Renatinho, ex-vereador do PSOL e Subsecretário de Axel Grael, morre em Niterói aos 68

Por Luiz Augusto Erthal (*)

Niterói perdeu para a covid-19, na manhã desta quinta-feira, 18, uma das suas mais honradas e autênticas lideranças políticas – o ex-vereador Renatinho, que morreu aos 68 anos no Hospital Icaraí, após lutar por quase um mês contra o coronavírus. Poucos dias antes de ser internado ele concedeu esta que provavelmente foi a sua última entrevista.

Havia decidido não publicá-la, pelo menos por enquanto, razão pela qual permaneceu inédita até agora. Vereador de cinco mandatos, Renatinho havia acabado de tomar uma decisão difícil: a de deixar o PSOL, partido que ajudou a fundar, depois de ter ligado a sigla ao seu próprio nome – “Renatinho do PSOL” era a sua assinatura política. E a matéria não poderia deixar de abordar o desenlace. Cheguei a ouvir lideranças do PSOL, como o deputado estadual Flávio Serafini, cujos comentários também ficaram por publicar.

Depois de perder as duas últimas eleições – na penúltima ficou como segundo suplente e assumiu o mandato de vereador com a eleição de Talíria Petrone para deputada federal em 2018 e porque o o primeiro suplente, Henrique Vieira, não quis voltar para a Câmara de Niterói -, Renatinho percebeu que o seu espaço político havia se reduzido de forma irreversível dentro da legenda.

No entanto, ter de deixar o PSOL mexeu profundamente com os sentimentos desse homem simples, que falava e agia mais com o coração do que com a boca, os braços e as pernas – essas ainda precisavam da ajuda de duas muletas para se deslocar, sequela da paralizia infantiu que contraiu aos dois anos de idade.

Em momento nenhum ele deixou escapar – pelo menos em “on”, como dizemos no jargão jornalístico – uma só palavra de amargura ou ressentimento contra os ex-companheiros.

Havia, ainda, o fato de ter aceitado ocupar o cargo de subsecretário de Direitos Humanos da prefeitura de Niterói, nomeado no início de fevereiro a convite do titular da pasta, Raphael Costa. Ter feito oposição aos últimos governos, incluindo o atual, seria, em princípio, um fator de constrangimento. Mas não para Renatinho, neste caso. Após a última derrota eleitoral ele chegou a cogitar voltar para o interior do muicípio de Campos dos Goytacazes, onde nasceu e foi criado cortando cana junto com os 13 irmãos, apesar da deficiência física, para ajudar no sustento da família, quando ainda atendia pelo nome de batismo – Gezivaldo Ribeiro de Freitas.

No entanto, a vida dura de boia fria tinha dado lugar a uma luta ainda maior desde quando veio para Niterói e passou a sobreviver vendendo panos de chão na rua, em Icaraí. Chegou a amarrar-se à sua banquinha de camelô para resistir ao rapa e lutar pelo direito de trabalhar. Por isso, mesmo durante todo o tempo em que foi vereador, nunca deixou o seu ponto de camelô, na esquina das ruas Gavião Peixoto e Pereira da Silva.

Não seria agora que ele se afastaria do seu ponto e das suas causas – os desempregados, as pessoas com deficiência, a população em situação de rua, as vítimas de preconceito e de violação dos direitos humanos, além da proteção aos animais.

Assim, aceitar o cargo era poder continuar lutando como quando presidia a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores; era como continuar amarrado à sua banquinha de camelô, sem desistir, sem retroceder.

Renatinho queria mais. “Eu sinto que ainda está faltando alguma coisa”, afirmou para justificar a decisão de ir para o governo. “Como eu perdi o mandato agora, fiquei preocupado como dar andamento a essa luta. Estou assumindo a subsecretaria para ser protagonista na luta pelos direitos humanos, como fui na Câmara de Niterói”, defendeu.

“Travei lutas e mais lutas em prol dos menos favorecidos, dos mais pobres, combatendo todo tipo de injustiça. É uma coisa linda defender a vida, defender a luta pela moradia popular, defender o trabalho dos menos favorecidos, defender a mulher, defender a saúde mental, defender os animais, que é um ato de amor. Aceitei essa tarefa e vou fazer o possível e o impossível, mantendo sempre a minha linha em prol dos menos favorecidos. Lutar, com certeza, é um ato de amor. É isso que sempre fiz e irei fazer novamente”, desejava Renatinho.

Se a entrevista pudesse ter tido continuidade hoje, depois que o seu espírito generoso deixou o corpo no Hospital Icaraí, Renatinho diria, provavelmente, que essa foi a sua segunda derrota para o coronavírus. A primeira, segundo ele, foi no dia 15 de novembro do ano passado, quando não obteve nas urnas os votos necessários para continuar vereador em Niterói.

“Eu sempre fui muito bem votado aqui em Niterói, principalmente pelos idosos, no bairro de Icaraí. Mas com essa pandemia os idosos lamentavelmente não foram votar. Muita gente não foi votar. Mais de 30%. Foi onde eu perdi meus votinhos tão bacanas, que iriam me ajudar a tocar essa luta tão bonita que eu toquei esses anos todos, em prol da população querida de Niterói.”

E antes de ser vitimado fatalmente, reconheceu que os seus eleitores tinham razão em deixar de comparecer às sessões de votação, devido à gravidade da ameaça do coronavírus: “É uma doença perigosíssima, que o presidente não valoriza, não incentiva ninguém a usar máscara, um absurdo terrível”, protestou.

Apesar de ter militado no PT e no PSOL, Renatinho tinha uma alma brizolista, que nunca negou. Ele desmentiu enfaticamente nessa entrevista que fosse se filiar ao PSB, partido de Raphael Castro, que o convidou para a subsecretaria de Direitos Humanos, embora esse fosse um ponto de constrangimento enfrentado por ele nos seus últimos dias.

Sem querer deixar transparecer ingratidão, ele também havia decidido ficar um tempo sem partido. Mas, na verdade, o seu rumo seria o PDT, conforme disse em “off” na entrevista. Agora, porém, esse protocolo jornalístico já não importa muito.

Seria – imagino eu – um movimento mais emotivo do que calculista, como era do seu perfil. De dentro do turbilhão de emoções desses últimos meses emergia o camelô que, na luta pelo direito de trabalhar, encontrava conforto nas posições de um governador que não temia o ódio da classe média ao combater a repressão aos ambulantes e àqueles que buscavam legitimamente suas alternativas de sobrevivência em meio à dura crise econômica dos anos 80.

“Sempre admirei muito o grande estadista e nacionalista Leonel Brizola, que se tivesse sido presidente este país estaria em outro rumo, no rumo da Educação, junto com Darcy Ribeiro. O Ciep é uma coisa maravilhosa, que lamentavelmente não deram prosseguimento. Mas tudo tem o seu momento certo. O despertar da consciência de cada um é uma coisa linda”, disse Renatinho.

Por fim, a última frase inédita, mas nada surpreendente desse representante do povo de Niterói a ser publicada:

“Quando eu olho para os pobres eu me sinto no lugar deles.”

Depois de cinco mandatos de vereador em Niterói, Renatinho morreu sem fazer patrimônio. Morava de aluguel em um apartamento na Rua Joaquim Távora, em Icaraí. Ao final do nosso último encontro eu lhe dei carona até o Centro da cidade. Sem dinheiro para fazer a campanha de 2020, ele havia vendido o carro que tinha adaptado para motorista portador de deficiência e estava a pé. Andava com suas muletas, desviando dos burados das calçadas da cidade que tanto criticou.

(*) Luiz Augusto Erthal, jornalista, trabalhou no governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro

fonte: Jornal Toda Palavra