{"id":18996,"date":"2007-07-23T00:00:00","date_gmt":"2007-07-23T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.malungo2.com.br\/pdt\/index.php\/o-servico-secreto-do-itamaraty"},"modified":"2017-10-26T09:10:20","modified_gmt":"2017-10-26T11:10:20","slug":"o-servico-secreto-do-itamaraty","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/o-servico-secreto-do-itamaraty\/","title":{"rendered":"O servi\u00e7o secreto do Itamaraty"},"content":{"rendered":"<p>Claudio Dantas Sequeira <BR><BR><BR>Segredo de Estado <BR>Diplomatas brasileiros perseguiram opositores da ditadura por meio de um poderoso sistema de intelig\u00eancia, criado e operado pela c\u00fapula do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. O Correio desvenda, a partir de hoje, um mist\u00e9rio de quatro d\u00e9cadas <BR><BR>Gabinete 410, no anexo 1 do Itamaraty, abrigou o ciex durante os anos de chumbo <BR><BR>Um r\u00edgido c\u00f3digo de honra, uma portaria ultra-secreta e seguidas a\u00e7\u00f5es de desinforma\u00e7\u00e3o garantiram que at\u00e9 hoje permanecesse desconhecido da sociedade um dos segredos mais bem guardados da ditadura: de 1966 at\u00e9 1985, o Itamaraty operou um poderoso servi\u00e7o de intelig\u00eancia, tendo como modelos o MI6 brit\u00e2nico e sua vers\u00e3o norte-americana, a CIA. Naquele per\u00edodo, os punhos de renda da diplomacia do Bar\u00e3o de Rio Branco ganharam abotoaduras de chumbo. Diplomatas de v\u00e1rios escal\u00f5es foram recrutados para compor o chamado Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Exterior (Ciex) \u0097 que agora, se sabe, foi a primeira ag\u00eancia criada sob o guarda-chuva do Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00e3o (SNI), o aparato de repress\u00e3o pol\u00edtica usado para sustentar o regime militar. <BR><BR>O Correio obteve acesso exclusivo ao arquivo secreto do Ciex, um acervo com mais de 20 mil p\u00e1ginas de informes produzidos ao longo de 19 anos. Depois de quatro meses analisando cada documento, seu grau de confiabilidade e n\u00edvel de distribui\u00e7\u00e3o, pode-se concluir que nunca houve ref\u00fagio seguro aos brasileiros contr\u00e1rios ao golpe de 64. Banidos ou exilados, eles foram monitorados a cada passo, conversa, transa\u00e7\u00e3o ou viagem no exterior. A malha de agentes e informantes operada pelo Itamaraty se estendeu para al\u00e9m da Am\u00e9rica Latina, alcan\u00e7ando o Velho Continente, a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o norte da \u00c1frica. <BR><BR>Com verba reservada e subordinado \u00e0 Secretaria Geral das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, o Ciex foi batizado oficialmente de Assessoria de Documenta\u00e7\u00e3o de Pol\u00edtica Exterior, ou simplesmente Adoc. At\u00e9 1975 funcionou de forma insuspeita no gabinete 410, do 4\u00ba andar do Anexo I do Pal\u00e1cio do Itamaraty. A placa com o n\u00famero da sala foi retirada, e assim permanece at\u00e9 hoje, confundindo quem busca a Divis\u00e3o de Promo\u00e7\u00e3o do Audiovisual, ali instalada desde 2006. Toda essa parafern\u00e1lia de camuflagem visava evitar como\u00e7\u00e3o e cr\u00edticas dentro do minist\u00e9rio, e resguardava a imagem dos diplomatas perante a sociedade. <BR><BR>Verdade <BR>A escassez de evid\u00eancias da participa\u00e7\u00e3o da diplomacia brasileira na repress\u00e3o fez crer a todos que o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores foi a reserva moral da democracia, em pleno regime militar. Construiu-se, com o sil\u00eancio, a imagem de diplomatas sem partidos ou tend\u00eancias ideol\u00f3gicas, inc\u00f3lumes aos vaiv\u00e9ns da pol\u00edtica e dedicados exclusivamente \u00e0 defesa do interesse do Estado. Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. A c\u00fapula do Itamaraty se ajustou perfeitamente aos interesses do governo militar, e o Ciex contribuiu de maneira decisiva para a localiza\u00e7\u00e3o e deten\u00e7\u00e3o de muitos asilados. <BR><BR>De fato, dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos durante o regime, o Correio descobriu 64 deles no arquivo secreto do Ciex (leia as reportagens nas p\u00e1ginas 3,4 e 5). O servi\u00e7o secreto, al\u00e9m de localizar e identificar essas pessoas fora do pa\u00eds, facilitava detalhes de seu regresso ao Brasil. Muitos documentos lan\u00e7am luz sobre os informantes infiltrados nos grupos de resist\u00eancia, fornecendo pistas ou at\u00e9 a identidade dessas pessoas. O amplo registro das atividades pol\u00edticas desses asilados, o conhecimento de intimidades e de suas rela\u00e7\u00f5es pessoais em territ\u00f3rio estrangeiro municiaram as demais ag\u00eancias da repress\u00e3o com dados sumamente importantes para as sess\u00f5es de interrogat\u00f3rios, reconhecidamente marcadas por torturas que, certas vezes, derivaram em julgamentos sum\u00e1rios. <BR><BR>Dentre os brasileiros que foram alvo do Ciex est\u00e3o lideran\u00e7as pol\u00edticas, militares rebelados, guerrilheiros, estudantes e pessoas comuns que se opunham \u00e0 ditadura militar. Para citar alguns exemplos, foram monitorados exaustivamente o ex-presidente Jo\u00e3o Goulart e o ex-governador Leonel Brizola, os deputados Miguel Arraes, Neiva Moreira e M\u00e1rcio Moreira Alves. O ex-ministro e fundador da UnB, Darcy Ribeiro. Tamb\u00e9m o ex-almirante Candido Arag\u00e3o e o ex-coronel Jefferson Cardim. Os intelectuais Ant\u00f4nio Callado, Florestan Fernandes, Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso. E at\u00e9 o ex-presidente liberal Jucelino Kubitschek. <BR><BR>Elite <BR>A an\u00e1lise do arquivo do Ciex revela ainda que a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da diplomacia n\u00e3o se restringia aos brasileiros. Seus agentes tamb\u00e9m perseguiram os estrangeiros contr\u00e1rios ao regime em seus pr\u00f3prios pa\u00edses, em flagrante viola\u00e7\u00e3o do direito internacional e do princ\u00edpio de soberania \u0097 t\u00e3o caro \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o do Itamaraty. Tamb\u00e9m foram alvos pol\u00edticos, empres\u00e1rios e at\u00e9 diplomatas de pa\u00edses socialistas ou comunistas em miss\u00e3o oficial dentro do territ\u00f3rio brasileiro. Para o Ciex, a espionagem n\u00e3o era uma atividade meramente operacional. Ela se inscrevia num contexto pol\u00edtico mais complexo e, geralmente, alheio \u00e0 compreens\u00e3o da maioria dos agentes do SNI. Tal vis\u00e3o era potencializada pela vasta cultura geral e a r\u00edgida hierarquia \u0097 que prescinde de uniformes e patentes \u0097 pr\u00f3prias aos diplomatas. Em seu profissionalismo de servidor p\u00fablico, os membros que integraram o servi\u00e7o secreto do Itamaraty acreditavam ocupar um patamar superior ao dos demais espi\u00f5es da ditadura, uma verdadeira elite dentro do sistema de informa\u00e7\u00e3o. <BR><BR>O conhecimento desse cap\u00edtulo escondido da ditadura recoloca a diplomacia junto aos militares no banco dos r\u00e9us no julgamento da Hist\u00f3ria. For\u00e7a uma revis\u00e3o da mem\u00f3ria da guerra ideol\u00f3gica, inclusive em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios opositores da ditadura. Sobreviventes do per\u00edodo s\u00e3o os respons\u00e1veis por construir a maior parte da mem\u00f3ria clandestina, seja atrav\u00e9s da reconstitui\u00e7\u00e3o de fatos ou da montagem de lembran\u00e7as pessoais. De alguma maneira, esses sobreviventes s\u00e3o vencedores, e como tal, fazem prevalecer seu ponto de vista, elegem l\u00edderes e delatores, relegando outros ao esquecimento. Parte do conte\u00fado dos informes do Ciex, para preocupa\u00e7\u00e3o dos vitoriosos, questiona muitas vers\u00f5es que hoje s\u00e3o tidas como verdade absoluta. <BR><BR><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Claudio Dantas Sequeira Segredo de Estado Diplomatas brasileiros perseguiram opositores da ditadura por meio de um poderoso sistema de intelig\u00eancia, criado e operado pela c\u00fapula do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. 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