Porque Vargas vive

Em 25 de agosto de 1990 – há 28 anos, portanto –, o governador Leonel Brizola publicou um Tijolaço, que transcrevemos abaixo.

Havia cinco meses da posse do primeiro Presidente eleito por voto direto da população desde 1960, e Brizola traçou um terrível paralelo entre a Era Vargas e aqueles tempos. Hoje, a 44 dias da eleição presidencial, o quadro nacional agravou-se mais ainda.

Porque Vargas vive

Completaram-se, ontem, 36 anos da morte dramática do Presidente Vargas. É triste ver que, tanto tempo depois, nosso País vive uma espécie de antítese de todos aqueles sonhos e esperanças que transformaram Vargas num símbolo das lutas do povo brasileiro e das aspirações de, um dia, fazer do Brasil uma nação soberana, independente, e onde desenvolvimento e justiça social sejam realidades indissociáveis.

Compare o que representaram Vargas e o Trabalhismo e o que têm significado o atual Governo e os que lhe antecederam nestes últimos 25 anos. Com Vargas, criaram-se o salário mínimo, a aposentadoria, as garantias e os direitos dos trabalhadores; defendeu-se a economia nacional e implantaram-se as empresas estatais estratégicas, como a Petrobras, a Eletrobrás e a Siderúrgica Nacional, que viriam a se tornar as bases de nosso desenvolvimento independente.

E agora? O que está ocorrendo senão uma insensata e perversa regressão a uma espécie de lei das selvas do capitalismo? Arrocham-se os salários, comprimem, vergonhosamente, as aposentadorias e pensões de gente humilde que trabalhou toda uma vida e se vê, a cada dia, mais desprezada e lançada à sua própria sorte. Os direitos dos trabalhadores, garantidos na Constituição, são permanentemente violados ou simplesmente ignorados como algo inútil e desprezível. Os governos sucessivos malbarataram e afundaram em dívidas as empresas estatais; e este, agora, trata simplesmente de liquidá-las, como se fossem lixos a serem vertidos no vazadouro.

Nosso povo e nosso País não mereciam tal castigo – este verdadeiro flagelo que vem se abatendo sobre a Nação. O governo Collor [hoje: Temer] é uma espécie de anti-Carta-Testamento. Representa o estertor desse modelo econômico colonial, injusto, cruel e inviável imposto ao Brasil. É um dos subprodutos de nossas elites: verdadeiros androides insensíveis e arrogantes. Desprezam o povo brasileiro porque, no fundo, nada têm a ver com ele.

Estamos assistindo ao fim de uma época. As palavras de Vargas, em sua Carta-Testamento, permanecem como um espectro sobre estas elites egoístas e desumanas. Sua memória, seu sacrifício, mais que nunca continuam a ser a fonte inspiradora de nossa existência e o povo de quem Vargas foi escravo, um dia, não mais será escravo de ninguém.