“Observatório da Democracia” é lançado em Brasília

Osvaldo Maneschy/ Apio Gomes
01/02/2019

Para monitorar, avaliar e discutir os atos do governo de Jair Bolsonaro foi lançado nessa quinta-feira (31) em Brasília, no Centro de Eventos Brasil 21, o portal “Observatório da Democracia”, que será operado por integrantes das fundações partidárias ligadas ao PDT, PC do B, PROS, PSB, PSOL e PT. Antes, dirigentes destes partidos realizaram um seminário, no plenário 3 do Senado Federal, para discutir as características e perspectivas deste governo.

O secretário-nacional do PDT, Manoel Dias, também presidente da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP), coordenou os trabalhos pela manhã, quando os presidentes das fundações partidárias e militantes debateram formas de resistência às medidas já adotadas pelo governo direitista. Segundo Manoel Dias esta discussão é fundamental, porque na prática o governo Bolsonaro “mal começou, mas já está acabando”, por conta do escândalo e do envolvimento da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro.

Falando em nome da FLB-AP, Henrique Mathiessen abriu o debate da manhã, frisando que o atual governo “retrata fielmente a elite brasileira, que tem no seu DNA a escravidão e a chibata”. Uma elite que, segundo ele, além de apátrida, é anti-Brasil e ligada a interesses internacionais.

Além de Mathiessen e Manoel Dias, compunham a mesa: Márcio Pochman, presidente da Fundação Perseu Abramo (PT); Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, representando o PT; o ex-governador da Paraíba Henrique Coutinho, presidente da Fundação João Mangabeira (PSB); Pedro Otoni, da Fundação Lauro Campos (PSOL); juntamente com James Lewis (PSB); além do presidente do PC do B, Renato Rebelo.

Falando em nome do PSB, James Lewis destacou que o governo Bolsonaro nasceu fora do Brasil; e sua grande força é a do capital financeiro internacional. “Também vivemos a contradição de que a elite que se alimenta do Estado, é a mesma que quer acabar com ele”, acrescentou. Frisou ainda que o país corre o risco de quanto maior for a resistência à Bolsonaro, maior o risco de o governo descambar para o autoritarismo.

Lewis analisou também o papel da disputa pelo petróleo e Petrobras, que esteve no centro de várias crises políticas brasileiras, provocadas por grupos entreguistas contra governos que defendiam os interesses nacionais. “O discurso que derrubou Getúlio Vargas é o mesmo que foi feito contra Jango Goulart e contra Dilma Rousseff. O Petróleo é um dos temas-chave dessa disputa”, ressaltou.

Para alimentar o debate, os participantes entregaram dois textos (análise do início do governo e posposta de ação), já disponibilizados no Observatório da Democracia (www.portaldademocracia.org.br), que irá elaborar, mensalmente, relatórios de conjuntura – acompanhamento das ações do governo federal – além de artigos assinados e grandes reportagens investigativas sobre as iniciativas do governo.

O representante do PT, Sérgio Gabrieli, disse que, nos dias de hoje, ‘há nova forma de fazer política, porque foi rompido o pacto que vinha desde a promulgação da Constituição de 1988”. Segundo Gabrieli, o governo Bolsonaro é de desmonte, sem propostas – que não seja a de tratar adversários como inimigos. “Estamos vivendo a substituição da política pela guerra”, acrescentou. Disse ainda que é fundamental que os partidos de oposição se preparem para os ataques que sofrerão, para não serem massacrados.

Júlio Vellozo, da Fundação Mauricio Grabois, apresentou o objetivo das fundações ao construir o Observatório da Democracia. “Buscamos uma grande convergência das forças progressistas brasileiras neste momento”. Segundo Vellozo, o papel do Brasil no novo cenário geopolítico que está se consolidando no mundo passou a ser relevante por causa das riquezas minerais e o petróleo.

Ele destacou também o papel violento do grupo jurídico-militar neste quadro político, ao citar o impedimento do presidente Lula de ir ao velório do irmão – causado por decisões judiciais contraditórias, numa inversão total do direito tradicional. Também classificou de ‘absurda’ a decisão de que Lula fosse transferido para um quartel e que o corpo do irmão fosse levado até ele, em vez do inverso.

Pedro Otoni, da Fundação Lauro Campos, analisou o atual governo Bolsonaro que, para ele, não pode ser compreendido sem ser analisada a situação internacional: as elites do mundo estão enfrentando crises; e a principal delas é a ascensão da China e de outras potências orientais, que preparam sua ultrapassagem em relação ao eixo Estados Unidos/Ocidente. “São crises que se retroalimentam; e as saídas dividem a elite financeira internacional: um setor quer manter o liberalismo clássico, outros querem partir para o autoritarismo”.

Já o presidente da Fundação Maurício Grabois, Renato Rabelo, falou da necessidade de as forças progressistas buscarem a construção de uma frente ampla. Esta visão de frente ampla, nas condições atuais, tem como centro de gravidade, o seu mote: a defesa da democracia ameaçada como posição para o avanço das outras grandes bandeiras. As ameaças à liberdade política são explícitas – o governo tem um ímpeto saliente de autoritarismo e tendência fascistizante, destacou Renato Rabelo.

Houve debate, pela manhã, depois uma rodada final de três minutos dos representantes das fundações, antes de o término da sessão; que foi reiniciada às 13h30m, após o almoço, com os trabalhos sob a coordenação de Ana Prestes, representante do PC do B; e Alexandre Navarro, vice-presidente do PSB.

Um dos últimos oradores, Henrique Matthiesen disse que não dá para negar a derrota da esquerda diante da tragédia que foi a eleição de Bolsonaro; mas também é um fato concreto que o impeachment da presidente Dilma foi uma ruptura do processo democrático, geratriz de fatos que se acumularam e culminaram em um ambiente propício para eleição de Bolsonaro.

– “Temos que reconhecer também que, embora Bolsonaro seja uma figura tosca, o seu governo é altamente ideológico; e está na disputa de corações e mentes da sociedade brasileira”.

Matthiesen disse também que, no plano internacional, há uma disputa entre a direita e a esquerda; e a eleição no Brasil também é consequência disto. “É evidente que houve uma grande derrota para as forças de esquerda. Mas só um partido perdeu? Não. A grande derrotada por Bolsonaro foi a esperança, porque nesse governo não há propostas: apenas discursos anti-PT, anti isto, anti aquilo. E por que a esperança perdeu?”, questionou.

Um dos caminhos para encontrar a resposta, segundo ele, é a discussão da questão da comunicação. “Perdemos essa batalha, perdemos nossa base social; e precisamos voltar a falar com ela. É preciso fazê-la sonhar de novo.”

Henrique também acha fundamental resistir ao governo Bolsonaro, que ganhou a eleição “de pijama, em casa, sem apresentar qualquer proposta; e usando a tecnologia para falar as grandes massas”.

Mas o Brasil não é formado por ilhas, e é preciso lutar contra isto. “Esse governo é antiestado nacional, defensor do estado micro (nem mínimo).

A saída, na sua opinião, é o Brasil ter um projeto nacional de desenvolvimento. Até porque a elite brasileira, que “tem em seu DNA a escravidão e a chibata”, não se modernizou; e esta situação existe a construção deste projeto nacional de desenvolvimento.

Ao final do dia, lideranças nacionais dos seis partidos participaram de um grande ato de lançamento do Observatório, que pode ser acessado no site: www.observatoriodademocracia.org.br .