Sísifo e o país anacrônico

Por Gilberto Menezes Cortes

Sísifo, filho do rei Éolo, era considerado na Grécia antiga um dos mais astutos dos mortais. Mestre da malícia e da felicidade, entrou para a tradição como uma das criaturas que mais desafiaram os deuses. Tantas fez que acabou despertando a ira do grande Zeus, que enviou o deus da Morte, Tânato, para levá-lo ao mundo subterrâneo. Esperto, enganou o enviado de Zeus. Elogiou sua beleza e pediu-lhe para deixá-lo enfeitar seu pescoço com um colar. Mas não passava de uma coleira, com a qual Sísifo manteve a Morte aprisionada e conseguiu driblar seu destino. Em várias oportunidades, enganou os deuses. Morreu de velhice. Mas Zeus não esqueceu as desfeitas e enviou Hermes para conduzir sua alma a Hades. No tártaro, Sísifo foi considerado um grande rebelde e teve um castigo, juntamente com Promoteu e outros titãs da época. Enquanto Prometeu foi amarrado pela eternidade a uma pedra e todos os dias uma águia lhe devorava o fígado, o castigo de Sísifo foi ter de carregar uma grande pedra de mármore colina acima. Mas, sempre que chegava ao topo, ela descia pela encosta do outro lado e o trabalho recomeçava.

O mito dos trabalhos de Sísifo passou a ser associado, no mundo moderno, às tarefas que nunca terminam. Que exigem vigilância permanente. Até o Plano Real estabilizar a economia brasileira, em 1º de julho de 1994, no governo Itamar Franco, o combate à inflação, na convivência com a correção monetária plena (indexação geral) que levou à hiperinflação, era considerado um “trabalho de sísifo”. Em tempos de pandemia da Covid-19, pode-se dizer que, se pelo menos 70% dos cidadãos de cada país, estado ou aldeia não se vacinarem com duas doses (ou dose única, da Janssen) o sacrifício de quem se vacinou, usa máscaras e mantém o hábito de higienização das mãos, estaria sendo um “trabalho de sísifo”. Ficará um pouco resguardado (sobretudo na consciência de que a vida em sociedade exige respeito ao outro, ao próximo), mas não haverá segurança para a humanidade, a curto e médio prazos, sem vacina eficaz contra o vírus mutante ser aplicada em mais de 70%.

A construção e a defesa da democracia são também “trabalhos de Sísifo”. Mas, longe de serem castigos, a defesa da democracia e da estabilidade da moeda garantem patamares mínimos para o bem estar de toda a sociedade. São pressupostos indispensáveis para a redução das desigualdades, a promoção social e a melhoria dos indicadores de qualidade de vida, dos quais faz parte a proteção ao lar à “Casa Comum”, ou seja, ao meio-ambiente do Planeta Terra, segundo a encíclica do Papa Francisco, “Laudato Si”.

Neste contexto de construção diária dos fundamentos da democracia, que precisa avançar e não sofrer recuos, nada mais anacrônico do que as recentes “Notas Conjuntas” do ministro da Defesa, general Walter Braga Neto. Em 7 de julho, em nota subscrita também pelos comandantes da Marinha, Exército e Aeronáustica, Braga Neto causou sobressalto no país ao reagir, pelo menos um tom acima, à crítica que o presidente da CPI da Covid no Senado, Senador Omar Aziz (PSD-AM) fizera à existência de “uma banda podre nas Forças Armadas”, diante do envolvimento de vários coronéis e tenentes-coronéis, requisitados pelo ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, para trabalhar no ministério, em casos suspeitos de superfaturamento na compra de vacinas. O ministro da Defesa e os comandantes militares enxergaram na crítica pontual uma “afronta inadimissível” à honorabilidade das Forças Armadas. Ora, inquéritos de desvios nas três armas (mesmo em plena ditadura militar) mostram que em todas as corporações pode grassar a tentação pela corrupção e o enriquecimento ilícito. Depois de muito burburinho, a temperatura acalmou e o próprio presidente Jair Bolsonaro moderou o tom.

Pois 5ª feira, 22 de julho, coube, novamente ao ministro da Defesa, ler, de viva voz, nota de repúdio de 11 linhas desmentindo informação do jornal “O Estado de S. Paulo” de que o general Braga Neto teria enviado, por um interlocutor, no dia 8 de julho (dia seguinte à 1ª nota oficial da Defesa), mensagem advertindo o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) de que, sem voto impresso, poderia não haver eleições em 2022. Após se comunicar, dia 22, diretamente com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luiz Roberto Barro, de que não fizera a ameaça, negada também pelo presidente da Câmara, após consulta do próprio Barroso, o ministro da Defesa leu nova nota oficial, em ato diante do presidente Bolsonaro.

O general Walter Braga Neto pode ter tido a intenção de desfazer um mal entendido que poderia reacender uma crise que parecia superada pelos fatos, depois que os presidentes da Câmara e do Senado reagiram à nota de 7 de julho, seguida da pressão que tenta desmentir e o próprio presidente recuou de posições. Tanto que repisou ao final de seu curto comunicado a crítica à reportagem por criar uma instabilidade “entre os Poderes da República”. Mas errou ao se arvorar de porta-voz de um dos três Poderes da República”. O Legislativo é representado pelo presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG). O Judiciário pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux. E o Executivo, pelo presidente da República. Caberia ao presidente Jair Bolsonaro falar pelo Poder Executivo.

Disse nos três parágrafos seguintes o ministro da Defesa, Braga Neto:

“O Ministério da Defesa reitera que as Forças Armadas atuam e sempre atuarão dentro dos limites previstos na Constituição. A Marinha do Brasil, o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira são instituições nacionais, regulares e permanentes, comprometidas com a sociedade, com a estabilidade institucional do País e com a manutenção da democracia e da liberdade do povo brasileiro”.

“Acredito que todo cidadão deseja a maior transparência e legitimidade no processo de escolha de seus representantes no Executivo e no Legislativo em todas as instâncias”.

“A discussão sobre o voto eletrônico auditável por meio de comprovante impresso é legítima, defendida pelo Governo Federal, e está sendo analisada pelo Parlamento brasileiro, a quem compete decidir sobre o tema”.

O ministro da Defesa adentrou em seara na qual não cabia sua manifestação. Também general e companheiro da rede de vôlei de Braga Neto, no Posto 6, na Praia de Copacabana, tão logo chegou ao Palácio do Planalto, na tarde de 5ª feira, 22, após regressar de inusitada viagem a Angola, para interceder pelos 99 bispos brasileiros da Igreja Universal do Reino de Deus que perderam o poder e o controle da arrecadação das doações dos fiéis à seita comandada por Edir Macedo, e foram banidos por Luanda – onde a filial angolana da Rede Record também está ameaçada de ser tomada pelo governo do presidente João Lourenço -, o vice-presidente Hamilton Mourão reagiu de modo mais natural, ao ser indagado se as eleições de 2022 estavam em risco.

Respondeu o vice, eleito na chapa de Jair Bolsonaro, ser “lógico” que haverá eleições em 2022, mesmo que não seja aprovada a proposta do voto impresso, defendida pelo presidente Bolsonaro. Segundo o vice, o Brasil não é uma “república de bananas”. Bravo. A manobra errada de Braga deve fazer o Congresso sepultar o voto impresso na volta do recesso, em 2 de agosto. O assunto só não foi encerrado há uma semana porque o governo, percebendo que ia perder, retirou o tema da pauta. E Braga Neto errou o duplo twist carpado. Mas não é republicano o tratamento preferencial do governo Bolsonaro aos pastores da IURD, que atuam como grandes cabos eleitorais do Republicanos. O partido de Edir Macedo vinha rateando na base do governo e agora pode, em troca, cerrar fileiras pelo presidente na CPI da Covid, no Senado, e num eventual andamento de “impeachment”, na Câmara. Estudantes brasileiros passam dificuldades para manter bolsas no exterior, sem ter o mesmo amparo do Itamaraty, sem precisar de viagens custosas.

Tenho impressão um pouco tosca do general Walter Braga Neto. Assisti palestra dele, em janeiro de 1918, na Associação Comercial do Rio de Janeiro quando era interventor federal na Segurança no Estado do Rio de Janeiro, no governo de Luiz Fernando Pezão, cuja prisão ocorreu em 18 de novembro daquele ano. Antes de falar disso, é preciso consultar o almanaque do Exército e a formação de cada um dos generais importantes que estão trocando de posição no governo para o presidente Bolsonaro se blindar contra um processo de “impeachment” e garantir a proteção e – quem sabe – a candidatura à reeleição pelo PP, depois de convidar o presidente do partido, o Senador Ciro Nogueira (PP-PI), que já mandava na Codevasf e no Fundeb, para comandar a Casa Civil, na vaga do general Luiz Eduardo Ramos, substituto de Braga Neto em 29 de março, quando o militar trocou a Casa Civil pelo Ministério da Defesa.

Na carreira militar conta muito a patente e a idade. E, pelo critério básico de promoção por antiguidade até o posto máximo de general do Exército, o ano de formação na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) é fundamental para demonstrar quem deve bater continência primeiro. O mais antigo entre os militares que cercam o presidente Jair Bolsonaro é o general Augusto Heleno, formado na arma de Cavalaria, em 1969, chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Depois dele, o de carreira mais longa é o vice Hamilton Mourão, formado na Aman em 1975, na arma de Artilharia. O presidente Jair Bolsonaro se graduou na Artilharia em 1977, na Aman, na mesma turma do general Edson Pujol, que comandava o Exército até março. Walter Braga Neto se graduou na Cavalaria em 1977. E o general Luiz Eduardo Ramos, é formado na turma de Infantaria de 1979. [Vale dizer que a Cavalaria atual não usa cavalos, como gostava o ex-presidente João Figueiredo, mas tanques e outros veículos modernos de deslocamento e ataque]. O mais jovem dos generais do Exército é o atual comandante da força, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, formado na Aman em Infantaria em 1980. Seguindo o manual de que “antiguidade é posto”, bate continência aos demais generais do governo.

Esse critério gerou a acomodação nas três armas após a demissão, em março, do ministro da Defesa, Fernando Azevedo, que se recusara a endossar discursos duros (e muitas vezes fora de tom) como faz Braga Neto. Vale contar o que ele disse para uma plateia extasiada de empresários e relatei abismado no site do JORNAL DO BRASIL online, em janeiro de 2018. Demonstrando desconhecer o trabalho da imprensa, Braga Neto quis destacar a disciplina castrense que impôs na 1ª entrevista como interventor militar. “Marquei a entrevista [na verdade um pronunciamento unilateral como fazem os militares saudosos dos tempos sem democracia em que “Ordens do dia” tinham importância nas páginas dos jornais] para às 10 horas. No horário marcado, mandei fechar as portas. Vários jornalistas de emissoras de TV ficaram do lado de fora e não cedi”, comemorou, para gáudio de alguns presentes. Se tivesse um pouco mais de treinamento e assessoria de como lidar com a imprensa (que atua como mediador entre os governos e a sociedade, para a qual exerce o papel de intérprete, quando faz perguntas que irritam o presidente Bolsonaro e reage com um “cala a boca”, que afeta seus índices de popularidade, apesar do riso dos apoiadores no cercadinho do Planalto ou da Alvorada), Braga Neto teria pensado duas vezes. Na verdade, nenhuma emissora de TV transmitiria ou colocaria no ar a íntegra a sua palestra ou discurso. Por isso, geralmente os câmeras e iluminadores só entram no final, para uma tomada de imagens e gravações de voz (as “sonoras” das matérias de rádio, TV e Internet). Do contrário, o calor seria insuportável para todos se as lâmpadas fossem ligadas numa sala fechada, ainda que com ar condicionado. Simples assim.

Comecei no JB em agosto de 1972 e lembro que, até fins de 1973, quando Walter Fontoura assumiu substituiu Alberto Dines como editor-chefe e trouxe Élio Gaspari para comandar a editoria Política e a cobertura da “distensão, lenta, gradual e segura” do governo do general Ernesto Geisel, existia a editoria apelidada de Pedame (Política e demais assuntos militares e eclesiásticos). Sim, no duro governo Médici ordens do dia e sermões de bispos ou cardeais da Igreja Católica continham recados políticos que precisavam ser submetidos a exegese. E ninguém melhor para fazer a interpretação dos fatos e humores políticos do que o grande colunista Carlos Castelo Branco, titular da coluna Coisas da Política da página 2 do velho JB, batizada, ainda em vida, de “Coluna do Castelo”. Gaspari explorou com maestria a liberdade que Geisel promoveu no país em 1974 – as eleições para o Senado, Câmara e Assembleias legislativas tiveram horário eleitoral livre e a Oposição (MDB), pontificada em SP por Orestes Quércia e no RJ, por Saturnino Braga, eleitos para o Senado, deu uma tremenda goleada no partido do governo a Arena, que depois trocou de nome para PDS – e o noticiário político no JB se estendeu até a página 6, a do Informe JB, que Gaspari editava com colaboradores como Marcos de Sá Corrêa. Houve retrocessos, sim, como o “Pacote de Abril”, de 1977. Mas, sempre avançando até a anistia e a redemocratização do país.

O general Braga Neto parece querer impingir um trabalho de Sísifo para o noticiário e o debate político nacional retrocederem aos tristes tempos do Pedame, enquanto os mortos pela Covid rumam a 550 mil. Diante da confissão, em sua “live”, no mesmo dia 22, à noite, de que “sempre foi Centrão e do PP”, e depois da menção do presidente Jair Bolsonaro de que “propina se negocia pelado na piscina” [onde seria impossível alguém gravar conversa por celular], vejo, em cenário imaginário, as próximas reuniões de negociações políticas de temas importantes do governo sendo feitas na piscina do Palácio da Alvorada. Ou no ambiente, intramuros, da piscina da mansão comprada por R$ 5,7 milhões pelo filho 01, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

O general Heleno poderia acompanhar, sem se envolver, passando o tempo fazendo karokê do rap de Bezerra da Silva: “Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”, que trocou por “Centrão” na campanha de 2018. Depois que o PP, aliado do PT nos governos Lula e Dilma – quando teve o réu confesso na Lava-Jato e ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, como um ponta de lança de propinas – passar a dar as cartas com Bolsonaro, estaria completa a confissão de estelionato eleitoral. O quadro perfeito do “Nós contra eles em 2022”, com o curinga do PP trocando de mãos.

 

(*) Gilberto Menezes Cortes é jornalista.