a longa, escura e dolorosa noite da ditadura, Tancredo &eacute; novamente convocado pela hist&oacute;ria, em 1984, exatamente para comandar a opera&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica democr&aacute;tica que realizaria o funeral ditatorial. Com a autoridade de quem havia participado de um governo que fora o mais pr&oacute;digo na constru&ccedil;&atilde;o de direitos sociais e trabalhistas, bem como no fortalecimento do estado-na&ccedil;&atilde;o e da economia nacional, a Era Vargas, Tancredo representa a s&iacute;ntese das for&ccedil;as que se organizavam para virar a p&aacute;gina ditatorial, ainda que a opera&ccedil;&atilde;o de reconquista dos direitos democr&aacute;ticos tivesse que passar pelo interior do Col&eacute;gio Eleitoral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A opera&ccedil;&atilde;o ganhou o apoio popular, novamente os brasileiros que foram &agrave;s ruas pelas Diretas-J&aacute;, nas quais encontraram um Tancredo governador e&nbsp; bradando pelos ideais libert&aacute;rios hist&oacute;ricos das alterosas, tamb&eacute;m seguiram apoiando a alian&ccedil;a que derrotaria. Os conspiradores de sempre e sabiam que Tancredo Neves passava pelo Col&eacute;gio Eleitoral, era s&iacute;mbolo de modera&ccedil;&atilde;o e unidade, por&eacute;m&#8230;..&nbsp; carregava a caneta de Vargas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;No seu discurso j&aacute; como presidente eleito, Tancredo Neves fazia florescer o lastro hist&oacute;rico de que era portador: &ldquo;N&atilde;o vamos pagar a d&iacute;vida externa com a fome do povo brasileiro!!!&rdquo;, declarou sinalizando uma linha pol&iacute;tica que, sem d&uacute;vida, al&eacute;m de&nbsp; credenci&aacute;-lo como &ldquo;O fio da Hist&oacute;ria&rdquo;, convocando os brasileiros para recuperar a soberania perdida no p&acirc;ntano da ditadura, indicava que outra pol&iacute;tica econ&ocirc;mica estava sendo tra&ccedil;ada. O discurso soava como os gritos de Tiradentes contra as derramas de antes e as da era moderna. O Brasil havia se transformado em exportador de capitais, as remessas ao exterior, que Vargas e depois Jango lutaram para impedir, tinham se multiplicado nos anos sombrios, o Brasil estivera avassalado ante a oligarquia financeira internacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O brado de Tiradentes na Casa Branca<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al&eacute;m deste discurso, Tancredo eternizou um outro gesto de soberania e destemor, qualidades que sempre o caracterizaram. Na viagem internacional j&aacute; como presidente eleito, ante o presidente da rep&uacute;blica dos Estados Unidos, o lament&aacute;vel Ronald Reagan, o esp&iacute;rito de Tiradentes novamente estufou no peito do mineiro: &ldquo;Senhor presidente, o Brasil n&atilde;o tolerar&aacute; nenhuma interven&ccedil;&atilde;o contra a Nicar&aacute;gua e reconhece o leg&iacute;timo direito daquele pa&iacute;s de escolher o seu pr&oacute;prio caminho&rdquo;. Segundo depoimento do correto jornalista Jos&eacute; Augusto Ribeiro, assessor de imprensa de Tancredo, a frase contra o intervencionismo neo-colonialista&nbsp; soou como um raio no sal&atilde;o da Casa Branca. Ele pr&oacute;prio, Ribeiro, surpreendeu-se, pois Tancredo n&atilde;o havia comentado nada com ningu&eacute;m. Mas, estava com a caneta de Vargas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O 21 de abril de 1985 foi de l&aacute;grimas e de&nbsp; desencanto com aquela morte t&atilde;o tr&aacute;gica e enigm&aacute;tica. Os milh&otilde;es de brasileiros&nbsp; nas ruas,&nbsp; em v&aacute;rias capitais, pareciam indicar&nbsp; que o povo, este ente que raras vezes manifesta-se com tanta for&ccedil;a, e que fora ludibriado em 1954, sem poder entrar em cena como protagonista, golpeado em 1964, novamente sem ter sido chamado a resistir ao golpe, queria&nbsp; agora expressar-se como corpo unido, um s&oacute; corpo, quem sabe para extravasar sua dor e sua desconfian&ccedil;a. A dor por n&atilde;o poder fazer a experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica com um timoneiro que jamais temia proclamar sua f&eacute; por Tiradentes, portador de&nbsp; compromisso&nbsp; inarred&aacute;vel&nbsp; com a constru&ccedil;&atilde;o de uma p&aacute;tria soberana, e zelador de um respeito sagrado pelo povo e por sua hist&oacute;ria de luta. E a desconfian&ccedil;a por&nbsp; n&atilde;o poder esclarecer, nem naquele j&aacute; longinq&uuml;o abril de 1985, nem&nbsp; hoje ainda , que tenebrosas transa&ccedil;&otilde;es podem ter operado, &agrave;s sombras,&nbsp; para impedir a unidade de um povo sedento de justi&ccedil;a social com um mineiro que trazia, junto com a caneta de Vargas, uma hist&oacute;ria de gestos destemidos, soberanos e corajosos em defesa de uma verdadeira independ&ecirc;ncia e de um novo pa&iacute;s, um pa&iacute;s que &ldquo;n&atilde;o pague suas d&iacute;vidas com a fome do povo&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O inesquec&iacute;vel Barbosa Lima Sobrinho, que morreu centen&aacute;rio defendendo a&nbsp; Na&ccedil;&atilde;o amea&ccedil;ada, repetia que no Brasil h&aacute;, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, apenas dois partidos: o de Silv&eacute;rio dos Reis e o de Tiradentes. Tancredo filiou-se para sempre no Partido de Tiradentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>* Beto Almeida &eacute; jornalista<\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cada 21 de abril o povo brasileiro relembra Tiradentes que, l&aacute; atr&aacute;s, no s&eacute;culo18, lan&ccedil;ou o primeiro brado de Independ&ecirc;ncia do Brasil. 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