Os verdadeiros motivos da chapa Lula-Alckmin em 2022

Frederico Krepe·

Ainda que não tenha sido confirmada, uma possível chapa Lula-Alckmin pode estar avançando. Ferrenhos adversários até ontem, com direito a Alckmin chamando o PT de organização criminosa e defendendo a prisão do Lula para “pacificar o país”. A justificativa por parte do Partido dos Trabalhadores e sua militância para uma aliança tão heterodoxa como essa é a de que a necessidade de derrotar Bolsonaro fala mais alto e que uma aliança como essa simbolizaria uma pacificação do país. Segundo o discurso oficial, ser contra essa chapa é ser favorável à reeleição de Bolsonaro, ainda que as duas coisas não estejam necessariamente conectadas. Entretanto, os verdadeiros motivos para essa aliança são outros e passam longe da derrota do bolsonarismo.

O primeiro motivo, mais evidente, é a manutenção do hegemonismo político do PT na esquerda a partir da figura de Lula. A busca pela manutenção do hegemonismo marca uma virada total do discurso petista a partir do momento que Lula tem seus direitos políticos readquiridos.

Quando Lula saiu da cadeia no fim de 2019, ainda inelegível por conta da condenação em segunda instância, Bolsonaro preservava uma relativa popularidade que exigia a unidade de todo o espectro da oposição na defesa de garantias democráticas básicas. Isso gestou o embrião de frentes democráticas com os mais variados espectros políticos, como a frente “Direitos já!”, que tentou unir da direita à esquerda em atos em defesa da democracia. Qual foi a grande falta sentida nessas iniciativas? Lula e o Partido dos Trabalhadores. A resposta oficial de ambos foi a de que tais iniciativas eram inócuas e que o partido não seria “Maria vai com as outras” (eles realmente usaram essa expressão!). Tal desunião ficou expressa nas eleições de 2020, com o PT bancando candidaturas solitárias em inúmeras cidades importantes, o que resultou em uma derrota acachapante para o partido nas eleições, onde conseguiu sair derrotado em todas as capitais que disputou enquanto fazia menos de 200 prefeituras em todo o Brasil.

Chegamos em 2021 e tudo muda drasticamente. Sem perspectiva de vitórias eleitorais no curto prazo e com dificuldades para fazer alianças com outras forças, mesmo as da centro-esquerda e esquerda, o PT ganha um novo fôlego vindo do STF: as condenações de Lula são anuladas e ele consegue ter todos os seus direitos políticos readmitidos. Além disso, as trapalhadas sequências de Bolsonaro, o pior presidente da nossa história, reforçam o antibolsonarismo como força política relevante no Brasil, o que favorece Lula enquanto principal antagonista de Bolsonaro. De repente, o discurso dá uma guinada completa com Lula e o PT passando a defender uma frente ampla contra Bolsonaro a qualquer custo. Por que mudaram completamente o discurso? Agora a frente ampla deveria ser ao redor de Lula e quem não defendesse isso estaria trabalhando a favor de Bolsonaro. Daí, chegamos no fim de 2021 e nas costuras com Alckmin.

O discurso oficial do PT em relação a Alckmin é o de união contra Bolsonaro, mas o verdadeiro objetivo deles é tirar o ex-tucano da disputa pelo governo de São Paulo enquanto posiciona Haddad como líder das pesquisas. Vejam, não há nenhum bem maior, convergência programática, apenas o pragmatismo a curtíssimo prazo para posicionar Haddad como candidato líder das pesquisas. É por isso que o PT não vai apoiar, em nehuma hipótese, a candidatura de Márcio França, do PSB (direitista até ontem, junto com Alckmin). Lula sabe que ele é o maior nome do PT e que há escassez de lideranças no partido e, justamente por isso, não aceita abrir mão da candidatura de Haddad, o que beneficiaria Márcio França pelo centro e Guilherme Boulos pela esquerda. Em uma leitura (também a curtíssimo prazo) das pesquisas, Lula acha que vai fazer Haddad governador de São Paulo, o que faz com que ele seja um virtual continuador de Lula com a máquina do governo de São Paulo na mão, se colocando como virtual presidenciável no futuro, garantindo mais alguns anos de hegemonia petista no campo da esquerda brasileira.

Além do hegemonismo, existe outro motivo para que Alckmin seja visto como “vice ideal” por figurões do lulismo. Se em 2002 Lula assina uma “Carta ao povo brasileiro” para garantir a continuidade dos pilares da política econômica neoliberal criada por FHC, dar a vice a Alckmin possivelmente representa um acordo para manter os pilares da política econômica e das reformas empreendidas por Temer (teto de gastos, privatizações, reforma trabalhista e outras). Todos sabem que Lula passa longe de ser um revolucionário, mas a verdade é que ele também passa longe de ser um reformista, já que nunca chamou o povo para lutar por reforma alguma mesmo tendo alta aprovação popular. Sempre preferiu os acordos de cúpula para mudar o mínimo possível. Alckmin na vice é o gesto de confiança que Lula oferece ao mercado, dizendo abertamente que não virão mudanças profundas na gestão econômica. Em suma, Alckmin é a garantia, é a “Carta ao povo brasileiro” com pernas, como alguns já disseram.

Como convencer as pessoas disso? Em suma, o discurso oficial é um terrorismo eleitoral básico — que sempre foi utilizado, diga-se de passagem — enquanto escondem as verdadeiras intenções. Na medida que escondem o debate programático, o que seria mais importante, avisam que quem não apoia Alckmin na vice está defendendo Bolsonaro e que essa composição seria quase que uma obrigatoriedade no contexto atual. Essa tática visa paralisar qualquer crítica no nascedouro, impossibilitando um debate mais aprofundado sobre o que essa aliança significaria. Entretanto, o grande problema de que quem defende isso esquece que Lula tem, hoje, 47% das intenções de voto segundo o último Datafolha e parte muito bem para a disputa eleitoral. Muitos dizem que Lula já ganhou, inclusive. Faz sentido defender, ao mesmo tempo, que Lula já ganhou e que ele precisa de Alckmin na vice para derrotar Bolsonaro?

A outra pergunta que podemos nos fazer é: isso dará certo? De certa forma, Lula negocia com o forte capital político que tem, o que acarreta um grande poder gravitacional em torno de si. Além disso, aproveita as energias em torno de um movimento contra Bolsonaro. Entretanto, mais uma vez, a força de mudança parece ser utilizada para um pacto com as elites e com o sistema político. O povo brasileiro sai de uma pandemia que matou mais 600 mil, enfrenta uma economia em frangalhos com alto desemprego, pobreza e miséria. Esse mesmo povo pode dar mais um voto de confiança no PT, nutrindo uma grande expectativa com o futuro. O que será dessa expectativa se o máximo que Lula oferecer for a manutenção dos pilares econômicos que estão empobrecendo o nosso povo e que só conseguiram miséria e empobrecimento? Será que o Brasil está preparado para outro estelionato eleitoral?

(*) Frederico Krepe é bacharel em filosofia pela UFJF e mestrando do Programa de Pós-graduação em Filosofia na UFJF.