{"id":18995,"date":"2007-07-23T00:00:00","date_gmt":"2007-07-23T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.malungo2.com.br\/pdt\/index.php\/o-pai-do-servico-secreto-do-itamaraty"},"modified":"2017-10-26T09:10:20","modified_gmt":"2017-10-26T11:10:20","slug":"o-pai-do-servico-secreto-do-itamaraty","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/o-pai-do-servico-secreto-do-itamaraty\/","title":{"rendered":"O pai do servi\u00e7o secreto do Itamaraty"},"content":{"rendered":"<p>Claudio Dantas Sequeira&nbsp;<BR><BR>22\/07\/07<BR>Segredo de Estado <BR>O diplomata Manoel Pio Corr\u00eaa recebeu superpoderes de Castello Branco para lan\u00e7ar cruzada de combate aos comunistas al\u00e9m das fronteiras do Brasil<BR><BR>Criador do Ciex em seu escrit\u00f3rio no Rio na d\u00e9cada de 1970: f\u00e3 de Get\u00falio e amigo de Golbery <BR><BR>O servi\u00e7o secreto do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores surgiu da mente do embaixador aposentado Manoel Pio Corr\u00eaa. Formado na Escola Superior de Guerra, o diplomata, de origem aristocrata, n\u00e3o teve reservas ao encampar os ideais nacionalistas fermentados por d\u00e9cadas entre os militares da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Na pele de executor da pol\u00edtica externa do Brasil, ele se lan\u00e7ou em uma cruzada contra o comunismo, convicto de que se tratava de um mal a ser extirpado da sociedade. Sua efici\u00eancia lhe rendeu admira\u00e7\u00e3o e respeito na caserna, e a alcunha de \u0093troglodita reacion\u00e1rio\u0094 por parte dos asilados pol\u00edticos brasileiros. Hoje, aos 90 anos, um l\u00facido Pio Corr\u00eaa vive sua rotina tranq\u00fcila como consultor privado. <BR><BR>Em conversa com a reportagem por telefone, Pio Corr\u00eaa \u0097 que vive e trabalha no Rio de Janeiro \u0097 admitiu ter sido o autor intelectual e material do Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Exterior (Ciex). \u0093Isso saiu de mim, sim. Da minha cabe\u00e7a\u0094, afirmou. Como o Correio revelou na edi\u00e7\u00e3o de ontem, o Itamaraty operou entre 1966 e 1985 uma ag\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es dedicada a monitorar os opositores do regime militar no exterior. Pio Corr\u00eaa, no entanto, preferiu n\u00e3o seguir adiante nas explica\u00e7\u00f5es, com o argumento de que \u0093certas hist\u00f3rias n\u00e3o devem ser contadas\u0094. <BR><BR>H\u00e1 12 anos, Pio Corr\u00eaa decidiu registrar indiretamente as suas hist\u00f3rias, mesmo sem explicit\u00e1-las, num livro de mem\u00f3rias. A obra O mundo em que vivi foi elaborada para parecer apenas um extenso relato de suas atividades como diplomata. Mas algumas informa\u00e7\u00f5es, quando cruzadas com o arquivo secreto do Ciex e depoimentos de ex-membros do servi\u00e7o, comp\u00f5em um quebra-cabe\u00e7a revelador. <BR><BR>Dona Odette <BR>Uma das informa\u00e7\u00f5es mais relevantes do livro est\u00e1 na p\u00e1gina 580, em que Pio Corr\u00eaa lembra quando, em 1959, substituiu a embaixadora Odette de Carvalho e Souza na chefia do Departamento Pol\u00edtico do Itamaraty. \u0093Dona Odette\u0094, como era conhecida pelos colegas, entregou-lhe uma esp\u00e9cie de tesouro pessoal: um arquivo com fichas de cidad\u00e3os, nacionais e estrangeiros, envolvidos em atividades consideradas subversivas durante as d\u00e9cadas de 1940 e 1950. \u0093Um precioso presente\u0094, segundo Pio Corr\u00eaa. \u0093Quando deixei o departamento no fim do governo Kubitschek, desconfiando, com toda raz\u00e3o como se viu mais tarde, do que viria sob o governo seguinte, deixei esse arquivo, consideravelmente aumentado, confiado a um oficial amigo, que fazia liga\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00e3o e Contra-Informa\u00e7\u00e3o (SFICI) com o Itamaraty\u0094, admitiu o diplomata. <BR><BR>A rel\u00edquia, sem d\u00favida, inspirou Pio Corr\u00eaa, que j\u00e1 se enamorara de informes e relat\u00f3rios ao trabalhar no Servi\u00e7o de Documenta\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Aeron\u00e1utica, no in\u00edcio da carreira. Fora do Itamaraty, Pio Corr\u00eaa recebia duras cr\u00edticas da imprensa de esquerda e de deputados do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o que levou Juscelino Kubitschek a pedir a exonera\u00e7\u00e3o do diplomata, mas o ent\u00e3o chanceler Hor\u00e1cio Lafer se recusou a ceder. Cinco anos mais tarde, como o pr\u00f3prio Pio Corr\u00eaa conta sem pudores, na p\u00e1gina 814, ele apoiaria o golpe de Estado contra o governo de Jo\u00e3o Goulart. \u0093Eu conspirava contra o governo, e a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de 31 de mar\u00e7o de 1964 representou a coroa\u00e7\u00e3o de minhas mais caras esperan\u00e7as\u0094, escreveu. <BR><BR>Embri\u00e3o <BR>Imediatamente depois do golpe, o presidente Castello Branco decidiu presentear o diplomata, nomeando-o como embaixador em Montevid\u00e9u. Na companhia do coronel C\u00e2mara Senna como adido militar, os dois formariam uma dupla dedicada a neutralizar articula\u00e7\u00f5es contra-revolucion\u00e1rias, especialmente por parte de Goulart e Leonel Brizola \u0097 naquele momento consideradas perigosas lideran\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o. Juntos, o diplomata e o adido militar, arquitetaram uma rede de contatos que inclu\u00eda pol\u00edticos, militares, ju\u00edzes, delegados de pol\u00edcia, fazendeiros e at\u00e9 comerciantes. Os contatos foram travados em seguidas viagens pelo pa\u00eds, e o Uruguai acabou servindo de experi\u00eancia piloto para a cria\u00e7\u00e3o do Ciex. <BR><BR>\u0093Esse tipo de visita foi muito \u00fatil, pois encontrei nas pol\u00edcias departamentais excelentes fontes de informa\u00e7\u00e3o e ocasionalmente algum tipo de coopera\u00e7\u00e3o ativa, extra-oficial\u0094, disse Pio Corr\u00eaa no livro. Tamb\u00e9m fizeram dezenas de incurs\u00f5es do lado brasileiro da fronteira, desde o Chu\u00ed a Porto Alegre, passando por S\u00e3o Gabriel, Pelotas e Santana do Livramento. Com freq\u00fc\u00eancia, a dupla se reunia com colegas do III Ex\u00e9rcito para trocar informa\u00e7\u00f5es. <BR><BR>\u0093Amea\u00e7a externa\u0094 <BR>O trabalho era acompanhado por Golbery do Couto e Silva, o general reformado que idealizaria o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI). \u0093Cada vez que fui ao Brasil durante o per\u00edodo janguista, nunca deixei de trocar impress\u00f5es com amigos, tanto das For\u00e7as Armadas como do meio civil, comprometidos com a causa da resist\u00eancia \u00e0 marcha do esquerdismo\u0094, escreveu. <BR><BR>A desenvoltura do diplomata no Uruguai lhe abriria ainda mais as portas da carreira sob tutela militar. Nos idos de 1966, a \u0093amea\u00e7a externa\u0094 do comunismo ganhava f\u00f4lego, com a realiza\u00e7\u00e3o em Havana da confer\u00eancia que instituiu a Organiza\u00e7\u00e3o de Solidariedade dos Povos da \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina (OSPAAL) \u0097 uma esp\u00e9cie de Internacional revolucion\u00e1ria no Terceiro Mundo. Logo, Pio Corr\u00eaa seria nomeado secret\u00e1rio-geral do Itamaraty, com superpoderes para fazer o que quisesse. E ele n\u00e3o perdeu a oportunidade. <BR><BR>Diante da administra\u00e7\u00e3o ausente do chanceler Juracy Magalh\u00e3es \u0097 autor da c\u00e9lebre frase \u0093o que \u00e9 bom para os Estados Unidos \u00e9 bom para o Brasil\u0094 \u0097, Pio assumiu o comando da Casa. E tamb\u00e9m da pol\u00edtica externa. Internamente, lan\u00e7ou uma ca\u00e7a aos diplomatas que considerava \u0093pederastas, b\u00eabados e vagabundos\u0094, como diz no livro. Pio Corr\u00eaa teria sido, inclusive, o respons\u00e1vel pelo afastamento do compositor Vin\u00edcius de Moraes da carreira diplom\u00e1tica. No plano externo, decidiu reproduzir a bem-sucedida experi\u00eancia uruguaia a mais uma d\u00fazia de pa\u00edses. Redigiu e assinou ent\u00e3o a portaria ultra-secreta que instituiria o Centro de Informa\u00e7\u00e3o do Exterior (Ciex). <BR><BR>A exist\u00eancia dessa portaria foi confirmada ao Correio por meio de relatos de ex-membros do Ciex, mas o documento, por seu car\u00e1ter ultra-secreto, estaria praticamente inacess\u00edvel, confinado num imenso cofre localizado no subsolo do Itamaraty. Para chefiar o servi\u00e7o secreto em seu in\u00edcio, Pio Corr\u00eaa chamou um de seus pupilos, o ent\u00e3o secret\u00e1rio Marcos Henrique Camillo C\u00f4rtes. Nos primeiros meses, o servi\u00e7o de intelig\u00eancia da diplomacia funcionou de forma prec\u00e1ria. Os dados enviados pelas embaixadas eram consolidados em informes datilografados em folhas comuns. Mais tarde, o Ciex passaria a trabalhar com p\u00e1ginas timbradas e carimbos com a sigla da ag\u00eancia. <BR><BR>A sa\u00edda de Castello Branco em 1967 n\u00e3o interferiu nas atividades do Ciex. Pio Corr\u00eaa, prestes a se aposentar, pediu remo\u00e7\u00e3o no ano seguinte para a embaixada brasileira em Buenos Aires. Camillo C\u00f4rtes o acompanhou nos primeiros meses, e logo foi enviado \u0093em car\u00e1ter especial\u0094 a Washington com a miss\u00e3o de estreitar a colabora\u00e7\u00e3o no setor de intelig\u00eancia com a CIA. Durante alguns anos depois de aposentado, Pio Corr\u00eaa seguiria como uma esp\u00e9cie de consultor informal do Itamaraty. Depois, recebeu convites da iniciativa privada, onde permanece at\u00e9 hoje. <BR><BR><\/p>\n<p>Correio Brasiliense<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Claudio Dantas Sequeira&nbsp;22\/07\/07Segredo de Estado O diplomata Manoel Pio Corr\u00eaa recebeu superpoderes de Castello Branco para lan\u00e7ar cruzada de combate aos comunistas al\u00e9m das fronteiras do BrasilCriador do Ciex em seu escrit\u00f3rio no Rio na d\u00e9cada de 1970: f\u00e3 de Get\u00falio e amigo de Golbery O servi\u00e7o secreto do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores surgiu da&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on wp_trim_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on wp_trim_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[976],"tags":[],"class_list":["post-18995","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-em-destaque"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18995","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18995"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18995\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57628,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18995\/revisions\/57628"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}