TIJOLAÇO


Sabíamos, desde que se instituiu nosso Governo, que teríamos de trabalhar como se estivéssemos numa fortaleza sitiada. Éramos uma espécie de cabeça de ponte da legitimidade democrática, num continente dominado pelo autoritarismo e pelas cumplicidades da ditadura. (…) Fizemos reservas de “água, carne-seca e farinha”, preparados para um longo período de lutas e adversidades, em situação de grande desvantagem. Era um sítio, como se fora um cerco armado. (…) Formaram um aparatoso acampamento de irregulares, reunindo toda espécie de mercenários: uma aglomeração perversa, confusa e indisciplinada. Arremeteram contra nós, como uma horda de hunos. (…) Foram rechaçados,  com grandes baixas.  Não tinham moral  para  nenhum confronto, apesar da enorme desproporção de forças.  Cresceu  e  expandiu-se  o apoio da  população, já então tomando iniciativas e restringindo-lhes a liberdade de movimentos. Barões e mercenários correram a pedir socorro. Trouxeram o próprio Rei e sua tropa de elite – os cruzados – para o teatro dos acontecimentos.

(O Rei, o Barão e o Ministro – 9 de novembro de 1986)

Apio Gomes

Embora o título possa parecer petulante, este texto não tem a audácia de querer ser uma definição concreta e final do que foi esta série de artigos assinados, que se convencionou chamar de ‘tijolão’ ou ‘tijolaço’; mas tão somente tentar – a partir de uma matéria da imprensa, daquela época – demonstrar aos mais jovens como foi difícil para o governador Brizola furar o bloqueio da grande imprensa (e da menor, caudatária do pensamento disseminado por esta), que, em coro uníssono, tinha como tarefa maior anular sua presença na política nacional.

O Jornal do Brasil, que ainda era domiciliado naquele imponente prédio na descida da Ponte Rio­–Niterói, em 6 de março de 1988, trazia a matéria “Tijolaço” de Brizola está de volta. É a palavra do candidato, em que informava que o Governador Brizola iria começar a publicar uma nova série de artigos.

Forma e conteúdo

Em princípio, considero que se faz necessário – para um bom entendimento deste relato – que os jovens conheçam minha visão sobre os tijolaços. Se possível, pretendo que seja a mais isenta; e, para isto, vou fazer um sincero esforço para, depois de ter deitado leitura sobre todos publicados entre 1984 e 1998, me despir de uma idolatria. Afinal de contas, são sete séries, que abrangem 456 tijolaços, divididos em 1.142 matérias (a maioria deles é composta por várias matérias distintas).

Estes textos do Governador Leonel Brizola não se contentam – como a maioria dos artigos políticos – em dissecar apenas um fio condutor. Junta, no mesmo balcão: o Presidente da República de plantão, as elites brasileiras, a dupla Roberto Marinho/Antonio Carlos Magalhães, os partidos políticos, parlamentarismo, ditadura, pesquisa e o que mais estivesse em torno do tema.

Para o Governador, ao escrever um tijolaço sobre violência por exemplo era necessário explicar que ela cresceu no Brasil com o advento da TV Globo; que era sustentada pelo que ele chamava de ‘comando marrom’ e alimentada pelo ‘partido único’ (a grande imprensa); e pleno emprego e educação (nos moldes dos Cieps) eram as mais eficazes formas de combatê-la.

Sobre o estilo dos tijolaços, Fernando Brito explicou: “(…) Em consequência, os artigos acabavam moldados à semelhança de sua oratória: períodos longos, metáforas, muitas referências históricas e uso de palavras que, conquanto expressassem corretamente a ideia, muitas vezes eram incompreensíveis ao leitor menos preparado: contubérnio (mancebia, convivência promíscua), despifarro (espanholismo que significa desperdício), procrastinação (protelação) e outras…”.

O tijolaço foi a forma encontrada pelo Governador Brizola para defender o Governo do Estado, o PDT e sua honra pessoal dos sistemáticos ataques de dois importantes jornais (naquela época) do eixo Rio–São Paulo: Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo. Os artigos O incêndio do Edifício Andorinhas e O Rei, o Barão e o Ministro podem, por certo, servir de exemplo.

Com a palavra o JB

O próprio Jornal do Brasil confirma este meu conceito, em 6 de março de 1988 (Brizola deixara o Governo do Rio de Janeiro um anos antes), através da matéria Tijolaço de Brizola está de volta. É a palavra do candidato’, da qual transcrevo e analiso os parágrafos referentes ao intertítulo Insinuações:

“Estes 20 anos criaram, em muitas pessoas, atitudes e hábitos verdadeiramente insólitos, incompatíveis com a convivência democrática”, começava Brizola seu primeiro artigo, defendendo seus quatro meses de gestão contra precoces ataques:
“O atual governo foi eleito pelo voto livre e direto da população. Não foi escolhido por nenhum colégio de áulicos, nem é produto de influências de quem quer que seja”.

Em 50 linhas, ele reclamava do “ataque insultuoso e sistemático de certos órgãos de imprensa”, que fariam “insistentes matérias sempre impregnadas de maldosas insinuações”, e pedia “o direito de transformar em diálogo o deprimente monólogo a que a população perplexa vem assistindo”. Na verdade, a ideia do texto sobreveio a uma contagem do que Brizola considerava “ataques do JORNAL DO BRASIL” à sua administração. Teriam sido 30 num só mês.

Que não se perca esta frase assumida pelo JB: “Teriam sido 30 num só mês”.

As citações (aspas do Governador) usadas nestes dois parágrafos estão contidas em Esclarecendo a população, de 29 de julho de 1984, do qual transcrevo o último parágrafo:

“Em meu longo exílio, preparei-me para voltar. Ao ser eleito, preparei-me para defender os sagrados interesses do povo fluminense, que me honrou com a sua confiança. Vamos ver quem está com a melhor causa. E também quem possui autoridade moral e espírito público para dizer onde se encontra o interesse coletivo. Espero que me reconheçam ao menos este direito: o de transformar em diálogo o deprimente monólogo a que a população perplexa vem assistindo”.

Uma leitura atenta desta matéria do Jornal do Brasil demonstra, sobejamente, de que forma o jornal tratava o governador Brizola, mesmo quase dois anos depois do período mais duro (quando governava o Estado):

1) Embora a matéria considere 29 de julho de 1984 a data do tijolaço inicial, na verdade este foi o primeiro que recebeu número. Antes, o Governador Brizola publicara (entre 19 de fevereiro e 28 de junho de 1884) sete matérias pagas, em jornais, sem numeração: duas referentes ao próprio Jornal do Brasil, duas a O Estado de São Paulo e três com matérias explicativas de governo.

O primeiro deles, intitulado Governador Leonel Brizola manda apurar denúncia do Jornal do Brasil, divulga uma carta do Governador endereçada ao presidente do Conselho Diretor do Jornal do Brasil, M. F. do Nascimento Brito, em que informa que determinou, ao Procurador-Geral da Justiça, apuração das denúncias contidas no editorial do JB, “pelas graves responsabilidades que nos envolvem”.

Além de anexar cópia do memorando enviado ao Procurador, Brizola pede colaboração, a Nascimento Brito, na apuração das denúncias: “A população do Rio de Janeiro espera que V. Sa. e os editorialistas do Jornal do Brasil prestem ao Ministério Público do nosso Estado toda colaboração necessária à elucidação dos fatos alegados no referido editorial”.

Nos dias 21 e 28 de junho de 1984, Brizola publicou tijolaços, em que divulgava correspondências enviadas a Júlio Mesquita Neto, diretor do O Estado de São Paulo, que seguia a linha editorial do Jornal do Brasil de ataques sistemáticos ao Estado do Rio de Janeiro – seu povo e seu governante: Em defesa do Rio de Janeiro e Resposta a um fariseu.

2) No início desta matéria, o JB explica que “o ex-governador Leonel Brizola manteve segredo até o último momento sobre qual seria o tema principal de seu artigo, a ser publicado neste domingo como matéria paga no JORNAL DO BRASIL, quase um ano depois de interromper a série de comunicados que veiculou durante sua gestão no Palácio Guanabara”.

– Não houve esta interrupção de quase um ano. O tijolaço ‘Traição do povo brasileiro’, imediatamente anterior ao que motivou a matéria do Jornal do Brasil, foi publicado em 15 de novembro de 1987 (décimo nono da segunda fase). O jornal não computou 19 publicações numeradas neste mesmo ano: junho (4), julho (3), agosto (5), setembro (2), outubro (2) e novembro (3).

3) Informa o jornal: “… começava Brizola seu primeiro artigo, defendendo seus quatro meses de gestão contra precoces ataques…”.

– Ora, o jornal define que o primeiro tijolaço foi publicado em 29 de julho de 1984. Como a posse do Governador Brizola ocorreu em 15 de março de 1983, ele não defendia “quatro meses de gestão contra precoces ataques”; mas, tão somente quatro ao quadrado: 16 meses de gestão contra sistemáticos ataques. Teriam sido 30 num só mês, segundo o próprio Jornal do Brasil.

Portanto, a crença de que o Governador Brizola criou o tijolaço para atacar o Sistema Globo não é real: as primeiras citações às Organizações Globo ou seu diretor-presidente – ‘Sarney em Santa Cruz’ e ‘Professorado’ – ocorreram em 25 de abril de 1986, depois de terem sido publicados 54 tijolaços (40 numerados e 14 sem numeração). O tópico sobre o Presidente Sarney termina com um indício de que ocorria uma mudança de rumo do jornal fluminense com seu Governo: “Nessa linha, dentro em pouco, não haverá nenhuma diferença entre o Globo e o Estadão”.

Brizola tinha razão

O jornalista Armando Nogueira cunhou uma frase que ficou famosa no meio esportivo, no qual foi um dos mais destacados comentaristas: “O bom jogador vê; o craque antevê”. Divergências à parte sobre quem editou o famoso debate entre Collor e Lula, em 1989, esta frase cabe muito bem – em política – para definir Leonel de Moura Brizola: um craque!

A atual situação de total desestabilidade política que está se ampliando nos países latino-americanos, mais ao sul do continente – que teve como grande laboratório a Venezuela – foi definida por Brizola, em 20 de junho de 1993, no tijolaço Os novos exércitos.

Esta era uma das funções do Tijolaço: alertar os pedetistas (e por que não dizer: todos os brasileiros comprometidos com o nacionalismo) sobre a sofisticação que os grupos internacionais dominantes começavam, já no final do milênio, a desenvolver entre nós. Assim ele inicia este artigo, produzido antes de o avanço das redes sociais:

“Se quiséssemos caracterizar estes últimos decênios da história humana, sem dúvida, deveríamos chamá-los de idade da mídia, dos meios de comunicação – a propaganda, os jornais, as revistas, as agências e os sistemas de rádio e televisão. Nestes tempos, vem sendo a mais poderosa arma de dominação dos povos; isto é: a servidão consentida, através da mente humana. Tão poderosa que foi capaz de vencer e desintegrar um gigante como a União Soviética”.

Um ano antes – em Brasil, Venezuela e União Soviética – já alertara que as lideranças brasileiras não podem assimilar “a ideologia dos seus críticos e competidores, como naquela história dos peixes que saltaram fora d’água para imitar os pássaros: queriam voar como eles e acabaram morrendo; sendo devorados pelas aves a que pretendiam imitar”.

Formato

Nestas sete séries, os tijolaço tiveram diversas formas gráficas. Em cada uma destas, seguia a mesma programação visual e a obedecia a uma numeração nova, umas em algarismo arábico outras em algarismo romano. A mais abrangente série foi a quinta, quando o Governador Brizola estava em sua segunda gestão no Estado do Rio de Janeiro (169 artigos): cada Tijolaço ocupava integralmente coluna de alto a baixo de página.

Este formato somente era alterado quando, em época eleitoral, a legislação definia o tamanho máximo para mensagem de cunho político.

O Tijolaço abaixo é um exemplo:

(1) Epígrafe: sempre situada no alto da coluna, sem título, trazia pequena mensagem, de impacto ou informativa. Exemplo:
“Tornou-se uma necessidade a retomada destas publicações. Precisamos intervir e apresentar nossas razões e argumentos para que, afinal, muitas questões venham a ser colocadas nos seus devidos termos. Vivemos – o PDT e todos os que apoiam a nossa causa – o desafio de manter estes espaços, através dos quais nos expressamos, para que a população disponha de todos os elementos para formar o seu julgamento”.

(2) Matéria principal: a mais importante, com título destacado.

(3) Matéria secundária: localizada em seguida à principal (há casos de mais de uma).

(4) Tópico: informação ou mensagem curta, com título incorporado ao bloco (normalmente eram vários tópicos).

Repercussão na imprensa

Os dois maiores jornais do Rio, na época – O Globo e Jornal do Brasil –, se renderam ao neologismo ‘tijolaço’. As opiniões transmitidas nestes artigos serviam de pauta para jornais da grande imprensa, também de fora do Rio de Janeiro, como, por exemplo, a Folha de São Paulo.

Tijolaço de Brizola faz escola e até a PM anuncia – Jornal do Brasil

Brizola critica “conchavo” para a votação do sistema – Folha de São Paulo

Advogado move ação contra Brizola e seus tijolaços – O Globo

TRE cassa liminar que suspendia os tijolaços – Jornal do Brasil