Por que Bolsonaro resiste

Por Gustavo Castañon

O petismo não mudou nada, não aprendeu nada e não esqueceu nada. Ele deveria ter se humanizado com o período em que viveu como pária da sociedade, afinal, os petistas sentiram o gostinho do que tentaram impor a seus adversários ao longo dos anos: o opróbio social.

Mas, ao contrário, voltaram como chacais com sede de vingança, anabolizados pelos cerca de 35% de Lula nas pesquisas de intenção de voto. Bastaram 4 meses de liderança folgada nas pesquisas para o petista voltar a se comportar como o irmão mirrado e odiado que fica valente e autoritário quando sai de casa do lado do irmão mais velho lutador de Jiu-Jitsu.

Mas o momento maníaco parece estar se desvanecendo, assim como a liderança folgada de Lula nas intenções de voto. Sua rejeição sobe e sua intenção de voto cai, cenário que, enfatizo, ainda precisa ser confirmado por pesquisas de intenção de voto sérias.

O que não parece ser disputável é que Bolsonaro parou de cair nos últimos dias.

Bolsonaro continua inviável para 2022, incapaz de vencer o segundo turno de qualquer um que seja. Mas estamos falando do presidente mais desqualificado e inepto da história do Brasil, claramente perverso, principal responsável por pelo menos 400 mil mortes a mais nessa pandemia, que continua fazendo campanha contra a vacina, que conduziu o Brasil ao último lugar em crescimento no mundo e à maior crise econômica e social de sua história.

Um sujeito como Bolsonaro não deveria estar derrotado no segundo turno. Ele deveria ter traço de intenção de voto, estar sendo expulso por megamanifestações de rua do Planalto e preso.

Mas ele mantém aparentemente inflexíveis 25% dos eleitores com ele. Ele perdeu sua bandeira de volta do “milagre econômico”. Perdeu sua bandeira anticorrupção. Como ele mantém esses índices? Como isso é possível?

Essa é a pergunta fundamental para se entender e derrotar, não só Bolsonaro, mas o que é pior, o bolsonarismo, que sobreviverá, certamente, a ele.

Bolsonaro morreu e será preso, mas o Bolsonarismo segue vivo e forte. Por quê?

Um Lula anabolizado pelo desastre da pandemia e da economia tornou não só o petismo, mas também parte da esquerda brasileira, completamente cega para a realidade e concretude da guerra cultural onde estamos mergulhados pelas máquinas de Steve Bannon de um lado e George Soros de outro.

Eles agem como se vivêssemos a vitória cultural da esquerda no Brasil, enquanto o mundo real é que se Bolsonaro fosse só um presidente ruim, e não o pior genocida, estúpido e incompetente – de longe – de nossa história, estaria reeleito em primeiro turno.

Estamos imersos numa batalha identitária, e aqui reitero o termo “identitário” como plenamente adequado a descrever a irracionalidade do momento. Por identitarismo entendo a defesa de alguma identidade (seja racial, de gênero, religiosa) a qualquer preço e em qualquer situação, passando por cima de qualquer critério universal de justiça, direitos ou sentimento de igualdade essencial humana.

A essência de um discurso identitário é a destruir a identificação da pessoa com identidades universais (como a de ser humano) ou gerais (como a de brasileiro) e erigir como única legítima uma identidade fragmentada (“racial”, gênero, religião, tribo) que deve ser defendida sempre a qualquer custo CONTRA tentativas de dissolvê-la em uma identidade universal ou geral.

O Bolsonarismo é a versão tosca e desorientada de um identitarismo de maioria, como os movimentos identitários europeus. Ele articula em uma fórmula simples (“Deus, pátria, família” – que Bolsonaro teve que escrever na mão para conseguir se lembrar no único debate em que foi) a identidade majoritária no Brasil: cristã, mestiça e heterossexual.

Sua força está em ser um identitarismo de maioria, em outras palavras, um fascismo (como o “romano” ou o “ariano” nazista), que se contrapõe e se alimenta de uma suposta “ameaça” de aniquilação pelo conjunto fragmentário de identitarismos de minorias abrigados e promovidos pela esquerda e mídia liberal. É isso o que eles chamam de “marxismo cultural” no balaio esquizofrênico de seu mestre Olavo de Carvalho.

É por isso que, para um bolsonarista, a mídia corporativa é de “esquerda”. A esquerda hoje não é identificada mais com nenhuma bandeira econômica, mas somente com o uso do Estado para intervir nas crenças e nos costumes da maioria.

E nesse processo que, longe de se enfraquecer, se fortaleceu, podemos ter assistido um ponto de inflexão semana passada. Me refiro ao caso Maurício Souza.

Maurício, jogador da seleção brasileira de vôlei, publicou uma foto de uma revista em quadrinhos americana do Super-homem beijando outro homem com a seguinte frase: “A é só um desenho, não é nada demais… [emoji de boca zipada] Vai nessa que vai ver onde vamos parar…”

Como resultado se moveu uma violenta campanha de duas semanas contra ele exigindo sua retratação, e depois, sua demissão.

Quero aqui lembrar que há pelo menos quatro problemas diferentes sobre a “questão Maurício”. 1) Se o conteúdo de sua mensagem é correto ou não; 2) Se ele tem ou não direito de emitir a opinião dele sobre esse conteúdo; 3) Se, sendo incorreto o conteúdo, ele merece punição e que nível de punição seria justa; e, por fim, 4) Se nós, como militantes de esquerda (ou centro, se preferirem, não me importa) devemos transformar isso em tema central no país onde nossos compatriotas estão comendo osso.

Não quero entrar em nenhum dos três primeiros debates nesse artigo (porque é isso o que o método Bannon-Soros quer), mas sim metacomunicar, ou seja, usar esse evento para evidenciar, mais uma vez, o método que estão usando para destruir a sociedade brasileira.

Não, Maurício não é um agente de Steve Bannon, ele é um brasileiro comum que comentou uma imagem irrelevante de uma revista irrelevante norte americana, falando uma frase irrelevante que já ouvi inúmeras vezes de meus avós e pais (“onde isso tudo vai parar?”).

O Estado do Amazonas vive dias de filme de terror, e dezenas de estados caminham para o mesmo roteiro tenebroso e que chega a dar ódio no peito de quem assiste impotente o tamanho da crueldade de tanta gente irresponsável e portanto, CRIMINOSA.

Manaus sem oxigênio é tragédia anunciada do governo Bolsonaro

Então mecanismos e sites do “Team Soros” veem aí uma oportunidade para tirar do centro da pauta o assunto da Petrobrás privatizada, do brasileiro comendo osso, para a discussão sobre o sentimento de uma pessoa sobre o homossexualidade. Literalmente isso. Mecanismos como o suspeitíssimo Sleeping Giants, de financiamento obscuro, começam a lançar campanhas para as comunidades daquela identidade cobrarem a cabeça do emissor da mensagem.

A mídia corporativa, que já embarcou toda no jogo de fingir que o problema da desigualdade no Brasil não é econômico, segue o sinal de chamada para a destruição pessoal do emissor.

Se a destruição é bem sucedida (se a punição provoca comoção), entra em campo o segundo polo, o “Team Bannon”. Eles têm um novo mártir, um exemplo de como sua forma não só de viver, mas mesmo de sentir, está ameaçada, e o caso é repercutido em todos os seus órgãos paralelos e redes de internet, para gerar medo e revolta. E é claro, o emissor da mensagem é erigido em novo herói da liberdade contra as forças da opressão.

Então o “Team Soros” parte para a segunda fase. Ele começa a perseguir aqueles que se pronunciaram em defesa do emissor, dizendo que “são ainda piores”, pois estão defendendo de cabeça fria a Xfobia em questão. Eles afirmam que a opinião do emissor sequer é uma opinião, portanto não se pode defender o direito de tê-la.

Com mais agredidos, a rede do “Team Bannon” está novamente energizada, temos novos sub-mártires, a gasolina, o osso, o desemprego, a nossa situação falimentar e terminal da desigualdade mais tenebrosa do mundo é esquecida e os oprimidos ficam cada um em seu canto roendo seu osso, uns achando que são oprimidos por serem cristãos, outros porque são gays ou negros.

O resultado é que Maurício Souza agora foi transformado em novo herói nacional, defensor da liberdade, de Deus e da família. Seu perfil, só no Instagram, passou de 200 mil para dois milhões e 400 mil seguidores em três dias. A rede bolsonarista, moribunda nas últimas semanas, ressuscitou. Vídeos de pastores comentando o caso passam de um milhão de visualizações.

Sim, Bolsonaro é Bozo. A maioria dos que ainda votam em Bolsonaro sabe disso. Sabe que ele é tosco. Que é incompetente. Que “só fez besteira” na pandemia. Mas esse Bozo na presidência é para essas pessoas um símbolo de que elas ainda têm o direito de serem quem são no Brasil. De falarem o que pensam sem serem demitidos. De não verem seus pastores levados presos do púlpito por defenderem o que acreditam que é certo.

Cada Roberto Jefferson, Eustáquio, Zé Trovão, Allan dos Santos preso sem reação de Bolsonaro, faz mais por seu enfraquecimento do que 400 mil mortes, 14 milhões de desempregados e osso no cardápio.

Essa é a triste lição da guerra hibrida de destruição nacional que o petismo e seus satélites se negam a aprender.

Sabemos que o marxismo nunca aprendeu uma lição básica de Cristo, a de que “nem só de pão vive o homem”.

Mas pergunta que fica sobre a guerra híbrida atual é se o petismo ainda não aprendeu mesmo a nova lição ou simplesmente já escolheu o papel de perna “esquerda” desse sistema que está destruindo nossa nação.

 

(*) Gustavo Castañon  é professor de Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora.