O que vi e vivi na Paulista

Por Vinicius Juberte (*)

Acho importante começar esse texto com um aviso: aqui vou focar meu relato no ato convocado pelo MBL (Movimento Brasil Livre) e pelo Vem Pra Rua nesse dia 12/09 na Avenida Paulista. Sei que aconteceram atos por todo o Brasil e inevitavelmente especificidades locais são normais, com variações e acontecimentos próprios em cada uma das capitais. Por isso falarei do ato em que estava presente, sobre o que vi e vivi, como diz o título do texto.

Meu relato começa ainda no metrô, antes mesmo de chegar à Avenida Paulista. Estava com a minha camiseta do movimento “Agora é Ciro”, e atento a todas as pessoas que estavam de branco e que provavelmente se dirigiam ao ato. Entre uma estação e outra fui abordado por um casal que perguntou onde poderiam comprar aquela camiseta do Ciro. Confesso que fiquei surpreso e explico o porquê. Eu fui bastante receoso para esse ato, lembrando das rusgas que já haviam ocorrido (e algumas continuam inclusive na Justiça) entre o Ciro e o MBL, sem falar no radicalismo antiesquerda do Vem Pra Rua. Mas de repente esse casal me dava uma mostra do quanto a leitura das nossas lideranças estava aguçada em relação a participação nesse ato e isso era bom. Muito bom!

Chegando na Avenida Paulista, mais algumas surpresas. Caminhando do metrô Brigadeiro até a nossa Tenda Trabalhista ao lado do MASP, mais de uma pessoa se dirigiu a mim dizendo que também preferia o Ciro, perguntando se eu sabia que horas o Ciro discursaria, onde eles poderiam pegar adesivos do Ciro…enfim, receptividade total. E zero hostilidade. Basicamente o que se via na Paulista hoje eram muitas pessoas que levavam em seu peito os dizeres “Nem Lula, Nem Bolsonaro” e que em meio a uma certa confusão buscavam uma nova direção, uma nova liderança que de alguma forma as fizesse recuperar a esperança perdida pela frustração no voto em Bolsonaro. Nesse sentido me parece bastante claro o quanto o PDT acertou em compor o ato e o quanto Ciro foi inteligente por ter ido até ali discursar. Hoje ele é a novidade para quem se frustrou com Bolsonaro, não vota em Lula de jeito nenhum e ao mesmo tempo não confia em Dória, que aliás foi vaiado em sua fala. Ciro foi aplaudido.

Outro ponto bastante interessante foi a composição social da manifestação. Confesso que esperava ver ali aquele setor da classe média limpinho e cheiroso, que mora em Miami e passa temporadas no Brasil. Mas de novo fui surpreendido, esses eram a minoria da minoria. A base de fato da manifestação eram pessoas de classe média e classe média baixa, com uma presença variada tanto na questão de gênero quanto na racial, além de muitos jovens e pessoas da comunidade LGBTQI+. Muito diferente do estereótipo do “público do MBL” do qual uma certa parcela da esquerda falou tanto e condenou de antemão durante essa semana.

Mais uma coisa que não pude deixar passar batida, ainda mais se tratando de um ato convocado por esses movimentos que tanto auxiliaram no impeachment da Dilma e na ascensão do Bolsonaro, e realizado na cidade de São Paulo: não vi nenhuma, repito, NENHUMA menção ao nome de Sérgio Moro, seja nos discursos nos caminhões de som, seja nas camisetas e bandeiras presentes no ato. O discurso contra a corrupção continua lá, mas o até pouco tempo herói do lavajatismo sequer foi lembrado. Vale ressaltar também que em momento algum foi citado o nome do Lula por ninguém que discursava no caminhão principal, também não se falou em terceira via. Todas as falas foram direcionadas para a pauta única: Fora Bolsonaro. Aliás, vale ressaltar que o MBL respeitou a vez e a fala de todos ali presentes, o combinado foi cumprido. Para alguém que já viu o PDT sendo impedido de subir ao caminhão da CUT e do PT em outros atos unificados, vale ressaltar aqui que ao menos o MBL mantém a palavra combinada.

Enfim, já se fala que essa manifestação “flopou”, já que reuniu pouco mais de 6 mil pessoas hoje na Avenida Paulista. Me parece uma análise apressada. Primeiro que essa manifestação não pode ser comparada ao do 7 de setembro, com uma organização muito mais sistemática, com muito mais tempo, e principalmente, dinheiro e uso descarado da máquina pública. Outro ponto é que a importância de uma manifestação não se mede apenas pelo número de participantes, mas também pelo contexto de sua convocação e por quem protagoniza essa ação e em nome do quê. Do ponto de vista simbólico, foi de enorme importância um palanque tão diverso, que uniu do MBL ao PSOL, e que contou com inúmeros presidenciáveis, se viabilizar em resposta à escalada golpista de Bolsonaro. Esse foi o primeiro passo de um movimento que tende a crescer.

No mais, do ponto de vista político, aí sim, vejo claramente quem ganhou muito e quem perdeu com esse ato. A meu ver, Ciro e o PDT acertaram em cheio em aceitar o convite para compor essa manifestação e se apresentar como alternativa ao sentimento de “Nem Lula, Nem Bolsonaro” para uma parcela importante do eleitorado. A sensação é de que uma semente foi plantada hoje. Já para os grupos organizadores, MBL e Vem Pra Rua, o resultado é, no mínimo, preocupante. Esses grupos claramente não têm mais a mesma capacidade de mobilização que tiveram até 2018 e terão que pensar muito bem em suas estratégias daqui para frente para, ao menos, garantirem as reeleições de seus parlamentares. Ficou bastante evidente que não será tarefa fácil. No mais, ficou a sensação de que MBL e Vem Pra Rua foram somente os animadores de auditório na tarde de hoje. A grande atração foi outra.

 

(*) Vinicius Juberte é professor e pesquisador, doutorando em História Econômica pela USP, filiado ao PDT-SP.

 

fonte: Portal Disparada