“Vivemos um genocídio”, disse Darcy Ribeiro em seu 1° discurso no Senado, no ano de 1992

Há 30 anos, Darcy Ribeiro mostrou que seu pensamento, passado tantos anos, está atualíssimo no Brasil de hoje

“Exacerbo ao falar de genocídio? Lamentavelmente, eu não exagero”, indagava o recém-empossado senador pelo estado do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro (PDT), ao denunciar, em 20 março de 1991, o sistemático e progressivo ataque à vida do povo brasileiro. “Vivemos um processo genocida”, ratificou, no plenário. Na sessão presidida pelo senador Mauro Benevides, pai do atual deputado federal licenciado pelo PDT do Ceará, Mauro Benevides Filho, o impacto das palavras do antropólogo despontava como um alerta para a manutenção do processo elitista de dilapidação e extermínio.

“O digo com dor, mas com o senso de responsabilidade de um brasileiro sensível ao drama do nosso povo. O digo, também, como antropólogo habituado a examinar os dramas humanos. Viemos, com efeito, um processo genocida que faz vítimas preferenciais entre as crianças, os velhos e as mulheres; entre os negros, os índios e os caboclos”, pontuou.

E tal realidade exposta segue sendo aprimorada, principalmente, no presente governo do presidente da República, Jair Bolsonaro.

“Estamos matando nosso povo. Nada há de mais espantoso, em nossa Pátria, do que o fato de que ninguém se rebele contra o horror de paisagem humana do Brasil de hoje. Estamos matando, martirizando, sangrando, degradando, destruindo nosso povo” , acrescentou.

De forma racional, Darcy traduziu o contexto de uma realidade estéril, que é retroalimentada pelos conceitos neoliberais dentro do círculo vicioso de perpetuação da opressão popular.

“Nunca, em nossa história, nos faltaram tanto a lucidez, a clarividência e a coragem indispensáveis para equacionar nossos problemas. Nunca foi tão escasso o sentido do bem comum, a noção do interesse público, que é o ponto de vista do povo inteiro”, disse.

Sobre o enfrentamento obrigatório pelas forças democráticas e socialmente responsáveis, o pedetista suscitou uma resposta do Congresso à Nação. “O que não podemos fazer jamais, em dignidade, é calar diante desses desafios”, argumentou. No mesmo discurso, longo, Darcy argumentou, entre outros pontos fundamentais que atualíssimos no Brasil atual:

“A situação do Brasil é tão grave que s6 se pode caracterizar a política econômica vigente como genocida. Estamos matando nosso povo. Estamos minando, carunchando a vida de milhões de brasileiros. Desnutrida, desfibrada, nossa gente está se tornando mentalmente deficiente para compreender seu próprio drama e fisicamente incapacitada para o trabalho no esforço de superação do atraso. Vivemos um processo genocida. O digo com dor, mas com o senso de responsabilidade de um brasileiro sensível ao drama do nosso povo.

O digo, também, como antropólogo habituado a examinar os dramas humanos. Viemos, com efeito, um processo genocida que faz vítimas preferenciais entre as crianças, os velhos e as mulheres,  entre os negros, os índios e os caboclos. Quantas crianças brasileiras morrem anualmente de fome, de inanição ou vitimadas por enfermidades baratas, facilmente curáveis?

Estatisticas estrangeiras, cautelosas, falam de meio milhão. Estatísticas nacionais, menos cautas, contam mais de oitocentas mil. Quantas serão essas crianças que poderiam viver e  morreram? Cada uma ·delas nasceu de uma mulher, foi amada, acariciada numa família, deu lugar a sonhos e  planos, nos dias, nas horas, nas semanas, nos meses, nos breves anos de sua vida parca. Seguindo a tradição, muita mãe não chorou. Resignada, acha que melhor fora que Deus levasse sua cria do que a  deixar aqui nesse vale de lágrimas.

Sobre este drama tão brasileiro se alço outra ainda maior. Impensável há uns poucos anos. Indizível. Refiro-me ao assassinato de crianças por aparatos para-policiais. Uma vez, quando chegava do exllio, vendo a miséria que se estendeu sobre o País, multiplicando trombadinhas, previ, horrorizado, que acabaríamos travando uma guerra:  guerra da -Foras Armadas contra os pivetes. Essa guerra atroz está em curso. Não é ainda uma operação militar das Forças Armadas. Mas é já uma gueerra cruenta contra a infância e  a juventude, contra os pobres, travada por forças para-militares”.

(Bruno Ribeiro / PDT-RJ)

Confira aqui a íntegra do discurso de Darcy, via registro taquigráfico do Senado publicado no “Diário Oficial”

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