Fernando Siqueira: “Antecipação do pagamento dos dividendos da Petrobrás é crime de lesa-pátria”


Osvaldo Maneschy
14/11/2022

“Lucro imoral inclui valores da venda de ativos como gasodutos ea BR Distribuidora”, diz o engenheiro

Em entrevista ao jornal “Hora do Povo” o ex-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET), Fernando Siqueira, afirmou que a maior parte dos R$ 43 bilhões que serão pagos como antecipação de dividentos para os acionistas da Petrobrás irão para o exterior, principalmente acionistas da Bolsa de Nova Iorque. Na opinião de Siqueira, os maiores prejudicados com esta política –  no apagar das luzes do governo Bolsonaro, serão os brasileiros – que estão pagando preço absurdo pelos combustíveis.

O diretor da Aepet (Associação dos Engenheiros da Petrobrás frisou que “Esta distribuição de dividendos é crime de lesa pátria”. O O Conselho de Administração da Petrobrás anunciou semana passada que aprovou, no apagar das luzes do governo Bolsonaro, a  distribuição antecipada de dividendos no montante de R$ 43,7 bilhões.

“A direção da Petrobrás tem colocado o preço na refinaria com lucro da ordem de 300%. Ou seja, retira patrimônio do povo para distribuir com acionistas privados, sendo 44% deles da bolsa se nova Iorque – leia-se fundos abutres e George soros”, prosseguiu Siqueira.

Fernando Siqueira acrescentou que além do crime da antecipação em si dos dividendos, “esse lucro imoral inclui valores da venda de ativos a preços de banana”. A Petrobrás vendeu gasodutos, a BR Distribuidora, suas refinarias e outros ativos da empresa.

Ele destacou que “no governo Lula, a participação do governo no capital da Petrobrás era de 48%”. “Bolsonaro mandou o Banco do Brasil e a Caixa Econômica venderem suas ações da Petrobrás”, denunciou Siqueira. “Daí a participação caiu para e 36,75%. Por conta disso, o capital privado recebe 63,7% desses dividendos absurdos, que são superiores ao lucro imoral que a Petrobrás recebe”, apontou.

Fernado Siqueira aproveitou a entrevista para desmentir afirmações feitas por Jair Bolsonaro sobre a Petrobrás durante a campanha eleitoral. A primeira mentira, segundo Siqueira, é de que o “petrolão” deu um prejuízo de R$ 900 bilhões à Petrobrás. A verdade é que o prejuízo contabilizado pela Petrobrás neste esquema foi de 8 bilhões, dos quais, 6,5 bilhões foram recuperados.

A segunda mentira, disse Fernando Siqueira, foi a de que a dívida da Petrobrás veio dessa corrupção. A verdade é que a dívida da Petrobrás veio dos investimentos nos sistemas de produção do pré-sal. A partir de 2010 até 2016, a Petrobrás investia US$ 50 bilhões por ano. Hoje ela investe menos de US$ 8 bilhões por ano.

A terceira mentira de Bolsonaro é a de que a gasolina brasileira é hoje a mais barata do mundo. A verdade é que em todos os países que têm monopólio, a gasolina é mais barata do que no Brasil. O preço em dólar por litro de gasolina das estatais dos países monopolistas é: Venezuela – 0,001; Irã – 0,06; Angola – 0,268; Kwait – 0,348; Malásia – 0,49; Iraque – 0,51; Catar – 0,56; Arábia Saudita – 0,62; Rússia – 0,72; Brasil – 1,20.

A quarta mentira foi a de que a baixa do preço da gasolina favoreceu os brasileiros. “A verdade é que a diretoria da Petrobrás, nomeada por Bolsonaro, elevou os preços de venda na refinaria fazendo o lucro da companhia superar 300%. “Como ele mandou a CEF e o BB venderem suas ações reduzindo a participação do governo no capital da Petrobrás de 48% para 36%, ele acabou transferindo renda do povo para acionistas privados”, denunciou.

Segundo Fenando, quem ganhou muito foram os acionistas da Petrobrás, sendo 44% deles da bolsa de Nova Iorque. “Além disso, o governo provocou outro prejuízo ao povo ao baixar os impostos ao invés de baixar o lucro absurdo da Petrobras”, observou. A redução do ICMS tirou recursos da Saúde e Educação dos Estados e municípios “Ou seja, a medida deu um duplo prejuízo ao povo brasileiro”, completou o dirigente da Aepet.

Sobre os preços dos combustíveis Fernando Siqueira acrescentou: “esses preços absurdos que estão sendo cobrados, por exemplo, do diesel, que geram uma inflação brutal, portanto prejudica profundamente a população brasileira, é no sentido de jogar a Petrobrás contra a opinião pública para privatizar. Esse PPI é outra estratégia de desmoralização da empresa, jogá-la contra a opinião pública e justificar sua privatização”.

Ao analisar a estrutura dos preço, no caso do GLP (Gás Liquefeito de Petróleo, o conhecido gás de cozinha), Fernando Siqueira afirmou que “a estrutura de preço é imoral, não só porque a Petrobrás e a distribuidora ganham um absurdo, mas porque penaliza a população mais pobre do país que usa o gás para fazer seus alimentos”. “É fácil reduzir a um preço racionalmente bom, que não penalize nenhum dos participantes e dê um lucro razoável, para que a Petrobrás possa investir no pré-sal”, afirma o engenheiro. “Se fosse feito de forma correta, o botijão de gás poderia estar na faixa de R$ 60 e ainda daria muito lucro”.

Sobre a estrutura do diesel, hoje, a Petrobrás fica com cerca de 60% do preço do diesel. “O custo de extração do petróleo está em cinco dólares o barril – custo de extração e extrair todos os demais custos”, explica. “O custo de produção está entre 25 e 30 dólares por barril. Com isso , o custo de produção do diesel para Petrobrás fica na faixa de R$ 1,3 por litro e ela está vendendo por R$ 4,07, ou seja, um lucro de 250%! É um lucro imoral, principalmente sabendo o quanto é estratégico o diesel para a população brasileira”.

“O diesel permite o transporte de alimentos, de pessoas, de materiais, enfim, é ele que gera o aumento da inflação do jeito que está aí, atingindo dois dígitos, aumentando o transporte, os alimentos, materias, aumenta tudo. Isso tudo gera esse lucro fantástico de R$ 44 bilhões . Ano passado foram 106 bilhões em detrimento do povo brasileiro, e mais grave, transferindo isso para 63,25%, que é o percentual de acionistas: 42% na bolsa de Nova Iorque e outros estrangeiros, acionistas privados. Estão sendo transferidos recursos do povo brasileiro para encher os seus bolsos, os seus bancos”, sustentou.

Siqueira desmente Bolsonaro, que ele considera o “maior mentiroso da história”, sobre a afirmação de que nos países onde a produção é privada os preços são menores. “Todos os países monopolistas têm preços muito menores, infinitamente menores, uma diferença imensa”, afirmou o dirigente da Aepet.