{"id":19796,"date":"2009-03-10T00:00:00","date_gmt":"2009-03-10T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.malungo2.com.br\/pdt\/index.php\/jose-luis-fiori-crise-atuara-como-um-tsunami-darwinista"},"modified":"2017-10-26T09:08:59","modified_gmt":"2017-10-26T11:08:59","slug":"jose-luis-fiori-crise-atuara-como-um-tsunami-darwinista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/jose-luis-fiori-crise-atuara-como-um-tsunami-darwinista\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori: Crise atuar\u00e1 como um &quot;tsunami darwinista&quot;"},"content":{"rendered":"<div><b><\/b>&nbsp;<\/div>\n<div><strong><em>A atual crise econ\u00f4mica mundial n\u00e3o tem nenhuma solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica poss\u00edvel, e tampouco tem alguma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 vista. Ainda assistiremos a infinitas tentativas e erros, e a uma luta cont\u00ednua e prolongada em torno de cada uma destas iniciativas. Tudo indica que ser\u00e1 uma crise longa e profunda que atuar\u00e1 como um \u0093tsunami darwinista\u0094, liquidando os mais fracos em todos os n\u00edveis. E o que \u00e9 mais chocante \u00e9 que esta mesma crise acabar\u00e1 provocando no final uma gigantesca transfer\u00eancia e centraliza\u00e7\u00e3o de riqueza e poder. A an\u00e1lise \u00e9 de Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori, em entrevista ao jornal do Corecon RJ.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 do professor e economista Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori, em entrevista ao &#8220;Jornal dos Economistas&#8221;, do Conselho Regional de Economia (Corecon) do Rio de Janeiro, a <\/em>Marcelo Cajueiro. Na opini\u00e3o de Fiori, <\/strong><strong>\u0093A crise enfraquecer\u00e1 pa\u00edses que estavam ascendendo nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas e desafiando de alguma forma a ordem internacional estabelecida\u0094.&nbsp;Na entrevista, o professor titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisa os poss\u00edveis impactos pol\u00edticos e geopol\u00edticos da crise econ\u00f4mica mundial e detalha algumas das id\u00e9ias apresentadas no livro &#8220;O Mito do Colapso do Poder Americano&#8221;, escrito em parceria com Carlos Medeiros e Franklin Serrano. <br \/><\/strong><br \/><i>As primeiras medidas da administra\u00e7\u00e3o Obama para combater a crise econ\u00f4mica, somadas \u00e0s iniciativas da administra\u00e7\u00e3o Bush, ser\u00e3o suficientes para debelar a crise?<\/i><\/p>\n<p><b>JOS\u00c9 LU\u00cdS FIORI<\/b>: Eu acho que \u00e9 rigorosamente imposs\u00edvel responder a sua pergunta, neste momento. O Senado americano acaba de aprovar um pacote fiscal de est\u00edmulo a produ\u00e7\u00e3o e ao emprego de cerca de 800 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, enquanto o secret\u00e1rio do tesouro do governo Obama, Thimothy Geithner, anunciava medidas que podem chegar aos 2 trilh\u00f5es de d\u00f3lares para reativar os mercados de cr\u00e9dito e tentar recuperar o insolvente sistema financeiro americano. Mas n\u00e3o existe nenhuma teoria, nem claridade sobre quando, onde e como ser\u00e3o gastos estes recursos, nem muito menos, se a sua utiliza\u00e7\u00e3o produzir\u00e1 os efeitos desejados. Os economistas e as autoridades governamentais americanas, e de todo o mundo, est\u00e3o num v\u00f4o cego, mesmo quando n\u00e3o o reconhe\u00e7am, ou n\u00e3o possam reconhec\u00ea-lo. <\/p>\n<p>No meio desta confus\u00e3o, acho que s\u00f3 existem tr\u00eas coisas que podem ser afirmadas com algum grau de certeza: a primeira, \u00e9 que fa\u00e7a o que fa\u00e7a o governo americano, ser\u00e1 absolutamente decisivo para a evolu\u00e7\u00e3o da crise em todo mundo; a segunda, \u00e9 de que, neste momento, todos os governos envolvidos est\u00e3o fazendo a mesma aposta e adotando as mesmas estrat\u00e9gias monet\u00e1rias e fiscais, e aprovando \u0093pacotes\u0094 sucessivos ( e at\u00e9 agora impotentes) de ajuda \u00e0 estabiliza\u00e7\u00e3o e reativa\u00e7\u00e3o do sistema financeiro, e de est\u00edmulo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e ao emprego, junto um aumento generalizado \u0096 mas ainda disfar\u00e7ado &#8211; das barreiras protecionistas. E todos os governos est\u00e3o se propondo aumentar o rigor da regula\u00e7\u00e3o dos seus agentes e mercados financeiros. A terceira coisa que se pode afirmar com toda certeza \u00e9 que ningu\u00e9m, absolutamente ningu\u00e9m sabe se estas pol\u00edticas dar\u00e3o certo. <\/p>\n<p><i>Este novo consenso poderia ser considerado uma vit\u00f3ria do pensamento keynesiano, e uma retirada definitiva da ortodoxia monetarista e neo-liberal ?<\/i><\/p>\n<p><b>JLF<\/b>: N\u00e3o creio. Nada do que est\u00e1 acontecendo tem a ver com qualquer tipo de vit\u00f3ria ou derrota te\u00f3rica. Trata-se de uma rea\u00e7\u00e3o emergencial e pragm\u00e1tica frente \u00e0 amea\u00e7a de colapso do poder dos estados e dos bancos, e como conseq\u00fc\u00eancia, dos sistemas de produ\u00e7\u00e3o e emprego. Foi uma mudan\u00e7a de rumo inesperada e inevit\u00e1vel, que foi imposta pela for\u00e7a dos fatos, independente da ideologia econ\u00f4mica dos governantes que est\u00e3o aplicando as novas pol\u00edticas, e que na sua maioria ainda eram ortodoxos e liberais at\u00e9 ante-ontem. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos assistindo a vers\u00e3o invertida da famosa frase a Sra Thatcher: \u0093<i>there is no alternative<\/i>\u0094. <\/p>\n<p>S\u00f3 que agora, do meu ponto de vista, esta nova converg\u00eancia aconteceu sem maiores discuss\u00f5es te\u00f3ricas ou ideol\u00f3gicas e sem nenhum entusiasmo pol\u00edtico, ao contr\u00e1rio do que aconteceu com a \u0093virada\u0094 liberal-conservadora dos anos 80\/ 90, que atravessou todos os pa\u00edses e todos os planos da vida social e econ\u00f4mica. A ideologia econ\u00f4mica liberal n\u00e3o previu e n\u00e3o consegue explicar a crise que ela provocou, e como conseq\u00fc\u00eancia n\u00e3o tem nada para dizer nem propor neste momento. Por isto mesmo, as id\u00e9ias ortodoxas e liberais sa\u00edram do primeiro plano, mas n\u00e3o morreram nem desapareceram, pelo contr\u00e1rio, permanecem atuantes em todos as frentes e trincheiras de resist\u00eancia \u00e0s pol\u00edticas estatizantes que est\u00e3o em curso. Uma resist\u00eancia que tem crescido a cada hora que passa, dentro e fora dos EUA, apesar de que ainda n\u00e3o tenha sido devidamente identificada e diagnostica. <\/p>\n<p><i>E os keynesianos?<\/i><\/p>\n<p><b>JLF<\/b>: Do meu ponto de vista, os keynesianos tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam uma teoria capaz de dar conta da complexidade desta nova situa\u00e7\u00e3o mundial, e por isto tampouco sabem o que vem pela frente, nem conseguem antecipar se as \u0093pol\u00edticas keynesianas\u0094 que est\u00e3o em curso, alcan\u00e7ar\u00e3o os resultados propostos. Al\u00e9m disto, um grande numero considera insuficientes os recursos que tem sido desembolsados, e criticam a forma como vem sendo feita a limpeza dos ativos podres do bancos, que em geral \u00e9 considerada pouco ousada e pouco precisa, al\u00e9m de ser perversa ao premiar com recursos p\u00fablicos o setor financeiro respons\u00e1vel pela crise.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, na maioria das vezes, os keynesianos tem uma enorme dificuldade de tratar com os interesses e as lutas do mundo real. E compartilham com os liberais uma esp\u00e9cie de \u0093erro inverso\u0094: os liberais acreditam na possibilidade e na efic\u00e1cia da elimina\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico e do estado do mundo dos mercados; enquanto os keynesianos acrediatm na possibilidade e na efic\u00e1cia da interven\u00e7\u00e3o corretiva do estado no mundo econ\u00f4mico. Mas est\u00e3o sempre imaginando um estado homog\u00eaneo e onisciente, capaz de formular pol\u00edticas econ\u00f4micas s\u00e1bias, justas e eficazes, desde que n\u00e3o sejam \u0093atrapalhadas\u0094 pelo mundo real. Ou seja, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ortodoxos e keynesianos compartilham a mesma dificuldade de entender e incluir nos seus modelos, proje\u00e7\u00f5es e recomenda\u00e7\u00f5es, as contradi\u00e7\u00f5es e as lutas pol\u00edticas pr\u00f3prias do mundo econ\u00f4mico. <\/p>\n<p><i>E o que voc\u00ea v\u00ea quando olha para esta crise atrav\u00e9s desta \u0093janela\u0094 do poder?<\/i><\/p>\n<p><b>JLF<\/b>: N\u00e3o \u00e9 muita coisa o que se possa dizer sem um estudo mais detido dos interesses e conflitos em curso entre grupos sociais e estados e economias nacionais, nas principais regi\u00f5es do mundo, coisa que n\u00e3o fiz nem encontrei ainda nas an\u00e1lises de outros autores. Mas assim mesmo, a v\u00f4o de passaro, \u00e9 poss\u00edvel ver que esta crise envolve interesses e poderes nacionais e internacionais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos, gigantescos e contradit\u00f3rios. Por isto mesmo, n\u00e3o tem nenhuma solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica poss\u00edvel, e do meu ponto de vista tampouco tem nenhuma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 vista. Ainda assistiremos infinitas tentativas e erros, e uma luta cont\u00ednua e prolongada em torno de cada uma destas iniciativas. Portanto, tudo indica que ser\u00e1 uma crise longa e profunda que atuar\u00e1 como um \u0093tsunami darwinista\u0094, liquidando os mais fracos em todos os n\u00edveis.<\/p>\n<p>E o que \u00e9 mais chocante \u00e9 que esta mesma crise acabar\u00e1 provocando no final uma gigantesca transfer\u00eancia e centraliza\u00e7\u00e3o de riqueza e poder. Sobretudo por se tratar de uma crise que apareceu como culmina\u00e7\u00e3o de um longo per\u00edodo de 30 anos onde tamb\u00e9m ocorreu, por outro caminho, uma enorme concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o de poder e capital. Por fim, na hora da volta do sol poucos estar\u00e3o na praia, e com certeza quem estar\u00e1 na frente ser\u00e3o os EUA. Mas o que \u00e9 mais surpreendente \u00e9 que apesar de que a crise n\u00e3o tenha sido provocada intencionalmente, ela tamb\u00e9m enfraquecer\u00e1 pa\u00edses que estavam ascenden<br \/>\ndo nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas e desafiando de alguma forma a ordem internacional estabelecida. \u00c9 como se a crise recolocasse todos os \u0093sublevados\u0094 no \u0093seu devido lugar\u0094, como costumam dizer os \u0093donos do poder\u0094, em todas as latitudes do mundo. <\/p>\n<p><i>Mas voc\u00ea acha que tudo isto acontecer\u00e1 sem que haja resist\u00eancia?<\/i><\/p>\n<p>JLF: N\u00e3o, n\u00e3o acho. Do meu ponto de vista haver\u00e1 resist\u00eancia e haver\u00e1 desintegra\u00e7\u00e3o social mesmo que elas n\u00e3o assumam a forma de uma resist\u00eancia consciente. E se a crise se prolongar por muito tempo, dever\u00e3o se multiplicar as rebeli\u00f5es e as guerras civis, sobretudo nas zonas de fratura do sistema mundial. E n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que algumas destas rebeli\u00f5es se recoloquem objetivos socialistas. Mas com certeza n\u00e3o haver\u00e1 uma mudan\u00e7a de \u0093modo de produ\u00e7\u00e3o\u0094 em escala mundial, nem tampouco uma \u0093supera\u00e7\u00e3o\u0092 hegeliana do sistema inter-estatal capitalista. Pelo contr\u00e1rio, do meu ponto de vista, nesta hora de \u0093estreitamento de oportunidades\u0094 haver\u00e1 uma fuga para frente e uma intensifica\u00e7\u00e3o da corrida imperialista que j\u00e1 estava em curso nestes \u00faltimos 20 anos. <\/p>\n<p><i>Sua vis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 excessivamente pessimista? <\/i><\/p>\n<p><b>JLF<\/b>: N\u00e3o creio, creio que \u00e9 apenas uma leitura capitalista do pr\u00f3prio capitalismo, com suas lutas de poder e suas contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-econ\u00f4micas que atravessam e d\u00e3o ritmo ao movimento c\u00edclico e expansivo de acumula\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica do pr\u00f3prio capital.<\/p>\n<p><i>Agora bem, mudando um pouco de assunto, quais s\u00e3o as suas expectativas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica externa dos Estados Unidos, sob a presid\u00eancia de Obama?<\/i><\/p>\n<p><b>JLF<\/b>: Se s\u00f3 nos fixarmos nas pessoas e seus discursos, creio que n\u00e3o haveria muito que esperar de novo da pol\u00edtica externa do governo Obama. As figuras centrais que est\u00e3o no comando da pol\u00edtica externa, como no caso da pol\u00edtica econ\u00f4mica, s\u00e3o conhecidos que j\u00e1 governaram durante os oito anos da administra\u00e7\u00e3o Clinton que promoveu cerca de 48 interven\u00e7\u00f5es militares ao redor do mundo, ao contr\u00e1rio do que se imagina que foi a d\u00e9cada de 90. Por outro lado, os programas de campanha da sra. Hillary como o do pr\u00f3prio Obama foram explicitamente intervencionistas e comprometidos com a manuten\u00e7\u00e3o do poder global dos EUA. <\/p>\n<p>Porque n\u00e3o h\u00e1 que esquecer que os EUA tem uma infra-estrutural global de poder militar pela qual devem zelar, seja qual for o seu governo. S\u00e3o os seus acordos militares com cerca de 130 pa\u00edses, s\u00e3o suas 700 bases militares situadas ao redor de todo o mundo e s\u00e3o finalmente seus mais de meio milh\u00e3o de soldados servindo ou lutando fora do territ\u00f3rio americano. Os EUA devem enfrentar dificuldades e contradi\u00e7\u00f5es crescentes para administrar este poder global, mas n\u00e3o h\u00e1 a menor possibilidade que os americanos recuem abandonem estas posi\u00e7\u00f5es de poder, por sua pr\u00f3pria conta, com ou sem Barak Obama. <\/p>\n<p><i>Mas ent\u00e3o n\u00e3o se deve esperar nenhuma com rela\u00e7\u00e3o a era Bush? E de onde poderiam vir?<\/i><\/p>\n<p><b>JLF:<\/b> Com certeza haver\u00e1 mudan\u00e7as, e o mais prov\u00e1vel \u00e9 que elas v\u00e3o crescendo com o tempo e pragmaticamente. Mas neste ponto \u00e9 necess\u00e1rio ter em conta que os revezes do per\u00edodo Bush aumentaram as divis\u00f5es internas e criaram uma verdadeira fratura exposta e permanente dentro do sociedade e da elite norte-americana, Deste ponto de vista, a elei\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio governo Obama podem e devem ser considerados como um momento importante, mas absolutamente inicial ou incipiente de um longo processo de realinhamento interno de for\u00e7as e interesses dentro do establishment norte-americano, como ocorreu no in\u00edcio dos anos 50, e na d\u00e9cada de 70, depois das Guerras da Cor\u00e9ia e do Vietn\u00e3. S\u00e3o momentos em que se formam novas coaliz\u00f5es de poder e podem se definir novas estrat\u00e9gias internacionais. Mas estes processos de realinhamento s\u00e3o lentos, e neste novo contexto internacional, depender\u00e3o muito da evolu\u00e7\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es de poder, guerra e competi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, nos v\u00e1rios tabuleiros geopol\u00edticos ao redor do mundo.<\/p>\n<p>Tendo em vista que muitos destes conflitos regionais n\u00e3o t\u00eam perspectiva de solu\u00e7\u00e3o a curto prazo, devido ao grande numero de interesses envolvidos e apoiados por pot\u00eancias rivais e com capacidade militar de impor sua posi\u00e7\u00e3o dentro de cada uma destas regi\u00f5es. De qualquer maneira, n\u00e3o h\u00e1 duvida, que frente a uma quadro de tamanha complexidade foi um grande passo a frente o afastamento do fanatismo religioso do comando da pol\u00edtica externa americana, e sua substitui\u00e7\u00e3o por um projeto de experimenta\u00e7\u00e3o progressivo e realista de solu\u00e7\u00f5es negociadas, sempre que poss\u00edvel, com as v\u00e1rias pot\u00eancias envolvidas em cada um destes conflitos mais quentes que dever\u00e3o ir sendo administrados. Mesmo sem ter uma solu\u00e7\u00e3o definitiva.<\/p>\n<p><i>Esta crise atual pode representar o fim da era norte-americana e a inaugura\u00e7\u00e3o de um novo ciclo hegem\u00f4nico?<\/i><\/p>\n<p><b>JLF:<\/b> Para te responder esta pergunta, preciso fazer antes uma breve digress\u00e3o te\u00f3rica. Eu n\u00e3o leio a hist\u00f3ria do sistema mundial como uma sucess\u00e3o de ciclos hegem\u00f4nicos, uma esp\u00e9cie de ciclos biol\u00f3gicos dos estados que nascem, crescem, dominam o mundo, e depois decaem e s\u00e3o substitu\u00eddos por um novo estado que percorreria o mesmo ciclo anterior at\u00e9 chegar \u00e0 sua pr\u00f3pria hora da decad\u00eancia. Do meu ponto de vista, a melhor analogia para pensar o sistema mundial \u00e9 como um \u0093universo em expans\u00e3o&#8221; cont\u00ednua, onde todas os estados que lutam pelo &#8220;poder global&#8221; \u0096 em particular, a pot\u00eancia l\u00edder ou hegem\u00f4nica \u0096 constituem um n\u00facleo insepar\u00e1vel, complementar e competitivo, em permanente estado de prepara\u00e7\u00e3o para a guerra. Por isto, s\u00e3o estados que est\u00e3o sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expans\u00e3o e crise, paz e guerra. E as pot\u00eancias que uma vez ocupam a posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a, n\u00e3o desaparecem, nem s\u00e3o derrotadas por seu \u0093sucessor\u0094.<\/p>\n<p>Elas permanecem e tendem mais bem a se fundir com as for\u00e7as ascendentes criando blocos cada vez mais poderosos de poder, como aconteceu, por exemplo, no caso da Holanda, Gr\u00e3 Bretanha e Estados Unidos, que na verdade foram alargando sucessivamente as fronteiras do poder anglo-sax\u00f4nico. Al\u00e9m disto, neste sistema inter-estatal capitalista em que vivemos, crises econ\u00f4micas e guerras n\u00e3o s\u00e3o, necessariamente, um an\u00fancio do &#8220;fim&#8221; ou do &#8220;colapso&#8221; dos estados e das economias envolvidas. <\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, na maioria das vezes fazem parte de um mecanismo essencial da acumula\u00e7\u00e3o do poder e da riqueza dos estados envolvidos dentro do sistema inter-estatal capitalista. Agora bem, do meu ponto de vista, as crises e guerras que est\u00e3o em curso neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI ainda fazem parte de uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural, de longo prazo, que come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1970 e que aponta, neste momento, para um aumento da &#8220;press\u00e3o competitiva&#8221; mundial e para uma nova \u0093explos\u00e3o expansiva&#8221; do sistema mundial &#8211; como a que ocorreu nos longos s\u00e9culos XVI e XIX \u0096 que contar\u00e1 com um papel decisivo do poder americano. <\/p>\n<p><i>Mas n\u00e3o foi exatamente na d\u00e9cada de 70 que se come\u00e7ou a falar em \u0093crise da hegemonia americana\u0094?<\/i><\/p>\n<p><b>JLF:<\/b> Exatamente, foi na d\u00e9cada de 70 que se come\u00e7ou a falar da crise da hegemonia do poder americano, e do in\u00edcio do fim da \u0093era americana\u0094. E no entanto, a resposta que os EUA deram \u00e0 sua pr\u00f3pria crise teve um papel decisivo na transforma\u00e7\u00e3o de longo prazo da economia e da pol\u00edtica mundial. Basta dizer que foram estas mudan\u00e7as lideradas pelos EUA que trouxeram de volta ao sistema mundial, depois de 1991, as duas velhas pot\u00eancias do s\u00e9culo XIX, a Alemanha e a R\u00fassia, al\u00e9m de trazer para dentro do do sistema, a China, a \u00cdndia, e quase todos os principais concorrentes dos Estados Unidos, deste in\u00edcio de s\u00e9culo. A crise de lideran\u00e7a dos Estados Unidos, depois de 2003, serviu apenas para dar uma maior visibilidade a este processo que j\u00e1 estava em curso, com novas e velhas pot\u00eancias regionais atuando de forma cada vez mais \u0093desembara\u00e7ada\u0094, na defesa dos seus interesses nacionais e na reivindica\u00e7\u00e3o de suas \u0093zonas de influ\u00ea<br \/>\nncia\u0094. <\/p>\n<p><i>Voc\u00ea acha ent\u00e3o que os EUA est\u00e3o criando seus pr\u00f3prios coveiros?<\/i><\/p>\n<p><b>JLF<\/b>: Em parte apenas, porque, de fato, a pol\u00edtica expansiva dos EUA, desde 1970 ativou e aprofundou as contradi\u00e7\u00f5es do sistema mundial, derrubou institui\u00e7\u00f5es e regras, fez guerras e acabou fortalecendo os estados e as economias que hoje est\u00e3o disputando com os Estados Unidos, as supremacias regionais, ao redor do mundo. Mas ao mesmo tempo, e \u00e9 isto que \u00e0s vezes \u00e9 esquecido pelos te\u00f3ricos dos ciclos hegem\u00f4nicos, estas mesmas competi\u00e7\u00f5es e guerras, cumpriram e seguem cumprindo um papel decisivo, na reprodu\u00e7\u00e3o e na acumula\u00e7\u00e3o do poder e do capital norte-americano, que tamb\u00e9m necessita manter-se em estado de acumula\u00e7\u00e3o permanente, utilizando-se desta concorr\u00eancia, destas guerras e destas crises para reproduzir sua posi\u00e7\u00e3o, no topo da hierarquia mundial. <\/p>\n<p><i>Voc\u00ea acha que a atual crise econ\u00f4mica afetar\u00e1 a centralidade do d\u00f3lar como moeda de refer\u00eancia internacional?<\/i><\/p>\n<p><b>JLF<\/b>: N\u00e3o creio que o papel internacional do d\u00f3lar seja afetado ou alterado como conseq\u00fc\u00eancia desta crise. Basta voc\u00ea olhar para a chamada \u0093fuga para o d\u00f3lar\u0094 que se acelerou depois de setembro de 2008, como resposta \u00e0 crise financeira americana. Este processo fica inintelig\u00edvel enquanto n\u00e3o se entenda o funcionamento do sistema monet\u00e1rio internacional que meu colega Franklin Serrano apelidou &#8211; j\u00e1 faz alguns anos &#8211; de sistema \u0093d\u00f3lar-flex\u00edvel\u0094. Desde a d\u00e9cada de 1970, os EUA se transformaram no \u0093mercado financeiro do mundo\u0094, e o seu Banco Central (FED), passou a emitir uma moeda nacional de circula\u00e7\u00e3o internacional, sem base met\u00e1lica, administrada atrav\u00e9s das taxas de juros do pr\u00f3prio FED, e dos t\u00edtulos emitidos pelo Tesouro americano, que atuam em todo mundo, como lastro do sistema \u0093d\u00f3lar-flex\u00edvel\u0094.<\/p>\n<p>Por isto, como diz Serrano, a quase totalidade dos passivos externos americanos \u00e9 denominada em d\u00f3lares e praticamente todas as importa\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os dos EUA s\u00e3o pagas exclusivamente em d\u00f3lar, configurando um caso \u00fanico em que um pa\u00eds devedor determina a taxa de juros de sua pr\u00f3pria \u0093d\u00edvida externa\u0094. Uma m\u00e1gica poderosa e uma circularidade imbat\u00edvel, porque se sustenta no poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico norte-americano. Agora mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o Tesouro americano emitir\u00e1 novos t\u00edtulos, mas estes t\u00edtulos ser\u00e3o comprados pelos governos e investidores de todo mundo, porque seguem sendo uma aplica\u00e7\u00e3o segura para todo o mundo e inclusive a China, como diz influente economista Yuan Gangming, ao garantir que \u0093\u00e9 bom para a China investir muito nos EUA; porque n\u00e3o h\u00e1 muitas outras op\u00e7\u00f5es para suas reservas internacionais de quase US$ 2 trilh\u00f5es, e as economias da China e dos EUA s\u00e3o interdependentes\u0094. <\/p>\n<p><i>Depois da polariza\u00e7\u00e3o EUA\/URSS e da domina\u00e7\u00e3o isolada dos EUA, o que vem agora? A China poder\u00e1 ocupar o v\u00e1cuo de poder deixado por um EUA economicamente debilitado?<\/i><\/p>\n<p><b>JLF<\/b>: Como eu j\u00e1 disse, apesar da viol\u00eancia desta crise financeira, e dos seus efeitos em cadeia sobre a economia mundial, n\u00e3o dever\u00e1 haver uma \u0093sucess\u00e3o chinesa\u0094 na lideran\u00e7a pol\u00edtica e militar do sistema mundial. Pelo contr\u00e1rio, do ponto de vista estritamente econ\u00f4mico, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que ocorra um aprofundamento da fus\u00e3o financeira em curso desde a d\u00e9cada de 90, entre a China e os Estados Unidos. Assim mesmo, do ponto de vista geopol\u00edtico, eu acho que o que assistiremos nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, ser\u00e1 uma competi\u00e7\u00e3o intensa dentro de um \u0093n\u00facleo central\u0094 do SM constitu\u00eddo pelos Estados Unidos, a China, e a R\u00fassia. A R\u00fassia, gra\u00e7as \u00e0s suas reservas energ\u00e9ticas, ao seu arsenal at\u00f4mico, e ao tamanho das suas perdas territoriais e populacionais depois de 1991. <\/p>\n<p>Se for assim, se estar\u00e1 constituindo um novo \u0093n\u00facleo central\u0094 do sistema mundial composto por tr\u00eas \u0093estados continentais\u0094, que det\u00e9m isoladamente um quarto da superf\u00edcie da Terra, e mais de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o mundial. Nesta nova \u0093geopol\u00edtica das na\u00e7\u00f5es\u0094, a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia ter\u00e1 um papel secund\u00e1rio, ao lado dos Estados Unidos, enquanto n\u00e3o dispuser de um poder unificado, com capacidade de iniciativa estrat\u00e9gica aut\u00f4noma. E a \u00cdndia, Ir\u00e3, Brasil e \u00c1frica do Sul dever\u00e3o aumentar o seu poder regional, em escalas diferentes, mas n\u00e3o ser\u00e3o poderes globais, ainda por muito tempo. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil de prever os caminhos do futuro, depois da era imperialista em que estamos submersos.<\/p><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A atual crise econ\u00f4mica mundial n\u00e3o tem nenhuma solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica poss\u00edvel, e tampouco tem alguma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 vista. Ainda assistiremos a infinitas tentativas e erros, e a uma luta cont\u00ednua e prolongada em torno de cada uma destas iniciativas. Tudo indica que ser\u00e1 uma crise longa e profunda que atuar\u00e1 como um \u0093tsunami&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on wp_trim_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on wp_trim_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[976],"tags":[],"class_list":["post-19796","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-em-destaque"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19796"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19796\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":56884,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19796\/revisions\/56884"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}