Por um Projeto Nacional de Desenvolvimento Sustentável e um Trabalhismo Verde

“Considerando que esta localização importa, ao mesmo tempo, em proteção à natureza, auxílio às ciências naturais, incremento das correntes turísticas e reserva – para as gerações vindouras – das florestas existentes; ou seja, todos os objetivos, reunidos simultaneamente, que justificam a criarão de Parques Nacionais”. (Último parágrafo do preâmbulo do decreto Nº 1.713, de 14/6/1937, em que Getúlio Vargas cria o Parque Nacional de Itatiaia.)

A repercussão da COP26, em Glasgow, lança os olhares do mundo para as relevantes discussões realizadas pelos países que compõem o sistema da ONU; e reforça a necessidade de agentes públicos e privados contribuírem, cada qual dentro de suas esferas de atuação. Neste sentido, quero lançar estas indagações: é possível agregar ao Trabalhismo brasileiro, corrente política e ideológica erigida no século passado, uma perspectiva verde? Podemos criar, de verdade, um ecotrabalhismo? O PDT está pronto para ser verdadeiramente defensor da sustentabilidade?

Para mim, assim como para os ativistas do Movimento Ecotrabalhismo, é perfeitamente possível. Não há contradição de nossas causas pétreas, defesa do trabalhador e da soberania nacional, com um discurso alinhado à consciência ambiental plena. Por isto, como o Partido é o conjunto de todos nós – militantes, dirigentes e filiados –, não podemos apenas nós, de um único movimento, ditarmos o caráter de todo o PDT neste campo de luta. É imperioso que haja maior adesão, geral, a esta nova perspectiva.

É neste sentido que me debruço em algo que, embora polêmico, é extremamente necessário. Hoje, a maior figura pública do PDT é sem dúvida Ciro Gomes, nosso pré-candidato à presidência. Ciro tem viajado por todo o Brasil apresentando um plano nacional – inicialmente construído e pensado em suas reflexões – que se tornou conclusivo através do liame canditado-partido, durante a campanha presidencial de 2018. Por isto, foi abraçado por toda nossa militância nos quatro cantos deste país.

Conclusivo, mas não definitivo, como ele mesmo diz, na sua obra “O dever de esperança”: seu projeto é um ponto de partida, não fechado e nem finalizado. É uma minuta que submete a contribuições das mais variadas para que, ao chegar à presidência, tenhamos de fato um caminho a perseguir. De início, ele chamou este programa de Projeto Nacional de Desenvolvimento. Excelente! Aponta que, para o Brasil seguir em frente, requer uma estrada com margens definidas, um caminho seguro até o próximo estágio.

Ciro tem clareza sobre os compromissos requeridos para transição justa e fortalecimento da atual relação desgastada “homem-natureza” – afinal ambos são uma coisa só. Todavia, não nos basta hoje a consciência individual do líder; mas sim a construção de uma nova aliança, na qual os compromissos com um desenvolvimento sustentável sejam explícitos, plenos.

Para nós, o PND deve expor sem titubear, de forma objetiva, sua face verde. E, neste caminho, é desejável a apresentação de um eixo específico, que verse sobre as questões do desenvolvimento sustentável que o Brasil deva percorrer. Também defendemos que seja incorporado simbolicamente um adjetivo que qualifique o PND. O nosso plano deverá carregar em seu “nome” , como marca indelével, a expressão “sustentável” ou mesmo “verde”, ficando a escolha do termo a critério dos estrategistas da campanha ou da direção do PDT.

Àqueles que entendem que “isto é um filigrana; é menor!”, respondemos que foi este tipo de desconsideração em pensar utopias (como nos alertava Darcy Ribeiro) ou outros desenvolvimentos que tivessem foco no respeito a Natureza – sempre a relegando uma condição secundária no debate político – que nos fez estacionar no atual estágio de desespero em que nos encontramos.

Agora, as transformações do clima impõem corrida contra o relógio: já no afogadilho, urge mitigar os efeitos devastadores do efeito estufa, que promove o aquecimento global e impacta sobre todo o clima no planeta.

Será que conseguiremos promover as adaptações necessárias para um novo ciclo de harmonia com a mãe terra? Os olhos de todos os continentes estão voltados para o Brasil.

Os governos dos EUA e a Europa propõem políticas arrojadas para a construção de uma nova economia verde que chamam “Green New Deal”. Jovens estudantes de todo mundo saem às ruas em greve liderada por uma menina – Greta Tumberg – exigindo uma mudança de postura que garanta a sua geração o direito de existir. É sabido que o clima transformado impactará especialmente os trabalhadores, as cidades dos países mais pobres.

Nós, trabalhistas brasileiros, ao assinar a ficha de filiação ao PDT, assumimos o compromisso de representar os interesses dos mais humildes, dos trabalhadores, dos povos originários. Natureza é vida – representada pelo ar, agente simbiótico da humanidade, que fornece o maior exemplo de unicidade, de singularidade: fonte obrigatória na vida de cada ser, animado ou inanimado.

Nada mais justo que renovemos nossos laços; e centralizemos a agenda ambiental aos nossos compromissos pretéritos como: a defesa da democracia, a luta contra a miséria, contra a falta de educação, o respeito aos direitos humanos e a defesa da soberania nacional, dentre tantos outros. A luta ambiental – agora – deve ombrear com todas estas bandeiras já solidificadas na nossa pregação.

O mundo do trabalho do século passado forjou nosso ideário. Este mundo também se transforma, a digitalização avança a pleno vapor. É preciso pensar as novas relações trabalhistas, a partir do prisma da Era Digital, da sociedade do conhecimento, e da Emergência Climática. O PDT precisa construir alternativas para criar empregos verdes e descentes, em meio a uma transição justa pra nova economia descarbonizada.

Agregar um “S”, de sustentabilidade, ao nosso “PND” não é sonhar alto. Ao aprofundar nossa doutrina política, adaptando-a às novas perspectivas universais, estaremos reafirmando à população brasileira que o Trabalhismo, desde 1930, é uma corrente política progressista sempre pronta para os desafios de colocar o Brasil no plano das grandes nações continentais.

Esta leitura nova do Trabalhismo que propomos traz, em seu bojo, o compromisso ético com a coisa pública; reconhece os erros do passado ao se apresentar no presente disposto à autocrítica; e constrói o novo tempo, a partir da unidade intransponível da defesa do trabalhador e do meio ambiente.

Daqui para diante, devemos ser acima de tudo, “ecotrabalhistas”; e nosso “Green New Deal” deverá se chamar “PND verde” ou “PND Sustentável” .

*Everton Gomes é policial civil, cientista político, vice-presidente nacional do Movimento Ecotrabalhismo e secretário nacional de Assuntos Econômicos do PDT.