‘Pandora Papers’: Guedes e Campos, do BC, recorrem a paraísos fiscais

Jornal “El País” (e outros) denunciam poderosos da América Latina que lesam o fisco em seus países

Três presidentes no exercício de seu mandato e 11 que já deixaram seus cargos; 90 políticos de alto escalão, congregações religiosas e artistas de fama mundial, bilionários e até o presidente do banco central do Brasil, além do ministro da Economia, Paulo Guedes — toda uma constelação de personagens poderosos da América Latina fez uso de paraísos fiscais ao longo dos anos. Apesar de habitar a região mais desigual do planeta, essa elite se valeu de um emaranhado de sociedades fiduciárias, empresas de fachada e documentos mercantis opacos em lugares como as Ilhas Virgens Britânicas e o Panamá para evitar o escrutínio público sobre uma parte substancial de seus bens.

É uma estrutura que vem à luz agora com a publicação dos ‘Pandora Papers’, vazamento de documentos  obtido pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), que se baseia em 11,9 milhões de arquivos que reúnem o trabalho de 14 assessorias para offshores. Esta massa de informação foi revista e verificada por uma equipe de 600 jornalistas, da qual o jornal “EL PAÍS”  participou junto com “The Washington Post”, “The Guardian”, BBC e diversos outros veículos de todo o mundo – mas que no Brasil nem foi noticiado pela grande imprensa.

Os resultados, de impacto mundial, ganham especial relevância na América Latina, onde a cada ano escapam do fisco cerca de 40 bilhões de dólares desviados para paraísos fiscais. Como publicarão nos próximos dias este jornal  (El País) e outros veículos que participaram da apuração, 14 dos 35 presidentes ou ex-presidentes mencionados nos documentos pertencem a esta região. A maioria é de tendência conservadora.

No Brasil, os ‘Pandora Papers’ apontam para os dois homens mais poderosos do seu universo econômico: o ministro Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Nenhum dos dois divulgou publicamente suas operações offshore antes de assumir cargos nos quais participariam da tomada de decisões sobre esse tipo de investimento. Este possível conflito afeta especialmente o Ministro da Economia, que lidera uma reforma tributária que, em sua versão atual, reduziu a pressão sobre o dinheiro das pessoas físicas em paraísos fiscais.

Guedes, de 72 anos, aparece como acionista da empresa Dreadnoughts International Group, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas. Trata-se de uma shelf company, como são conhecidas no jargão financeiro: empresas fundadas em paraísos fiscais, mas que podem permanecer anos sem atividade à espera de que alguém lhes dê uma função.

Os documentos mostram que o ministro, guru econômico do presidente Jair Bolsonaro, e uma das personalidades mais polêmicas do gigante sulamericano por suas conexões com a elite financeira, tinha em 2014 pelo menos oito milhões de dólares (43,3 milhões de reais, pelo câmbio atual) investidos na companhia, registrada em seu nome e nos de sua esposa, Maria Cristina Bolívar Drumond Guedes, e da filha, Paula Drumond Guedes.

O Ministério da Economia, em resposta à investigação, encaminhou uma nota à revista Piauí (que também faz parte do consórcio de veículos de comunicação) em que afirma que essas atividades “foram devidamente declaradas ao órgão tributário e demais órgãos competentes, o que inclui sua participação na empresa Dreadnoughts International Group”.

“Sua atuação sempre respeitou a legislação aplicável e se pautou pela ética e pela responsabilidade”, indica a nota.

O presidente do Banco Central, Campos Neto, é dono de quatro empresas. Duas delas, Cor Assets e ROCN Limited, são registradas no Panamá em sociedade com sua esposa, a advogada Adriana Buccolo de Oliveira Campos. O objetivo declarado das empresas é investir nos ativos financeiros do Santander Private Bank, cujo conselho executivo Campos Neto integrou no passado. As outras offshores são Peacock Asset Ltda, gerida pelo banco Goldman Sachs, e que foi descoberta na investigação do Bahamas Leaks, de 2016.

A quarta empresa é a Darling Group, que segundo o Banco Central informou em nota, é uma empresa de “gestão de bens imóveis”. Assim como Guedes, o presidente do Banco Central afirma que declarou todo o seu dinheiro no exterior à Comissão de Ética da Presidência da República, bem como ao fisco e ao próprio Banco Central. Ele também reforça que construiu seu “patrimônio com as receitas obtidas em 22 anos de atuação no mercado financeiro”.

 

Leia a íntegra da matéria do “El País” sobre o assunto