“Racismo não é um problema apenas de cor da pele”, disse em 1998 Abdias Nascimento no Senado

Em referência à Lei Áurea, o pedetista fez um incisivo e contestador discurso na tribuna

Com um discurso firme, contestador e incisivo, o então senador da República pelo PDT, Abdias Nascimento, ocupou a tribuna, em 13 de maio de 1998, para manifestar sua opinião sobre a persistência da desigualdade racial no Brasil. A data marcava, de forma emblemática, os 110 anos da Lei Áurea, que determinou, legalmente, a abolição da escravatura. “O racismo não é um problema apenas de cor da pele”, disse, em um plenário pouco miscigenado.

“Chegamos ao 13 de maio de 1888, quando negros de todo o País – pelo menos nas regiões atingidas pelo telégrafo – puderam comemorar com euforia a liberdade recém-adquirida, apenas para acordar no dia 14 com a enorme ressaca produzida por uma dúvida atroz: o que fazer com esse tipo de liberdade? Para muitos, a resposta seria permanecer nas mesmas fazendas, realizando o mesmo trabalho, agora sob piores condições: não sendo mais um investimento, e sem qualquer proteção na esfera das leis, o negro agora era livre para escolher a ponte sob a qual preferia morrer”, relatou.

Ao contextualizar a realidade da época, onde inexistia terras acessíveis para cultivo ou oportunidades dignas de trabalho, o pedetista afirma que “os brasileiros descendentes de africanos entraram numa nova etapa de sua via crucis”.

“De escravos passaram a favelados, meninos de rua, vítimas preferenciais da violência policial, discriminados nas esferas da justiça e do mercado de trabalho, invisibilizados nos meios de comunicação, negados nos seus valores, na sua religião e na sua cultura. Cidadãos de uma curiosa “democracia racial” em que ocupam, predominantemente, lugar de destaque em todas as estatísticas que mapeiam a miséria e a destituição”, expõe.

O senador, que também exerceu mandato na Câmara dos Deputados, questionou, portanto, a “propaganda oficial” sobre o evento histórico centralizado na Princesa Isabel, que promulgou a lei. Para ele, é “um de seus maiores argumentos em defesa da suposta tolerância dos portugueses e dos brasileiros brancos em relação aos negros”.

“Apresentando a abolição da escravatura como fruto da bondade e do humanitarismo de uma princesa. Como se a história se fizesse por desígnios individuais, e não pelas ambições coletivas dos detentores do poder ou pela força inexorável das necessidades e aspirações de um povo”, divergiu.

“Na verdade, o processo que resultou na abolição da escravatura pouco tem a ver com as razões humanitárias – embora essas, é claro, também se fizessem presentes. O que de fato empurrou a Coroa imperial a libertar os escravos foram, em primeiro lugar, as forças econômicas subjacentes à Revolução Industrial, capitaneadas por uma Inglaterra ávida de mercados para os seus produtos manufaturados”, acrescentou.

(Por Bruno Ribeiro)

Trecho, em vídeo, do discurso: https://www.youtube.com/watch?v=pwmibmGStPE

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