O homem do século

Na virada do século XX para o Século XXI o então presidente da Asociação Brasileira de Imprensa (ABI), jornalista Barbosa Lima Sobrinho, dividia o Brasil em dois partidos: os brasileiros que se alinhavam a Tiradentes, o mártir da Conjuração Mineira; e os seguidores de Joaquim Silvério dos Reis, os traidores da pátria. Barbosa Lima Sobrinho lutou sempre ao lado do partido de Tiradentes em defesa do Brasil, de suas riquezas, de suas empresas estatais estratégicas para o nosso desenvolvimento.  Questionado por jornalistas, na virada do século sobre quem considerava o maior de todos os estadistas que já tinham governado o Brasil, Barbosa Lima Sobrinho não vacilou: indicou Getúlio Vargas. E logo depois publicou em seu artigo dominical no ‘Jornal do Brasil” este artigo, que transcrevemos abaixo, intitulado “O Homem do Século”.  Inesquecível. (O.M.)

O HOMEM DO SÉCULO

*Por Barbosa Lima Sobrinho*

É natural que ao final do século os jornais e revistas procurem indicar as personagens que mais se sobressaíram nesse espaço de tempo. Perguntado por um jornal de São Paulo qual seria, na minha opinião, o homem do século no Brasil, não hesitei ao responder: Getúlio Vargas. Sei que ainda existem resistências ao nome, sobretudo quanto ao seu primeiro período, depois de assumir o poder através da Revolução de 30. Resistências mais dirigidas à sua polícia política que procurou afastar, de forma arbitrária, os que se opunham ao seu governo.

Uma arbitrariedade, diga-se, em bem menor escala do que as praticadas pelo posterior regime militar, num período que se tornou popularmente conhecido como os “anos de chumbo”. E leve-se em conta, a favor de Getúlio Vargas, que ele governou em meio à ascensão do nazismo, que ameaçava inclusive o Brasil, e à conturbação geral provocada pela Segunda Guerra Mundial.

Nesse clima de convulsão, tanto interna como externamente, Vargas não só administrou como implantou os pilares de uma nova sociedade e, diga-se o que disser, modificou a estrutura básica do país. Não preciso ir longe. Revejo em estudo meu, publicado em 1980, frases pertinentes: “Parece-me interessante acentuar, à margem da Revolução de 30, o que poderia classificar como a evolução do nacionalismo de Getúlio Vargas. Como homem de fronteira, teria tido, de início, um nacionalismo de frases feitas, um nacionalismo retórico, terreno próprio para multiplicações de flores de oratória. Um nacionalismo que o levaria a apresentar-se como voluntário para a luta contra a Bolívia, no momento em que surgia o episódio para o domínio do Acre, um litígio, talvez, menos com os bolivianos do que com os donos do Bolivian Syndicate”.

Já a plataforma de 2 de janeiro de 1930 (que viria se tornar realidade), lida pelo então candidato Vargas na Esplanada do Castelo, incluía alguns pontos de um programa de desenvolvimento econômico do país. Queria o aproveitamento do carvão nacional. Dava ênfase à utilização gradual das quedas-d’água. Defendia o emprego do álcool-motor, adicionado em percentagens razoáveis aos óleos importados do exterior. Invocava a subdivisão da terra. Condenava as indústrias artificiais que dependessem da importação de matéria-prima estrangeira. E afirmava que “o surto industrial será lógico, entre nós, quando estivermos habilitados a fabricar, se não todas, a maior parte das máquinas que lhe são indispensáveis”. Daí, concluía, “a necessidade de não continuarmos a adiar, imprevidentemente, a solução do problema siderúrgico.  Não é só o nosso desenvolvimento industrial que o exige: é, também, a própria segurança nacional, que não deve ficar à mercê de estranhos na constituição dos seus mais elementares meios de defesa.”

Vale notar que, por menores que fossem os recursos, o seu pensamento era sempre tão grande ou maior que o país. Afirmativo, peremptório como quando dizia, na Bahia, que “quem entrega o seu petróleo, aliena a sua própria independência”. E, ao mesmo tempo, confessa que não é contrário ao capital estrangeiro, até deseja que ele venha. Mas o que não aceita é “a entrega de nossos recursos naturais, de nossas reservas, ao controle de companhias estrangeiras, em geral a serviço do capital monopolista”. Porque “o que é imprescindível à defesa nacional, o que constitui alicerce da nossa soberania, não pode ser entregue a interesses estranhos…”

Na sua passagem pela presidência, com os dois períodos, o de 30 a 45 e o de 50 a 54, nota-se claramente que vai acumulando conhecimento e evoluindo no seu nacionalismo econômico.

Devo dizer que não fui eleitor de Getúlio Vargas, preferindo Júlio Prestes em 1930 e Cristiano Machado em 1950. Uma condição que me confere liberdade maior para, agora, estar escolhendo-o como homem do século. Ensinou-me a história a visão mais ampla, que corresponde também ao pensamento sempre maior do estadista. E daquele país despovoado de gente e ideias, como se dizia, amesquinhado numa política subalterna do café-com-leite, abrimos o foco  da lente e divisamos hoje uma nação vibrante e pujante, a oitava economia do mundo, com uma opinião pública dada vez mais influente e também (por que não?) progressivamente pensando mais alto.

Se no minuto histórico presente predomina uma política liberal de retrocesso e dependência, se somos obrigados a ver aberrações ridículas como as de um ministro da Fazenda criticando o FMI por pretender ter algum foco social, se nos revoltamos contra as perseguições aos pobres funcionários e aposentados, se temos que engolir declarações indignadas contra uma decisão unânime do Supremo, contrariando até o mais elementar sentido de convivência democrática, se ainda restam louvações às privatizações espúrias, tudo isso que aí está presente, não devemos esquecer que esses são apenas alguns efêmeros instantes, diante da estrada maior do tempo. E é nessa visão maior, nessa grande estrada da história, que vejo Getúlio Vargas como o homem do século. O presidente que deu nova face ao Brasil a ponto de que algumas recaídas eventuais não serão suficientes para mudar-lhe o destino. Um futuro grande, audacioso e generoso, com o qual, ensinou Vargas, todos estamos comprometidos, como elevação maior do espírito nacional. E afinal, ele tinha total razão quando, na sua carta testamento, afirmava que deixava a vida para entrar na história, talvez antevendo que só ele, o tempo, poderia ter condições de coloca-lo no seu justo e merecido patamar.

 

(*) Presidente da Associação Brasileira de Imprensa

 (**) Artigo dominical de Barbosa Lima Sobrinho publicado no “Jornal do Brasil” de 10/10/1999.