Apio Gomes escreve sobre Brizola: “Obrigado, dona Joana”

Por Apio Gomes

Há exatos 99 anos, dona Joana foi a primeira de nós a ter contato com aquele menino que nasceu Ataliba e se fez Leonel por sua própria vontade. Ao ouvir aquele primeiro choro, não tinha a noção de que estava trazendo ao Brasil aquele que seria o maior de nossos políticos da segunda metade do século 20; que construiu mais de seis mil e quinhentos estabelecimentos escolares – da mais simples sala de aula rural à futurista Universidade do Norte Fluminense. Semeou a cultura.

Este engenheiro por formação, filósofo por vocação e político por convicção nunca esqueceu suas raízes: “Eu, por exemplo, sou um que fala, porque eu venho de uma família humilde, lá do interior perdido, lá do interior profundo da vida brasileira – onde não registravam nem os filhos; onde não havia assistência médica; onde as mulheres tinham os seus filhos com parteiras práticas ali da região. Não havia escola, não havia médico, não havia nada. Eu me criei assim, neste ambiente. Eu sei o que é. Eu sei o que é não ter um sapato – não ter um tamanco para usar. Andar de pé no chão, a ponto de criar uma sola sob os pés”.

Este ser em que o vocábulo medo não constava de seu dicionário; que encampou duas multinacionais; que fez uma trinca de militares graduados recuarem, o que garantiu a posse de um Presidente eleito pela população; era o que os poetas chamam de sal da terra:

Vamos precisar de todo mundo
Um mais um é sempre mais que dois
Para melhor construir a vida nova
É só repartir melhor o pão
Recriar o paraíso agora
Para merecer quem vem depois
(Beto Guedes)

Por isto, é bom que o deixe ambientar sua gênese, ocorrida, há quase um século, no que ele denominou Brasil Profundo:

– “E por que o nosso país não deu certo, até hoje? Não deu certo porque nós não tivemos elites, dirigentes, quadros, governantes do nosso país que fossem do nosso lado; que tivessem preocupados conosco, preocupados com o nosso povo. Eu digo ‘preocupados conosco’, porque eu me sinto integrado neste povo.

Eu vim de lá. Eu vim de um lugar chamado Brasil Profundo, onde ninguém registrava os filhos, onde não havia um médico: havia um curandeiro; não havia professores. Não havia nada!

Onde as crianças somente nasciam pelas mãos das parteiras práticas: alguma camponesa; muitas delas camponesas negras. O crédito: elas é que nos faziam nascer. Eu nasci pelas mãos de uma que se chamava Joana. Ela vinha a cavalo, duas semanas antes, mais ou menos, do parto. Ela aparecia lá e lá ficava.

Era uma região assim… Quer dizer: este Brasil Profundo de onde vim teve, mesmo com todos estes anos (com os 80 do Brizola) continua lá assim…

Mudou… Em função de certos movimentos econômicos de grupos – ligados aos interesses estrangeiros – que foram lá, investiram, exploraram a madeira, cortaram todos os pinheiros. Claro, sobrou algum dinheiro para alguns amigos que tomaram uma iniciativa comercial, industrial. Alguma coisa se desenvolveu.  Mas quem enriqueceu mesmo foi embora.

Este país tem sido assim. Por isto, ele não deu certo até hoje. Nós não podemos evitar que as pessoas se iludam com o dia a dia da nossa vida. Ainda mais agora, com a televisão batendo, chamando, mostrando coisas que eles querem nos mostrar. E o noticiário… e a imprensa tratando de desinformar.

Eu hoje, por exemplo, peguei um jornal, chamei um colaborador e disse “conta para mim, aqui… pega todo este noticiário político: quanto é de briga ou é de paz?”. Ele contou: 95% do noticiário eram para fazer briga entre nós. E destes 95%, eu vou dizer: uns 25% era para o Brizola. Até hoje!…

O país que não deu certo. Esta é a tristeza nossa.”

Obrigado, dona Joana.

 

(*) Apio Gomes é jornalista.