Rogério Marques escreve: “Um dia triste para o Brasil”

Por Rogério Marques (*)

Esta quinta-feira, seis de maio, é um dia triste para o Brasil. Pelo menos 25 pessoas foram mortas em uma ação da polícia na Favela do Jacarezinho, subúrbio carioca.

Sei que nesses tempos de ódio que estamos vivendo muita gente deve estar comemorando, porque 24 mortos são acusados pela polícia de serem bandidos. Um policial também morreu.

Os números dessa tragédia são os de um país em guerra civil. A questão não é se os acusados estavam recrutando para o tráfico crianças de até 12 anos, como diz a polícia, mas a existência de crianças de 12 anos a serem recrutadas. Esta é a raiz da tragédia.

Fui criança e adolescente em um bairro próximo, o Rocha. Naquela época, até o final dos anos 60, praticamente não havia violência urbana no Rio e em outras cidades brasileiras. Conheci várias favelas daquela região, estive em várias — Mangueira, Sampaio, Matriz, São João e a extinta Favela do Esqueleto, uma favela plana onde atualmente ficam os prédios da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Naquela época podia-se entrar nessas comunidades sem qualquer problema, para visitar alguém, tomar uma cerveja, ir a um samba ou mesmo comprar um baseado, quando traficantes usavam, no máximo, um velho 38 na cintura.

Na escola pública em que estudei, a José Veríssimo, havia várias crianças de favelas próximas. Aquelas crianças tinham mais dificuldades do que a classe média baixa da região para atingir seus objetivos, cursar uma escola técnica ou uma universidade. Mas isso era possível, muito mais do que hoje.

Por que no espaço de 50 anos tudo mudou? Por que a violência aumentou tanto em todo o Brasil? As pessoas que comemoram a matança desta quarta-feira certamente não associam isso à falta de reformas estruturais, chamadas de reformas de base pelo presidente João Goulart. Aquele que foi deposto pelo golpe civil-militar de 1964 justamente porque queria fazer aquelas reformas para tornar este país mais justo, menos desigual. Jango, como era chamado, morreu no exílio, como se sabe.

Sem reforma agrária, sem terra para plantar, sem escolas, hospitais e emprego, multidões deixaram o interior, principalmente o do Nordeste, e se deslocaram para os grandes centros em busca de trabalho. Faziam parte da mão de obra barata que foi se instalando nas favelas, transformadas em “complexos”. Operários da construção civil, porteiros de edifícios, lavadeiras, babás empregadas domésticas.

É impressionante como grande parte da população brasileira não associa a violência atual aos problemas sociais agravados cada vez mais devido ao egoísmo de uma classe dominante perversa, egoísta.

Pior: amplos setores da classe média baixa têm sido cooptados para uma visão excludente, que discrimina os mais pobres e considera matanças como a de hoje algo normal e necessário.

A chegada ao poder do defensor da tortura e do extermínio que hoje ocupa o Palácio do Planalto é reflexo de tudo isso.

A tragédia do Jacarezinho precisa ser rigorosamente apurada. Mas além disso é preciso que o Brasil entenda que a paz que todos querem está associada à justiça social. Que a exclusão e a política de extermínio dos jovens das favelas e periferias, principalmente jovens negros, jamais levará à paz. Não importa qual seja o pretexto para esta política de extermínio.

 

(*) Rogério Marques é jornalista e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)