{"id":13273,"date":"2012-05-15T12:11:28","date_gmt":"2012-05-15T12:11:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.malungo2.com.br\/pdt\/desenv\/index.php\/mauro-santayana-neiva-e-o-compromisso-politico-do-jornalista"},"modified":"2017-10-25T15:04:57","modified_gmt":"2017-10-25T17:04:57","slug":"mauro-santayana-neiva-e-o-compromisso-politico-do-jornalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pdt-rj.org.br\/index.php\/mauro-santayana-neiva-e-o-compromisso-politico-do-jornalista\/","title":{"rendered":"Mauro Santayana: Neiva e o compromisso pol\u00edtico do jornalista"},"content":{"rendered":"<p>A morte de Neiva Moreira reclama algumas reflex&otilde;es sobre o jornalismo e a pol&iacute;tica. A imprensa nunca foi inocente. Os donos de jornais &mdash; mas, da mesma forma, os jornalistas &mdash; atuam de acordo com seus interesses e suas ideias, e dessa atua&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se ausenta a quest&atilde;o fundamental do homem, a do poder.<\/p>\n<p>A vida de Neiva Moreira foi a de excepcional jornalista engajado. Embora fosse de uma grande fam&iacute;lia no Maranh&atilde;o, nascera em seu  ramo menos afortunado, filho de modest&iacute;ssimo comerciante, e em uma das mais pobres comunidades do Estado, embora com o nome de Nova York. Como todo menino  pobre que se torna &oacute;rf&atilde;o &mdash; &nbsp;em seu caso beneficiado pela sobreviv&ecirc;ncia da m&atilde;e professora, que incentivou suas  leituras &mdash; Neiva teve que trabalhar t&atilde;o logo o corpo permitiu. Vendedor  de quitandas, ajudante de barqueiros, cobrador de mensalidades de pequena associa&ccedil;&atilde;o,  ele se fez do melhor barro humano.<\/p>\n<p>Como a maioria dos jornalistas daquele tempo, Neiva n&atilde;o chegou a concluir o curso m&eacute;dio. Desde a adolesc&ecirc;ncia, sua forma&ccedil;&atilde;o se fez nas reda&ccedil;&otilde;es. Quando S&atilde;o Lu&iacute;s se tornou pequena para o jovem de 25 anos, que j&aacute; se destacara como dos grandes redatores da cidade, Neiva buscou o Rio. Nos anos seguintes seu nome se firmaria como um dos mais atilados rep&oacute;rteres e analistas pol&iacute;ticos brasileiros, preocupado com o inquietante jogo do poder, em seu estado, no pa&iacute;s e no mundo.<\/p>\n<p>Essa preocupa&ccedil;&atilde;o o levou de volta a S&atilde;o Lu&iacute;s, e &agrave; dire&ccedil;&atilde;o de um jornal di&aacute;rio, o <em>Jornal do Povo<\/em>, de oposi&ccedil;&atilde;o f&eacute;rrea ao ent&atilde;o &ldquo;dono&rdquo; do Maranh&atilde;o, Vitorino Freire. Tornou-se l&iacute;der na cidade e se elegeu deputado estadual tr&ecirc;s vezes, antes de tornar-se deputado federal.<\/p>\n<p>Conheci Neiva nos anos cruciais de 1961 a 1964, que marcaram a nossa gera&ccedil;&atilde;o com a esperan&ccedil;a, a frustra&ccedil;&atilde;o e a luta que se seguiu at&eacute; a redemocratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. &nbsp;Como ele conta em suas mem&oacute;rias, <em>O pil&atilde;o da madrugada<\/em>&nbsp;e no pref&aacute;cio que fez &agrave; biografia de Leonel Brizola, de Leite Filho, coube-me a miss&atilde;o, entre outras, a mim confiadas por Brizola, &nbsp;de encontr&aacute;-lo em La Paz, ainda em&nbsp; 1964, e acompanh&aacute;-lo a&nbsp; Montevid&eacute;u. Fiz a viagem, clandestina, como era necess&aacute;rio, em barco at&eacute; Buenos Aires e o resto do trajeto por trem.<\/p>\n<p>Neiva n&atilde;o p&ocirc;de se desembara&ccedil;ar de compromissos urgentes &mdash; entre outros, o de sua participa&ccedil;&atilde;o na assessoria de imprensa do presidente Paz Estenssoro, que ele conhecia havia anos. Eu &mdash; tamb&eacute;m com a agenda comprometida &mdash; retornei a Buenos Aires no prazo previsto.<\/p>\n<p>Entre suas lembran&ccedil;as marcou-lhe o fato de eu haver deixado com ele uma pistola Luger, para que se protegesse em alguma eventualidade, durante seu futuro deslocamento ao Uruguai. &nbsp;Eu ainda possu&iacute;a outras duas armas.<\/p>\n<p>Meses depois, o golpe de estado de Barrientos levou-o, e a outros companheiros nossos que l&aacute; se encontravam, como Jos&eacute; Serra, Jos&eacute; Maria Rabelo, Marcelo Cerqueira, Joel Rufino dos Santos, Paulo Alberto (Artur da T&aacute;vola), a deixar a Bol&iacute;via. O presidente Paz Estenssoro tamb&eacute;m foi obrigado a exilar-se. Tr&ecirc;s anos depois disso, Guevara morreria na Bol&iacute;via.<\/p>\n<p>Um bom jornalista sempre encontra trabalho. Em La Paz e em Montevid&eacute;u, Neiva sempre trabalhou, e muito. Em Montevid&eacute;u, chegou a editar o jornal <em>Ahora<\/em>, de grande &ecirc;xito, enquanto durou. Al&eacute;m desse encontro em La Paz, recordo outro, em Havana, em 1965 ou 66, n&atilde;o registrei a data. Narro-o para mostrar outra face de Neiva, a do amigo fraterno. Uma noite, bateram &agrave; nossa porta. Era um oficial do Minist&eacute;rio do Interior, que me convidou a acompanh&aacute;-lo. Fomos em sil&ecirc;ncio, at&eacute; que, duas quadras adiante, junto a um poste, Neiva me esperava.<\/p>\n<p>O cubano se afastou discretamente, e conversamos durante uns vinte minutos. Neiva s&oacute; queria saber como nos encontr&aacute;vamos, com os nossos filhos. Se eu estava bem, com meu trabalho como jornalista, se precisava de alguma coisa. Deu-me not&iacute;cias dos outros companheiros e de nossa luta. N&atilde;o, n&atilde;o precis&aacute;vamos de nada: felizmente est&aacute;vamos bem de sa&uacute;de e no trabalho. Neiva era o amigo um pouco mais velho, com seu afetuoso cuidado para conosco.<\/p>\n<p>Em Bras&iacute;lia, quando ele exerceu o mandato de deputado federal, a partir de 1991, v&iacute;amo-nos sempre. Era homem alegre, cheio de esperan&ccedil;as, de amor a nosso pa&iacute;s e de confian&ccedil;a em nosso povo.<\/p>\n<p>Neiva  Moreira sempre teve um lado. Como recomenda Ricardo Kotscho, todos os  jornalistas devem ter seu lado. A narra&ccedil;&atilde;o fiel dos fatos n&atilde;o impede o  compromisso do homem e do cidad&atilde;o para com suas ideias e para com sua  forma de ver e viver o mundo. Se houvesse &mdash; e felizmente n&atilde;o h&aacute;, por  mais que se proclame essa inverdade &mdash; absoluta imparcialidade em algum  jornalista, ele n&atilde;o seria&nbsp; bom profissional, posto que desprovido de  emo&ccedil;&atilde;o, essa condi&ccedil;&atilde;o essencial de nossa esp&eacute;cie. Seria uma forma de  andr&oacute;ide, n&atilde;o ser humano.<\/p>\n<p>Jornal do Brasil<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte de Neiva Moreira reclama algumas reflex&otilde;es sobre o jornalismo e a pol&iacute;tica. A imprensa nunca foi inocente. Os donos de jornais &mdash; mas, da mesma forma, os jornalistas &mdash; atuam de acordo com seus interesses e suas ideias, e dessa atua&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se ausenta a quest&atilde;o fundamental do homem, a do poder. 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